“FUI PRESA NO LÍBANO PELO MEU MARIDO”


Novamente mais um relato verídico de uma brasileira que superou uma triste história no Líbano. Ela voltou para o Brasil. 

Nossa correspondente Therese Mourad, esteve essa brasileira esta semana, ela concordou em dar o seu testemunho para a Gazeta de Beirute antes de voltar para o Brasil. 

A brasileira que pediu para ser chamada de Samira, conta como ela foi covardemente enganada pelo ex-marido, que armou uma emboscada para ela, e a fez ficar presa na cadeia feminina de Trípoli por 7 anos. Acompanhe:

GB: Boa tarde Samira, você é brasileira, certo?

Samira: Sim, sou brasileira, mas filha de Libanês.

GB: Há quanto tempo você está no Líbano?

Samira: Desde 1998.

GB: E porque você veio morar aqui?

Samira: Porque meu marido decidiu vir morar aqui, depois de 4 meses casados, ele me disse que iríamos nos mudar para o Líbano, porque aqui ele tinha casa própria, e seria mais fácil para nós.

GB: Você aceitou isso desde o início? E a sua família, o que achou?

Samira: Meus pais já eram falecidos na época que me casei, e como eu sou filha única, eu achei que não importava o lugar e que viveríamos, desde que estivéssemos juntos (como fui idiota!). 
Eu não tinha a mínima ideia sobre a cultura libanesa, nem mesmo falava o árabe, ou tampouco compreendia. 
Fui criada numa família simples, mas antes de contar a minha historia, quero deixar claro, que quando eu me casei, eu já conhecia o meu marido há quatro anos, e durante todos esses anos ele sempre ia e voltava ao Líbano, dizendo que tinha que visitar os pais dele.

GB: E o que aconteceu?

Samira: Então, quando se aproximou a data da nossa viagem para o Líbano, ele mudou os planos, e disse que eu iria primeiro, e que ele iria logo em seguida. 
Lógico que eu discordei, achei que não havia motivos para irmos separados, mas ele me convenceu dizendo que a mãe dele estava muito doente, e precisavam de dinheiro para tratá-la, e que eu levaria o dinheiro, porque ele estava terminando seus negócios no Brasil para poder viajar definitivamente ao Líbano. 
Ele me ajudou a arrumar as malas, e disse que o cunhado dele (marido da irmã dele) estaria me esperando no aeroporto, e me deu também os números dos telefones dos parentes dele, caso houvesse qualquer imprevisto. 
Este foi o início do meu caminho para o inferno! Quando cheguei ao aeroporto de Beirute, os soldados me revistaram como é de costume a todos os passageiros, e para minha grande surpresa, eles encontraram cocaína na minha bagagem. 
Eu fiquei desesperada, não conseguia entender o que estava acontecendo, e muito menos o que eles me falavam. 
Eu não conseguia me comunicar com eles, que me prenderam lá mesmo. 
Trouxeram um tradutor que falava português, e eu fiquei 4 horas em interrogatório, eu tentava explicar para eles, que com certeza deveria haver algum engano, e que meu cunhado estava me esperando lá fora, no desembarque do aeroporto, e quando a polícia foi ver onde estava meu cunhado, não encontraram ninguém. 
Fui transferida para uma delegacia, e lá foram mais 4 dias de interrogatório, a polícia ligou para todos os números de telefones que estavam comigo, mas nenhum estava correto, e os que responderam, preferiram dizer que o número era errado.
 Durante o interrogatório, eles me bateram muito, para eu confessar, e quanto mais eu negava, mais eles me espancavam, quebraram 2 dentes na minha boca, e depois de 3 dias de espancamento, eu não aguentando mais, confessei como eles queriam que eu confessasse. 
Mesmo eu sendo inocente, porque eu não suportava mais tudo aquilo. Fizeram-me assinar a minha confissão e me transferiram para uma penitenciaria feminina em Trípoli, onde eu esperaria pelo meu julgamento. 
No julgamento, depois de 6 meses na cadeia, também havia um tradutor na corte, e foram 4 sessões de julgamento, e como todas as provas estavam contra mim, eu fui condenada a 7 anos de prisão, por tráfico internacional de drogas. 
Durante esses 7 anos no inferno, eu tentei ligar para o Brasil diversas vezes para falar com ele, mas ele mudou de casa, claro! Durante minha pena, eu conheci uma senhora que trabalhava na penitenciária, e ela me ajudou muito financeiramente, e também me deu muito apoio moral. 
Como eu também fazia as unhas na penitenciária, porque eu sou manicure, eu tirava um dinheirinho pra mim. 
Em 2005, depois de cumprir a minha pena, eu fui libertada, e saí da prisão, mas não tinha para onde ir, então eu decidi procurar a família daquele desgraçado, porque eu sei de onde eles são, eu fui para a cidade dele, e ao chegar lá comecei a perguntar às pessoas onde era a casa deles. 
Para meu choque e decepção, quando encontrei a casa que supostamente deveria ser da família dele, soube que aquelas pessoas que moravam ali, não eram as pessoas que eu procurava. 
Elas apenas tinham os mesmos nomes, e viviam naquela cidade. 
Só então entendi que eu tinha sido vítima de um golpe sujo, vítima de um tremendo golpista, de um estelionatário.

