Comprei meus filhos pelas mão de meu marido

Nossa correspondente Therese Mourad esteve conversando com uma amiga brasileira, residente no Líbano, que também aceitou compartilhar com a Gazeta de Beirute a história do seu casamento conturbado com um libanês que a fez sofrer muito, e lhe deu a custódia dos próprios filhos em troca de dinheiro.

Acompanhe:

Laila: Bom, vamos começar! Meu nome é Laila Khoury, eu tenho 36 anos, sou brasileira, divorciada, tenho dois filhos, sou microempresária, e moro com meus pais, que são libaneses, desde o meu divórcio.
  
GB: Há quanto tempo você mora no Líbano?

Laila: Há 13 anos. Viemos com meus pais para cá, eu e meus irmãos. Somos três filhos em casa: dois meninos e eu, a única filha, e também a mais velha da casa. Meus irmãos fizeram faculdade aqui, mas eu como me formei no Brasil, em Marketing com ênfase em Negócios, fiz um curso intensivo de inglês quando chegamos. Eu já estava aqui há dois anos quando conheci meu ex-marido, foi amor à primeira vista, paixão de loucura mesmo. E como éramos de religiões diferentes (eu cristã, e ele muçulmano), causamos grande atrito entre as nossas famílias, que eram contra o nosso casamento. Ele também já era formado, trabalhava, mas tinha péssima condição financeira, porque era ele quem sustentava a família dele, por ele ser o mais velho, enquanto os outros irmãos ainda faziam faculdade.

Meu pai não esperava que eu me casasse com um milionário, mas ele queria que eu tivesse uma vida confortável, com casa própria, ou que pelo menos pudesse ter o mesmo nível de vida que eu tinha em casa. Mas eu, obviamente, não dei ouvido aos meus pais, e quando meu pai viu que eu iria me casar de qualquer maneira, ele apenas me pediu que eu me casasse no civil. Eu perguntei o porquê, e ele me explicou que a religião islâmica dá ao homem o direito de se casar com mais de uma mulher, eu fiquei abismada, pois eu não sabia nada sobre o islã. Quando sugeri ao meu ex-marido que nos casássemos no civil, ele disse que isso exigiria gastos extras, como viagem, tickets, hotel, etc., e ele não tinha condições. Meu pai se ofereceu para pagar as despesas da viagem, mas ele se recusou a aceitar, falando que não queria nada da minha família, e que os pais dele não aceitavam o casamento no civil, e que não deveríamos criar mais atritos.

Disse que me amava muito, e que nunca pensaria em se casar com outra mulher, e me explicou sobre a religião dele, e sobre as leis que permitiam ao homem se casar com mais de uma mulher. Disse que o homem tinha que ser igualitário em tudo com as mulheres, ama-las igual, presenteá-las igual, e disse ainda que ele mal tinha condições para se casar com uma, e construir um lar, então como ele poderia pensar ou se casar com mais de uma?

E assim nos casamos na corte muçulmana, no final de 2002. Alugamos um apartamento, minha família nos deu todos os móveis, e nós dois trabalhávamos e tínhamos uma vida normal e muito feliz. Tive meus dois filhos e minha família me ajudava cuidando deles durante o dia, enquanto eu trabalhava fora, e no fim do expediente, eu passava na casa dos meus pais e pegava os meninos para ir para casa, ou meu ex ia buscá-los. Mas depois de uns três anos assim, ele começou a mudar.


GB: Mudar como? Em quê?

Laila: Ele se ausentava muito de casa, sempre com a desculpa de que tinha muito trabalho, às vezes ele passava o domingo inteiro fora de casa, dizendo que tinha um almoço da firma, ou com empresários, e que era almoço de negócios, e eu ia passar o dia com a minha família, e ele passava para me pegar na volta. As ausências dele eram cada vez mais frequentes, e minha mãe começou a ficar muito preocupada com isso, mas eu também não dei ouvidos pra ela.

Mas isso foi aumentando cada vez mais, e eu comecei a perguntar pra ele onde ele estava indo, onde eram essas reuniões, e ele se enfurecia comigo e começamos a brigar muito, o que me fez um dia pegar os meninos e sair de casa. Fui para casa dos meus pais, e depois de quatro dias, ele foi lá pedindo desculpas, dizendo que me amava e que não sabia viver sem eu e os meninos, e eu acabei voltando para casa. Ele voltou a ser carinhoso, se ausentar menos, passar mais tempo com a gente, e depois de uns cinco meses após a nossa reconciliação, quando estava tudo ótimo entre nós, uma amiga me ligou no celular, me perguntando onde estava o meu marido, eu estranhei, mas respondi que ele deveria estar no trabalho naquela hora do dia. Ela então me deu o nome de um restaurante e me falou para ir para lá, e eu fiquei muito nervosa, pedi permissão no trabalho para sair, e sai rumo ao tal restaurante.


