AIDS NO LIBANO




O primeiro caso de AIDS no Líbano foi diagnosticado em 1984, e devido ao constante aumento da doença no país, o Ministério da Saúde Pública decidiu criar o Programa Nacional de Controle da AIDS (NAP), cujo principal objetivo é limitar a epidemia, reunir estatísticas sobre os casos notificados, em parceria com ONGs, mídia, líderes religiosos, agências da ONU e outras partes interessadas em limitar a disseminação da doença no Líbano, e em amenizar a situação das pessoas que convivem com o HIV/AIDS.

Até Novembro de 2011, foram notificados 109 novos casos no Líbano, e 72% dos casos são associados a disseminação local, enquanto 28% está associado a viagens e migração para áreas endêmicas. 30% do maior número de casos notificados estão no grupo etário de 31 a 50 anos, 28% no grupo etário com menos de 30 anos, e 33% em grupos não especificados. 93% dos novos casos são entre homens, em comparação com os 7% de casos entre mulheres. 

51% da principal forma de transmissão do HIV é por relações sexuais, e 47% por casos não especificados, que subentende serem os usuários de drogas injetáveis. 27,5%, das infecções por relações sexuais são de casos também não especificados, 22% constituem os grupos heterossexuais, 0,9% de grupos bissexuais, e 49,6% em grupos homossexuais. 

A transmissão da doença de mãe para filho é nula. Os casos por transfusões de sangue, também nulos desde 1993, a segurança nas transfusões estão bem controladas no país. Os dados sobre os grupos de alto risco, como usuários de drogas injetáveis, profissionais do sexo, e prisioneiros, são incompletos embora o problema exista.

O total de casos relatados ao NAP até Novembro de 2011 informa que existem 1.455 pessoas infectadas em todo o Líbano, mas a UNAIDS estima que na verdade, existem de 3.600 a 4.800 pessoas convivendo com o vírus do HIV/AIDS no país. Organizações de defesa afirmam que o número de pessoas infectadas pelo uso de drogas é incontável, um número elevado, em virtude do número de habitantes do país. 

As infecções e a dependência de drogas vêm crescendo absurdamente no Líbano, e de acordo com agentes humanitários há muito ainda a ser feito para quebrar a resistência religiosa e cultural no país, para reconhecer, tratar e prevenir a propagação da doença, e o uso de drogas. 

Numa conferência realizada pela Associação de Redução de Danos do Norte da África e do Oriente Médio, visou educar líderes religiosos sobre a necessidade de ajudar os usuários de drogas, e impedir a propagação da doença. 


O tema é delicado no Líbano, por ser um grande tabu, que entra no território de proibições religiosas, mas o diretor-executivo da associação, Elie Aaraj, disse que romper esses limites pode ser difícil, mas que eles precisam ser quebrados, assim os serviços de prevenção às drogas e doenças, como a troca de seringas, a desintoxicação, e os centros de reabilitação, poderão chegar às centenas de pessoas, que estão necessitadas desses serviços. 

O HIV é mais transmitido através do sexo, e do compartilhamento de agulhas no uso de drogas injetáveis. O vício em drogas e o tratamento, em grande parte do país, é algo desconhecido, enquanto doenças como HIV e hepatite, se espalham rapidamente, através de agulhas compartilhadas em silêncio. Os líderes religiosos precisam aprender qual o papel da religião no tratamento dos problemas.  

"Às vezes é muito difícil por causa da ignorância, quando você diz a líderes religiosos (cristãos e muçulmanos), que o HIV é transmitido através de toda relação sexual, eles dizem relações sexuais ilegais. Quando você diz redução de danos, eles dizem, mas eles usam drogas”, disse ele. 

Elie ainda complementa: “Mesmo algumas pessoas no campo da ciência, médicos e doutores, não aceitam dar aos usuários de drogas uma agulha limpa, ou uma seringa. Então a questão não é conscientizar apenas líderes religiosos, trata-se de sensibilizar toda a comunidade também sobre o tema". 

A UNAIDS e organizações parceiras oferecem um pacote de programas de redução de danos, para usuários de drogas e comunidades de risco, como prostitutas, para ajudar na redução da propagação da doença. Os programas incluem troca de seringas e distribuição de anticoncepcionais. 

