Eu: 18 anos, Casada, Mãe, Drogada e Prostituída


Therese Mourad esteve esta semana, com uma libanesa que estava muito relutante em conceder a entrevista, porque sua história é muito chocante e pesada. 

Foi necessário mais uma visita para convencê-la, e mesmo depois, ela entrou em contato com nossa correspondente três vezes pedindo o cancelamento da entrevista. 

Ela tem muito medo de ter a identidade revelada e sofrer consequências. Confira a entrevista!

GB: Bom dia, você poderia me dizer seu nome?

BH: Mas você prometeu não divulgar meu nome, caso contrário, prefiro cancelar a entrevista.

GB: Sim, e mantenho minha palavra, eu quis dizer, como posso chamá-la durante a entrevista?

BH: Ah ta, me chame de BH.

GB: Soube que você tem uma historia de vida muito triste, isso é verdade BH?

BH: Sim, é verdade, mas você ainda não me disse como soube da minha historia, quem te contou?

GB: Como prometi não divulgar o teu nome, também prometi à minha fonte não mencioná-la. Sendo assim, eu respeito à palavra que eu dei às duas.

BH: Mas também não quero que você mencione meu endereço na entrevista.

GB: Não mencionarei nada que você não queira, nosso jornal respeita o sigilo dos nossos entrevistados. Eu te dei a minha palavra, portanto fique certa, que eu a cumprirei. Podemos começar?

BH: Sim, podemos.

GB: Você parece que se casou muito cedo, quantos anos você tinha, quando se casou?

BH: 15 anos. Meu pai me obrigou a me casar.

GB: E porque ele te obrigou?

BH: Porque o meu marido pagou um bom dinheiro a ele, ou pelo menos, era bom no ponto de vista dele.

GB: Você pode nos dizer a quantia que ele pagou ao seu pai?

BH: Três mil dólares. Naquela época não era muito ruim para um viciado em álcool. Quero deixar bem claro, que meu pai nunca se importou com nosso bem estar.

GB: Mas como um pai não se importa com o bem estar de seus filhos?

BH: Claro que existe pai que se importe, mas há também os que não se importam como o meu pai, há muitos outros assim, você não lê jornais, ou assiste televisão?

GB: Claro que acompanho as notícias, mas acho estranho, incomum, um pai não se importar com os filhos. E o que aconteceu depois que você se casou?

BH: Nos dois primeiros anos eu levava uma vida normal, engravidei duas vezes em seguida, e tive 2 filhas.

GB: Até essa fase o teu marido te tratava bem?

BH: Mais ou menos, ele saia todas as noites, quando chegava em casa, brigava comigo, gritava, mas não me batia.

GB: Ele tinha boa condição financeira?

BH: Ele trabalhava, levava uma vida normal, mas quando nasceram as meninas, as coisas foram se tornando ruins.

GB: Como assim ruins? Em que sentido?

BH: Ruim em tudo, em todos os sentidos, se as meninas choravam, ele se irritava, quando eu pedia coisas para a casa, ou para as meninas, ele me batia, e dizia que não tinha dinheiro.

GB: Mas ele não trabalhava?

BH: Sim trabalhava, mas o salário dele era insuficiente, pois nossa família havia crescido, e depois de algum tempo, ele parou de trabalhar.

GB: Por que ele parou de trabalhar?

BH: Não sei, e se eu perguntava, ele criava atritos, e eu tinha muito medo dele, pois eu era muito jovem.

GB: E como vocês passaram a viver depois que ele largou o trabalho?

BH: Foi o inicio de um longo inferno, foi muito sofrimento.

GB: O que aconteceu?

BH: Ele passou a me dar drogas, e eu fiquei totalmente dependente das drogas.

GB: Mas como ele te dava drogas? Você simplesmente aceitou? Ou ele te forçava? Como foi isso?

