PERDI O NOIVO PORQUE FUI ESTUPRADA

Atenção-A Gazeta de Beirute, não discrimina grupos pequenos ou grandes, nem nacionalidades ou religiões, a existência de pessoas com atitudes boas e ruins, estão presentes em todas as comunidades, o que significa que não há generalização, há todos os tipos de pessoas em todos os grupos, e um ato criminoso é geralmente culpa apenas do próprio indivíduo.

Foto-Gazeta de Beirute

Esta semana a Correspondente da Gazeta de Beirute, Therese Mourad, esteve em Trípoli (região atual de maior tensão no Líbano), para entrevistar uma brasileira. 


GB: Boa tarde Zainab, você é brasileira?

Zainab: Boa tarde Therese. Sim, sou brasileira de origem Libanesa.

GB: Há quanto tempo você mora no Líbano?

Zainab: Eu vim pra cá há oito anos, em 2005.

GB: Por que você veio para o Líbano? E com quem?

Zainab: Eu vim com meus pais e irmãos. Meu pai decidiu mudar para o Líbano porque os filhos já estavam grandes, e ele tinha medo de nos perder no Brasil.

GB: Como assim perder?

Zainab: Ele tinha medo que nos casássemos com brasileiros, e ele perdesse a autoridade sobre nós, por causa da grande diferença de cultura entre os dois povos.

GB: Quantos anos você tem?

Zainab: 29 anos.

GB: Você é solteira?

Zainab: Sim, eu estava noiva, mas rompemos o noivado no ano passado.

GB: Você ficou noiva por muito tempo?

Zainab: Oficialmente, por um ano e meio, mas eu namorava escondido com ele há três anos e meio, antes de ele entrar em casa e ficarmos noivos.

GB: E porque vocês namoravam escondido?

Zainab: Porque meu pai é muito rígido, e na época, meu noivo não tinha condições de noivar, porque ele nem tinha uma casa própria a oferecer.  Naturalmente, meu pai não iria aceitar o noivado, portanto esperamos ele dar entrada em um apartamento, e depois ele veio em casa conversar com meu pai e ficamos noivos.

GB: E você o amava?

Zainab: Nós nos amávamos muito, com loucura, e foi exatamente isso que me decepcionou muito.

GB: O que te decepcionou Zainab?

Zainab: Ele ter rompido o noivado, por uma coisa que eu não tenho culpa. Como uma pessoa que te ama de verdade, pode te abandonar na hora que você mais precisa dela, e de maneira tão fria? Eu não me conformo.

GB: Porque ele rompeu o noivado e te abandonou?

Zainab: Porque eu fui violentada sexualmente, e porque eu dei queixa na polícia.

GB: Você foi estuprada?

Zainab: Infelizmente sim.

GB: Quando isso aconteceu?  E onde?

Zainab: Ano passado, na minha cidade mesmo, em Trípoli. Eu estava voltando do trabalho e indo pra casa.

Falar sobre isso, a deixa muito nervosa, e ela começa a tremer e a chorar copiosamente, então demos uma pausa de 15 minutos.

GB: Você pode contar o que exatamente aconteceu?

Zainab: Eu voltava do trabalho de ônibus, e eu era sempre uma das últimas pessoas a descer, porque minha casa sera próxima ao ponto final do ônibus.

GB: E o que aconteceu?

Zainab: Naquele dia, além do motorista, havia mais um homem dentro do ônibus, e antes de chegarmos ao ponto final, o motorista desviou o caminho, e eu claro, perguntei por que ele tinha mudado o caminho, mas ele não respondeu, o que me deixou desesperada.

GB: Mas porque você não pediu para ele parar, e desceu do ônibus?

Zainab: Eu pedi sim, varias vezes, mas ele não respondia. Foi nesse momento que peguei o meu celular na bolsa, para ligar para meu irmão. Mas o outro homem, que estava no ônibus, arrancou o celular da minha mão, e me bateu violentamente na cabeça. Eu não perdi os sentidos, mas me senti muito tonta.

GB: E o ônibus continuou em movimento?

