GB Entrevista Cônsul Geral do Brasil em Beirute




O Ministro Renato Soares Menezes, nascido no Rio de Janeiro, mudou-se aos 21 anos para Brasília, quando ingressou no Instituto Rio Branco. Passou praticamente toda sua vida no exterior, trabalhando para o Itamaraty. Com 37 anos de carreira diplomática, e atualmente em exercício no cargo de Cônsul Geral do Brasil no Líbano, e também na Presidência do Conselho de Cidadãos, o Ministro Menezes disse que gosta imensamente do Líbano, onde ele e sua família estão bem adaptados; contudo sente falta dos familiares e amigos que ficaram no Brasil.

 A jornalista Chadia Kobeissi e o Diretor do Portal Gazeta de Beirute, Shadi Kobeissi, encontraram-se no último dia 28 de março, com o Cônsul Geral do Brasil em Beirute, Renato Soares Menezes, para uma entrevista, que foi realizada na presença da Vice-Consul, Josely Oliveira, e da Auxiliar Administrativa, do Setor de Vistos, Suzana Sadek.

GB:  Quando o senhor visitou o Líbano pela primeira vez? E quando iniciou sua gestão como Cônsul Geral do Brasil em Beirute?

Ministro Menezes: No início da década de 90, eu vim ao Líbano a serviço, por apenas uma semana. Em 2010, eu retornei, como Cônsul Geral. Mas, em 2010, eu encontrei um Líbano muito diferente.

GB:  O que o Senhor encontrou de diferente?

Ministro Menezes: Sobretudo, a parte física da cidade onde antes havia muito mais verde, hoje em dia, é um canteiro de obras.

GB: Quais as maiores dificuldades que você encontra em seu trabalho como Cônsul do Brasil, no Líbano?

Ministro Menezes: A maior dificuldade que eu encontro é a falta de pessoal. O número de funcionários é pequeno para o grande volume de trabalho que nós temos. Essa é uma dificuldade recorrente, mas temos solicitado ao Itamaraty a contratação de funcionários adicionais. Outra dificuldade é o público; trata-se de um público especial e bastante exigente. Contudo, com a boa vontade dos nossos funcionários, sobretudo dos contratados locais, nós temos conseguido superar essas dificuldades.

GB: O senhor acha que há similaridades entre os libaneses e os brasileiros?

Ministro Menezes: Acho que sim. A alegria de viver. A influência no Brasil é grande, há mais libaneses no Brasil, do que no próprio Líbano. E aqui eu me sinto em casa; acho que os brasileiros se sentem em casa no Líbano, assim como os libaneses se sentem em casa no Brasil.

GB: O Consulado realiza diversos serviços, eu gostaria que o senhor nos contasse um pouco, sobre os serviços que foram efetuados, recentemente, em benefício da comunidade brasileira.

Ministro Menezes: Conseguimos implementar um Programa de Apoio Jurídico e Psicológico, beneficiando a mulher brasileira; lançamos a Cartilha para a Brasileira Emigrada, algo bem sucedido, e elaboramos um Plano de evacuação em caso de emergência, junto com membros da comunidade brasileira, o qual foi encaminhado ao Itamaraty. Também houve diversas reuniões com o Conselho de Cidadãos Brasileiros em Beirute, que se mostra cada vez mais atuante e participativo; foi instalado o Consulado Honorário no Vale do Bekaa, chefiado pela Senhora Harati, que nos tem auxiliado muito, um Consulado Honorário que não existia quando eu cheguei e que tem sido muito útil; ao mesmo tempo, o Consulado Honorário nos alimenta de trabalho, tem prestado um bom serviço junto à comunidade brasileira, sobretudo no Vale do Bekaa, onde reside a maior parte dos brasileiros.

GB: Na vigésima edição da Gazeta de Beirute, eu fiz um artigo com o título “De olho no Consulado brasileiro”. O artigo teve grande repercussão dentro da comunidade, recebemos muitos elogios e críticas. Como você analisa o artigo, e qual sua opinião sobre ele?

Ministro Menezes: O artigo é meritório, eu vejo qualidades no artigo. Gostaria de ponderar que nosso público é um público especial, às vezes rude, que não se mostra satisfeito de uma forma geral. Mas é claro, há exceções. Eu defendo sempre as nossas funcionárias,  que são sempre atenciosas. As reclamações sempre ocorrerão, por mais que nos esforcemos em melhorar. Nós também estamos ouvindo as reclamações dos brasileiros, e tentamos melhorar nossos serviços na medida do possível, mas é difícil agradar a todos. De qualquer forma, existem formulários de apreciação, disponíveis na sala de recepção do Consulado Geral; os mesmos são encaminhados diretamente ao Itamaraty. E inclusive, quem não está satisfeito, pode se dirigir diretamente a Ouvidoria Consular, que nos remete a questão e nós,  assim, temos como responder.

