Fui obrigada a casar com o estuprador



GB: Bom dia, Fauziah, você é Libanesa, certo?

Fauziah: Sim, mas morei na África durante a minha infância.

GB: Faz tempo que você mora no Líbano?

Fauziah: Sim, muito tempo, eu morei na África por nove anos, quando eu ainda era pequena.

GB: Você morou lá com sua família?

Fauziah: Sim, meu pai trabalhava lá, depois voltamos para o Líbano.

GB: Você trabalha?

Fauziah: Não, sou dona de casa. Posso te fazer uma pergunta?

GB: Claro, fique a vontade.

Fauziah: Você sabe por que eu quis fazer essa entrevista?

GB: Ainda não, mas com certeza você tem uma história a nos contar.

Fauziah: Exatamente, eu quero contar a minha história, porque li sua ultima entrevista, que tem um pouco a ver com minha história.

GB: Mas você sabe ler Português?

Fauziah: Não, mas eu sou amiga da sua ultima entrevistada, a brasileira, ela é aqui do meu bairro. E ela me falou sobre a entrevista.

GB: Eu não sabia que vocês são amigas, pensei que apenas se conhecessem.

Fauziah: E eu pensei que eu era a única vitima de estupro nesse país.

GB: Você foi estuprada?

Fauziah: Sim, há quatro anos.

GB: E você também deu queixa na policia?

Fauziah: Não, eu não fui inteligente como ela. Eu era muito idiota, e fiquei muito assustada.

GB: Como isso aconteceu?

Fauziah: Aconteceu no meu trabalho, era horário de almoço, e eu estava sozinha no escritório.

GB: Se você estava sozinha, quem fez isso?

Fauziah: Um colega de trabalho, ele voltou dizendo que esqueceu o celular, e me atacou.

GB: Um colega de trabalho? Mas por quê?

Fauziah: Ele sempre me cantava, mas eu fui muito clara com ele desde o inicio, e já tinha falado para ele que eu era comprometida.

GB: Como assim, te cantava?

Fauziah: Ele dava em cima de mim, me convidava para sair, me elogiava, paquerava etc.

GB: E você? Realmente não gostava dele?

Fauziah: Claro que não, imagina! Você acha que se eu gostasse dele, ele iria fazer isso?

Ela fica muito exaltada com a minha pergunta, e começa a tremer de nervoso...

GB: Calma, não precisa ficar nervosa. Eu só estou tentando entender o que aconteceu.

Fauziah: Mas, por favor, sem provocações! Esse assunto é muito delicado e sensível para mim, e eu não tolero esse tipo de provocação.

GB: Desculpe não me entenda mal, eu jamais a provocaria, eu realmente estava somente tentando entender direito os fatos.

Fauziah: Tudo bem.

GB: E depois, o que aconteceu?

Fauziah: Ele estava estranho, entrou na sala dele, enquanto eu estava falando com meu namorado no telefone.

GB: Você namorava?

Fauziah: Sim, mas minha família não tinha conhecimento do meu namoro.

GB: Por quê?

Fauziah: Porque éramos de religiões diferentes, e minha família não aceitava de maneira alguma.

GB: E vocês namoravam há muito tempo?

Fauziah: Há dois anos, eu estava esperando comprarmos nossa casa, para fugir com ele.

GB: Fugir?

Fauziah: Sim, pretendíamos nos casar às escondidas.

GB: Ok, e o que o seu colega fez enquanto vocês conversavam ao telefone?

Fauziah: Ele voltou para minha sala, onde ficava a porta de entrada, e trancou a porta.

GB: E você não falou nada?

Fauziah: Claro, na hora! Eu me levantei e perguntei o que ele estava fazendo, e eu estava bem alterada.

GB: E o que ele fez?

Fauziah: Veio me agarrando, eu comecei a empurra-lo, e ele me deu um soco na cara.

GB: Você não gritou? 

Fauziah: Sim! Eu gritei, tentei bater nele, mas ele era bem mais forte do que eu, e me deu vários socos, até que eu perdi os sentidos.

GB: Você desmaiou e ficou inconsciente?  

Fauziah: Sim, e quando eu acordei, eu estava no chão do escritório, coberta com uma jaqueta, e meus colegas, o meu patrão, estavam todos ao meu redor. E tudo o que eu me lembro, é que começaram a gritar: “ela acordou, ela acordou”.

GB: Como assim, você não se lembra de nada?

Fauziah: Não, somente que ele tinha me batido, e meus colegas disseram que, quando voltaram do almoço, me encontraram seminua, ensanguentada e inconsciente, no chão.

