Crianças de Ain al-Hilweh: Vítimas da Violência


A cada rodada de violência no campo de refugiados palestinos de Ain al-Hiweh, as aulas são interrompidas e milhares de crianças são privadas de receber o que lhes é de direito: Educação. Os conflitos internos causado por membros do Fatah e do Fatah al-Islam, frequentemente aterrorizam os 80 mil moradores do campo de refugiados, que se tornam reféns da violência, e são obrigados a viver sob fogo cruzado. As crianças do campo, sem alternativa, crescem num ambiente de ódio e ignorância, privadas de estudar, e acabam usando o tempo ocioso de opressão e medo, para coletar cartuchos vazios de munição pelas ruas, para vender. 

Centenas de moradores marcharam em protesto após o último confronto, clamando pelo cessar fogo, mas os moradores afirmam que volta e meia os confrontos recomeçam e a violência toma conta novamente. Mohammad Hleihil, que participou do protesto com sua família, disse que ele aprendeu a contar os tiros durante os combates, para que ele possa mais tarde reunir os cartuchos de munição vazios para vender e receber alguns dólares. Hleihil, que gostaria que os confrontos terminassem, para que todos pudessem viver em paz sem correr o risco de se tornarem mais uma vítima, diz que não quer morrer, e que gostaria de viver como outras crianças, para poder estudar, brincar, tocar e cantar. Omar Karroun foi atingido num dos confrontos enquanto brincava no bairro, e agora ele ficará meses sem andar e ir à escola por isso.

Fátima Kayid tem 10 anos, ela conta que todas as vezes que começam os tiroteios ela se esconde no banheiro, porque ela acredita que ali é seguro; e Hayat, sua amiga, diz que ninguém pensa nas crianças, não as deixam viver em paz, e não as deixam estudar corretamente. Sua casa fica próxima do mercado principal, e ela escuta tiros e granadas explodindo a todo instante, e escuta diariamente comentários de que alguém está morto, e por isso ela nunca pode ir à escola. Aziza Khalil deslocou-se com sua família do campo de refugiados sírios e palestinos de Yarmouk, e diz que quando chegou a Ain al-Hilweh, acreditou que havia escapado da guerra em seu país e que enfim, poderia viver em segurança, mas a menina afirma que ainda continua sob domínio do medo, em meio aos confrontos internos, e à constante troca de tiros e explosões.

O representante do Comitê Popular de Ain al-Hilweh, Fouad Othman, afirma que o nível de educação nas escolas da UNRWA, deteriorou-se nos últimos anos, devidos aos constantes confrontos. Num passado não muito distante, cerca de 90% das crianças passavam nos exames oficiais, mas hoje, 60% das crianças não poderão fazer os exames, e que se isso continuar como assim, no futuro, o campo terá nada além do que uma geração de ignorantes.

 O Diretor Geral da Liga dos Palestinos, Issam Halabi, confirma que os confrontos regulares em Ain al-Hilweh são extremamente prejudiciais para os moradores, especialmente para as crianças, porque quando elas estão na escola, e os conflitos começam, elas ficam aterrorizadas, seus pais arriscam suas vidas para salvá-los e busca-los nas escolas, que são obrigadas a fechar suas portas e dispensar os alunos. 

Tudo isso retarda a educação dessas crianças, além de gerar muita instabilidade psicológica em todos os moradores do campo, algumas escolas acabam fechando definitivamente, e os professores que residem fora do campo, não querem mais voltar para dar suas aulas dentro do campo, por medo. Halabi diz que completar o currículo escolas nessas circunstâncias é impossível.

A falta de segurança está destruindo o futuro das crianças de Ain al-Hilweh, que vão para as escolas, mas não conseguem se concentrar, porque estão dominadas pelo medo, e ao ouvirem um tiro, já pensam ter iniciado mais uma rodada de conflitos, e só pensam em voltar para suas casas, porque não se sentem seguros dentro da escola, embora queiram aprender. 

(...) A educação é uma arma que serve a nossa causa, e é por isso que há pessoas que não querem que nós aprendamos, mas nós insistimos em aprender”, diz Zahra Hijazi, aluna da quinta série de uma das escolas da UNRWA. 

CLAUDINHA RAHME 
Gazeta de Beirute
Share on Google Plus

About beirut lebanon

This is a short description in the author block about the author. You edit it by entering text in the "Biographical Info" field in the user admin panel.

0 comments:

Postar um comentário