GB: Há brasileiros que reclamam de mau atendimento ao público. O que o senhor tem a dizer sobre isso, já que a falta de funcionários, não justifica essas reclamações?

Ministro Menezes: Nossas funcionárias são muito gentis, são pessoas que atendem o público muito bem.

GB: No artigo, eu afirmei que também os funcionários não estavam satisfeitos, devido a grande quantidade de trabalho, e pequeno contingente de funcionários. Existem realmente, poucos funcionários? Há alguma possibilidade de novas contratações? E caso haja, como eles serão selecionados?

Ministro Menezes: Sim, nós inclusive já solicitamos ao Itamaraty que autorize a contratação de mais funcionários. A contratação só ocorre com a autorização do Itamaraty e quando formos eventualmente autorizados, isso é anunciado e divulgado no próprio Consulado Geral, que realiza um processo seletivo.

GB: Como a comunidade brasileira ficará sabendo desse processo seletivo? Isso será divulgado na Internet?

Ministro Menezes: O próximo processo seletivo, quando houver, já que existe a Gazeta de Beirute, será divulgado na própria Gazeta. Nós receberemos os currículos dos candidatos, sendo fundamental que eles dominem português, árabe e inglês ou francês. Atualmente, todos os nossos funcionários locais  dominam os quatro idiomas. Com esse requisito inicial básico, haverá uma entrevista e um teste que nós aplicaremos, para avaliarmos a experiência anterior que os candidatos tiveram.

GB: O Líbano é um país onde já houve guerra, e os conflitos são constantes. Em caso de emergência, se o Aeroporto Internacional Rafic Hariri fechar, por alguma razão, como ocorreu na guerra de 2006, e na Síria também estiverem ainda em conflito, o que nós brasileiros devemos fazer?

Ministro Menezes: Desde o inicio da minha gestão, não houve nenhuma situação dessas, mas o Consulado Geral, a pedido do Itamaraty, e com o apoio de membros da  comunidade brasileira, elaborou um plano de evacuação, em situação emergencial. Esse Plano está pronto, e foi encaminhado ao Itamaraty que está, aos poucos, nos enviando os recursos necessários. Como, por exemplo, bandeiras para cobrir os veículos que eventualmente transportarão os cidadãos brasileiros. No âmbito do Plano de evacuação, dividimos o país em zonas específicas, com um responsável por cada área. Quando algum conflito de maiores proporções ocorrer (eu espero que não ocorra), cada responsável em cada área, deverá localizar os brasileiros, que serão conduzidos a um local seguro. E já estão definidos quais são os lugares seguros, para cada um desses responsáveis. E se os cidadãos brasileiros não puderem sair pela Síria, caso o país ainda esteja em conflito, a evacuação deverá ser feita pelo mar, em direção a Chipre.

GB: Quem são esses responsáveis? Funcionários? E como eles se comunicarão com a comunidade brasileira?

Ministro Menezes: Não são funcionários, são membros da comunidade brasileira. A equipe que participou da elaboração do Plano de evacuação para situações emergenciais. Haverá telefones, rádios amadores, alimentos e bandeiras.


GB: E para aqueles brasileiros que não estão com a documentação em dia? O que será feito? O consulado vai acolher a todos, não vai?

Ministro Menezes: Vai ter que acolher, e para sair do país há o que nós chamamos de passaporte de emergência. Inclusive já solicitamos, e já recebemos, um número adequado de passaportes emergenciais para a comunidade, e se não for o bastante será utilizado documento que é válido para apenas uma viagem ao Brasil.

GB:  O Brasil está acolhendo os refugiados sírios? Há algum tipo de apoio neste sentido?

Ministro Menezes: Não, que eu saiba o Brasil ainda não acolheu qualquer refugiado sírio, nós apenas estamos fazendo a repatriação de nacionais brasileiros, quando fica provado que realmente os mesmos não dispõem de recursos.

GB: Em sua opinião, como tem sido o incentivo que o Itamaraty tem oferecido aos brasileiros no Líbano? E qual a importância desse incentivo?

