MEU MARIDO ME INTERNOU NUM HOSPÍCIO!



Como já foi dito anteriormente, há milhares de casos chocantes e tristes no Líbano de pessoas que passaram por situações difíceis e dolorosas, e outras que ainda convivem com uma triste realidade, que muitas vezes quase ninguém fica sabendo, porque o costume da sociedade libanesa é esconder tudo o que for negativo, para apenas enaltecer o que for positivo, o que na maioria das vezes, não é correto para com vítimas de injustiças, terem suas histórias enterradas junto com o silêncio.

Iniciamos desde a primeira entrevista, com a brasileira que perdeu a família por ser portadora do vírus da AIDS, uma série de entrevistas sigilosas com os relatos de pessoas comuns que vivem no Líbano, algumas brasileiras, outras libanesas, mas pessoas que possuem uma realidade muitas vezes desconhecida por muitos, porque foram caladas pela dor, tristeza, e vergonha ou medo.

Nossa correspondente Therese Mourad tem conseguido localizar essas pessoas, e passar a elas, a garantia do sigilo, em troca de seus relatos de vidas. 
E positivamente, a cada semana, vocês poderão acompanhar novos relatos verdadeiros, que fazem parte da vida de pessoas que tiveram, ou ainda estão tentando, recomeçar uma nova vida sobre as cicatrizes de suas feridas.

Essa semana Therese conversou com uma libanesa, que teve sérios danos psicológicos, após ter sido internada num hospício, devido a interpretação ignorante e deturpada de seu ex-marido, sobre a diferença entre tratamento Psicológico e tratamento Psiquiátrico. Acompanhe!

GB: Bom dia, como e seu nome?

Zahra: Meu nome é Zahra, mas prefiro não revelar meu sobrenome, se for possível.

GB: Claro, seu sobrenome não será necessário, fique à vontade. Me diz há quanto tempo você mora aqui?

Zahra: Estou aqui desde 1997, vai fazer 16 anos que moro aqui.

GB: Zahra me conte a sua história, você é casada? Tem filhos?

Zahra: Sou divorciada, e tenho três meninas. Divorciei-me em 2005, depois de seis anos de casamento. Vim para o Líbano em 1997 com minha família, e me casei dois anos depois, em 1999. Antes de me casar eu vivia aqui, nesta casa, com meus pais, e meu irmão, que ainda era solteiro, e com minha irmã, que como você viu, vive numa cadeira de rodas desde os seis anos de idade, devido a um acidente de carro. 
Depois conheci meu marido, e em um ano, ficamos noivos e nos casamos. Eu gostei muito dele, nós nos entendíamos muito bem, porque ele viveu 10 anos no Brasil. 
Nosso único problema, já no início do nosso casamento, era que teríamos que viver com a minha sogra, ela vivia sozinha, todos os filhos eram casados, e meu marido é o filho mais novo, e conforme a tradição daqui, a casa fica para o filho mais novo.

GB: Você aceitou desde o inicio a morar com sua sogra?

Zahra: Sim, eu aceitei. Eu fui criada no Brasil, não tinha maldade, minha família não aceitou, e se recusou. Eles ficaram loucos com a ideia, e me disseram que eu não deveria aceitar isso de jeito nenhum, porque era um direito meu, ter uma casa só para mim.

GB: E o que vocês fez?

Zahra: Eu briguei com minha família (maldita hora), e disse à eles, que essa era a minha vida, e que eles não tinham o direito de interferir, brigamos muito, e meu pai disse a ele que não haveria mais casamento, pois ele era contra o nosso casamento. Foram muitas brigas, mas no fim, acabei fazendo o que queria, e me casei contra vontade dos meus pais. Foi ai que começou o meu inferno.

GB: Por quê? O que aconteceu?

Zahra: Logo depois que nos casamos, ele foi para o Brasil, eu estava grávida, e minha sogra não me deixava ir a lugar algum, nem na casa dos meus pais. E quando eles vinham me visitar, ela ficava de cara virada, falando mal da minha família, diante disso, meus pais deixaram de vir me visitar em casa. 
Depois de uns dois meses sem ver meus pais, eu decidi ir a casa deles para visitá-los, eu estava grávida de sete meses, quando eu voltei, minha sogra me bateu com um pedaço de galho de arvore, eu passei mal e os vizinhos me socorreram.

GB: Nossa! Por que ela te agrediu?

