Os Opositores Torturaram Minha Família



Therese Mourad esteve essa semana, com uma família de refugiados sírios, que está vivendo no Líbano, a família refugiou-se no país, mas por medo e segurança, decidiu não se registrar, eles estão literalmente escondidos e tentando superar o terror que passaram em seu próprio país. 
A entrevista foi realizada com duas pessoas da mesma família. Apesar da pobreza, e da situação precária em que estão vivendo, sem qualquer tipo de ajuda do governo libanês, ou de ONGs de auxilio aos refugiados, em virtude de não terem se registrado, eles tentam sobreviver como podem.
Os cinco membros da família, estão vivendo numa casa de três cômodos, com os quatro familiares que os acolheram. A casa, de dois quartos, uma pequena cozinha e um banheiro, é dividida entre nove pessoas da mesma família. As mulheres desta família, de seita cristã, para preservarem suas identidades, e suas integridades físicas, adotaram o uso do niqab no Líbano, com medo de serem reconhecidas e mortas, pois todos tiveram suas vidas ameaçadas de morte, e a família vive sob o domínio do medo constantemente. 
Nenhuma delas mostrou o rosto em momento algum, durante a entrevista, para a nossa correspondente Therese Mourad. Para conseguir esta entrevista, nossa correspondente fez mais de três visitas a esta família, sempre lhes assegurando, e dando sua palavra de honra, que ela não as prejudicaria, ou revelaria suas identidades, e que não seria publicado absolutamente nada além do que elas quisessem falar.

Nota de esclarecimento: Todo o conteúdo relatado nessa entrevista representa as opiniões da família entrevistada, e não refletem a opinião da Gazeta de Beirute, cujo papel foi o de apenas ouvir o que a família desejava relatar. Voltamos a relatar que cristãos e muçulmanos vivem em paz, desde que não haja fanatismo religioso, de nenhuma parte, e que os muçulmanos condenam o terrorismo e o fanatismo de líderes fundamentalistas islâmicos, e é um dever principalmente dos muçulmanos de agirem contra esse tipo de “muçulmanos” que difamam os ensinamentos pacíficos e tolerantes do Islam. Respeitando a liberdade de expressão dos entrevistados, e também o sigilo da família, a entrevista a seguir apresenta-se na íntegra.