GB: Eles não chamaram a policia, ou uma ambulância?

Fauziah: Não, eles disseram que não houve tempo, porque quando eles colocaram álcool no meu nariz, eu acordei.

GB: E o que você fez quando acordou?

Fauziah: Eu fiquei desesperada ao ver o sangue, e eu me lembrava de que ele me bateu, eu estava com muito medo, assustada, e pedi para me deixarem ir para casa.

GB: Tinha sangue no seu corpo?

Fauziah: Sim, na minha boca, devido aos socos, e meus olhos e a cabeça doíam muito, e...

GB: Você está se sentindo bem?

Ela cai em prantos ao relembrar aquele dia...

Fauziah: Sim, tudo bem. Havia sangue entre minhas pernas também.

GB: Você foi levada diretamente para casa, sem passar num hospital?

Fauziah: Meu patrão insistiu muito para me levar para o hospital, mas eu não aceitei, porque eu queria ir para casa, para minha família me levar na delegacia.

GB: E o que houve com o funcionário que fez isso com você? Ele estava entre seus colegas, quando você acordou?

Fauziah: Claro que não! Ela já tinha fugido, meu chefe tentou ligar diversas vezes para ele, mas só caía na caixa postal.

GB: Você falou para o seu chefe, quem havia te violentado?

Fauziah: Sim, na hora que eu acordei eles começaram a fazer perguntas, e eu falei quem havia me violentado.

GB: E você foi para sua casa?

Fauziah: Sim, infelizmente.

GB: Por que infelizmente?

Fauziah: Porque assim que soube o que aconteceu, meu pai ficou uma fera,e ainda me bateu.

GB: Nossa! Ele bateu em você? Mas por quê?

Fauziah: Ele disse que a culpa era toda minha, que se eu não trabalhasse fora, contra a vontade dele, isso nunca teria acontecido, pois ele era totalmente contra eu trabalhar.

GB: Tudo bem, ele ser contra você trabalhar, mas isso não significa que você seja culpada pelo ocorrido.

Fauziah: Ele sempre foi muito ignorante, e não entende que o mundo evoluiu.

GB: Mas e depois: Eles te levaram na delegacia?

Fauziah: De jeito nenhum! Ele disse que se eu fosse a policia, eu acabaria com a vida dele, matá-lo de vergonha, e que ele preferia morrer a passar por tamanha vergonha.

GB: Mas e a sua mãe? Não falou nada?

Fauziah: Coitada da minha mãe, ela não pôde fazer nada. Ela adoeceu naquela época.

GB: E você não foi mesmo a policia?

Fauziah: Não, ele definitivamente não deixou, me levou somente a um medico, que era muito amigo dele, e aceitou me examinar, sem chamar a policia, porque em casos de estupro, os médicos sempre avisam a policia.

GB: E o que o medico fez?

Fauziah: Respondeu o que mais importava naquele momento para o meu pai: Confirmou que eu não era mais virgem.

GB: Era isso que seu pai queria saber? Foi para isso que ele te levou no médico?

Fauziah: Sim! Essa era a maior preocupação dele.

GB: E o que aconteceu com você depois?

Fauziah: Meu pai começou a procurar pelo animal que fez isso comigo feito um louco, eu e minha mãe estávamos com muito medo, pensando que ele o procurava para cometer um crime,  e matá-lo mesmo.

GB: Seu pai queria matá-lo?

Fauziah: Pelo menos foi o que pensamos, na época.

GB: Então não era essa a intenção do seu pai? Encontrar o estuprador e matá-lo?

Fauziah: Não, infelizmente era pior que isso...

GB: Existe algo pior, do que matar uma pessoa?

Fauziah: Existe sim!  E foi o que meu pai fez. Ele me obrigou a casar com ele.

GB: O que? Que absurdo! O cara te estuprou e seu pai ainda quis que você casasse com ele? Como você aceitou uma coisa dessas?

Fauziah: Nem eu mesma sei, eu não tinha personalidade. Eu me perguntava, se eu não fizesse o que ele queria, se ele realmente me mataria como falava que o faria. E hoje eu penso que teria sido melhor eu ter morrido, do que aceitar. Eu não perdoarei meu pai nunca pelo que ele me fez.

GB: Você disse que naquela época, voce estava namorando, certo? O que aconteceu com seu namorado?

Fauziah: Ele me deixou logo depois que eu fui estuprada. Como eu te disse muitas pessoas aqui no Líbano são conduzidas pela ignorância.

