A PRIMAVERA ÁRABE

Especial dessa edição- Primavera Árabe

Por: Hussein Mohamad Taha

Internacionalista formado pela Universidade Tuiuti do Paraná 
Pós-graduando pela Universidade Tuiuti do Paraná 
em Geopolítica e Relações Internacionais 

Resumo

Primavera árabe é um conjunto de acontecimentos que, certamente, marcarão uma época e proporcionarão uma mudança de rumos e de pensamentos na população árabe que, submetida a regimes ditatoriais e opressores, finalmente conseguiu se libertar e, agora, necessita dar continuidade a essas mudanças. Mudanças para um sistema democrático, ainda desconhecido, considerado extremamente perigoso numa região marcada por guerras e conflitos, onde qualquer faísca pode causar grandes danos não só locais como para toda a humanidade, pode ocasionar sequelas irreparáveis. 
A abertura que a democracia oferece pode fazer com que novos ditadores assumam o poder incitando o medo e a violência, tendo que responder à acusação de abrigar e patrocinar terroristas ou armas de destruição em massa, assim como é feito no Irã e na Síria.


INTRODUÇÃO


Este artigo tem por objetivo analisar as causas da Primavera Árabe, os acontecimentos e suas consequências para a região do Oriente Médio e, consequentemente, para o mundo. A Primavera Árabe, onda revolucionária de manifestações e protestos que vêm ocorrendo no Oriente Médio e Norte da África desde 18 de dezembro de 2010. 

Em Dezembro de 2010 a atitude desesperada de um jovem tunisiano de 26 anos Mohamed Bouazizi, um vendedor ambulante de frutas, ateando fogo a seu corpo, iniciou a mais violenta e barulhenta revolta, que se espalhou por todo o país e países vizinhos, derrubando vários líderes que se perpetuavam no poder por várias décadas.

Houve revoluções na Tunísia e Egito, uma guerra civil na Líbia, grandes protestos na Argélia, Bahrein, Iraque, Jordânia, Síria, Omã e Iêmen e protestos menores no Kuwait, Líbano, Marrocos, Arábia Saudita e Sudão. Os protestos têm compartilhado técnicas de resistência civil e o uso de mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube, para organizar, comunicar e sensibilizar a população e a comunidade internacional em face de tentativas de repressão e censura na Internet por parte destes Estados. 

O primeiro ditador a cair foi o então presidente da Tunísia, Zine Al-Abidine Ben Ali que estava há 23 anos no poder, hoje refugiado na Arábia Saudita. Logo em seguida, inspirados pelo sucesso das revoltas na Tunísia, os Egípcios saem às ruas em Janeiro de 2011 e, em menos de 20 dias, derrubam Hosni Mubarak, um governante símbolo no Oriente Médio, aliado dos Norte-Americanos e Israelenses, que sempre mediava tentativas de acordo de paz entre Palestinos e Israelenses. Ele é acusado pelo seu próprio povo de vender parte da soberania do Egito aos Israelenses. Renunciou após três décadas no poder sendo preso e está em julgamento.

A Líbia, sob o comando do Coronel Muamar Kadafi, também é sacudida por protestos em busca de liberdade e pelo fim de um regime autoritário. Kadafi assumiu o poder, após um golpe há quase 40 anos e, desde então, transformou as Relações Internacionais e a economia da Líbia, o que resultou em um país forte, com desenvolvimento em muitos setores, mas com um povo pobre e em grande parte desempregado. 

Acusado de ser extravagante, autoritário e repressor, o líder da Líbia foi obrigado a se esconder dos rebeldes que têm apoio de inúmeros países e financiamento internacional. Finalmente é encontrado em sua cidade natal e morto. 

O Iêmen foi outro país cujas revoltas culminaram com a queda de seu líder, Ali Abdullah Saleh. O Iêmen realizou eleições nas quais o vice-presidente sagrou-se vencedor. O vice-presidente, Abd Rabbuh Mansur al-Radi, anunciou um governo de reconciliação nacional, que será liderado pelo líder opositor Mohammed Salem Basandawa.

A Primavera Árabe traz à tona questões como a democracia a ser implantada em nações que não conhecem este sistema tal qual o Ocidente pratica. Como será a influência da religião nessas decisões, visto que a religião é profundamente importante na vida e na cultura dos povos do Oriente Médio?

