Matei meu marido em legítima defesa



Nossa correspondente Therese esteve essa semana com uma Venezuelana de descendência libanesa, que foi condenada há três anos por ter matado o marido. Acompanhe a entrevista!

GB: Karima você é libanesa?

Karima: Venezuelana, mas sou filha de Libanês.

GB: Há quanto tempo você mora no Líbano?

Karima: Há 10 anos, eu vim pra cá em 2003.

GB: E porque você resolveu vir morar no Líbano?

Karima: Pelo mesmo motivo que muitas outras estrangeiras vêm parar aqui. Eu me casei com um Libanês, e ele resolveu vir morar no Líbano.

GB: Ah, então você é casada?

Karima: Eu fui casada, mas hoje eu sou divorciada.

GB: Certo, e você teve filhos desse casamento?

Karima: Sim, um menino e duas meninas.

GB: E eles vivem com você?

Karima: Sim, eles viviam com os avós paternos, mas agora estão comigo já há quatro anos.

GB: Que bom, no Líbano é raro a mulher conseguir a custódia dos filhos, as leis concedem a custódia ao pai. Como você conseguiu a custódia das crianças?

Karima: Meu marido está morto...

GB: Como ele morreu?

Karima: Eu o matei...

GB: Você o matou? Por quê?

Karima: Eu o matei em legitima defesa.

GB: O que aconteceu? O que ele fez? Ele tentou te matar?

Karima: Podemos não falar sobre isso?

GB: Não vou divulgar seu verdadeiro nome, foto sua ou seu endereço. Ninguém saberá quem é você. Portanto, por que não falar?

Karima: Quem me garante que você cumprirá sua promessa? Afinal vocês jornalistas não se importam com os sentimentos das pessoas, só se importam com a divulgação da manchete do dia.

GB: Karima, como eu já havia te dito antes, e já mostrei também as entrevistas publicadas anteriormente, nós já fizemos várias com casos delicados e mantivemos o sigilo das entrevistadas, respeitando a privacidade de cada pessoa que nos concedeu as entrevistas até hoje. O nosso jornal cumpre a palavra dada aos entrevistados, nunca traímos a confiança que nos foi dada de nenhuma entrevistada. E outra, nem todos os jornalistas são iguais, aliás nem seus dedos são iguais, concorda?

Karima: Tá certo, mas eu quero deixar bem claro, que se você não cumprir a sua palavra, eu vou tomar as devidas providências contra vocês.

GB: Isso é um direito seu, e estamos a sua disposição, mas eu te garanto que você não vai precisar recorrer a isso.

Karima: Por mim tudo bem, mas tem outras vidas, de outras pessoas, em jogo nesse caso.

GB: Pode ficar tranquila Karima, agora você poderia nos dizer por que você matou o seu marido?

Karima: Porque na época, minha filha mais velha tinha nove anos, e...

GB: O que houve? Você está bem? 

... Depois de 20 minutos retomamos a entrevista.

Karima: Sabe, quando você é mãe, seus filhos se tornam seu mundo, seu tudo, você faz qualquer coisa pelo bem estar dos seus filhos.

GB: Sim, concordo com você. Mas o que isso tem haver com você ter matado seu marido?

Karima: Eu o matei por causa da minha filha.

GB: Como assim? Eu não entendi.

Karima: Ele fez uma grande maldade pra minha filha.

GB: Que tipo de maldade? O que ele fez exatamente?

Karima: Ele abusou dela.


... Karima cai em prantos, e novamente interrompemos a entrevista por 15 minutos.

GB: Que tipo de abuso ele cometeu contra a sua filha Karima?

Karima: Ele a violentou sexualmente.

GB: Mas como isso? Ele não era o pai dela?

Karima: Sim, era... Infelizmente, pois se não fosse o pai dela, eu acho que seria menos monstruoso.

GB: E como você soube que ele a violentou? Ela te contou? Se ela tinha nove anos de idade, ela era muito nova para entender dessas coisas, certo?

Karima: Não, eu acho que ela nem entendia o que se passava com ela, mas eu o peguei em flagrante.

GB: Você o flagrou abusando sexualmente dela? Como?

Karima: Eu tinha saído para comprar umas coisas para preparar o almoço, e aquele dia era dia de folga, foi em um maldito domingo, e como ele estava em casa, eu resolvi deixar as crianças com ele, para fazer minhas compras rapidamente.

GB: Sim, e o que aconteceu?

Karima: Eu saí com o carro, e encontrei uma blitz policial logo à frente, e lembrei que eu não estava com os documentos do carro, porque eu não iria sair do meu bairro, virei o carro e voltei para casa para pegar os documentos do carro.

GB: Depois de quanto tempo de ter saído de casa, você voltou?

Karima: Não fazia mais que 10 minutos. Quando eu saí meus dois filhos menores estavam brincando no condomínio, com os filhos do nosso vizinho. 

GB: E quando você voltou seus filhos ainda estavam brincando lá embaixo? 

Karima: Sim, eu parei o carro e perguntei pra eles da minha filha mais velha, e eles disseram que ela estava assistindo TV. 

GB: Sim, e o que aconteceu?

Karima: Eu subi para casa pelas escadas, pois não havia eletricidade, e o gerador não ligava o elevador, era só para os apartamentos. Aquele foi o pior momento de minha vida, eu entrei em casa, e estava tudo quieto, mas tinha uma voz abafada, vindo de longe, de um dos quartos.

GB: E o que você fez?