Zainab: Não, ele já havia parado em um terreno baldio, e os dois homens me arrastaram para fora do veículo, e me jogaram no chão.

GB: E não havia nada, ou alguém no local?

Zainab: Não, já havia escurecido, e o lugar era totalmente isolado.

GB: E quando te arrastaram para fora do ônibus, você ainda estava tonta?

Zainab: Não muito, mas eu tremia muito de medo, foi horrível...

 Ela chorou muito novamente, e pausamos a entrevista por 10 minutos.

GB: E depois Zainab, o que aconteceu?

Zainab: Eles me bateram muito, para me controlar. Desgraçados, animais...  Depois rasgaram minhas roupas, menos o lenço que eu usava na cabeça.

GB: Naquela época você já usava o hijab(véu islâmico)?

Zainab: Sim, claro! Eu uso desde que vim para o Líbano.

GB: E por que você acha que eles não rasgaram o lenço, junto com as roupas?

Zainab: Enquanto eles rasgavam minhas roupas, o motorista me pegou pelo lenço, e o outro, o salafista, não o deixou, e segurou a mão dele.

GB: Você disse salafista?

Zainab: Sim, um deles era um salafista.

GB: E como você sabe que ele era um salafista?

Zainab: Eu conheço os dois.

GB: Você os conhece?

Zainab: Sim, eu sempre via o motorista no ponto de ônibus, e o outro, eu também sempre o via na Al Mina (mina de Trípoli).

GB: Entendi, e depois? O que aconteceu?

Zainab: Eles me bateram, me violentaram, e me machucaram muito, porque eu era virgem.

GB: E você esteve consciente o tempo todo?

Zainab: Sim, e muito dolorida, mas consciente, porque eu lutei muito com eles. Mas obviamente, eles eram bem mais fortes do que eu.

GB: Eles estavam armados?

Zainab: Estavam com uma faca, e o salafista, apontava a faca no meu pescoço me ameaçando o tempo todo que iria me matar.

GB: E você não gritou? 

Zainab: Gritei muito, mas ninguém apareceu, porque o local era mesmo muito isolado. E ele machucou meu braço e minhas costas com a faca, por causa dos meus gritos.

GB: Ele te esfaqueou?

Zainab: Não, mas ele me machucou com a faca. E quando eles acabaram, o salafista, barbudo, queria me matar e cortar minha cabeça.

GB: Que horror! E o que aconteceu?

Zainab: Passou um carro por lá nesse momento, e eu comecei a gritar muito. O carro parou, e dentro dele havia um senhor e dois rapazes. Quando eles viram que o carro havia parado, eles entraram no ônibus e fugiram. As pessoas que estavam no carro me ajudaram e quiseram me levar para o hospital, mas eu disse que queria ir para a delegacia.

GB: E você conhecia as pessoas que estavam no carro?

Zainab: Não, mas sou muito grata a eles, eu devo minha vida a eles, porque se não fosse por eles, com certeza, hoje eu não estaria aqui contando a minha história.

GB: E eles te levaram para a delegacia?

Zainab: Sim, quando chegamos lá, o policial começou a me interrogar como se estivesse duvidando das minhas palavras, perguntando se eu não havia dado a eles motivos para eles fazerem isso comigo, se eu não havia me insinuado pra eles, mesmo sem intenções.

GB: Mesmo você sangrando e machucada?

Zainab: Ele não duvidou do estupro, mas estava me perguntando se eu não havia feito algo, que pudesse ter deixado eles excitados, entendeu?

GB: E o que você respondeu?

Zainab: Claro que eu neguei, eu não havia feito nada. O policial se espantou de ver que minhas roupas foram todas rasgadas, mas o lenço estava inteiro. E eu falei para o delegado o que eles falaram, e dei o número da placa do ônibus, e o nome do salafista.

GB: E o que eles fizeram?

Zainab: As pessoas que me socorreram também foram interrogadas, e depois eu fui transferida para a perícia médica. 

GB: Você foi transferida pela policia?

Zainab: Sim, eles me levaram para o hospital, onde fui examinada e fiz vários exames, e enquanto eu passava por todo o procedimento de perícia, eles ligaram para os meus pais.

