Museu do Café de Santos


Museu do Café de Santos completa 15 anos 

Há muito tempo a Bolsa Official de Café não funciona mais onde funcionava, na esquina da Rua XV com a Frei Gaspar. Transferiu-se para São Paulo em 1957. Mas nem por isso a famosa rubiácea foi riscada do mapa de Santos. Peso pesado na balança comercial brasileira, perdeu apenas o monopólio de produto exportador, sendo agora obrigada a dividir o cais do porto especialmente com a soja, o suco de laranja, o açúcar.

Da Bolsa Official de Café sobraram o nome - estampado em letras douradas na fachada do edifício - e toda a herança da época em que ali se centralizava, organizava e controlava o mercado cafeeiro. Recordação cuidadosamente guardada no antigo palácio, que desde 1998 abriga o Museu do Café.

A instituição completou 15 anos de atividade na terça-feira (12/03). Devido às comemorações de aniversário o equipamento apresentará, no último sábado de cada mês, atrações como a ‘Visita Curiosa’ e ‘Um Olhar em Perspectiva’. Direcionada às crianças, a primeira consiste em monitoria sobre curiosidades e a história da Bolsa, após a qual a meninada deve expressar artisticamente o que aprendeu. A segunda tem como foco a arquitetura do prédio, com atividade fotográfica dos detalhes do prédio.

Arquitetura magnífica

O edifício do museu é um dos mais significativos do Centro Histórico de Santos. As torres ganham destaque no estilo eclético da construção. A dianteira é sustentada por oito colunas de granito rosa, que formam o átrio da fachada principal. Com uma bela vista para o porto, a torre da fachada posterior tem 40 m e conserva o relógio suíço que fazia a convocação para as sessões do pregão. Exibe quatro estátuas. Elas representam a Indústria, o Comércio, a Lavoura e a Navegação, atividades inseridas no contexto cafeeiro.

O Salão de Pregões ostenta a coroa e o cetro da beleza na arquitetura do prédio. Ali se realizavam as negociações de compra e venda do produto. O cadeirado circular em jacarandá dispõe de 81 poltronas, em que as 11 principais eram ocupadas pelo presidente e secretários. Nas demais, servidas por mesinhas redondas, sentavam-se os corretores oficiais. Produtores e exportadores assistiam às sessões de camarote desde o primeiro andar, sob a luz que partia do miolo das flores que decoram o teto quadriculado em estilo rococó.

Mármores vindos da Grécia, Espanha e Itália formam desenhos geométricos no piso. O teto é dominado por vitral de Benedicto Calixto. Bastante inovador, foi um dos primeiros a abordar a temática brasileira, focalizando as riquezas de três períodos da nossa história: o ouro da Colônia; a agricultura de café, cana-de-açúcar e algodão do Império; o comércio, a exportação e a modernização da República.

Do acervo também constam três quadros de Calixto, pendurados na parede atrás do cadeirado. O do meio retrata uma cena do que teria sido a fundação da vila de Santos, por volta de 1545. Os dois laterais remontam a duas datas diferentes do porto - 1822 e 1922 - com a transformação em função da rubiácea.

O Café e o Trabalho

Desenvolvida em três espaços distintos, a exposição permanente faz um balanço geral da “Trajetória do Café no Brasil” por meio de painéis fotográficos e objetos de trabalho.

Caminhando por assoalhados em marchetaria de madeira de lei brasileira, chega-se à sala “O Café e o Trabalho”. Enfatizando a mão-de-obra africana, negros podem ser vistos pela lente do fotógrafo Marc Ferraz, enquanto imigrantes japoneses posam em vagões de trens com destino à capital e ao interior paulista. Eles representam os povos da Ásia e da Europa para os quais o Brasil abriu os braços depois da abolição da escravatura.

Reproduções de pinturas de Antônio Ferrigno falam de duas fases de preparação do produto. Na 'Colheita, mulheres de saias compridas e lenços na cabeça, ao lado de homens de barba e chapéus de palha provam que eram paus p'ra toda obra na faina de colher, peneirar e ensacar os grãos. Diante do quadro, os utensílios empregados: escada, rodo, vassoura, rastelo e plantador. Já na interpretação do 'Beneficiamento' vêm à baila as grandes máquinas que eram usadas na fase final e um trabalhador, agulha e linha em punho, fechando os sacos de estopa com costura ainda feita a mão.

Muitos artefatos eram confeccionados pelos próprios escravos. Diante do painel em que um negro, mãos ágeis nos trançados e tramas com palha e fibras, dedica-se ao artesanato de cestaria, descansam modelos de peneira, balaio e cestos ao lado do pilão e da gamela, artesanato em madeira.

Outros utensílios acham-se expostos na sala: selecionadora manual, descascadora, torradores, moedores, filtros, coadores, balanças pequenas e a grande, chamada romana, destinada à pesagem das sacas que deveriam ter exatos 60 quilos. Pacotes de ene marcas do produto valorizam a demonstração, desde as mais conhecidas – Pilão, Moka, Pelé, Melitta etc – até latinhas lançadas pelo Museu do Café em comemorações especiais, como o Centenário da Imigração Japonesa (2008) e o Ano da França no Brasil (2009).