Após anos de trabalho da área da saúde, a taxa mundial de disseminação do HIV tem diminuído, mas as taxas de infecção continuam elevadas em muitas áreas. Houve 39.000 novas infecções por HIV no Oriente Médio no ano passado, um número superior às taxas de infecção em 2001. 

Os funcionários do governo começaram recentemente a reconhecer os problemas de drogas no país, e a trabalhar no apoio de programas de ajuda, e lançaram uma estratégia nacional para o tratamento de drogas e prevenção, que incentiva o trabalho de ajuda local, financia programas de reabilitação, e oferece serviços em hospitais públicos. 

Um dos únicos centros de reabilitação de drogas, da região fica em Saheile. Mas, recusar e reconhecer o consumo de drogas, e a infecção da doença, continua existindo em muitas áreas do país. Programas de troca de seringas são escassos, e o número de programas de ajuda é muito limitado. Um aumento do uso de drogas em Sidon foi negado, e houve um apontar de dedos para Israel, por líderes religiosos. 

Os defensores disseram que embora haja ainda muito a ser feito, o reconhecimento do governo pode levar ao aumento do suporte que o país precisa, para mudar as atitudes da sociedade definitivamente. "O Líbano foi um dos poucos países na região para tratar de seu problema de uso de drogas, de cabeça erguida. Isso afeta a atitude das pessoas, eles ouvem e entender", disse Aaraj. 

Atualmente, uma das maiores ONGs especializada em AIDS no Líbano é a Anwar Al Mahabba Association (www.anwaralmahabba.org), que atende, orienta e dá total apoio aos infectados em todo o Líbano, através de palestras, workshops entre outras atividades.

                      CENTRO VOLUNTÁRIO DE TESTES E ACONSELHAMENTO

O VCT (Voluntary Counseling and Testing Center) é um serviço confidencial, livre, voluntário e anônimo, localizado dentro de ONGs específicas, que oferece informações e folhetos sobre o HIV/AIDS e DST, testes de HIV, aconselhamento pré e pós-teste, orientações e cuidados de saúde e serviços sociais, e onde indivíduos de alto risco, podem falar com um profissional qualificado, de forma anônima e sigilosa. As metas do VCT visam à prevenção do HIV/AIDS, diminuir o estigma e a discriminação para com os infectados, além de buscar novos casos.

Durante uma sessão num centro do VCT, as pessoas poderão encontrar:
 • Aconselhamento no pré-teste: Onde o conselheiro, irá avaliar os fatores de risco comportamentais e sociais à que a pessoa possa ter sido exposta. Ele questionará sobre o tempo de exposição ao vírus HIV, período extremamente importante para avaliar a precisão dos resultados do teste de HIV. Além disso, ele vai explicar o significado de um teste positivo ou negativo para o HIV/AIDS, de modo que a pessoa possa tomar uma decisão informada. E também, vai fornecer informações adequadas, e apresentar um plano de redução de danos sob medida para pessoa.

• Teste de HIV: O conselheiro realizará um teste rápido de HIV (Rapid Anti-HIV 1 & 2), um teste simples e de alta precisão, que detecta a presença de anticorpos anti-HIV presentes no sangue.

• Aconselhamento pós-teste: No aconselhamento pós-teste, a pessoa será informada de seus resultados, e consequentemente, irá decidir sobre o plano de redução de danos, e também para onde ela precisa ser encaminhada (se necessário).


O Programa Nacional de Controle da AIDS no Líbano (NAP) está envolvido em vários projetos:

- O VCT, que é uma atividade contínua onde a equipe NAP treina profissionais de saúde e enfermeiros de várias ONGs, centros de saúde e clínicas, na prestação de serviços do centro. Esta atividade é realizada, com o apoio das agências da ONU, incluindo a UNICEF e OMS. A duração do treinamento é de oito dias. Essas oficinas do centro VCT, ajudam a desenvolver novas capacidades para os serviços do centro, aumentando assim a disponibilidade e a criação de novos centros em todo o Líbano.

- Pesquisa KABP (Knowledge, Attitude, Behavior and Practices), cujo objetivo é dar uma descrição clara para a população libanesa, sobre o conhecimento do HIV/AIDS, a prevalência das diferentes práticas sexuais de risco (múltiplos parceiros sexuais, sexo com profissionais do sexo, e uso de preservativos), e as atitudes em relação às pessoas que vivem com HIV/AIDS. Esta pesquisa está sendo organizada em colaboração com a UNFPA e UNICEF, e executada pela Universidade La Sagesse. 