GB: Você ainda não tinha avisado seus pais?

Zainab: Não, eu estava muito descontrolada, e ao mesmo tempo com muito medo, eu liguei somente para o meu noivo.

GB: E o que houve?

Zainab: Meu pai ficou furioso por eu ter dado queixa na polícia, dizendo que isso era um grande escândalo e vergonha para a família, e me criticou muito.

GB: E sua mãe?

Zainab: Coitada, ela chorou muito, ficou furiosa, indignada, mas o que ela podia fazer?

GB: E o seu noivo?

Zainab: Ele ficou estranho, já não vinha mais em casa como antes, mas sempre falava comigo pelo telefone.

GB: E o que a policia fez depois? Eles prenderam os caras?

Zainab: Primeiro, eles esperaram o relatório médico da perícia, confirmando que eu havia sido estuprada, e que eu era virgem.

GB: E depois que obtiveram o relatório, o que fizeram?

Zainab: Trouxeram o relatório para nós em casa, e disseram que eles estavam foragidos, mas que seriam presos. Eu liguei para o meu noivo, e disse que queria vê-lo, que precisava falar com ele.

GB: E ele veio te ver?

Zainab: Sim, e você sabe o que ele me perguntou assim que entrou em casa?

GB: O que?

Zainab: Se eu podia mostrar o relatório médico da perícia, que a policia havia me dado.

GB: E você mostrou?

Zainab: Claro, nem passava pela minha cabeça que ele estava desconfiado de algo.

GB: O que você quer dizer com desconfiado? Ele estava desconfiado de que?

Zainab: Ele queria ter certeza que eu fui violentada. Hoje eu penso assim, pois ele leu o relatório varias vezes, mas eu nem estranhei na hora. Quando eu perguntei por que ele havia mudado e se afastado de mim daquela maneira, eu tive a maior decepção da minha vida.

GB: Por quê? O que ele falou?

Zainab: Disse que me amava muito, mas não conseguia aceitar o que havia acontecido, o fato de outros homens terem me tocado, e de eu ter feito todo aquele escândalo. Que infelizmente, agora todos sabem a minha história, e isso era muito vergonhoso, e que a família dele jamais aceitaria nossa união depois de tudo o que aconteceu.

GB: Mas não foi culpa sua, você foi vítima nisso tudo, você foi espancada e violentada, por que ele te culpou?

Zainab: Igualzinho o meu pai, porque eu dei queixa, e permiti que todos soubessem o que se passou comigo.

GB: O que você fez naquele momento?

Zainab: Nada, somente chorei profundamente, pois estava muito machucada, eu nunca esperava isso dele, do amor de minha vida. Ele tirou a aliança do meu dedo, falando que o nosso caminho havia terminado ali, se desculpou, e disse que não podia continuar comigo.

GB: Que triste Zainab. Há quanto tempo ele terminou o noivado?

Zainab: Já faz um ano. Eu também não falo mais com o meu pai, desde então, pois na época, ele me perguntou se eu estava feliz. Que tudo era culpa minha, que eu o fiz passar a maior vergonha da vida dele, e destruí em minutos, todo o patrimônio que ele construiu em anos, e que eu não era mais filha dele.

GB: Mas por quê? O que você fez de errado?

Zainab: Eu denunciei...  eu deveria ter me calado, na opinião dele. Mas eu não me arrependo, isso é o certo, é meu direito, e para mim meu pai morreu naquele momento.

GB: E quanto aos homens que te violentaram? Eles foram presos?

Zainab: Não, pois eu creio que eles tiveram apoio, cobertura, de algum político. Tenho certeza.

GB: Por que você diz isso?

Zainab: Porque eu não acredito que a policia não consiga prendê-los, o salafista já foi visto aqui na área duas vezes, só o motorista que nunca mais foi visto depois do ocorrido. E eles continuam soltos por ai, agredindo outras pessoas, eu não me conformo com isso, estou muito indignada.

GB: E o que você faz agora?

Zainab: Nada, eu larguei meu trabalho, pois meu pai não permite mais que eu trabalhe, ou saia de casa sozinha. Mas eu penso em voltar para o Brasil, mas primeiro eu tenho uma missão aqui.