Zahra: Porque eu fui visitar meus pais, sem a permissão dela. Claro que eu não falei que eu ia à casa dos meus pais, ela não me deixava ir, eu só podia sair para ir até a quitanda, que ficava pertinho da casa dela. 
Nasceu minha primeira filha, e quando ela estava com quatro meses, meu marido voltou do Brasil. Todos os dias ela arrumava uma encrenca, meu marido abriu um pequeno negócio aqui, então ele saia todas as manhãs, e só voltava para casa, no fim da tarde, entre 17 e 18h.
 Quando ele chegava em casa, ela começava a falar que eu não a ajudava em nada, que  eu dormia o dia inteiro, que eu a xingava e a insultava, para criar mesmo atritos, porque eu trabalhava em casa, eu cozinhava, lavava, passava, tomava conta da minha filha, tudo sozinha, sem a ajuda dela. Ela constantemente causava brigas entre ele e eu, pois às vezes ele acreditava nela, acho que por ser a mãe dele. Enfim, eu tive minhas outras duas filhas, e as coisas foram de mal a pior. 
Ela sempre me espancava, muitas vezes, na frente das minhas filhas que eram pequenas e choravam quando ouviam a gritaria. 
Meu marido chegava e me encontrava com marcas no corpo, e quando ia falar com ela, ela falava pra ele que eu a insultei, que eu a empurrei, e etc. E ele virava uma fera comigo.

GB: Ele também te agredia fisicamente?

Zahra: Não, mas me insultava muito.

GB: E sua família? Não soube de tudo isso?

Zahra: Não com detalhes, porque era muito difícil eu ir visitá-los, eu tinha tantas tarefas durante o dia, que mal me sobrava tempo para sair. E as coisas foram piorando cada vez mais.  Eu fiquei muito doente, tive depressão profunda e stress. Um dia meu marido me levou ao medico, e quando o mesmo disse a ele que meu problema era psicológico, e que eu precisava de tratamento com um psicólogo, meu marido resolveu me internar num sanatório em Beirute. Não preciso nem falar que se você não tem absolutamente nada, e vai parar num lugar como esse você fica desequilibrado, certo?

GB: Sua família não te ajudou?

Zahra: Minha família só soube onde eu estava quatro meses depois, e já era tarde demais, eu fiquei muito doente, me deu um apagão, sabe? Quando minha família me encontrou, me retiraram de lá claro, mas o médico do sanatório não estava de acordo com a minha saída. Mas mesmo assim, minha família me trouxe para a casa deles. Procuraram um bom psicólogo em Beirute, onde eu comecei a me tratar, eu fiz mais de 65 sessões. 
Claro que durante todo esse tempo eu não vi minhas filhas, pois o meu ex-marido não permitia, alegando que eu era louca, doente mental, e que eu representava perigo para as minhas filhas. Pouco tempo depois, ele entrou com o pedido de divorcio, alegando os mesmos motivos, e logo meu pai o concedeu o divorcio (como eu estava doente, meu pai foi autorizado a assinar por mim). Depois de muito tratamento, eu me recuperei muito bem, graças a Deus. 
Mas os problemas não terminavam. Eu via minhas filhas uma vez por mês, e na porta da casa deles. Quando meu pai faleceu, isso me afetou muito, porque eu era muito ligada a ele. 
Ano retrasado faleceu minha mãe. Eu fiquei sozinha com minha irmã mais nova, que também precisa de cuidados especiais.
Há dois anos eu entrei com um pedido na justiça, pela custódia das minhas filhas, mas não me concederam, mas pelo menos me deram direito de visitá-las, de levar elas nos fins de semana pra minha casa, e 15 dias no verão.
 Morro todos os dias, com a ausência das minhas filhas, que são meu mundo, mas me conformei. Pelo menos agora é menos difícil, eu as vejo mais, passo mais tempo com elas do que antes.
 É essa foi a minha história. Mas antes de encerrarmos de vez, eu gostaria de dizer a todos os libaneses, que psicólogos, não são para loucos, e que depressão, stress, até o apagão que eu tive não é loucura. Se informem e procurem saber a diferença entre Psicólogo e Psiquiatra, antes de destruir a vida de uma pessoa. 
Therese, obrigada por ter me deixado contar minha história, e parabéns pelo jornal, eu adorei a ideia, porque eu, por exemplo, não sei ler árabe, então eu achei a iniciativa muito importante.

GB: Nós que a agradecemos, por ter aceitado a nos dar essa entrevista, e por nos receber em sua casa. Parabéns a você que lutou, apesar de todos os obstáculos e dificuldades, você é uma mulher forte, e com certeza, será um bom exemplo para outras.

THERESE MOURAD

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