A pergunta mais importante a ser feita é: 

- Caso, grupos extremistas e radicais que dizem representar o Islamismo vençam as eleições, como irão comandar estes países e como exercerão as Relações Internacionais com o resto do mundo, principalmente com países considerados hostis por esta população, como os Estados Unidos, Israel, França, Inglaterra, dentre outros?

Estes países são considerados hostis principalmente devido às atitudes em relação à população islâmica em seus territórios, como a proibição do hijab (o véu que as mulheres muçulmanas usam para cobrir a cabeça);  proibição de rezar nas ruas ou até as construções de mesquitas. 

E ainda: o fato de soldados americanos no Afeganistão rasgarem e queimarem o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, ou em nome do direito de liberdade de expressão, criarem e publicarem caricaturas e charges com a imagem do profeta Mohamad(s.a.a.s)[1] crime grave na religião islâmica[2] ou ainda, associando esta imagem a homens-bombas ou até mesmo, insinuando que o profeta concordaria com essa prática. Isso tudo só vem comprovar essa hostilidade.


[1]  Estas letras significam “Salla Allahu Alaihi wa Allih wa Salam”, ou seja, que a paz e a benção sejam sobre ele (Muhammad) e seus familiares. 
[2]  É proibida no Islamismo a vinculação de imagens ou fotos do profeta para que se evite a idolatria

1. UM CONTEXTO HISTÓRICO DOS POVOS ÁRABES
Nômades, semitas que habitavam a península pré-arábica já na metade do II milênio a.C., os povos árabes tinham por base a língua comum, com variantes dialetais.

Hoje o termo abrange todos os povos que falam a língua árabe e que habitam a vasta área que vai da Mauritânia, na costa Atlântica da África, ao sudoeste do Irã abrangendo o Maghreb (norte da África), Egito, Sudão, península Arábica, Síria e Iraque. Atualmente os Árabes ocupam uma zona asiática e africana numa extensão territorial de 13.000.000km2, tendo a língua como um traço de unidade.

Com a origem do Islamismo, forma-se o império Árabe. Apesar de muitos Árabes não serem muçulmanos, a religião Islâmica está presente no dia a dia das pessoas, na política, cultura, educação, ou seja, em todos os campos. Uma observação importante deve ser feita, que nem todos os árabes são muçulmanos, apenas 47% dos Árabes seguem a religião Islâmica.

Com o fato de a política estar ligada em muitos países à religião, surgem inúmeros partidos políticos ou organizações que podem influenciar na decisão tanto de governos como de pessoas com novos ideais de mudança. No caso da Primavera Árabe, este movimento surge do próprio povo, como foi dito antes, na Tunísia, com a atitude desesperada do jovem Mohamed Bouazizi. Esse episódio é apenas o estopim num verdadeiro barril de pólvora.

A atitude desse jovem de 26 anos impedido de trabalhar para sustentar sua família, que influenciou não só a Tunísia, mas também outro país, vem de longa data de repressão, perseguições, exploração, miséria e tantos outros fatores. Essas  manifestações se espalharam rapidamente  por inúmeros países causando grandes estragos na política, economia, turismo, na vida social das pessoas e ainda causando  inúmeras mortes.

A região do Oriente Médio é uma região estratégica para o mundo tanto nas relações econômicas e políticas como militares. Essa região detém as maiores reservas de petróleo do mundo cobiçada por europeus e americanos. 
Os americanos detêm o maior número de bases militares instaladas nessa área e esta região foi disputada por Americanos e Soviéticos na Guerra Fria e dominada pelos impérios Romano no final do século I e Otomano ao final da Primeira Guerra Mundial. Segundo reportagem da folha de São Paulo do dia 03 de Março de 2011 o Oriente Médio detém 51,4% e produz aproximadamente 31,2%, do petróleo mundial e conta com 5,2% da população mundial e produz 4% do PIB mundial. 

2. O ORIENTE MÉDIO E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Nem a língua, a religião ou até mesmo a cultura são capazes de unir os árabes. Muitos países têm rixas não somente com outros países como também rixas internas entre governo e população, como no caso do Egito e da Síria. Outro grave problema é a relação muito tensa entre Xiitas e Sunitas[3]

em vários países como no Iraque, no Bahrein e Kuwait. Essa relação tensa entre Xiitas e Sunitas chega ao governo, onde há casos que o governo é Sunita e a população é de maioria Xiita, isso inflama ainda mais as manifestações que, além de terem conotação política, acabam entrando na esfera religiosa. 




