Museu Virtual da Censura no Líbano


Foto: censorshiplebanon.org

Poucas pessoas devem saber sobre a existência do Museu Virtual da Censura, um site libanês que possui um banco de dados on-line de casos de censura no Líbano desde 1940. O site, criado pela organização libanesa MARCH em Setembro de 2012, visa chamar a atenção da população através de informações que geralmente são mantidas em segredo ou são simplesmente omitidas. O site contém informações sobre tudo o que foi censurado no Líbano desde 1940, e pede aos internautas que compartilhem qualquer informação referente à censura no Líbano, que não esteja ainda listado no museu, desde filmes, música, peças de teatro, livros, impressão, e conteúdo audiovisual, fornecendo nome da obra censurada, a data da censura, a entidade censuradora, e a razão. Os controles de censura, sobre as obras literárias, artísticas, e publicações no Líbano, caem sob a jurisdição da Direção da Segurança Geral. Na verdade, a tarefa confiada à segurança geral, tem sido a de monitoramento, licenciamento e censura de obras criativas. A decisão é parcialmente influenciada pelas opiniões de instituições religiosas e grupos políticos, que muitas vezes são de difícil acesso.

A censura no Líbano ocorre de duas formas:

Censura Prévia: Censura que precede a apresentação de um trabalho realizado ao censor 

Pós Censura: Censura exercida sobre obras completas (filmes estrangeiros e locais, que passaram por censura prévia, obras de impressão e música). 

O Museu lista 4 principais entidades responsáveis pela censura libanesa:

A Segurança Geral:  Licenciamento, monitoramento, Censurando trabalhos criativos. O tipo de censura usado é prévio e pós.

O Ministério da Informação: Proíbe a entrada de uma publicação estrangeira, confisca cópias do mesmo, 
fornece licenças para a publicação de periódicos, pode suspender um canal de TV por um período máximo de três dias, pode censurar obras cinematográficas a partir da fase preliminar do processo de censura, juntamente com de Segurança Geral. O tipo de censura usado é o de colocar censura na mídia impressa, imprensa e publicações.

A Comissão Administrativa Especial: Caso a Segurança geral encontre algo considerado causa suficiente para impedir uma parte, ou que todo o filme seja exibido, uma decisão deve ser tomada pela comissão de acordo com o voto da maioria de seus membros, para permitir que o filme seja exibido desde que ele edite certas partes do filme, ou para proibir que ele seja exibido por completo. A decisão final deve ser oficialmente emitida pelo Ministério do Interior, sozinho. O tipo de censura é feito em filmes antes do lançamento.

O Conselho Nacional de Comunicação Social Audiovisual: O Conselho tornou-se um "cão de guarda da mídia". Começou como um conselho consultivo para o governo, para regulamentar o rádio e a TV. Mas a autoridade do Conselho está agora se expandindo para incluir regulamentação em sites e blogs. O tip de censura usado é o de colocar censura no rádio, TV e Internet.

No Líbano, as práticas de censura são políticas, religiosas, ou moralmente motivadas, e livros, filmes, música, peças de teatro, imprensa, Rádio e TV, tudo passa pela censura, antes de chegar ao acesso da população.

Razões políticas: Em matéria de relações externas com países amigos, o censor presta atenção às sensibilidades políticas dos regimes árabes, e esforços para salvaguardar as relações diplomáticas com estes países, bem como proibição de ataques contra a causa palestina, e os árabes em geral. Filmes sobre a guerra civil têm sido censurados desde os anos 90, com base no que se refere ao conflito que "ameaça a paz civil".

Israel: Sobre as relações com estados inimigos a censura se baseia primeiramente em uma lei nacional que apela para o boicote de todos os produtos israelenses. Em segundo lugar, há uma censura de todas as formas de publicidade ou de compaixão para com Israel: este boicote foi inicialmente observado por toda a liga árabe. Hoje, apenas o Líbano e a Síria aderem a ele rigorosamente. 

Religião: A Segurança Geral reterá obras criativas que poderiam perturbar as sensibilidades religiosas, ou seus respectivos órgãos de governo (geralmente o Centro de Informação Católica, ou a Dar-al-Fatwa, que é maior autoridade muçulmana sunita do Líbano). Cenas, ou temas, que questionam a capacidade de alguma religião de combater o mal, e cenas ofensivas, são removidos.

Conteúdo obsceno e imoral: Todo material que ofenda a moral pública, que contenha cenas de nudez, sexo, e linguagem chula, é rigorosamente censurado, e o censor geralmente determina na medida em que o filme ou o trabalho, não ofende a moral pública. Além disso, as obras que promovem o homossexualismo são proibidas, mas as cenas de violência, ou cenas que descrevem o uso de drogas, são permitidas. 

Alguns exemplos de censuras ocorridos no Líbano: 

1940: O filme “O Grande Ditador” de Charlie Chaplin, foi banido por conter opiniões antinazistas. 

1958: O livro “Eu Vivo”, de Layla Baalbaki, foi banido por ser considerado obsceno e prejudicar a moralidade pública.

1960: Todos os filmes de Elisabeth Taylor foram proibidos, e ela colocada na lista negra de atores proibidos, devido ao fato dela ter dado uma porcentagem de seus lucros para Israel. Ainda nos anos 60, todas as músicas de Frank Sinatra foram banidas, por conterem tendências sionistas. 

1973: A peça teatral de Wassiyat AL Kalb foi banida por ser considerada imoral.

1988: O Livro “Versos Satânicos” de Salman Rushdie foi banido, por ofender o islã.

1990: a Banda de Heavy Metal “Manowar” foi impedida de gravar um clip no país por afirmar adorar satanás. Diversas outras bandas também foram banidas, na mesma época, classificadas como “satânicas”. A LBC Internacional recebeu ameaças do Conselho Nacional de Comunicação Social Audiovisual, para suspender a transmissão, de uma entrevista com David Levy, o ministro israelita dos Negócios Estrangeiros em 1990.

1993: O Livro “O Jardim dos Sentidos” de Abdo Wazen, foi banido por ser imoral.

1996: O Filme “O Dia da Independência” foi banido por mostrar uma cena onde tropas sionistas e tropas árabes ganhavam simpatia recíproca.

2000: A lista de filmes, livros, músicas, personalidades, programas de radio, TV, que foram banidos é vasta.

2009: O Festival de Rock de Beirute foi banido pelo Centro de Informação Católica alegando que “pessoas góticas iriam espalhar sua cultura da morte e pensamentos obscuros”.

2010: Uma peça teatral de Ziad Rahbani foi banida, por ser considerada ofensiva.

2011: O Facebook foi banido no Parlamento, por limitar a liberdade de comunicação, visto que ele é considerado uma importante ferramenta para apresentar algo e a promover. Ainda no mesmo ano mais de 50 religiosos pediram o cancelamento do primeiro carnaval brasileiro de rua, devido a preocupação com os trajes das 30 bailarinas e músicos brasileiros durante o desfile que terminaria na cidade de Tiro, porque de acordo com o grupo liderado pelo Sheikh Ali Yassin, os trajes eram “haram”. 

O site do Museu é muito interessante, e vale a pena visitar:   

CLAUDINHA RAHME 
Gazeta de Beirute

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