GB: Mas você simplesmente acreditou nela? Nem questionou nada, ou tentou ligar no celular dele antes?

Laila: Ela é minha melhor amiga, sempre foi, e não tinha porque não acreditar nela. Ela não me falou nada no telefone, apenas falou: “- Laila para de ser idiota, vai lá e veja com seus próprios olhos”.

 Eu fui ao restaurante, e já no estacionamento eu vi o carro dele, meu deu um frio na barriga, mas eu desci e fui até a porta do restaurante. Eu não acreditava no que eu via, ele ali sentado, aos beijos e abraços com outra mulher. Eu fiquei paralisada, perplexa, sem deixar ele me ver. Nem sei por quanto tempo eu fiquei ali vendo tudo aquilo, até que decidi ir embora sem falar ou fazer nada. Como de costume, passei nos meus pais, peguei os meninos e fui para casa, sem comentar nada com ninguém. Chorei muito, a decepção era grande demais.

Quando ele chegou, eu perguntei onde ele esteve, e ele, como sempre, veio com a mesma conversinha fiada de sempre: “- Amor, eu estou muito cansado, eu tenho tido muito trabalho”, e blá, blá, blá.

Eu comecei a segui-lo diariamente, o que me fez perder o emprego, de tanto que eu precisava me ausentar. Depois de três dias inteiros o seguindo, eu descobri que ele tinha um chalé. Ele ia embora, mas a mulher que estava lá com ele, nunca ia embora, ela se despedia dele na porta, e entrava.

 Resolvi esperar ele ir embora um dia, e bater na porta para falar com ela. Quando ela abriu a porta, eu fiquei chocada de ver o quanto ela era nova, não tinha mais que 18 ou 19 anos. E quando ela me viu, ela tentou fechar a porta imediatamente, antes mesmo de eu lhe dizer quem eu era, o que me deu a certeza de que ela sabia quem eu era.

Eu empurrei a porta e entrei, e diante da sala iluminada eu a reconheci imediatamente. Era uma funcionária da firma onde ele trabalhava, e que uma vez, foi com a gente para o sul, para o Jnoub, passar o dia na casa da família dele. Ela tinha ido com a gente para ver a família dela, porque eles são da mesma cidade. Eu briguei com ela, e a insultei muito, e perguntei se a família dela sabia do relacionamento deles, e ela chorou muito, implorando para eu não falar para ninguém, na maior cara de pau. Fui para casa, e o enfrentei, brigamos feio, e ele disse que a amava, e que iria se casar com ela.

Meu mundo desmoronou em segundos! Eu fiquei desesperada, e disse que queria o divórcio imediatamente. E sem a menor vergonha, ele disse que eu quem deveria sair de casa, e somente com as minhas roupas, que ele ficaria com a casa e com os meninos.

Quando eu tentei levar os meninos e sair de casa, ele me agrediu, machucou meu rosto, e me colocou para fora pelos cabelos, na frente dos meus filhos. Eu liguei para o meu pai, e fui direto para casa deles. Minha família ficou indignada, não apenas com a traição, mas também com o abuso dele, de querer ficar com os moveis que eles compraram para nós, para usar com outra mulher.

Meu pai tentou falar com ele, mas ele foi muito mal educado com meu pai, e ainda disse a ele, que nunca mais eu veria meus filhos. Isso fez com que meu pai contratasse um bom advogado, para entrarmos com o pedido de divórcio e a custódia das crianças, na justiça. Mas o advogado já havia nos informado que seria difícil, porque a lei do Líbano, geralmente favorece o pai.
Eu sofri muito, muito mesmo! Eu comi o pão que o diabo amassou, mas eu não consegui ficar quieta. Eu queria destruir a vida daquele cafajeste, da mesma forma que ele havia destruído a minha.

Eu fiz várias coisas que nem eu sabia que era capaz de fazer, eu fui até o chalé, fiz plantão na porta, e tirei várias fotos dos dois juntos. Não para usar na corte islâmica contra ele, mas para mostrar para a família dela, porque eles são muito religiosos e as mulheres de lá andam todas cobertas dos pés à cabeça. Eu fui, pessoalmente, na casa da família dela no Sul do Líbano, contei tudo para os pais dela, e mostrei todas as fotos. Eles ficaram indignados, a mãe dela chorou muito, e disse que eles mal comiam para poder pagar a universidade dela em Beirute, e todas as despesas dela, e etc. Na mesma noite, aquele cafajeste veio na casa dos meus pais, gritando e nos ofendendo, meu pai e meu irmão deram uma surra nele, e o colocaram para fora, insultando-o muito.