[3]  As diferenças são principalmente políticas e se estabeleceram logo após o falecimento do Profeta Mohammad (A.S.). Para os Xiitas, o califado é o comando político da comunidade (Umma)  muçulmana. Para estes, a Umma, deve ser chefiado pelos membros da família do Santo Profeta (A.S.).
Neste sentido, de acordo com a visão xiita, o primeiro califa deveria ter sido o Imam Ali ibn Abi Talib, primo e genro de Mohammad (A.S.); casado com sua filha Fátima. Os seguidores deste Imam pertenciam ao grupo conhecido como "xi 'at  'Ali", ou "Partidários  de  'Ali".  É desta palavra árabe xi 'at que vem o termo xiita. A escola xiita defende que o Imam sucessor do Profeta deve ser escolhido por Deus e denominado pelo Profeta, que é o transmissor legítimo da mensagem divina. Já os sunitas defendiam a idéia que acabou sendo aceita: o califa deveria ser eleito entre os muçulmanos.
Tanto os Xiitas quanto os sunitas, contudo, acreditam e professam os mesmos dogmas e ambos os grupos praticam os Cinco Pilares da Religião.
  
Neste complexo cenário existem novos atores que influenciaram e muito para que esta revolução fosse tão divulgada e se espalhasse tão rapidamente, o que despertou o temor em muitos países, como Israel, EUA, França, Inglaterra, Turquia, entre outros. A Internet e as redes sociais foram mais fortes que muitas armas e ajudaram a mostrar as revoltas. 

O Facebook e o Twitter foram fundamentais no sucesso destes movimentos mostrando a repressão dos governos e fazendo com que ativistas de outros países e mesmo outros governos ajudassem através de uma pressão internacional, para que a violência cessasse e os líderes abrissem canais de diálogo a fim de se implantar a democracia. 

Não podemos esquecer que franceses e ingleses partilharam o Oriente Médio entre si, Israel é considerado por toda população Árabe e alguns governos da região, como inimigo mortal que deve ser “varrido do mapa”. Os EUA são considerados pela população árabe como responsável pelas atrocidades que acontecem na Palestina por darem apoio incondicional a Israel, já que não apoiam nenhuma resolução contra o Estado de Israel nas Nações Unidas.

Em vários países as revoltas obrigaram o governo a fazer inúmeras modificações para atender os anseios da população. Com medo de que as revoltas ficassem mais encorpadas obrigando à renúncia de seus líderes ou levando o país a uma crise ainda mais grave, prejudicando a economia, a política e as Relações Internacionais, países como o Bahrein, Arábia Saudita e Jordânia, fizeram mudanças em seus gabinetes. O Bahrein governado por líderes Sunitas deram mais liberdade religiosa ao povo de maioria Xiita.

Na Jordânia, o primeiro ministro que desagradava à população foi substituído e a monarquia absolutista fez concessões reduzindo o preço de vários produtos como gasolina e arroz. Na Arábia Saudita o governo com sua censura conseguiu sufocar as manifestações da minoria Xiita sem muita liberdade. Na Argélia as revoltas fizeram com que o governante Abdelaziz Bouteflika no poder desde 1999 suspendesse as leis de emergência vigentes há quase duas décadas e autorizou a atividade de rádios e TVs particulares que até então eram proibidas de funcionarem.

Países como o Marrocos, Líbano, Kuwait, Omã e Iraque não ficaram imunes às revoltas populares. No Marrocos o rei é descendente do Profeta Mohamad (s.a.a.s) e tem total poder sobre o país, O povo foi às ruas exigindo reformas constitucionais conseguindo quase 98,5% de aprovação à nova constituição, a qual dá mais poderes ao parlamento. Porém, o rei permanece como comandante supremo das forças armadas e guardião supremo da Fé. 

Já no Líbano a oposição Sunita, organizou manifestações contra o governo, apoiada pelo grupo Xiita Hezbollah, o que ficou conhecido como “Dia de fúria”; contudo os manifestos não atingiram seus objetivos e nem houve violência. 
No Kuwait houve protestos sem violência e o parlamento acabou sendo dissolvido pelo governo.

No Iraque os protestos foram por serviços públicos de melhor qualidade e melhores salários e as manifestações foram pacíficas. O país já atravessa grandes problemas de violência entre os grupos xiitas, sunitas e curdos que lutam pelo controle do governo iraquiano. 

