O Testemunho de uma Libanesa com HIV


A repercussão do artigo sobre a AIDS no Líbano parece estar tirando do isolamento outros residentes no Líbano, que convivem com essa triste realidade. 

Nossa correspondente Therese Mourad recebeu informações de outras pessoas portadoras do vírus da AIDS, e está tentando um contato com elas, para que elas possam compartilhar um pouco de suas histórias, e falar como elas se sentem, visto que a discriminação da sociedade  ainda é a principal forma de tratamento para com as pessoas que convivem com a doença. 

Falar sobre AIDS no Líbano é um assunto extremamente delicado, tanto da parte de quem convive com a doença, como também para quem desconhece essa realidade, porque o assunto infelizmente ainda é considerado tabu no país. 

Essa semana Therese encontrou com Mariam M., uma senhora libanesa portadora do vírus da AIDS, que gentilmente concordou em ceder uma entrevista ao GB. Acompanhe:

GB: Boa tarde, Mariam!

Mariam: Boa tarde, Therese!

GB: D. Mariam, a senhora é portadora do vírus da AIDS, certo?

Mariam: Sim Therese, eu carrego esse vírus desde 2001.

GB: A senhora é casada? Tem filhos?

Mariam: Eu fui casada, hoje sou divorciada, e tenho três filhos. Eu peguei esse vírus do meu ex-marido, que trabalhava na África, enquanto eu ficava aqui no Líbano, criando nossos filhos, e tomando conta da nossa família. 
Ele costumava vir ao Líbano uma vez por ano, ou a cada dois anos. Na ultima vez que veio da África, enquanto ainda éramos casados, eu comecei a adoecer depois de algum tempo, e os médicos pensavam que eu estava com algum tipo de envenenamento, ou um vírus no estomago, porque os sintomas são os mesmos, como diarreia, vômitos e febre alta. 
Com o passar do tempo, talvez uns 40 dias depois, eu ainda não apresentava melhora, então decidi procurar outro medico. 
O novo médico, quando soube dos meus sintomas e do tratamento que eu vinha seguindo sem resultados, me pediu para fazer vários exames de sangue. 
Foi um grande choque pra mim quando peguei os resultados dos exames, e o medico me informou que eu sou portadora do vírus da AIDS. 
Eu não conseguia acreditar, não me conformava, e quando ele me explicou como é transmitido esse vírus, eu soube na hora que eu havia pego do meu marido.

GB: Mas como a senhora soube que havia pegado o vírus através do ato sexual? O médico deve ter lhe explicado que há outras formas de transmissão, certo? 

Mariam: Sim, claro que ele me explicou, mas pelo tempo que o vírus estava no meu organismo, eu soube na hora que foi através do ato sexual. 
O primeiro passo foi fazer o exame do HIV em todos meus filhos, por questão de segurança. 
Eu liguei para o meu marido e pedi para ele voltar para o Líbano, porque eu estava muito doente, mas não falei pelo telefone pra ele o que eu tinha. 
Três dias depois da volta do meu marido, os resultados dos exames dos meus filhos ficaram prontos, e graças a Deus, nenhum deles tem essa doença. 
Quando meu marido fez o exame, deu positivo, ele também é portador do vírus da AIDS. 
Foi muito difícil, eu não conseguia aceitar a traição, fiquei muito revoltada por ele ter me traído, e pela falta de  responsabilidade dele de não se prevenir, principalmente porque éramos um casal muito feliz. 
Casamos depois de muitos problemas com as nossas famílias, e nos casamos por amor. 
Isso me machucou muito, eu fiquei muito revoltada, e não conseguia suportar a presença dele, então eu pedi o divórcio, e ele me concedeu rapidamente, por medo de eu desmascara-lo perante os familiares. 
Claro, meus filhos ficaram comigo, minhas duas filhas são casadas, e o rapaz ainda é solteiro porque é o mais novo. 
Infelizmente alguns familiares ficaram sabendo de nossa doença, e como já sabemos, o nosso povo ainda é ignorante em relação a esse vírus, eles não têm informações ou conhecimento, e passaram a lhe tratar como se fôssemos animais contagiosos. 
Por isso resolvi me mudar de cidade, e vim morar aqui, para poder criar meus filhos de forma saudável. 
E felizmente, meus filhos cresceram, estudaram, e eu consegui fazê-los aceitar e entender essa doença, e hoje se eu morrer, não me importo mais, pois cumpri minha missão de mãe, graças a Deus.
 Hoje são todos adultos e nao precisam mais de mim, eles me deram forças para lutar contra esse vírus e eu posso dizer que eles são meu orgulho, e eu agradeço a Deus por tudo.

GB: D. Mariam, como você sobreviveu todos esses anos com esse vírus, filhos para criar, e com o custo de vida tão alto?

Mariam: Meu ex-marido é muito bem de vida, e ele me paga uma pensão todos os meses, e minha família também é bem de vida, eles me ajudaram muito, me deram apoio moral e financeiro.

GB: O que a senhora teria a dizer aos portadores do vírus da AIDS?

Mariam: Eu gostaria de alertar todas as pessoas para tomarem muito cuidado nas relações sexuais, transfusões de sangue, e também com injeções.
 E avisar a todas as pessoas, que os portadores do vírus da AIDS não são animais contagiosos, são pessoas normais, que apenas não possuem mais um sistema de proteção no organismo, e que eles sejam mais humanos com a gente.
 E aos portadores do vírus da AIDS, eu só tenho a dizer: Sejam fortes!

GB: Muito obrigada D. Mariam pelo seu tempo, por compartilhar sua história conosco e pela entrevista.

Mariam: Foi um prazer Therese, e eu espero que minha história possa ajudar outras pessoas.

GAZETA DE BEIRUTE
THERESE MOURAD 

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