GB: E o que você fez ao saber que tudo não passava de uma grande mentira, que ele preparou e armou para você?

Samira: Olha Therese, foi muito difícil e essa família, que eu pensei que fosse a família dele, me convidou para entrar, porque eu passei mal na porta deles. 
Eles me trataram muito bem, e ficaram desolados quando contei para eles a minha historia, eles eram pessoas muito simples, e bons também. 
Eles me ajudaram um pouco, depois de um tempo, meu tio me mandou uma passagem do Brasil para eu voltar para lá. 
Quando eu cheguei no Brasil, eu procurei aquele idiota através de amigos, que eram nossos amigos, e eu achei ele. 
Mas coloquei um detetive para segui-lo e descobrir tudo sobre dele.

GB: Você não o enfrentou?

Samira: Claro que não! Eu precisava de qualquer coisa que o incriminasse, que provasse que ele era um impostor, ou algo assim. 
Depois de 1 ano de trabalho, esse detetive coletou muitas coisas sobre ele, nada sobre drogas, mas calotes nas pessoas, ele era um grande golpista. 
Depois disso, eu fui ate ele para pedir o divórcio oficialmente, e quando ele me viu, parecia que ele tinha visto o diabo. 
Eu pedi indenização financeira por todo o mal que ele havia me causado, ou eu o entregaria as autoridades por tudo o que eu sabia sobre ele. 
Ele me deu tudo o que eu quis, e depois eu o entreguei a policia do mesmo jeito, graças a Deus.

GB: E o que você está fazendo aqui no Líbano de novo, depois de tanto sofrimento e tudo o que você passou aqui?

Samira: Entre os bens que ele me deu, havia terras aqui no Líbano, então eu vim vendê-las, porque eu estou precisando de dinheiro para abrir um negocio para mim no Brasil. 
Estou negociando, mas venderei o terreno e voltarei para o Brasil. 
E me desculpem, mas eu não quero voltar para cá nunca mais. 
Eu conheci esse país da pior maneira possível e foi muito difícil para eu voltar aqui. Eu fui obrigada, mas dessa vez correu tudo bem.

GB: Sinto muito pelo que você passou aqui, te desejo boa sorte no seu novo negócio, e muito obrigada pela entrevista.

Samira: Foi um prazer Therese, e parabéns pelo jornal, uma pena que ele ainda não existia no meu tempo aqui.

THERESE MOURAD
GazetadeBeirute
Share on Google Plus

About beirut lebanon

This is a short description in the author block about the author. You edit it by entering text in the "Biographical Info" field in the user admin panel.

0 comments:

Postar um comentário