Em Omã a população não lutou contra o governo e sim, contra a corrupção dos altos funcionários públicos, o governo agiu rápido e mudou todo gabinete, aumentou salários, criou benefícios e acabou com a revolução.

Já na Síria os conflitos não são da população Síria, mas financiados por países estrangeiros, que dizem representar a população da Síria e que se intitulam “Amigos da Síria”. Há países que têm interesse no enfraquecimento da Síria, como Israel e Estados Unidos. 

Seria muito interessante para estes países uma Síria fragilizada, já que esta faz um contraponto militar e defende até militarmente a Palestina e o Líbano e ainda trava uma luta com Israel pelas colinas de Golã, anexadas irregularmente por Israel em 1967 e até hoje não devolvidas. Israel não cumpre a Resolução nº 497 do Conselho de Segurança a ONU, que não o reconhece como dono e sem direito às terras sírias e alega que por se tratar de uma região estratégica e com total visibilidade tanto do Líbano como na Síria, nega-se a desocupar a área alegando que a mesma é de vital importância para sua segurança, assim como foi o Sul durante vinte anos.

Segundo Petras, 

“O assalto à Síria é apoiado por fundos, armas e treino estrangeiro. Devido à falta de apoio interno, contudo, para ter êxito, será necessária uma direta intervenção militar estrangeira. Por esta razão foi montada uma enorme campanha de propaganda e de diplomacia para desmoralizar o legítimo governo sírio. O objetivo é impor um regime fantoche e fortalecer o controle imperial do Ocidente no Médio Oriente. 

No curto prazo, isto se destina a isolar o Irã como preparativo para um ataque militar de Israel e dos EUA e, no longo prazo, eliminar outro regime laico independente amigo da China e da Rússia. 
A fim de mobilizar apoio mundial a esta tomada de poder financiada pelo Ocidente, Israel e Estados do Golfo, vários truques de propaganda têm sido utilizados para justificar mais uma flagrante violação da soberania de um país após a destruição, com êxito, dos governos laicos do Iraque e da Líbia”. 

A Síria é uma aliada importante do Irã atual "inimigo mundial" por acusações não comprovadas. Assim foi o Iraque acusado de possuir ou fabricar armas de destruição em massa.

Dessa forma, destruindo a Síria, o Irã seria enfraquecido ficando mais vulnerável para um futuro ataque.

Já a Turquia, apesar de ser considerada uma democracia, tem medo que os protestos se espalhem e que o poder caia em mãos de radicais, visto que a Turquia tem graves problemas internos com grupos rebeldes que querem a independência ou autonomia de regiões que fazem fronteira com a Síria.

Em relação à Líbia o futuro é preocupante, Kadafi se considerava um líder nato tanto árabe como do islamismo. Segundo a revista veja de 02 de Março de 2011, Kadafi se autointitulava, Irmão líder, Guia da Revolução, Pai da África, Imam[4] de todos os Imãs, Profeta dos Profetas, Rei da Cultura, e reitor dos governantes árabes”. 


[4]  Título dado ao sucessor do Profeta (S.A.A.S.) e líder da nação. Título dado também aos principais líderes  islâmicos, também ao Sheikh e a pessoa que lidera a oração. 

Muamar Kadafi escreveu um livro chamado O Livro Verde, dividido em três partes: a primeira, a Solução do Problema da Democracia - O poder do Povo, a segunda, a Solução do problema econômico, e a terceira, A Base Social. Kadafi descrevia em seu livro a forma com que se deveria governar um país, porém não a colocou em prática no seu próprio país. Por não concordar com o regime do Coronel muitos eram perseguidos, presos e passavam fome, enquanto Kadafi tinha em seus palácios mais de cinco mil pares de sapatos. Seu jeito extravagante de se vestir e de viver em nada condizia com o que escreveu. 
Em sua obra Kadafi afirma que a única forma de democracia verdadeira são as assembleias populares onde o povo pode participar e exprimir sua vontade justificando o porquê de sua decisão. Em sua obra Kadafi diz: 

“A luta política que conduz à vistoria um candidato, como por exemplo, 51% do conjunto dos votos, conduz a sistema ditatorial, mas sob um disfarce democrático. De fato 49% dos eleitores passam a ser governados por um sistema que não escolheram que, pelo contrário, lhes foi imposto”.

Kadafi era de uma tribo influente e importante e, tinha outras tribos igualmente importantes e influentes como aliadas, conseguindo assim aprovar qualquer decisão mesmo contra a vontade da maioria.