- Centro de distribuição de medicamentos para HIV/AIDS, que é um centro independente, onde a farmácia do NAP em parceria com empresas farmacêuticas fornece os medicamentos, no intuito de assegurar a disponibilidade de tratamento para as pessoas vivendo com HIV/AIDS. Isto é um passo para a redução do estigma e da discriminação associada a pessoas que vivem com HIV/AIDS.

 - DIC (Drop in Center), que é um centro criado pelo NAP em parceria com o UNODC e ONGs especializadas como a SIDC, SKOUN e AJEM, para acolher pessoas que usam drogas injetáveis e outros grupos de risco. No DIC, os beneficiários se sentem confortáveis, e recebem sessões de conscientização e educação, além de poderem utilizar a facilidade dos serviços do VCT, que existem no DIC, e mais tarde se necessário, podem ser encaminhados a serviços mais especializados. O DIC é pioneiro no Líbano, e os planos futuros são de abrir outros DICs em outras regiões do país.

- Terapia de substituição de opiáceos (OST), um centro terapêutico criado em 2011, com finalidade de ajudar os viciados em derivados do ópio (como a heroína, por exemplo), criado pelo Ministério da Saúde Pública e a equipe do OST.


O NAP está ainda envolvido em vários workshops internacionais e regionais e outras atividades, como o objetivo de aumentar a capacidade de sua equipe, e de compartilhar conhecimentos e experiências. Com o apoio de algumas agências da ONU, como a OMS, UNICEF, PNUD, Banco Mundial e UNFPA, e em coordenação com a sociedade civil, o NAP está atualmente desenvolvendo um novo Plano Estratégico Nacional (PEN) para combater o HIV/AIDS para os próximos três anos.

Isto inclui todos os tipos de atividades de prevenção, tratamento, cuidados e apoio para os infectados, com um foco especial para a prevenção da transmissão de mãe para filho (PTV), e a maioria da população de risco. 

O NAP está também aumentando palestras de sensibilização para a juventude, em escolas e universidades, e participou do programa de e-learning implantado pela OMS, cujo objetivo foi desenvolver um CD para professores e alunos poderem aprender sobre o HIV/AIDS, suas formas de transmissão e tratamento, e todas as informações relacionadas à doença. 

A equipe do NAP, juntamente com a OMS, realizou mais de 100 palestras de conscientização em todas as escolas públicas, em várias regiões diferentes no Líbano. As palestras direcionadas à professores, funcionários e alunos, forneceu-lhes ferramentas necessárias para introduzir o assunto no currículo escolar.  

O PNUD (Programa das Nações Unidas) no Líbano apoiou o relançamento do site da OMS, e está também colaborando com o NAP em seu trabalho com os líderes religiosos, os meios de comunicação e a sociedade civil, no intuito de aumentar a consciência da comunidade, e diminuir a doença, o estigma e discriminação, melhorando assim, os direitos das pessoas que convivem com o HIV/ AIDS.


                          Testemunhos de pessoas infectadas com o HIV/AIDS no Líbano

Samer: "Eu estava me sentindo muito doente, tão doente que me levaram para o hospital. Eles descobriram que eu era HIV positivo lá. E contaram ao meu irmão, antes de contarem para mim. Minha família não me quis nem por perto de casa mais".

Carla: "Aqui tudo é secreto. Ninguém fala nada ou sabe de nada. Eu realmente não posso contar com muitas pessoas. Meus pais não sabem. Não porque eu ache que eles não me aceitariam, mas porque eles teriam muito medo da minha morte. Além disso, meu irmão é casado e tem três filhos. Eu os amo, mas se sua esposa souber que eu sou HIV positivo, muito provavelmente ela não me deixará perto dos filhos dela. E, realmente, a minha vida é boa agora. Por que eu tenho que contar pra eles?". 

 Areej: "Eu estava grávida de gêmeos. Um deles estava fora do útero e morreu. Eles tiveram que fazer a cirurgia. Eles não me disseram nada, eles só descobriram o HIV e disseram ao meu marido que eu era soropositivo. Ele não disse nada para mim sobre minha doença até três meses mais tarde".

Julia: "Eu nunca falo para os médicos que eu sou HIV positivo. Eu vou a dentistas, oculista, ou qualquer outro médico, e não falo que eu sou HIV positivo, porque eu sei o que vai acontecer. Eles vão me rejeitar".

