Um Século de Demolições de Prédios Históricos


Foto: skyscrapercity
Rio: 
Sede do Império, antiga capital da República e reconhecida como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO desde o ano passado, a cidade do Rio de Janeiro, há mais de cem anos, é palco do embate entre preservacionistas e modernistas em relação aos seus prédios e instituições históricas.

O Governo do Estado finalmente decidiu após meses de batalha, não derrubar o antigo Museu do Índio, construído em 1862, localizado no entorno do estádio do Maracanã, mas o destino das famílias indígenas que ali residem ainda é incerto, já que ficou decidido que o imóvel será tombado e restaurado. O Museu do Índio foi salvo, mas outros prédios históricos, como a Escola Municipal Friedenreich, o Estádio de Atletismo Célio Barros e o Parque Aquático Julio Delamare, também vizinhos do Estádio do Maracanã, ainda estão na mira para demolição. O governo do Estado afirma que as demolições são necessárias para a modernização do estádio e ampliação de áreas externas e de estacionamento.

O Rio tem hoje 1,2 mil bens tombados e protegidos por lei, entre imóveis históricos, paisagens naturais e instituições imateriais. Mas nem sempre foi assim: no processo de urbanização da cidade, casas coloniais, igrejas barrocas e palácios da época do Império foram demolidos para dar lugar a ruas, avenidas, praças e até estacionamentos. No início do século 20, Francisco Pereira Passos, o então prefeito da cidade, colocou em prática uma série de demolições em massa de prédios e casas, para modernizar a capital da República, com o intuito de transformar o Rio em uma espécie de “Paris dos Trópicos”. 

1,7 mil imóveis da época da Colônia e do Império, foram desocupados e derrubados para a construção da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), inaugurada em 1905, e da Avenida Beira Mar, inaugurada no ano seguinte. No lugar dos casarios coloniais, surgiram os ecléticos edifícios da Belle Époque, sendo remanescentes dessa época, o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e o Museu de Belas Artes, embora boa parte desses prédios também já tenha sido demolida a partir da segunda metade do século 20. A concepção parisiense, no entanto, foi alterada pela permissividade da legislação que permitiu que todos fossem derrubados para dar lugar a novos prédios, deixando apenas lembranças do que a avenida foi um dia: o cartão postal do centro do Rio.

O Morro do Castelo, considerado berço do Rio de Janeiro, em 1567, e situado na região que hoje liga a Cinelândia ao Museu Histórico Nacional, foi arrasado no início do século 20 para a construção da Avenida Rio Branco, e desapareceu completamente da paisagem carioca a partir de 1920, com o pretexto de arejar o centro da cidade, ali estava o Colégio dos Jesuítas, o Seminário de São José, o Observatório, a antiga Fortaleza, a cadeia, o calabouço, restando apenas o sopé da Ladeira da Misericórdia, a primeira via pública da cidade, que ainda guarda sua calçada original, feita de pé de moleque.

"Foi um crime, é como você chegar hoje e dizer ‘vamos tirar Veneza do mapa porque eu preciso de espaço’. É como arrancar Ouro Preto, Parati, Olinda, qualquer cidade histórica, do mapa", opina Cau Barata, pesquisador especializado na História do Rio.

Durante a construção da Avenida Presidente Vargas, que liga a zona norte ao centro, e foi autorizada pelo próprio Getúlio Vargas em 1940, fez desaparecer diversos prédios e lugares importantes, como as igrejas do século 18, o Paço Municipal, e a Praça 11 de Junho (berço do samba e da boemia carioca), ao término das obras em 1944. A  Igreja em estilo barroco de São Pedro dos Clérigos, construída em 1733, e que havia sido tombada pelo IPHAN, foi simplesmente “destombada” pelo presidente da República, mediante um contrato criado exclusivamente para dar ao presidente esse tipo de poder.

Mas a demolição que mais revolta os cariocas até hoje, é a do Palácio Monroe, que havia onde hoje fica a Praça Mahatma Gandhi, próximo à Cinelândia. Já se passaram mais de 30 anos, desde a sua demolição, mas o Palácio Monroe continua despertando polêmica, porque a sua demolição é uma vergonha histórica.