A Revista Veja de 2 de Março de 2011, mostra que Kadafi cometeu inúmeras atrocidades, como o financiamento de atentados terroristas, o atentado ao avião da Panair em 1988, o assassinato de atletas israelenses nas olimpíadas de Munique ou ainda, encobrir terroristas. 

3. O ORIENTE MÉDIO E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Apesar de grandes avanços ainda há um longo caminho a se percorrer, por exemplo: no Egito, como revogar o estado de emergência, a libertação de todos os presos políticos, a nova e definitiva constituição, a conclusão e a formação de partidos políticos, a liberdade sindical e organização social, a liberdade de imprensa e de expressão, e a revogação dos efeitos de todos os julgamentos dos tribunais militares?

Segundo Vladimir Safatle em seu artigo intitulado A Volta do Parafuso em que retrata o panorama na Tunísia, um ano após a queda de Bem Ali, publicado no jornal Folha de São Paulo de 06 de Janeiro de 2012, o autor afirma:

“após um ano da revolução que derrubou o ditador Tunisiano devemos compreender o perigo de revoltas populares. Os acontecimentos que produziram a Revolução Tunisiana não foram dirigidos por um partido ou por lideranças claras”. 

Neste artigo o autor utiliza a declaração do professor Hamadi Redissi, professor de direito da Universidade de Tunise autor do livro A Tragédia do Islã Moderno onde afirma que quem fez a revolução foram jovens diplomados e desempregados, ciberativistas e sindicatos.

O autor também discorre sobre as eleições que ocorreram no dia 23 de outubro de 2011 em que o grande vencedor foi o partido islâmico Nahda (“renascimento”), o autor atribui a vitória do partido islâmico à fragmentação de partidos de esquerda, quando mais de 130 partidos disputaram as eleições, a apresentação do Nahda como partido islâmico de “segunda geração” e a antiga divisão da Tunísia.

Vladimir destaca um aspecto importante nas eleições tunisianas, afirmando que o Partido Nahda foi financiado pelo Qatar, e explica que Qatar e Arábia Saudita são grandes aliados do ocidente, atuando agressivamente na região do Oriente Médio para fortalecer a islamização da região, da sociedade e de seus costumes.

Segundo Marcel Van Hattem em seu artigo Entenda Melhor a Primavera Árabe diz: “O que virá após a primavera árabe? Dez entre dez analistas de conjuntura internacional tentam dar resposta a esta pergunta, conjeturam sobre o futuro dos sistemas políticos no Magreb”.

Essa afirmação mostra como a situação atual no Oriente Médio é muito incerta, podendo assumir o poder, políticos de partidos moderados radicais ou laicos, o que na região e nos países onde ocorrem essas manifestações é muito comum. Isso poderá se comprovar uma vez que a influência da religião é um fator de fundamental importância na vida das pessoas e isso torna o cenário mais complexo. O mais provável é que radicais que interpretam o alcorão ao pé da letra e de forma errônea possam assumir o poder trazendo ainda mais instabilidade e insegurança à região.

O autor ainda em seu artigo argumenta: 

“...que a pergunta não pode ter uma resposta coerente se não levarmos em conta o que gerou a onda de revoltas populares no mundo árabe. Mohammed Bouazizi,  precisa ser lembrado, como o autor do grito final de desespero de todos os povos que enfrentam governos opressores que lhes negam seus direitos mais básicos: Bouazizi ateou fogo ao seu próprio corpo, em protesto contra os fiscais do governo que o achacavam para que pudesse continuar vendendo suas frutas e verduras na feira, em Túnis, para sustentar sua família”. 

Esses argumentos mais uma vez mostram que a instabilidade na região pode vir de qualquer manifestação mesmo que solitária o que facilmente se espalhará pela região e poderá mudar toda a história novamente.

Marcel ressalta em seu texto que “infelizmente o fim de ditaduras não significa a emergência de democracias, mas ao contrário, pode acarretar no surgimento de novas ditaduras”, como dito anteriormente. 

A influência de partidos controlados por radicais pode trazer ditaduras ainda piores do que as que estavam instaladas nestes países o que pode gerar manifestações e conflitos ainda maiores. Já na Síria a situação é bem diferente. 

