O Mito dos Super Night Clubs


A maioria das cercas de 130 boates intituladas “Super Night Clubs” do Líbano estão localizadas em Maameltein, região de Jounieh, a 20 minutos de distância dos clubes e lojas de alta qualidade de Beirute. Os Super Night Clubs não são clubes de striptease, não são bordéis, mas representam o lado decadente da famosa vida noturna do Líbano. Os proprietários importam mulheres geralmente do Leste Europeu e do Marrocos, para trabalhar em seus clubes, com um visto de “artista”, que, diga-se de passagem, é apenas um eufemismo para “prostituta”. 

De acordo com as leis libanesas, essas mulheres só podem entrar no país após a assinatura de um contrato de trabalho, que tem que ser aprovado pela Direção Geral de Segurança. Embora elas venham voluntariamente, não se sabem, a princípio, quantas delas entendem o que de fato implica o trabalho que deverão exercer no país, embora os proprietários afirmem que elas sabem no que estão se metendo, e assim que elas chegam ao Líbano, seus passaportes geralmente são confiscados, até o término de seus longos contratos de trabalho. 

Não existem dados precisos sobre a receita da indústria dos Super Night Clubs, mas estima-se que os lucros chegam a US$30 mil por mês, e segundo um artigo da revista Executivo publicado em 2009, os Super Night Clubs arrecadam US$23 milhões por ano, por meio de canais legítimos, o que se subentende que a indústria dos Super Night Clubs seja apenas a ponta do iceberg, visto que a renda de sub-mesa gerada por esses clubes vem da prostituição. 

Segundo uma lei de 1931, que permite a existência apenas de bordéis licenciados, tecnicamente, a prostituição é legal no Líbano, porém o governo parou de emitir as licenças em 1975, o que torna então a prática de prostituição dentro de boates, nominalmente ilegal. Em virtude disso, e a fim de permanecer no lado direito da lei, ocorre um ritual complicado dentro desses estabelecimentos. Os clientes pagam cerca de US$80 por uma garrafa de champanhe (onde o governo cobra de imposto 10% das vendas por cada garrafa), e por uma hora com uma das mulheres do clube naquela noite. 

Essas mulheres estão sempre totalmente vestidas, e ainda que beijar seja permitido, contato sexual é estritamente proibido. No entanto, com uma garrafa você também compra um “encontro” com a referida mulher em algum momento na semana seguinte.

Existem clubes que permitem que você tenha a mulher na mesma noite por uma taxa extra, embora seja algo raro, visto que as penas para tal crime são graves, porque um único erro e a imigração pode arruinar o negócio dos donos dos Super Night Clubs, ainda que a oferta seja generosa, os custos por quebrar as regras são bem mais altos. Proprietários de Super Night Clubs, afirmam que eles não vendem as meninas, porque eles não são bordéis, eles assumem que vendem tempo com elas dentro dos clubes, e que só ganham com as transações realizadas dentro dos clubes, mas eles afirmam não terem controle sobre a vontade dessas mulheres, e que se elas quiserem sexo com algum cliente do clube, é um trato com elas, mas nada forçado ou obrigatório.

Porém eles admitem que esses encontros, sempre acabam em um quarto dos muitos hotéis baratos do Maameltein, e que embora as garotas tenham a opção de dizer “não”, a indústria dos Super Night Clubs, sempre acaba ficando com uma má reputação, porque todos pensam que quem trabalha em cabarés são as piores pessoas do Maameltein. Não se consideram santos, mas afirmam que possuem regras. Embora o Líbano seja amplamente considerado como um dos países mais sexualmente permissivos do Oriente Médio, grande parte do país, permanece culturalmente bem conservadora.

A maioria dos clientes desses Super Night Clubs são libaneses ricos de meia idade, muçulmanos, que tentam contornar as restrições da sociedade libanesa, porque segundo relatos dos proprietários dos Super Night Clubs, as meninas libanesas não gostam de sair e se divertir, porque elas temem serem taxadas de prostitutas. E os homens libaneses gostam das garotas russas, facilmente encontradas nesses Super Night Clubs, porque elas gostam de se divertir. Esses homens alegam que se eles querem beijar uma garota libanesa, ela provavelmente vai começar a falar em casamento, e em seguida, ele vai ter que lidar com a família dela.

Uma ucraniana, que trabalha em um desses Super Night Clubs disse que ter vindo ao Líbano foi o maior erro da vida dela, porque na Ucrânia ela tem a casa dela, a família dela, mas não há meio de ganhar dinheiro, e que ela tentou trabalhar com um irmão, no negocio dele, mas devido à crise econômica o negocio faliu. A jovem que atende pelo nome fictício Lia, disse que já teve diversos empregos na vida, e que odeia o sistema do Líbano, porque ela acreditava que estava vindo para cá para trabalhar numa boate, mas quando chegou aqui descobriu do que realmente se tratava o trabalho e ficou chocada. 