BH: No inicio era assim, se eu estava com dores, ele me dava como remédio, dizia: “Toma esse comprimido”, e eu tomava. E quando eu percebi, já estava viciada.

GB: Ele te dava somente comprimidos? Ou também outros tipos de drogas?

BH: No inicio eram somente comprimidos, mas com o tempo passei a ingerir quase todos os tipos de drogas.

GB: E nesse tempo, como era a vida de suas 2 filhas? Afinal elas ainda eram muito pequenas, certo?

BH: Nem sei te falar como elas sobreviveram, pois eu já não me importava com nada além das drogas, e se não havia drogas eu ficava desesperada, tinha crises sabe, ficava completamente fora de mim.

GB: E de onde você trazia drogas?

BH: Meu marido trazia as drogas para casa, e ingeríamos juntos.

GB: Mas como ele trazia drogas, se ele tinha saído do emprego, e como você mesma disse, ele não tinha dinheiro? Drogas custam caro, e ninguém dá de graça pra usuário algum.

BH: Então, realmente não tínhamos dinheiro, e nenhuma fonte de renda, mas eu era capaz de tudo pra conseguir as drogas, o importante era não ficar sem, foi nessa  época que meu ex-marido começou a trazer homens em casa, para mim.

GB: Como assim, trazer homens para você, pra quê?

BH: Clientes, para transarem comigo, depois de transarem comigo, eles pagavam pra ele e iam embora.

GB: Mas você aceitava fazer isso? E suas filhas, onde ficavam?

BH: Sim, eu chorava, mas acabava aceitando, do contrário, ele não me dava as drogas e nem trazia mantimentos para casa, para as meninas. Isso acontecia durante a noite, e minhas filhas estavam sempre dormindo nos horários que ele trazia esses clientes em casa.

GB: E o seu marido ficava em casa com vocês?

BH: Sim. Era assim: ele convidava uns 3 ou 4 amigos para tomarem um drinque, jogar baralho, e aí quem quisesse transar comigo entrava no quarto. Às vezes entrava mais que um e outras vezes, eles transavam comigo na frente do meu marido.
(Nesse momento, ela começa a chorar muito).

GB: Você quer parar um pouco, para se acalmar?

BH: Eu me sentia um lixo, mas aceitava tudo aquilo porque eu não conseguia ficar sem as drogas.

GB: Você nunca tentou procurar ajuda?

BH: Sim, a primeira vez que busquei ajuda minha filha mais velha tinha 7 anos, eu não aguentava mais, e minha filha já era grandinha, e já entendia muitas coisas. Às vezes chegavam os clientes em casa, e elas eram forçadas a ir para o quarto, mas estavam acordadas e escutavam muitas coisas, mas morriam de medo dele, porque ele nos batia muito.

GB: Onde você procurou ajuda?

BH: Eu fugi para um instituto que cuida de mulheres com problemas como o meu, e eles me transferiram para outro que trata de viciados, para me limpar das drogas.

GB: E suas filhas?

BH: Deixei em casa, para busca-las depois de me recuperar, eu era muito idiota e sem conhecimento.

GB: O que aconteceu? Você foi tratada no instituto?

BH: Muito pouco, depois de alguns dias eu fugi, e voltei para casa. Eu estava desesperada, queria drogas e meu vicio era maior que a minha força de vontade em me tratar.

GB: Como seu marido a recebeu quando voltou?

BH: Ele me bateu muito e me trancou em casa por três dias. Me levou a loucura, até eu aceitar a transar com os amigos dele novamente.

GB: E você aceitou?

BH: Sim, infelizmente eu aceitei. E começou tudo de novo, mas pior do que antes. Ele me obrigava a fazer sexo grupal, sexo anal e sexo com mulheres, porque eles pagavam mais.

GB: E suas filhas?

BH: Tudo com elas presentes em casa, no quarto delas, mas escutavam quase tudo, e costumavam a me fazer perguntas no dia seguinte. Elas foram crescendo, eu queria parar com tudo aquilo por elas, mas eu era muito fraca.