 O suntuoso prédio foi criado originalmente para ser o pavilhão do Brasil na Exposição Internacional de Saint Louis (EUA), em 1904, e recebeu o grande prêmio de arquitetura, concedido pelo júri do evento. A imprensa norte-americana não poupou elogios à estrutura, destacando-a pela sua beleza, harmonia de linhas e qualidade do espaço. Na ocasião, o Pavilhão do Brasil foi condecorado com a medalha de ouro  no Grande Prêmio Mundial de Arquitetura. O responsável pelo projeto recebeu instruções para compor uma estrutura que pudesse ser desmontada e reconstruída posteriormente no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

O arquiteto e engenheiro militar brasileiro, Coronel Francisco Marcelino de Sousa Aguiar, concebeu uma estrutura metálica capaz de ser totalmente desmontada, erguendo-a, como previsto, em Saint-Louis. Desmontado ao final do evento, a estrutura foi transportada para o Brasil, vindo a ser remontada na cidade do Rio de Janeiro em 1906 para sediar a Terceira Conferência Pan-Americana. O Barão do Rio Branco, então Ministro das Relações Exteriores, por sugestão de Joaquim Nabuco, sugeriu que o Palácio de Saint-Louis, como era conhecido, fosse renomeado para Palácio Monroe, em homenagem ao presidente norte-americano James Monroe, criador do Pan-Americanismo.

Reconstruído, o edifício com 1.700 metros quadrados de área construída e estilo eclético, foi o primeiro prédio oficial inaugurado na Avenida Rio Branco, no centro do Rio, em 1906. Até 1914, o prédio continuou a ser pavilhão de exposição, e depois de passar por reformas, o Palácio Monroe passou a ser a Câmara de Deputados até 1922. De 1925 a 1932, o palácio foi ocupado pelo Senado Federal, e em 1945 3 1946, serviu de sede para Tribunal Superior Eleitoral. Durante o Regime Militar, foi sede do Estado-Maior das Forças Armadas. Nos anos 1970, o pedido de tombamento federal do Palácio Monroe foi concedido em âmbito estadual, mas negado na esfera federal pelo IPHAN.  A campanha para a demolição do Palácio começou em 1974, pelo jornal “O Globo”, que alegava que o Palácio atrapalhava o trânsito e a construção do metrô, e era uma mera cópia, desprovida de qualquer valor artístico.

O Palácio, que fora motivo de orgulho nacional, passou a ser chamado de monstrengo do passeio público, e lhe foi negada qualquer importância histórica. O local passou a ser desejado pela iniciativa privada, para a construção de um edifício garagem, mas a proposta de uma grande praça para a estação do metrô da Cinelândia, rodeada de áreas verdes, ganhou adeptos. O Senador Magalhães Pinto, Presidente do Senado, pressionado pela opinião pública e pelos ataques do jornal “O Globo”, desocupou definitivamente o prédio. O Metrô chegou a modificar o traçado das linhas e alocou equipes dedicadas a zelar pela estabilidade do prédio.

Em 1975, o Presidente Ernesto Geisel, acusado de ter uma rixa pessoal com o autor do projeto, autorizou o Patrimônio da União a providenciar a demolição do Palácio Monroe. Segundo relatos da época, o presidente tinha uma desavença com um colega de farda, que era simplesmente o filho do projetista do palácio. Então, em 1976, após a grande polêmica sobre seu destino, o Palácio Monroe acabou vindo abaixo... Uma das coisas mais lamentadas foi a chancela de Lúcio Costa, que vários arquitetos nunca perdoaram. O Instituto de Arquitetos do Brasil, o Jornal do Brasil, e todos os cariocas foram contra a demolição do Palácio Monroe, mas assim como o Teatro Municipal, o Palácio Pedro Ernesto, o Museu de Belas Artes, e a Biblioteca Nacional, testemunharam no centro monumental do Rio o que um dia havia sido o Ecletismo arquitetônico do Brasil, que tanto desagradava os arquitetos modernistas, que eram a voz mais forte do IPHAN.



        IMAGENS EXTERNAS E INTERNAS DO LINDO PALACIO MONROE



E “Isto”, é o que substituiu o suntuoso Palácio Monroe...


CLAUDINHA RAHME 
Gazeta de Beirute

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1 comments:

  1. E Vergonhoso ver os governantes cariocas destruirem nossa herança cultural como bem entendem...
    Tiago Bastos

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