Lia afirma que os proprietários sempre falam meia verdade pra as garotas no início, mas que depois de feito o negócio, elas descobrem que não era bem como elas imaginavam que seria. Lia diz com tristeza o quanto ela odeia quando alguém a escolhe, e o quanto se sente como um produto de mercado, onde qualquer um simplesmente aponta e diz: “eu quero isso”, e conclui dizendo estar esperando o contrato dela terminar, para que ela possa voltar pra casa. 

O proprietário do Super Night Club onde ela trabalha, diz estar apaixonado por ela, e que sabe que ela não nasceu pra esse tipo de vida, mas que ele não pode se casar com ela, porque isso implicaria em sair desse ramo de negócio, coisa que ele definitivamente não pretende fazer no momento, porque ele sabe o quão rentável e lucrativo é a indústria dos Super Night Clubs.

O representante dos Super Night Clubs perante o Sindicato dos Proprietários de Restaurantes, cafés, bares e boates no Líbano, Toros Siranossian, além de ser o responsável pelo lobby entre investidores e proprietários e o governo, admite estar envolvido em tudo com a indústria dos Super Night Clubs, e afirma que o sistema da indústria dos Super Night Clubs beneficia a sociedade libanesa. 

"O Líbano é um país turístico, e por isso, não pode convidar pessoas para vir ao país para apenas ver igrejas e mesquitas, temos que ter de tudo. É melhor ter Super Night Clubs para que os turistas possam sair com garotas estrangeiras, do que sair com garotas libanesas. Eles teriam que pagar uma fortuna para sair com garotas libanesas, e várias garotas libanesas se tornariam prostitutas”, diz ele.

Porém, segundo Siranossian, a indústria tem caído nos últimos anos, em tempos difíceis, e diz que o preço para trazer as garotas do exterior está muito alto agora. Ele afirma que depois de pagar o dinheiro para o Ministério do Turismo, para a polícia, há diversas outras despesas, e que a menos que os Super Night Clubs façam negócios sujos, como forçar as garotas a dormirem com os clientes, eles não vão ganhar dinheiro o suficiente para cobrir tantas despesas.

Entretanto, dificuldades à parte, os Super Night Clubs possuem uma fiel clientela de libaneses. Um desses fiéis clientes libaneses, diz que a indústria é completamente original para o Líbano, porque esse sistema de operação jamais funcionaria em qualquer outro país do mundo, porém funciona muito bem no Líbano. 

Ele afirma que o procedimento é exclusivo no Líbano, talvez devido à cultura, que é aberta para algumas coisas, mas extremamente conservadora em outras. Mas que a indústria dos Super Night Clubs tem suas qualidades redentoras, que beneficiam o sistema, embora para as garotas não seja tão vantajoso assim. Elas estão constantemente deprimidas e aprisionadas em quartos de hotéis, podendo apenas sair, caso haja clientes para atender, e que isso não é nada excitante. 

O engajado cliente, que preferiu ser chamado de Toni, diz que o governo tolera a indústria, porque eles podem tributar suas receitas, além das autoridades acreditarem que esta seja a melhor forma de conter e regulamentar a prostituição, ao invés dela se espalhar explicitamente por todo o país, e diz ainda, brincando, que Maameltein foi transformada no distrito da luz vermelha.

 A natureza complexa da indústria dos Super Night Clubs é típica do Líbano, um país lotado de contradições.  É impossível não comparar o contraste entre os neons dos hotéis baratos e dos clubes decadentes de Maameltein, com o brilho e o glamour da vida noturna de Beirute. 

Ou então os vestidos Dior e cocktails caros dos clubes em telhados de luxo, com as garotas dos Super Night Clubs que tem apenas 20 minutos para vestir um top e micro saia para encarar o trabalho. 

É como ser Jesus e Judas. Deus colocou Judas na Terra para matar Jesus. Os super Night Clubs estão apenas cumprindo o seu propósito, porque o Líbano precisa de nós, mas ainda nos julga” conclui um dos proprietários de um dos Super Night Clubs.





CLAUDINHA RAHME  
Gazeta de Beirute

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1 comments:

  1. Muito boa essa reportagem.. eu estava uma vez no Libano, em uma tour e em um determinado momento perguntei ao guia turistico mas ele não me respondeu!!! Muito informativo essa reportagem .. aliás todas desse joranl no qual eu faço questão em ler mesmo não sendo Libanes por descedente
    Daniel Navarro - sao Paulo - Brazil

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