Ministro Menezes: A questão de relação cultural, eu divido em dois aspectos: um é conduzido pela Embaixada, que consiste em difundir a cultura brasileira e a língua portuguesa junto aos libaneses; e o outro, é conduzido pelo Consulado Geral e consiste na manutenção e na preservação da cultura brasileira e da língua portuguesa entre os brasileiros. Porque ao viverem no Líbano, eles vão perdendo o vínculo com o Brasil; a maioria dos brasileiros não fala o português, isso é uma lástima. O brasileiro, no mínimo, tem que saber falar a língua portuguesa, que é o seu idioma materno. Nosso empenho nessa questão é fundamental.

GB: Com a Fragata da Marinha do Brasil trabalhando em missão de paz juntamente com a UNIFIL no Líbano, existem 200 brasileiros a mais no país. Isso aumentou o trabalho do Consulado?

Ministro Menezes: Realmente agora existem mais brasileiros sob a nossa atenção, mas eles não têm nos dado nenhum trabalho adicional, fora um ou outro caso, que precise de documentação, algo de rotina. Não posso dizer que a presença deles no país represente um acréscimo ao nosso trabalho. Eles estão documentados. E o relacionamento com o pessoal da Marinha é intenso; há uma excelente interação.

GB: Infelizmente, a mídia internacional não divulga todas as notícias do Líbano, e geralmente divulgam apenas notícias relacionadas a guerras e conflitos. Qual a sua opinião sobre o nosso portal voltado à comunidade brasileira, onde levamos a eles, informações gerais sobre o Líbano, em português?

Ministro Menezes: Desde o início, quando eu recebi o projeto da Gazeta, eu gostei muito, e comuniquei isso ao Itamaraty, sempre elogiando. E continuo mantendo minha opinião, sobre a importância e a utilidade da Gazeta, que é um trabalho pioneiro no Líbano. Nós nunca tivemos um jornal, voltado para a comunidade brasileira, em português, e com as notícias atualizadas. Acho importantíssimo que esse trabalho continue e eu continuarei insistindo nessa ajuda (mesmo que simbólica) do Itamaraty para a Gazeta de Beirute. Eu proponho que na próxima reunião do Conselho de Cidadãos, os senhores também compareçam, para que os membros do Conselho possam interagir mais com essa atividade pioneira da Gazeta, que é de uma grande utilidade. O próprio Consulado Geral pode recorrer desse meio de comunicação quando houver necessidade, para divulgar algo.
GB: Diversas pessoas da comunidade também reclamaram sobre o limite de senhas distribuídas para o atendimento aos brasileiros. A distribuição de apenas 25 senhas por dia tem sido insuficiente, porque quando elas se esgotam, muitos brasileiros não são atendidos. Isso pode ser mudado, ou melhorado?

Ministro Menezes: Bom, primeiramente, em casos particulares, mesmo que ultrapassem o número de atendimento aos 25 brasileiros, eles serão atendidos. É o caso dos idosos e das gestantes, por exemplo. Além disso, nós temos o plano de implementar um agendamento “online” (ideia da equipe), já aprovado pelo Itamaraty que,  inclusive já enviou os recursos necessários, e está tudo pronto para ser implantado. Estamos apenas aguardando, a contratação de um funcionário para monitorar o agendamento “online”. Isso irá ajudar, o que não significa que não haverá espera, ou que diminua a carga de trabalho. Haverá uma espera virtual, ao invés das pessoas virem e esperarem aqui fisicamente, elas poderão aguardar em seus lares, porque terão dia e horário marcados, para serem atendidas no Consulado Geral.

GB: Ministro Menezes, obrigada, pela entrevista.

Ministro MenezesEu que agradeço a oportunidade de divulgar um pouco o nosso trabalho.

GB: para Suzana Sadek, Auxiliar Administrativa do Setor de Vistos: Quantos libaneses viajam para o Brasil anualmente? E quantos brasileiros existem, de fato no Líbano?

Suzana Sadek: Há no Líbano, aproximadamente 10 mil brasileiros registrados e, mensalmente, recebemos de 250 a 300 pedidos de vistos para o Brasil, não apenas de libaneses, mas também de palestinos e de sírios.

GB: Este número, tende a crescer. Obrigada.

A comunicação é muito importante entre os membros da comunidade, e as autoridades que os representam. Assim como é muito importante também para os brasileiros, que eles tenham conhecimento de seus direitos, e fiquem sempre atentos aos seus deveres também como cidadão, principalmente quando estão fora do Brasil.