Salma: "Quando eu estava grávida, eu sabia que precisaria de uma cesariana para ter certeza que meu bebê ficaria bem. Três médicos me rejeitaram porque eu disse a eles que eu tinha HIV. Então eu decidi mentir. Procurei outro médico e pedi a ele uma cesariana, porque eu estava ansiosa. E pedi para ver a sala de parto para ter certeza que eu não ia deixar ninguém infectado. Ele fez o parto, e meu bebê é negativo".

Barea: "A informação é fundamental, você pode fazer tudo com o HIV, você pode viver uma vida normal, mas você precisa aprender sobre a doença e conviver com ela".

Ester: "Se as pessoas descobrissem que eu sou HIV positivo, isso afetaria toda a minha família. Minha irmã não seria capaz de se casar".

Bassem (médico conselheiro no grupo VCT): "Uma mulher foi ao hospital para tratamento e descobriu que ela era HIV positivo. O médico respeitou seu sigilo, mas uma das enfermeiras vivia em seu bairro e contou à todo mundo sobre ela. Foi uma situação horrível para a mulher".

Angelina: "Uma das minhas melhores amigas morreu de estigma, não do HIV. Seu marido morreu e eles descobriram na autópsia que ele era HIV positivo. Ela foi testada e ela também era HIV positivo. A vida se tornou horrível para ela, a família dela começou a acusa-la de ter trazido a doença pra casa, sendo que era ele quem estava dormindo fora de casa! Ela se matou porque não aguentava mais, não tinha mais forças".

Lamia (prisioneira): "As pessoas não podem viver com as pessoas com HIV. Eles não podem tratá-los bem. Eles não podem viver em paz na comunidade, é melhor a prisão para eles, do que outro lugar".

Randa: "Se meus pais descobrissem que eu sou HIV positivo, eles iriam me matar. Eu não sou casada, então como eu peguei HIV? Eles pensariam que eu fiz coisas ruins, eles me matariam e nunca me perdoariam".

Freddy: "Os homens que estão em maior risco, não podem ir a médicos comuns e falar sobre suas atividades sexuais. Eles teriam medo de que os médicos pudessem chamar a polícia pra eles".

Basma: "Uma mulher queria deixar o marido, porque ele batia muito nela. Ela finalmente se divorciou e voltou pra casa da sua família. Eles a chutaram para fora, depois de um mês, porque ela era HIV positivo, eles simplesmente não queriam viver com isso em casa, e ela teve que voltar para o marido".

Benjamin: "Eu fui para o centro VCT porque um amigo meu me falou sobre o sigilo do teste. Ele disse que era seguro ir, e eu fui. Eu era HIV positivo, mas eles me trataram com respeito, não contei a ninguém. Eu me sinto seguro lá. Eu digo a todos os meus amigos para ir, como meu amigo fez para mim".

Kareema: "Estou feliz com os médicos do serviço de HIV na cidade. Outros médicos são difíceis, não vão me tratar. Alguns até me atendem, mas eles me tratam diferente. Por exemplo, eles colocaram algodão em volta do meu braço para medir minha pressão arterial. Médicos e enfermeiros não sabem sobre HIV, não sabem nada, e eles têm medo".

CLAUDINHA RAHME


                                Entrevista exclusiva 

Nossa correspondente Therese Mourad, esteve essa semana com uma brasileira que mora no Líbano, que há 5 anos vive em silêncio à margem da sociedade, por carregar uma triste história, à qual ela guarda apenas para si. Por ser portadora do vírus HIV, ela perdeu sua casa, sua família, seus filhos, e vive isolada de todos os que ela ama, devido a discriminação da preconceituosa e desinformada sociedade Libanesa. A brasileira concordou em ceder a nossa correspondente 

Therese uma entrevista, desde que sua identidade fosse preservada, e pediu para ser chamada de "VERA".

GB: Boa tarde Vera. Vera, você é brasileira, certo?

Vera: Boa tarde Therese. Sim, sou brasileira, mas descendente de Libaneses.

GB: Há quanto tempo você mora no Líbano?

Vera: Estou no Líbano há 12 anos, eu morava no Sul do Brasil, em Santa Catarina, onde conheci meu marido. Logo depois que nos casamos, em 2000, viemos morar no Líbano.

