Boatos em torno do Edifício União


Foto: virtualturist.com

Antes de 1940, Beirute Ocidental era uma área residencial de alto nível com nada além de mansões, grandes jardins mediterrânicos, e a Universidade Americana de Beirute. No boom dos anos 50 e 60, os congestionamentos e a superlotação no centro de Beirute, levou o centro da cidade a mover-se para o oeste, especificamente em torno da Hamra Street, o nome pelo qual a área passou a ser conhecido. 

A Hamra Street viu as mansões rapidamente serem substituídas por modernos edifícios que abrigavam os restaurantes mais modernos, e mais luxuosos, comércios de varejo, bem como lojas, bancos e outras empresas. Apesar de Beirute Ocidental ter sido tradicionalmente uma área muçulmana sunita, Hamra se tornou a parte mais cosmopolita da cidade. 

Foi em Hamra antes da pré-guerra civil, que Beirute era sinônimo de chique, e moderna. No período pós-guerra, as fortunas reverteram a situação, e Hamra foi completamente ofuscada pelo Downtown, que foi capaz de se reinventar, com projetos de reconstrução chamativos. Com a exceção de alguns pontos de luxo, como Verdun e outras ao longo da Corniche, Hamra é agora apenas uma sombra do seu passado, com uma arquitetura menos interessante, dos anos 50/60, e uma camada de menores empresas. 

A única relíquia da antiguidade de Hamra é uma coluna romana sobre a Spears Street, próximo ao Jardim Sanayeh. No entanto, a área permanece cosmopolita, e com o maior número de hotéis de Beirute. Nesta semana, Hamra esteve em evidência, em virtude dos boatos sobre a venda do icônico Edifício União, situado na Spears Street, ao lado do Sanayeh Parque, ter surgido, provocando uma nova rodada de discussões entre preservacionistas, proprietários de imóveis e empreendedores.

 O Empresário, Ali Hassoun, está negociando com a Companhia de Seguros Gerais para o Oriente Médio, a compra do antigo prédio. Irritado pelo fato dos detalhes do acordo ter vazado para a mídia na semana passada e provocando uma reação negativa de ativistas, ele se recusou a discutir os seus planos futuros para a estrutura. 

"O acordo ainda não está feito, e eu não estou comprando mais, e a história termina aqui. Normalmente um negócio é feito em silêncio, mas todo mundo está falando sobre isso, então eu estou pensando que pode ter acabado", disse ele.  

O empresário não quis comentar também sobre os rumores de que ele colocou uma oferta entre US$ 40 milhões e US $ 50 milhões, citando um acordo de confidencialidade. E não confirmou, nem negou também, relatos de que ele planejava demolir o prédio caso ele o compre. Hassoun não é considerado um empreendedor de grande porte, visto que seu único grande edifício construído, até o presente é o Verdun Twins, onde se encontra o Café Lina. 

O arquiteto Nabil Azar, que trabalha em muitos projetos de novas construções, e também já realizou restauro de grandes e importantes edifícios históricos, como a Catedral de São Jorge e o prédio Municipal de Beirute, disse que foi procurado por Hassoun, com quem já chegou a trabalhar anteriormente, para discutir sobre o Edifício União, porem o arquiteto não soube dizer se o empresário pretende derrubar ou renovar o prédio. 

O advogado da Companhia de Seguros Gerais, Jacques Abdallah, colocou a oferta em menos do que a metade, do valor reportado de US $ 50 milhões, em relação ao Edifício União, e disse ainda que ninguém havia falando em derruba-lo. Abdallah acredita que os boatos que circularam na região, são culpa dos inquilinos antigos, para evitar o despejo, afinal pela lei, os antigos inquilinos não poderiam ser despejados, a menos que o proprietário pretendesse demolir o edifício. Isso criaria uma onda de demolições em massa de prédios antigos, ao invés de restaura-los, para depois alugar e vender, a um preço mais elevado. 

As licenças de demolição, até alguns anos atrás, eram emitidas pelo município, e apenas edifícios que receberam certas designações, estiveram sujeitos a supervisão da Direção de Antiguidades, que acaba recaindo sobre o Ministério da Cultura. Em 2010, Salim Warde, então Ministro da Cultura, emitiu uma decisão determinando que todos os pedidos de demolição fossem estudados e aprovados previamente por três especialistas do Comitê da Direção de Antiguidades, e a decisão em caso de pedidos negados, pode ser revogada por qualquer ministro, ou Conselho Shura, que é a maior autoridade do país em arbitragem.

Ativistas afirmam que muitos edifícios antigos foram salvos, principalmente que possuem uma arquitetura tradicional libanesa do período otomano. O Arquiteto e Professor de Arquitetura da AUB e LAU, Mazen Haidar, porem diz que a herança moderna não se inclui no que deveria compreender a percepção de herança do país. 

Ele afirma ainda, que a visão do patrimônio é muito primitiva, porque avalia-se edifícios isolados, ao invés de lugares, ou zonas, e que os critérios deveriam incluir contexto, ou de que maneira o edifício se encaixa com a localização em torno dele, bem como período de tempo e significado histórico, ao invés de se avaliar apenas o estado físico do edifício.

Sobre o Edifício União, Haidar disse que o prédio possui todos os critérios (de quatro) sobre importantes edifícios modernistas do século passado. Seu sócio Antoine Tabet, disse que a Spears Street preservou diversos edifícios do inicio do século 20 até a década de 50, e o Edifício União  é um deles, e que apresenta harmonia com a rua e com o Sanayeh Parque. 

Sem falar na perfeita e útil estrutura sólida do prédio, característico dos prédios daquela região, por terem sido construídos por notáveis arquitetos. E concluiu afirmando que talvez o Edifício União não seja o único na lista de demolições, o Edifício Butros, também na mesma rua, construído em 1951, por George Rayyes e Theo Kanaan, foi vendido e os inquilinos estão sendo despejados. 

Haidar confirmou o que foi dito por Abdallah, que os inquilinos antigos não podem ser expulsos a menos que o proprietário pretenda demolir o edifício, e que talvez o proprietário construa apenas mais um andar, mas que todos esses boatos podem inspirar o espírito de preservação não apenas de edifícios antigos, mas também de ruas e bairro inteiros, por parte da população, o que seria muito positivo para respeitar, valorizar e preservar a história dos patrimônios antigos da cidade. 


CLAUDINHA RAHME  
Gazeta de Beirute

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