Karima: Claro que fui ao quarto averiguar o que era aqueles gemidos, não sei porque eu não chamei por ela ou por ele, como de costume, mas eu também nunca imaginei que um dia iria presenciar uma cena daquela na minha vida.

GB: O que você presenciou, exatamente, Karima?

Karima: Quando entrei no quarto, encontrei minha filha completamente nua, chorando e ele com as calças abaixadas. Foi horrível, o sangue escorria pelas perninhas dela.

GB: Que horror! E o que você fez?

Karima: Eu me transformei em um animal raivoso, fui pra cozinha e peguei a maior faca que eu tinha, ele veio atrás de mim na cozinha, e eu avancei nele com a faca, e comecei a esfaquea-lo, nem me lembro quantas facadas dei nele.

GB: Sua filha presenciou a cena?

Karima: Não, ela continuou dentro do quarto. Quando ele caiu no chão, eu corri para o quarto a abracei bem forte, e choramos juntas.

GB: E quem chamou a policia? Como você foi presa?

Karima: Eu liguei para a policia, deixei minha filha do jeito que ela estava, só a enrolei numa toalha, porque eu já sabia que eles iriam submetê-la à exames, para comprovar o que eu estava falando.

GB: E o que aconteceu depois?

Karima: Levaram-me primeiro para a delegacia, para interrogatório, onde eu fiquei por quatro dias. Quando acabaram as investigações, eles me transferiram para o presídio feminino do norte.

GB: E quanto tempo você ficou presa?

Karima: Eu fui condenada a três anos de prisão pelo juiz, apesar de ter sido provado o estupro da minha filha.

GB: E você não recorreu à Embaixada da Venezuela?

Karima: O advogado que me defendeu no tribunal foi enviado pela Embaixada da Venezuela, mas ele disse na época, que havia uma pena mínima para assassinatos. O corpo jurídico achou que eu poderia ter machucado ele, sem matar, e que pela quantidade de facadas que ele teve no corpo, eles acharam que houve muita violência, e por isso eu fui condenada.

GB: E você deu muitas facadas nele?

Karima: Acho que sim, pois eu dava uma facada, ele me pegava pelo cabelo ou segurava meu rosto, eu me lembro de ficar dando facadas nele, até ele cair.

GB: E o que aconteceu com seus filhos, quando você foi presa?

Karima: Eles ficaram com os avós paternos por um ano e dois meses, depois meus pais vieram definitivamente para o Líbano, e meus filhos passaram a morar com meus pais, até eu sair da cadeia.

GB: Há quanto tempo você saiu da cadeia?

Karima: Já faz cinco anos, eu fui solta em 2008.

GB: E seus filhos sabem por que você estava presa?

Karima: Agora sabem, pois são maiores, mas faz pouco tempo que eu falei a verdade para eles, pois eu acho que é um direito deles saberem a verdade.

GB: E qual foi a reação deles, quando você contou a verdade?

Karima: Eu fiquei muito emocionada quando contei para eles, eu estava insegura. Mas para minha surpresa, no final eles me abraçaram, e me disseram: “Mãe você é o nosso anjo da guarda, uma heroína”.

GB: E sua filha mais velha? Nunca contou para os irmãos o que havia acontecido?

Karima: Não, ela nunca falou sobre esse assunto, ate uns anos atrás. Ela passou por vários tratamentos psicológicos, desde que meus pais vieram para o Líbano, até três anos atrás. Foi muito difícil para ela superar o que aconteceu, principalmente porque ela era muito pequena.

GB: Você nunca tinha percebido nada antes do flagrante?

Karima: Não, imagina... Se eu tivesse percebido algo, eu o teria o matado antes, esse tipo de monstro nunca demonstra nada. Nossa, eu o achava um anjo...

GB: E você soube se aconteceu isso mais que uma vez?

Karima: Acho que não, pois ele a deflorou naquele dia, ela estava toda ensanguentada, e ela não falou nada sobre ele ter feito algo com ela antes.

GB: Como você se sente hoje? Você se sente arrependida?  

Karima: Hoje eu me sinto bem melhor, pelo menos eu sei que tudo acabou. E se você se refere ao arrependimento de tê-lo matado, a resposta é não! Não me arrependo de ter livrado o mundo daquele monstro. Deus que me perdoe, mas se alguém faz mal aos meus filhos, eu sou capaz de comer a pessoa viva. Eu aceito tudo, menos que alguém prejudique ou machuque meus filhos.

GB: E como você vive atualmente? Você trabalha?

Karima: Não! Imagina, uma ex-presidiária, conseguir um emprego neste país?! Eu vivo com meus pais, e eles pagam os estudos dos meus filhos, temos uma vida boa, graças a Deus. Meus pais me ajudaram muito, deram apoio moral e financeiro a mim, e aos meus filhos, se não fosse por eles, nem sei o que seria de nós, eu sou muito grata aos meus pais, e amo muito eles.

GB: E vocês não pensam mais em voltar para a Venezuela?

Karima: Agora não, pois o ensino aqui é bem melhor que o ensino de lá. Depois que eles se formarem, pode ser.

GB: Foi um prazer te conhecer, obrigada pela entrevista.

Karima: De nada, o prazer foi meu. Quando será divulgada essa entrevista?

GB: Segunda-feira.

Karima: Eu vou ler a entrevista.

GB: Pode ler, e você terá a certeza de que o nosso jornal é um jornal de palavra.


THERESE MOURAD
Gazeta de Beirute

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1 comments:

  1. Sem palavras, so posso dizer q ela foi uma pessoa muito forte.

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