GB: Você tem família aqui?

Vera: Não, toda a minha família mora no Brasil, eu vivo aqui sozinha.

GB: Mas você não tem nenhum parente aqui?

Vera: Sim, tenho parentes, mas não somos muito próximos, a maioria deles não fala comigo.

GB: Por quê?

Vera: Eu vou te contar a minha história desde o começo para você entender. Eu me casei em 2000, e depois de dois meses de casada, meu marido resolveu vir morar aqui. Quando chegamos, eu soube que meu marido não tinha casa própria, o que nos obrigou a ir morar com os meus sogros.

GB: Mas você não sabia que vocês iriam morar com seus sogros?

Vera: Sim, mas meu marido disse que seria por pouco tempo, pois ele estava construindo uma casa. Mas quando eu cheguei aqui, soube que ele tinha um terreno, mas não estava construindo nada. Fiquei morando com meus sogros durante três anos (o tempo que ele levou para construir a nossa casa). Meu primeiro filho nasceu na casa dos meus sogros.

GB: Quantos filhos você tem?

Vera: Tenho três filhos, dois meninos e uma menina.

Neste momento tivemos que dar uma pausa, porque ela começou a chorar muito, eu perguntei se ela queria parar, mas ela disse que não, e continuou...

Vera: Tenho um filho de 10 anos, outro de oito anos, e a menina de seis anos. Eu não vejo meus filhos há quatro anos, somente de longe, sem ninguém perceber.

GB: Por quê? Você não sente saudade deles?

Vera: Claro que sinto, e muito, mas não posso vê-los, meu ex-marido me proibiu de ver meus filhos, porque sou portadora do HIV, o vírus da AIDS.

Novamente ela cai em prantos. Após alguns minutos, ela bebe um pouco de água, enxuga as lágrimas, e começa a falar novamente...

Vera: Depois que tive meu segundo filho, meus dentes ficaram todos estragados, pois a situação financeira do meu marido ia de mal a pior naquele tempo, o que não permitiu que eu tratasse dos meus dentes, de maneira apropriada. Eu deveria tomar vitaminas adequadas para gravidez, para repor ferro e cálcio, mas eu não tomei nenhum tipo de vitamina. Isso destruiu meus dentes. Quando meu segundo filho nasceu, durante uns 6 meses,eu comecei a tratar os meus dentes num posto de saúde, como eles dizem aqui (mostaousef), porque era o único lugar onde eu tinha condição financeira para tratar dos meus dentes. Aqui no Líbano é tudo muito caro, e eu não podia pagar por um tratamento dental. Comecei tratar os meus dentes, mas eu fiz o tratamento apenas por um tempo, porque eu não podia ir a todas as consultas, eu tinha 2 filhos pequenos em casa para cuidar. Um tempo depois eu parei com o tratamento, porque engravidei novamente, e o medico disse que o tratamento poderia afetar minha gravidez. Depois de 3 meses do nascimento da minha filha, eu recomecei o tratamento dos dentes, mas com um novo dentista, pois o dentista anterior do posto de saúde foi por um outro. Depois de 1 ano que eu recomecei o tratamento, eu comecei a ficar doente, tive muita febre alta, náuseas, e cada vez eu ia piorando mais. Eu não sabia p porque, claro, nem imaginava. Depois de muito sofrimento, meu marido me levou ao medico, que me pediu diversos exames de sangue.

GB: Há quanto tempo você já estava mal? Depois de quanto tempo você resolveu ir ao medico?