Apesar de muitos brasileiros, residentes no Líbano, não falarem o português, o governo brasileiro os reconhecem como brasileiros. Da mesma forma como existem centenas de descendentes árabes no Brasil, que também não falam o árabe, e que também são brasileiros. 

O trabalho dos representantes da nossa comunidade, em nosso benefício, é de suma importância. Nós somos uma comunidade influente no Brasil, e as relações entre o Líbano e o Brasil, além de antigas, são fortes, e devem sempre ser preservadas, respeitadas e aperfeiçoadas.

Veja  matéria do Gazeta de Beirute : 

  De olho no Consulado Brasileiro

Chadia Kobeissi
Gazeta de Beirute
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About beirut lebanon

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9 comments:

  1. Eu em todas as vezes que procueri o consulado, sempre tive um excelente atendimento, em todas as vezes pocurei saber ao maximo sobre os documentos exigidos, formularios e xerox necessarias...no site do itamaraty a tds informacoes sobre documentos.

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  2. Primeiramente parabenizo o trabalho da Jornalista Chadia Kobeissi . Agora minha opinião particular sobre o trabalho do Consulado em Beirute , fazendo se valer a carta magna das nações Unidas e a carta dos direitos Humanos que me da total liberdade de expressão como Cidadão do mundo e Brasileiro , venho dizer que o consulado necessita melhorar seus serviços a todo o grupo brasileiro , e deixo claro que nosso povo de maneira alguma é rude como foi afirmado na entrevista , e se algum brasileiro não sabe o português é obrigação do consulado viabilizar meios educacionais para isso , pois e nosso direito como brasileiro . Em relação a tratamento quem deve colocar e expressar a situação é justamente o Brasileiro , pois o consul e seus funcionários não devem se meter em momento algum nas reclamações e direitos daquele que é obrigação dos mesmos servirem . Devemos sim estar atentos a todos os consulados espalhados no mundo e vamos além , pois o povo do Brasil merece respeito e dignidade . Não é feito de louros nenhum mas obrigação de ter bons trabalhos nos consulados .


    Anthony Mohammad

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  3. Eu acho que eles estao se esforcando para melhorar, e pelo menos agora temos uma comunicacao mais aberta e isso e muito valido.

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  4. Fico aliviada em saber do plano de evacuação

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  5. Gostaria que o atendimento fosse online de A & Z assim tudo ficaria mais claro , ai so poderia fazer uma reclamação se tivesse provas ...

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  6. Muito boa entrevista, perguntas inteligentes, eu so queria saber mais sobre esse plano de evacuacao e as pessoas que estao prontas para nos ajudar, agora eu tb ja ouvi reclamacoes mas tudo pode melhorar, eu acredito nisso, e muito importante o trabalho da gazeta e estou bobo em saber que ainda nao houve um apoio do itamaraty para um trabalho como este, e para outras coisas, ha gastos absurdos, sinceramente...e sobre o trabalho da Senhora Siham, ja ouvi coisas mto boas, mas tb ja ouvi contrariedades, desde o tempo em que ela foi elegida, e o consulado em tripoli, mas de qualquer maneira, eu parabenizo a todos que querem ajudar a comunidade.

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  7. Nunca subi para o consulado não sei como funciona as coisas la dentro ,e bom saber que alguém esta pensando em nos .. vi os comentários e o atendimento online seria incrível amei a ideá .. nem sabia que existia Itamaraty so fiquei sabendo por aqui mesmo espero que esse órgão Itamaraty ajude esse jornal mesmo pequeno mais podem ter certeza se não fosse esse jornal não teríamos nem um tipo de media para nossa comunidade . Amei o jornal . Com essa ajuda ou não Por favor não parem vocês são o único meio de comunicação sobre noticias e eventos cultura e etc... O Itamaraty quebra esse galho ai nos somos brasileiros também .Esse e meu 1 mês aqui no libano Abraco Larisa .....

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  8. Nunca tive problemas ao ser atendido no Consulado. sempre fui bem atendido.

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  9. Legal nunca tinha visto a foto do cônsul mais não e pro nada eu gostava muito do Michel e gente fina na querra de 2006 ele estava la embaixo de bomba e tudo vlw Michel grande amigo se a galera do Gazeta possa enviar um abraco do abdul do forno ele sabe ... ( gostaria de saber quando escrevo como anonimo aparece de onde falo ) ? igual no celular ?

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