É um país muito importante na região que surge junto com a ascensão islâmica no período do califado Omiada (661 – 750). Em 1516 a Síria faz parte do Império Otomano o que perdura ate o século XX. Na primeira guerra mundial a Síria é dividida em duas partes: uma que fica sob domínio Francês e outra sob domínio Inglês. A partir da sua independência em 1946 a Síria começa a enfrentar problemas com Israel que invade e toma conta de seus territórios. Isso se estende até os dias atuais e os EUA vetam qualquer resolução no Conselho de Segurança em favor da Síria.

CONCLUSÃO
Com certeza, os resultados da primavera árabe serão observados por um longo tempo. Essas manifestações mostram que uma juventude vigilante, politizada, consciente está alerta e pretende repetir manifestações ainda mais agudas do que as que ocorreram nos últimos meses. 
Essas manifestações eclodiram em vários outros países, deixando que algumas perguntas importantes ainda fiquem sem resposta: quem irá substituir esses governantes? Como ficarão as relações entre Xiitas e Sunitas após estas revoluções? E como será a relação entre esses países com o ocidente?
Antes de qualquer resposta é importante salientar que o Oriente Médio vive uma transformação inédita de regimes autoritários para a democracia. O sistema democrático não é dominado pela população de diversos países, muitas pessoas destes países nunca votaram, nem sabem o que vai acontecer depois, o sistema eleitoral é muito complexo para muitos e isto traz incertezas e medos. 
O que a maioria destas pessoas procura não é a democracia como conhecemos aqui no ocidente e sim, a democracia onde possam ter emprego, comida, dignidade. A democracia que os árabes do Egito, Iêmen, Líbano, Tunísia, Líbia buscam é a democracia baseado no Alcorão, ou seja, na shari‘a[5] como ocorre no Irã. Esse fato é mostrado na vitória esmagadora dos partidos muçulmanos nas eleições, a Irmandade Muçulmana no Egito, e o partido Nahda na Tunísia. 

[5]  Conjunto de leis islâmicas que tratam dos costumes e da vida em sociedade. é o código moral e religioso do islã.

A democracia como concebemos e como está sendo implantada no Oriente Médio tem muitos perigos, ainda mais em uma região onde o fanatismo é muito grande, e um desses fanáticos pode acabar sendo eleito e as consequências podem ser muito piores do que foram no governo Tunisiano, Iemenita ou Egípcio. Mesmo os problemas entre Xiitas e Sunitas na luta pelo poder não são tão perigosos quanto um governante chegar ao poder com uma mentalidade igual ou pior à do Talibã[6] que foi um retrocesso e uma interpretação do Alcorão muito rígida e distorcida, fazendo parecer que o governo islâmico seria um sistema político errôneo e intransigente. 


[6]  O Talibã é um grupo político que atua no Afeganistão e no Paquistão. A milícia teve origem nas tribos que vivem na fronteira entre esses dois países e se formou em 1994, após a ocupação soviética do Afeganistão (que durou de 1979 a 1989) e durante o governo dos também rebeldes mujahedins. Assim, a milícia invadiu a capital Cabul e tomou o poder, governando o país de 1996 até a invasão americana em 2001. Apesar de ser destituído do governo formal, o grupo continuou sendo influente. Hoje o objetivo do Talibã no Afeganistão é recuperar seu território e expulsar os invasores dos EUA e da OTAN. Para tentar desestabilizar seu inimigo o grupo utiliza táticas de guerrilha e ataques de homens-bombas. Uma hipótese é que o dinheiro para financiar as ações venha de tributos cobrados dos plantadores de ópio. Mas a característica principal do grupo é ter uma interpretação muito rígida dos textos islâmicos, incluindo proibições à cultura ocidental e à obrigatoriedade do uso da burca pelas mulheres. Um dos maiores erros que o Ocidente comete em relação ao Talibã é confundi-lo com os terroristas da Al Qaeda. O Talibã é provincial, age apenas em sua região e não tem nada a ver com ataques a países do Ocidente. Outra diferença entre as milícias é que a Al Qaeda é composta por árabes, enquanto que o Talibã congrega indivíduos de tribos afegãs, na maioria da etnia pashtun. Porém, apesar de ideologias distintas os dois grupos são aliados e se ajudam em questões de logística, armas e dinheiro. 

A questão entre Xiitas e Sunitas está muito longe de ter um fim, apesar de serem todos muçulmanos, seguirem o Alcorão e ter Allah (swt)[7] como único Deus e Muhammad (s.a.a.s) como seu mensageiro. Existe mais intolerância entre essas duas correntes do Islã do que afinidade propriamente dita. Esta é uma questão que infelizmente será difícil de se chegar a um consenso, principalmente em locais como Iraque e Arábia Saudita.



