Em Algum Lugar do Passado...




Existia uma ponte subterrânea no downtown de Beirute em 1972, na intersecção das Ruas Allenby e Wegan, que foi coberta na reconstrução da cidade após a guerra, apesar do ângulo das duas fotos estarem um tanto diferentes, é possível notar a mesma estrutura da arquitetura do prédio, inclusive o grande arco da Mesquita Al Omairi à esquerda.

A Solidere certamente reconstruiu o downtown com muita beleza, mas com exceção dos dias de manifestos, protestos, passeatas ou algum evento coletivo na região do Nejmeh Square, é difícil encontrar pessoas nessa área, como era comum na foto de 1972. 

Não é novidade que a instabilidade política atingiu a área desde 2005, porém, apesar de ser uma área nobre e cara de Beirute, a região encontra-se vazia. As lojas de grifes como Gucci, Louis Vuitton e Rolex, atraem, mas certamente os turistas, os expatriados, e a nata da alta sociedade libanesa, sem refletir de fato, sobre a grande maioria da sociedade. 

A beleza, elegância e sofisticação do downtown de hoje, construído pela Solidere, em nada se assemelha com a velha, empoeirada, pulsante, movimentada e fervente downtown de antigamente descrita pelos mais velhos. 

A downtown que tinha um tráfego intenso de pessoas, dia e noite, onde ainda se podia cantar ou se reunir em grupos de amigos, sem ser censurado por soldados que te tolhem a liberdade, com a acusação de ameaça a segurança, por prática de atividade não agendada previamente no local.

Certamente não é mais a downtown onde uma passagem subterrânea de pedestres foi necessariamente projetada, onde transitava ônibus, taxis, carros, onde as pessoas se encontravam para ir ao cinema, restaurantes, e faziam suas compras, que podiam ser desde galinhas até pias de cozinha, ou que simplesmente usavam a região, para passear entre amigos, com a família, ou assistir a algum espetáculo no teatro... 

Sim o teatro, como o “Grand Theatre” de Beirute, que hoje está sufocado pelas placas de isolamento da Solidere.


A empresa isolou essa relíquia antiga e abandonada, com a justificativa de que o prédio está em restauração, reforma, mas de fato somente a fachada externa do edifício foi restaurada, para adornar a nova estética do downtown.

Por detrás daquelas placas inóspitas e inexpressivas da moderna construtora de luxo, um mundo de destruição do tempo da guerra civil ficou gravado no que um dia foi um majestoso prédio destinado a sociedade, à cultura, e provavelmente construído por volta de 1930. 

CLAUDINHA RAHME
GazetadeBeirute
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1 comments:

  1. Meu nome e Ines e eu fico chateada de ver como o governo libanes simplesente destroi os predios historicos para construir arranha ceu. Teriam que preservar a historia e nao apagar.

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