Crianças Sírias Sofrem Bullying em Escolas Libanesas


Aproximadamente 32 mil crianças sírias estão matriculadas em escolas públicas no Líbano, de acordo com o Ministério da Educação, e outras milhares estão matriculadas em escolas privadas e semi-privadas. 

Mas as crianças Sírias que estão frequentando escolas libanesas, reclamam não apenas das diferenças no sistema de ensino, da rotina, e da dificuldade que estão encontrando para acompanhar aulas em inglês ou francês, mas falam acima de tudo, sobre sofrerem bullying por parte de crianças libanesas e até por professores.

"Nós somos párias aqui. 
Eu não tenho amigos, ninguém quer sair comigo. 

Mesmo quando eu respondo a uma pergunta, por exemplo, na aula de árabe, todos eles riem de mim. 
Eles fazem da Síria, o divertimento deles, e falam muito sobre nós. Até mesmo os professores não nos abordam na sala de aula, é como se estivéssemos apenas sentados ali. 

Às vezes, eles ficam com raiva de nós, mas eles não ficam com raiva de estudantes libaneses", diz Muayid, um estudante sírio de 16 anos, que sonhava em se tornar advogado em seu país, e que agora sonha apenas em sair da escola no final desse ano. 
Seu irmão Muqtadi, de 13 anos concorda. 

Muayid e Muqtadi, fugiram de Deraa, Sudeste da Síria, há seis meses, junto com seus pais e 3 irmãos, e estão vivendo desde então em Nabaa, subúrbio pobre de Beirute onde muitas famílias sírias lutam para viver com o alto custo de vida do Líbano. 
A família vive de iogurte e pão, para que as 5 crianças possam se dar ao luxo de estudarem, diz Fátima, a mãe dos meninos.

O Ministério da Educação, incentivado pelo ACNUR, prorrogou este ano o prazo para matriculas nas escolas, a fim de permitir que o maior número de crianças sírias pudesse também se registrar, e anunciou em seguida, que iria cobrir as taxas referentes aos livros didáticos dessas crianças. 

Apesar da necessidade de apoiar as famílias, o ACNUR afirma que apenas 155 mil dos mais de 220 mil refugiados foram registrados nas escolas, até agora. O sistema de educação pública do Líbano tem estado tenso, porque mesmo antes da guerra da Síria, muitas escolas afirmaram que já estavam acima de sua capacidade. 

Com isso, diversas crianças Sírias foram para as escolas privadas, que são bem mais caras, mas que podem definir suas políticas internas de admissão de alunos.

Para os que conseguem garantir uma vaga numa escola, o sino da escola se tornou um pesadelo para muitos sírios como Muayid e Muqtadi, que sofrem bullying e preconceito de alunos e professores. 

Fora isso, muitas crianças Sírias enfrentam um novo currículo, porque Matemática e Ciências são ensinadas em Francês ou Inglês, e as crianças Sírias têm tido dificuldades de acompanhar as aulas. 

A divisão sectária também é um problema, Fátima diz que as crianças muçulmanas são boas para eles, mas as crianças cristãs não, e isso a incomoda e a faz desejar voltar para casa, desesperadamente.
Muayid e sua mãe dizem que, apesar de o decreto do Ministério da Educação ter removido as taxas de livros didáticos para os alunos sírios, a administração da escola deu os livros para estudantes libaneses, mas insistiu que os alunos sírios deveriam pagar por eles. "E os livros deveriam ser para nós! Eles agem como se fossem reis, e nós por sermos sírios fôssemos lixo. Os professores não se preocupam com a gente", diz Muayid, com um olhar incrédulo e de mágoa em seu rosto.

Ghosn al-Ban, 14 anos, irmã de Muayid e Muqtadi, diz que seu professor de francês é atencioso e a encoraja, mas ela ainda fica perdida nas aula de matemática, e nem todos os professores são amáveis, e disse que uma professora gritou com ela na frente de toda a classe, dizendo que ela não tinha autorização para reclamar com o diretor da escola sobre qualquer coisa, o que a deixou super humilhada. 

Sua mãe acrescenta, que nem todos os libaneses são assim, e que ela só gostaria que os professores tivessem interesse por eles também.
A Diretora da “Save the Children”, Ruba Khoury, diz que sua organização e outras, trabalham em conjunto com o Ministério da Educação e o ACNUR, visando ampliar as oportunidades de educação para essas crianças, mas o afluxo crescente de Sírios, em regiões dispersas e sem registro na ONU, dificulta o apoio a essas famílias. 

Ruba disse ainda que algumas organizações começaram a oferecer aulas de reforço, ou cursos intensivos, para ajudar esses alunos Sírios, além de enviar assistentes sociais para servirem de elo entre os alunos e suas famílias, e as escolas, mas que a abordagem de bullying é difícil, e levará tempo, embora ela saiba que a prática exista.

Na Escola Rawafed, no Bekaa Ocidental, pouca coisa mudou em termos acadêmicos, para os cerca de 150 alunos Sírios matriculados, eles estão sendo ensinados dentro do currículo de seu país, e por professores Sírios. As aulas de educação nacional, as quais eles eram doutrinados na Síria, foram substituídas por aulas de religião. 

A rotina diária de cantar o hino nacional da Síria, também foi substituída por orações antes de iniciar as aulas. 

O coordenador do programa de estudantes Sírios da escola, Ahmad AL Hajj, diz que a escola está esgotado todos os seus recursos financeiros e pessoal, para ajudar os refugiados, mas que o destino deles é incerto, especialmente para os que precisam prestar os exames oficiais para avançar para o ensino secundário e universitário.

Eles esperam que o Ministério da Educação estabeleça um centro onde os estudantes Sírios possam fazer os exames oficiais de seu país, o que será impossível, visto que não há um pedido oficial do governo Sírio para isso, eles deveriam enviar o material de teste e não o fizeram, e não há nada que o governo libanês possa fazer nesse sentido. 

Apesar de o governo libanês ter autorizado o aceite de alunos Sírios em suas escolas, e de várias escolas privadas, filiadas a grupos religiosos, também terem permitido um número modesto de estudantes em seus estabelecimentos, o relatório do Grupo de Defesa dos Direitos da Criança, estima que apenas 20% das crianças refugiadas estão nas escolas. 

Everest College e Rawafed, em Taalabaya, são as duas únicas escolas no Bekaa Oeste e Central, que adotaram o currículo Sírio, com livros xerocados em suas escolas, todas as demais tem oferecido o currículo libanês, por falta de verba e pessoal.

As escolas que aderiram ao currículo Sírio enfrentam muitos obstáculos, não apenas de adaptação ao novo ambiente, como também de lacunas acadêmicas vazias, como no caso de línguas estrangeiras. 

Mas apesar dessas crianças não terem tido ensino de inglês, não estarem familiarizadas com o idioma, e muito provavelmente não passarem nos exames oficiais, por causa dessa matéria, o diretor afirma que as aulas de inglês, são as aulas favoritas deles, que se mostram muito interessados e animados em aprender. 

CLAUDINHA RAHME
Gazeta de Beirute
29-01-2013
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