GB: Que missão?

Zainab: Quero ver esses homens atrás das grades. Porque se isso não acontecer, e eu vir um deles, eu os matarei com as próprias mãos. Ainda espero por justiça, mas se a mesma não for feita, eu farei com as próprias mãos, pois eles devem pagar pelos danos físicos, morais e emocionais que me causaram.

GB: Os entregue nas mãos de Deus Zainab, Ele faz justiça, a que ninguém pode fugir, creia em Deus.

Zainab: Eu ainda faço tratamento psicológico, passei por terríveis momentos, mas vou superar se Deus quiser. E o meu ex-noivo se casou ha quatro meses atrás. Ou seja, sete meses depois de nosso rompimento, você acredita? Onde foi parar todo aquele amor? Hoje eu não confio em mais ninguém.

GB: Zainab, eu gostaria de te agradecer pela entrevista e confiança.

Zainab: Eu que agradeço, desde a primeira vez que eu vi o jornal, eu adorei. E depois que li suas entrevistas, fiquei incentivada a contar a minha história também.

GB: Você já conhecia o GB? De onde?

Zainab: Do Facebook, eu sempre leio o jornal na net. Parabéns pelo trabalho de vocês, pois existem muitos brasileiros aqui que não sabem ler árabe.

GB: Obrigada Zainab, mas são vocês os nossos leitores, que fazem com que o nosso trabalho seja bom, e nos incentivam a aprimorar ainda mais. 

Zainab: Posso falar mais uma coisa?

GB: Claro, fique à vontade.

Zainab: Eu espero que não aconteça com mais ninguém o que aconteceu comigo, mas se acontecer, eu aconselho a todas as mulheres a denunciarem. Mesmo que toda a sociedade seja contra a sua decisão, nós temos o direito de viver com honra, e de denunciar quem viola a nossa honra e tenta nos tirar ela.  

GB: Você sabe que o Consulado do Brasil oferece apoio à mulher brasileira, certo? 

Zainab: Sim, por isso mesmo que aconselho todas as mulheres, que são vitimas de abusos, denunciarem, e nunca se calarem. Mais uma vez obrigada.

GB: Não há de quê, o GB está aqui para ouvir a Comunidade Brasileira.

THERESE MOURAD
Gazeta de Beirute


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6 comments:

  1. Meu Deus ! E olha que quem fez isso sao religiosos hein !

    Muito triste. So' espero que a Zainab recupere e tenha uma vida feliz.

    Carla Masri

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  2. Muito triste sua história, mas se ele deixou você, é porque não é digno do seu amor. Esse tipo de coisa ocorre todo tempo no Brasil, e no mundo.
    E precisamos ser fortes para denunciar sempre, todos os abusos contra a mulher e crianças. Parabéns pela sua coragem querida Zainab, Allah irá lhe mostrar o caminho, e te enviar um homem que lhe faça muito feliz. Fique na paz, porque você fez a coisa certa! Márcia Vollet

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  3. Não me conformo com isso tudo... Mas Você Fez a coisa certa! Deus está vendo e sua justiça não falha!

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  4. Eu fui estuprada vàrias vezes,me batiam me trancavam num quarto sujo e abusavam de mim. Eu tinha 12 anos,magrinha,menina que nem seios tinha. E eram três que abusavam d mim. Sofri tanto eu lutava. E tentava engolir o choro me jogavam numa cama suja,e eu sentia o peso do corpo dum homem em cima do meu,um odor d semem,suor me enojava . Sentia mãos me tocando e não. Podia tirar eu sangrava todas as v

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  5. Creio eu que uma hora a justica sera feita mesmo que demore

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  6. Lamento o ocorrido Zainab ,mas eu também passei por isso.Fui estuprada aos 11 anos por um amigo de meu padrasto e perdi minha virgindade aos 14 com um estupro também.Minha família também soube de tudo mas não queriam que os outros soubesse já que a pessoa que me abusou aos 14 é da família.Não tive coragem de fazer a denuncia sozinha,espero que um dia eu consiga.

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