Vera: Há mais ou menos um ano, ou um ano e dois meses, mas eu visitei antes um medico na vila onde morávamos, antes de ir ao ultimo médico, com meu marido. O médico da nossa vila, na época, disse que eu tinha contraído um vírus no estômago, e me receitou uns remédios. Eu fiquei me tratando com esse médico uns dois meses e meio. Os sintomas da AIDS não são constantes, eles vão e voltam, e quando eu melhorava um pouco, pensava que estava me curando, mas com o passar do tempo, eu percebi que eu estava ficando pior, foi quando meu marido resolveu ir para Beirute, e consultar um profissional. Quando fomos buscar os resultados dos exames de sangue, foi um grande choque, quando o medico nos informou o conteúdo dos exames. Nossa... Foi horrível! Eu me lembro, que quando escutei a notícia desmaiei, fiquei fora de controle, estava certa que havia algo errado nos exames, e refiz todos os exames novamente, mais de três vezes, foi quando tivemos a certeza, que não havia nada errado com os exames. Nessa altura do campeonato, comecei meu longo e triste caminho. Depois de pesquisarmos muito sobre essa doença, e de sabermos exatamente os sintomas, como é transmitida, enfim, tudo sobre AIDS, meu ex-marido me acusou de traí-lo. E eu juro pelos meus filhos que nunca havia traído meu marido, isso é contra meus princípios, sempre fui uma mulher honesta e fiel e boa esposa, boa mãe. Mas imediatamente, meu marido convocou meu pai para vir ao Líbano, e com a chegada do meu pai aqui, ele se divorciou de mim, me jogou para fora de casa, na rua, e disse que era para eu esquecer meus filhos, porque ele ia falar para eles que eu morri. Foi então que meu pai comprou essa casinha para mim, colocou dinheiro para mim no banco, e disse para eu esquecer que eu era filha dele, que eu sou a vergonha da família, e que ele nunca mais queria ver minha cara.

GB: Você não tem mais nenhum contato com seus pais?

Vera: Tenho, eu falo com minha mãe por telefone, às escondidas, meu pai não sabe de nada, porque ele não aceita de maneira alguma, que eu tenha contato com qualquer um deles. Com os meus parentes aqui no Líbano, a situação não é diferente, nenhum deles fala comigo, e quando eu encontro com algum deles, na rua ou em qualquer outro lugar, eles me tratam como se eu fosse um cachorro sarnento, nem chegam perto de mim, por medo de serem contaminados. Essa é a ignorância do povo, que desconhece totalmente o que é o vírus da AIDS. Por isso, comprei a casa aqui, nessa cidade, que é bem longe da nossa cidade natal aqui no Líbano, aqui ninguém sabe nada sobre mim. Hoje, aos 39 anos, eu sou uma mulher forte, na medida do possível, vivo longe dos meus filhos, dos meus pais, e isolada do resto do mundo.

GB: Por que você não voltou, ou volta para o Brasil?

Vera: Primeiro porque nunca mais poderei ver meus filhos, nem de longe. Aqui, pelo menos eu posso vê-los de longe. Segundo porque eu vou voltar pra onde, se meu pai não quer ver minha cara nem pintada de ouro? Eu aceitei fazer essa entrevista com vocês, para que todos os libaneses possam ouvir a nossa dor, a dor dos portadores desse vírus. O que me incomoda muito é a discriminação das pessoas, como se esse vírus somente pudesse ser transmitido através da relação sexual, isso é um absurdo!!! Eu gostaria que o as pessoas se informassem mais sobre o vírus da AIDS, antes de nos tratar como animais, como se todos os libaneses fossem santos. Eu moro nessa terra há 12 anos, e aqui tem de tudo: drogas, sexo fora de casamento, garotas que fazem o que querem da vida, namoram, fazem sexo com o namorado, e tem algumas que quando aparece um marido pra elas, elas vão ao ginecologista, no cirurgião plástico, pagam uma grana, e fazem uma operação para reconstituírem o hímen, e elas voltarem a ser "virgens". Ou seja, várias constroem uma vida na base de mentiras, o que é bem pior do que ser portadora desse vírus. Eu sou portadora do vírus da  AIDS há 5 anos, e como você pode ver, eu estou bem, eu me trato constantemente. E eu vou dar um conselho à todas as pessoas que vão ler essa entrevista: quando vocês forem ao medico, ou ao dentista, chequem a seringa que o medico estará usando em você, tenha certeza que ela é descartável. Fique atento se o médico abre a seringa na sua frente. Nós, portadores do vírus da AIDS, somos pessoas normais, contraímos esse vírus mas não somos animais contagiosos.  Obrigada Therese, e obrigada Gazeta de Beirute, pela chance de poder dar essa entrevista, sem divulgar meu nome.

GB: Obrigada você Vera, por nos conceder essa entrevista. Proteger o sigilo e a identidade do entrevistado, quando ele nos pede, é nosso dever. E você é sempre bem vinda ao Jornal Gazeta de Beirute.

Therese Mourad – Gazeta de Beirute


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1 comments:

  1. Não tem como não chorar com uma entrevista dessa.
    Que Allah dê forças a essa mulher.
    Estou profudamente triste.

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