GB: Quanto tempo depois você foi obrigada a casar?

Fauziah: Depois de um mês, que ele havia me violentado. E meu pai me disse, que se eu o largasse, era para eu nunca mais voltar para casa, você acredita? Isso é pai?

GB: Deus que ajude todas as pessoas que ainda pensam assim, isso é tudo que podemos falar e desejar para pessoas assim.

Fauziah: Rezar por ele? Que o diabo o carregue para o inferno, e ainda assim, o inferno dele, será menos horrível do que foi o meu.

GB: Você ainda continua casada com ele?

Fauziah: Não! Claro que não! Eu fiquei com ele na mesma casa, por três infinitos meses. Três meses que foram uma eternidade pra mim, ele me batia, me obrigava a ter sexo com ele, ou seja, eu continuei sendo estuprada por ele várias vezes. 

GB: E como vocês se divorciaram?

Fauziah: Essa minha amiga que você entrevistou, me incentivou e me ajudou muito. Ela era minha vizinha. Se não fosse por ela, eu acho que eu estaria naquele inferno até hoje.

GB: E você voltou para a casa dos teus pais?

Fauziah: Claro que não! Jamais!  Eu me casei com o meu ex-chefe, que me ajudou muito também, ele me deu um grande apoio, e depois pediu para casar comigo.

GB: E você logo se casou?

Fauziah: Não, primeiro eu larguei do meu “marido”, e fiquei na casa da minha amiga. Ela, e meu ex-chefe, me ajudaram a dar entrada no pedido de divorcio, ele me deu apoio moral e financeiro. E em 2 meses eu estava divorciada oficialmente. Depois aguardei o período de espera, determinado pela lei Libanesa para poder me casar novamente, e depois de quatro meses eu me casei.

GB: E hoje, Fauziah, você vive bem? Está feliz?

Fauziah: Sim, graças a Deus! Meu marido é uma pessoa maravilhosa, depois de 3 anos de convivência, ele me provou que nem todos homens são iguais, e hoje eu digo que eu o amo muito.

GB: Com certeza!  E você visita os seus pais?  

Fauziah: De jeito nenhum! Minha mãe vem em casa sempre, mas eu não piso naquela casa, e nem quero ver a cara daquele homem, que deveria me acolher, e me ajudar. Hoje tenho um filho lindo, um marido que me ama e me respeita, e eu vivo para a minha família.

GB: Porque você quis fazer essa entrevista Fauziah, depois de todo esse tempo, ainda mais depois que você reestabilizou a sua vida, e vive tão bem?

Fauziah: Para falar a todas as vítimas de abuso sexual, para darem queixa contra seus estupradores, para serem fortes, e não cederem às vontades e decisões de ninguém. Que elas não façam o que eu fiz, que elas reivindiquem os seus direitos! Quem sofreu abuso sexual, não deve se culpar, porque elas não são as criminosas, mas sim as vítimas. Que elas denunciem quem as violentou!

GB: Claro, com certeza. Eu fico contente de saber que, apesar de tudo que você passou hoje você é uma pessoa feliz, e eu te agradeço muito pelo voto de confiança em compartilhar a sua historia.

Fauziah: Eu admiro muito a sua ultima entrevistada, ela foi guerreira, muito mais corajosa do que eu, e eu espero que ela sirva de exemplo para todas as outras. Eu resolvi contar a minha historia, para que ninguém faça o que eu fiz, e não viva nem mesmo por um segundo tudo o que eu vivi.

GB: Você também é uma pessoa corajosa Fauziah, pois você contou a sua historia. Mais uma vez, muito obrigada.

Fauziah: Eu é que sou grata a vocês, e queria falar mais uma coisa, eu posso?

GB: Claro, fique a vontade!

Fauziah: Hoje eu sou uma mulher mais forte e segura, eu tenho objetivos na vida, e um deles, é abrir um Centro para as vitimas de abuso sexual, um local especializado em apoiar essas vitimas, moralmente e financeiramente. Por enquanto, são apenas planos, mas se Deus quiser, eu irei concretizá-lo dentro de dois anos.

GB: Que bom! Isso será, com certeza, muito bom e de grande importância às vitimas.  Parabéns desde já Fauziah, que tudo dê certo e você tenha sucesso na abertura desse centro.

Fauziah: Você também está de parabéns, pelos assuntos tão delicados que têm levando ao conhecimento da sociedade. 

GB: Esse é o propósito e dever do nosso jornal. Obrigada.



THERESE MOURAD
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