[7] Abreviação da expressão: "Subhanahu Wa Ta'ala,"que significa Exaltado e Glorificado, usado sempre que se cita o nome de Allah.
  
A relação entre os países do Oriente Médio mesmo com novos governantes tende a ficar ainda mais hostil, principalmente enquanto o ocidente não exigir e forçar a volta de Israel às fronteiras de 1967 e o reconhecimento do Estado Palestino de direito. Com certeza os Estados Unidos perderam muito de sua influência e seu trânsito em vários países como Egito, Tunísia e Argélia. Em contrapartida irão ganhar na Líbia. As últimas eleições parlamentares deixaram isso muito claro, principalmente no Egito onde a Irmandade muçulmana sagrou-se vencedora. 
Neste partido os EUA não tem muitos simpatizantes, o que tornou ainda mais difícil uma possível negociação com Israel, como Mubarak conseguiu em seu governo. Uma das primeiras atitudes da junta militar que assumiu o poder foi abrir a fronteira com a palestina que estava fechada há muito tempo, o que desagradou a Israel que considerava essa fronteira como um corredor de terroristas que atacavam seu território e tráfico de armas para o Estado Palestino.

Dolhnikoff diz: 

“A construção de uma democracia não é o objetivo de nenhuma organização política importante ou verdadeiramente influente em qualquer dos países árabes, incluindo o Egito, que sofre agora o “efeito dominó” da revolta tunisiana, com a população saindo às ruas para pedir o fim da ditadura de Hosni Mubarak. Costuma-se dizer que a inexistência de forças democráticas árabes minimamente organizadas é culpa das próprias ditaduras árabes, pois as teriam sufocado”.

Com todos esses elementos o cenário no Oriente Médio pós-primavera árabe mostra uma população muito mais atenta aos novos fatos, com certeza muitos estados islâmicos serão criados, as relações com o ocidente poderão ser muito mais delicadas e o fator petróleo irá determinar muitas mudanças neste cenário, e em cenários futuros. 

Arrisco dizer que um Estado Palestino está muito próximo de ser criado, com o apoio internacional crescente principalmente com o uso intenso da nova mídia e a divulgação de fatos até então não tão divulgados, e até mesmo pela aliança do Fatah com o Hamas, o que para Israel é terrível, porque agora não terá apenas moderados na mesa de negociação e sim uma coalizão, que terá o apoio da maioria dos países Árabes. 

O que resultará em uma pressão que, com certeza, poderá dar origem definitivamente ao Estado Palestino, um ponto muito importante se não for o principal hoje, na agenda internacional que, se resolvido, poderá diminuir o tamanho do barril de pólvora ou até mesmo evitar a explosão deste barril. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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16.  BASBOUS, A. Democracia é uma questão de cultura e o fim está longe. [26 de novembro, 2011]. Paris: publicado em http://oglobo.globo.com/mundo/a-primavera-arabe-as-revolucoes-inacabadas-3331439 - ixzz1pZkoENQH. Em depoimento a Deborah Berlinck. 
17. FREITAS, C. Afinal, o que é a Primavera árabe? [08 de setembro, 2011]. Publicado em: http://coladaescola.blogspot.com.br/2011/10/afinal-o-que-e-primavera-arabe.html.
18. MILMAN, L. Origem dos movimentos islâmicos revolucionários. Revista Espaço Acadêmico, Rio Grande do Sul, nº 35, abr. 2004. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/035/35cmilman.htm. Acesso em 15/03/2012. 
19. Fragmentos sobre a História da Síria – Parte I [17 de agosto, 2011]. Publicado em: http://marxcio.wordpress.com/2011/08/10/breves-fragmentos-sobre-a-historia-da-siria-%E2%80%93-parte-i/
20. Petras, J. A Guerra da Tríplice Aliança com a Síria [12 de março, 2012]. Publicado em:  http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=9&id_noticia=177851
21. SATO, P. O que é o Talibã? [maio, 2009]. Publicado em:  http://revistaescola.abril.com.br/geografia/fundamentos/taliba-470320.shtml
22. HANA, A. Dicionário Islâmico Parte I. [03 abril, 2011]. Publicado em: http://meuamorpaquistanes.blogspot.com.br/search/label/Dicionário Islâmico
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