Na sala contígua, o Centro de Preservação, Pesquisa e Referência conta com biblioteca aberta ao público.

Café e Novas Rotas

O dinheiro do café bancou o novo tipo de transporte por ferrovias para o escoamento do grão, desde as fazendas do interior paulista até o porto de Santos. Na sala “Café e Novas Rotas ”, localizada no primeiro andar, um mapa chama a atenção pela quantidade de cidades servidas pelas linhas férreas. São mais de 100 municípios paulistas, desde São José do Rio Preto (norte) até Cajati (sul), desde Presidente Prudente (oeste) até Pindamonhangaba (leste).

Vitrines guardam objetos alusivos à atividade ferroviária, como lanterna, placas de localização, Caixa Postal das estações. Históricas, cinco reproduções de fotos revelam momentos e situações corriqueiras. Em uma delas, datada de 1930, japoneses com caras de poucos amigos enfrentam a câmera na hora do descanso. Em outra, mais dinâmica, colonos depositam as sacas em rudimentares vagões de carga. A terceira retrata uma preguiçosa maria fumaça estacionada diante da estação Serrinha Santa Clara, ao passo que outras duas apresentam vistas do porto.

A transformação da malha urbana santista e a pujança da economia é visualizada em ilustração e em maquete que rememora o centro da cidade em 1920. Ali se multiplicam as instituições financeiras - como o Banco Real do Canadá, Banco Alemão, National City Bank, Banca Italiana di Sconto, Caixa Econômica – ao lado de comissárias de despachos e empresas exportadoras – como a Trancoso Hermanos Cia. Ltda, Cia Comercial e Náutica, Junqueira, Neto e Cia, Hard Rand Co – nas vizinhanças do Paço Municipal, da Bolsa Official de Café, dos Correios e Telégrafos, da Câmara de Comércio etc.

O café enriqueceu o município de Santos. Belos hotéis como o Parque Balneário, palacetes de luxo como o que atualmente pertence à Unisantos, na Pompeia, vias para drenagem da água das chuvas, como o Canal 1, são fatos e versões ressaltados em painéis.

Também é relembrada a Rua XV de outrora, conhecida como Wall Street Brasileira. Ela era socialmente vetada à entrada de moças de família e senhoras de respeito por ser o local de bate-papo dos corretores, todos nos trinques em seus ternos de linho branco à espera da hora do pregão.
Santos e o porto

A relação umbilical da cidade com seu atracadouro é enfatizada na sala “Santos e o Porto”, onde o manequim de um estivador desperta logo o interesse. Trata-se de Jacinto. Com cinco sacas de 60 quilos nas costas – o que dá um total de 300 quilos – ele era imbatível nos concursos que os trabalhadores faziam para ver quem aguentava mais peso. Mas sustentar é uma coisa e carregar é outra. Embora recebessem pelo número de unidades carregadas, na estiagem para os porões dos navios eles só davam conta de uma ou duas sacas por vez. Marc Ferraz volta a assinar uma fotografia do porto em 1882.

Diante da ilustração de um organizado armazém de café, com sacas cuidadosamente dispostas lado a lado, um sinal de progresso é evidenciado pela máquina de costura, que livrou o trabalhador de furos e calos nos dedos. 

A grande balança romana continua a mesma. Rematando a mostra, uma pequena vitrine exibe xicrinhas de café com o logotipo das firmas : Pacaembu, Palheta, Sumatra, Pelé, Damasco, Top. Moóca, Ituano, Baronesa etc. Algumas são acompanhadas do pacote de café.

Mais dois espaços podem ser observados através de divisórias de madeira e vidro: um voltado ao setor administrativo e outro à degustação, já que a bebida precisa passar por uma prova de classificação, antes de ser negociada.

Classificação essa realizada até hoje em mesas redondas giratórias 
apropriadas, com cerca de 10 pequenos vasilhames como xícaras cheias de café , que os provadores especializados experimentam, classificando o produto desde a melhor para a pior qualidade: mole (suave e adocicado), duro (suave), riado (leve sabor de iodofórmio) e rio (forte sabor de iodofórmio).

As crianças não foram esquecidas. Nos corredores entre as salas, o jogo da fazenda, o caça-palavras e o quebra-cabeça distraem a meninada, que ainda se diverte criando vegetais diferentes num brinquedo em que circunferências acrílicas, de vários tamanhos e sobrepostas, têm desenhos de partes das plantas, possibilitando diversas combinações.

E para fechar com chave de ouro a visita, nada melhor que uma passadinha pela cafeteria, onde se pode provar o melhor café tipo exportação do Brasil, além de doces, sorvetes e drinques à base do grão. Quem quiser levar pó de café para casa deve escolher entre os do Chapadão do Ferro, Alta Mogiana, Espírito Santo, Cerrado de Minas e Sul de Minas.

O Museu do Café, instituição da Secretaria da Cultura de São Paulo, fica na rua XV de Novembro, 95, no Centro Histórico. Seu horário de funcionamento é de terça-feira a sábado, das 9h às 17h, e nos domingos, das 10h e 17h. Os ingressos custam R$ 5,00. Estudantes e pessoas acima de 60 anos pagam meia-entrada. Outras informações no site www.museudocafe.org.br
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