Perdi o caso na corte, o juiz deu a custodia pra ele, e eu fiquei desesperada, furiosa, e até xinguei dentro da corte. Sempre que eu ia buscar os meninos, ele criava problema comigo, me ofendia, me xingava, e eu ignorava, apenas pegava os meninos e ia embora. Eu adoeci, perdi muito peso, vivia nervosa, porque eu não conseguia ficar longe dos meus filhos. Um dia, meu pai, que já não aguentava mais a situação, resolveu falar com ele. Meu pai foi muito direto com ele, e perguntou quanto ele queria para dar os meninos para mim, e para a surpresa do meu pai, ele pediu US$ 500 mil dólares.

Eu fiquei chocada, e não conseguia acreditar que fui casada com um monstro. Eu não queria dar nada para aquele cafajeste, ele não merecia nem mesmo respeito, ou ser tratado como um ser humano. Meu pai me disse que essa seria a única maneira de ter meus filhos de volta, mas minha mãe ficou preocupada, e disse que se pagássemos, ele iria causar mais problemas, nunca estaria satisfeito, e sempre estaria pedindo mais dinheiro.

Meu pai conversou com um advogado amigo nosso, que o orientou a fazer um contrato, tipo de compra e venda. Ele então entrou em contato com meu ex-marido, e marcaram um encontro no escritório do meu pai, com nosso advogado presente.

 Ao chegar no escritório e ver o advogado, ele ficou furioso, mas meu pai o acalmou e disse: “- Escuta, eu vou te pagar uma quantia alta em dinheiro, e é um direito meu, garantir que você não pedirá mais dinheiro no futuro, ou não pedirá a custódia dos meninos novamente. Palavras não valem nada, e por isso, elaboramos um contrato. Assim que você assinar, receberá imediatamente o cheque em suas mãos”.

Ao ler o contrato, ele se irritou, e disse ao meu pai que isso significava que ele não poderia ver mais os meninos, e que ele estaria vendendo os filhos. E meu pai concordou falando:

 “- Exatamente! Você assina esse documento, pega seu cheque, sai daqui, e da nossa vida, e esquece os meninos para sempre. É pegar ou largar”. E para surpresa de todos, ele aceitou! Ele nos vendeu os meus próprios filhos!!

 Ainda me lembro daquele fim de tarde como se fosse ontem. Meu pai voltando do expediente com os meninos e as malinhas deles, foi o dia mais triste e feliz de minha vida. Triste por descobrir que fui casada com um monstro que nunca me amou e se casou comigo por interesse, e que ele não amava nem os filhos. E o mais feliz por ter sido o dia que eu tive os meus tesouros de volta, segura de que ninguém poderá nos afastar novamente.

GB: A tua história é muito triste Laila, já faz quanto tempo isso?

Laila: Isso foi há quatro anos.

GB: E ele nunca mais procurou vocês, ou pelo menos ligou, para perguntar dos filhos?

Laila: Não, nós mudamos de casa, e meu pai vendeu a casa antiga e comprou esta casa, logo depois desse desfecho. Também trocamos os números dos celulares, e só o número fixo de casa continua o mesmo, mas ele nunca ligou. Não tenho medo dele, pois eu tenho os papéis assinados por ele, eu o jogo na cadeia imediatamente, se ele pensar em se aproximar da gente. Ele se casou com a amante dele, e tem filhos com ela, eu fui o meio fácil dele ter dinheiro para poder fazer o que bem entendesse. Mas hoje eu sou uma mulher feliz, vivo em paz com meus filhos, e sou uma mulher realizada, graças a Deus. Administro meu próprio negócio, tenho uma família maravilhosa, que me apoiou e me ajudou muito em tudo, e eu sou muito grata a eles pelo amor, carinho e apoio que me deram. Essa fase ruim da minha vida, serviu de lição para mim, eu aprendi com os meus erros.

GB: Que bom que você superou essa fase, e hoje é feliz e vive bem. Parabéns por você ser a mulher forte que você é, e obrigada por me conceder essa entrevista Laila.

Laila: Imagina Therese, eu que agradeço por você ter vindo até aqui para me ouvir, e eu gostaria de parabenizar vocês pelo Jornal, eu gostei muito de saber da existência desse veículo de comunicação voltado para a comunidade brasileira no Líbano. Mais uma vez, muito obrigada. 



O Gazeta de Beirute aconselha as mulheres, a se informarem muito bem dos direitos que possuem. Dentro do casamento islâmico há direitos que a mulher possui até mesmo antes do casamento, como poder colocar as regras que desejarem para seu futuro casamento por escrito no contraro, mas em geral esses direitos são pouco conhecidos e pouco divugados pela sociedade patriarcal em que vivemos

THERESE MOURAD
Gazeta de Beirute

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