GB: E sua família não sabia de nada? E a família dele?

BH: Não sabiam de nada, eu mal os via, e a família dele era apenas uma irmã, que não vinha em casa, pois o marido dela não deixava. Ele sabia das sujeiras do meu ex-marido.

GB: Eu sei que aconteceu uma coisa muito séria, que fez você parar tudo com tudo aquilo, é verdade?

BH: A que coisa você se refere?

GB: Referente a sua filha mais velha.

BH: Sim, mas eu não quero falar sobre isso.

GB: Você deve falar tudo, não precisa temer nada, porque não vou divulgar sua identidade ou endereço, mas pense em outras mulheres que podem viver ou estar passando pelo mesmo que você já passou. Pense o quanto irá ajudar todas essas mulheres com a sua história.

BH: Está bem, eu vou falar, mas tenha muito cuidado pelo amor de Deus, já basta tudo o que passamos, eu vou confiar em você.

GB: Pode ficar tranquila.

BH: Minha filha mais velha estava com 11 anos, e um dia ela veio à mim chorando, disse que o pai trouxe um amigo enquanto eu dormia.

GB: Sim, e o que aconteceu? Por que ela estava chorando?

BH: A menina disse que o pai a trouxe até a sala, tirou a roupa dela, e deixou o amigo dele tocar em todo o corpo dela.

GB: Que absurdo! Esse amigo somente a tocou, ou teve algo mais? Como um pai faz isso com a própria filha?  

BH: Ela me disse que ele só tocou, e que ela sentiu muita vergonha, e eu fiquei desesperada, não queria isso para minhas filhas de jeito nenhum, e isso foi o fim.

GB: O que você fez?

BH: Eu planejei tudo. No dia seguinte, quando ele saiu de casa, eu peguei minhas filhas e fugi. Fui para a casa de uma prima minha aqui em Beirute. Contei tudo para ela, e pedi ajuda. Ela ficou chocada e sem dormir uns dois dias, mas me levou para um instituto para tratamento de drogados, e ficou com as meninas durante todo o tempo do meu tratamento, que durou um ano.

GB: Você ficou internada um ano? E o que aconteceu depois que você teve alta?

BH: Ela foi me buscar, procuramos um advogado para iniciar o divórcio, eu estava com muito medo, pois ela me falou que ele estava procurando por nós como um louco. 
Quando o advogado iniciou o pedido de divórcio, ele disse ao advogado que não queria se divorciar. Você sabe, na nossa religião (cristã), não há divórcio, mas o meu caso foi considerado raro pela igreja, e eles nos deram o divórcio em menos de três meses.

GB: E o que houve com seu ex-marido?

BH: Ele foi preso, mas por pouco tempo, já saiu da prisão. Por isso eu me mudei para cá, eu trabalho como diarista, e minhas filhas foram colocadas em uma escola interna pelo governo. Somente vêm para casa aos finais de semana e feriados

GB: E você estava curada de seu vício?

BH: Sim. Graças a Deus. 
E até hoje eu nunca mais usei drogas. Minha história saiu em um programa de TV aqui, mas não mostraram meu rosto e mudaram minha voz.

GB: Faz tempo isso?

BH: Foi quando eu fugi de casa com as meninas. Eu ainda vivo com medo dele me achar e me fazer algo.

GB: Ele sabe onde você mora?

BH: Não, de jeito nenhum, pois ele já me fez várias ameaças.

GB: Há quanto tempo você está divorciada?

BH: Vai fazer três anos, graças a Deus. Tudo o que eu quero hoje é o perdão de Deus, e viver uma vida limpa e em paz com as minhas filhas.

GB: Obrigada pela entrevista e pela confiança, eu te desejo tudo de bom.

THERESE MOURAD
Gazeta de Beirute

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