GB: Boa tarde senhoras.
As senhoras: Boa tarde.
GB: Como vocês se chamam?  
A mãe: Eu me chamo Nadia, e minha filha, Mariam.
GB: Há quanto tempo vocês estão no Líbano?
Nadia: Estamos aqui, há seis meses.
GB: Porque vieram para o Líbano?
Nadia: Por causa da guerra.
GB: Só vocês vieram se refugiar da guerra.
Nadia: Não somente da guerra, mas também das perseguições dos opositores.
GB: Eles estavam perseguindo somente vocês, em específico, ou era uma perseguição generalizada?
Nadia: Eles nos perseguiam, mas perseguiam todos os moradores do bairro em que morávamos também.
GB: E qual o porquê dessa perseguição? Vocês apoiam o Regime Sírio?
Nadia: Quando eles entraram no nosso bairro, eles nem sabiam a quem apoiávamos, eles mataram, violentaram e torturaram várias pessoas, mesmo sem saber se essas pessoas eram da oposição, ou se apoiavam o regime.
GB: Mas por que atacar pessoas assim, sem antes averiguar se eram aliados ou opositores? 
Nadia: Porque somos Cristãos, os opositores são fanáticos religiosos. Olha como estou tremendo, só de lembrar o terror que passamos.
GB: De que parte da Síria vocês são?
Nadia: Somos do governorado de Aleppo, mas prefiro não mencionar de que cidade ou distrito.
GB: Tudo bem, e o que aconteceu com vocês lá?
Nadia: No começo da guerra, eu perdi meu marido, ele morreu em Homs, quando mandava uma parenta nossa, para casa da família dela. Eu vivia com meu marido, meus dois filhos, e as três filhas. O meu filho também morreu, há seis meses, um dia antes de virmos para o Líbano.
GB: Como seu filho morreu? E quantos anos ele tinha?
Neste momento ela cai em prantos, treme muito de nervoso, e chega a passar mal. A filha lhe trás água, levanta o véu do rosto dela, para que ela possa beber a água, mas eu mal consigo ver o rosto dela. A outra mulher, uma parenta dela, entra na sala e a ajuda, ela vai se acalmando aos poucos, e depois de meia hora, retomamos a entrevista.
Nadia: Meu filho foi assassinado por esses malditos opositores, e meu filho nem entendia de política, ele tinha apenas 16 anos de idade. Eles mataram meu filho, somente porque ele tentou nos defender, eu e as irmãs dele. 
Ela chora muito novamente, xinga muito os opositores, e pede a Deus, para acabar com eles.
GB: Você quer parar um pouco?
Nadia: Não! Você veio até aqui, e agora eu vou falar tudo, para o mundo inteiro saber quem são esses opositores, e para pararem de defender esses assassinos. Eles eram 4 homens armados dentro da nossa casa, e somente 1 falava o Árabe Sírio, o restantes falava o Árabe usado no Golfo, não eram Sírios.
GB: O que exatamente você quer dizer com isso?
Nadia: O que eu quero dizer, é que hoje, todos falam que o que se passa em nosso país, é uma revolução, mas na verdade, é uma guerra gerada por vários países contra nosso país. E os que estão lutando e brigando, não são todos sírios. Há entre eles, um grande número de estrangeiros. E o que eles fizeram com nós, e continuam fazendo com os outros, é inaceitável! Vai contra os direitos humanos, contra a humanidade! O que eles fizeram, e fazem, é desumano.
GB: O que eles fizeram?
Novamente ela chora muito, para um pouco, e depois volta, e chama a filha. Pede para a filha me mostrar o braço, e o rosto, fiquei aterrorizada com o que vi, e me esforcei muito, me segurei muito, para sufocar um grito. Um grito de horror, de medo. O rosto da menina, de apenas 15 anos estava completamente coberto de cicatrizes, grandes e muito feias, cicatrizes de queimadura, acima da orelha direita, eu podia ver o couro cabeludo. Quanto ao braço direito, meu Deus! Ele está amputado na altura do cotovelo, de uma maneira muito feia, brutal, eu nunca tinha visto nada parecido de perto. E tentando controlar ao máximo as minhas emoções diante de tudo aquilo, eu perguntei:
GB: Mariam, quem fez isso com você?
Mariam: Os homens que invadiram nossa casa em Aleppo.
GB: Quem eram esses homens, Mariam?
Mariam: Eles são da oposição, eles arrancaram o crucifixo do meu pescoço, e pisaram nele, depois me levaram para a sala pelos cabelos.
GB: Porque eles te levaram para a sala?
Mariam: Porque a minha família estava toda na sala, e eu estava na cozinha. E na sala me bateram muito, em mim, e nas minhas irmãs.
Ela começa a chorar muito ao relembrar esse dia, e se sente mal, reclama de falta de ar. Tentamos acalmá-la, e pouco tempo depois, a mãe pede para ela ir se deitar no quarto.
GB: Ela está muito traumatizada...
Nadia: Claro! Ela passou por uma fase muito difícil, essa menina, é minha filha mais velha (das meninas), ela tem apenas 15 anos, e foi estuprada por todos os animais que estavam na nossa casa. Minhas outras duas filhas, de 11 e 13 anos também foram estupradas, e eu também. Por todos os 4 que estavam em nossa casa.
Ela se descontrola novamente, e treme muito de nervoso enquanto chora. Mas volta depois de uns 10 minutos.
GB: Todas vocês foram estupradas? Vocês não tentaram se defender?
Nadia: O que você esta falando? Como podíamos nos defender, diante de quatro homens armados? Quando meu filho mais velho, que Deus o guarde, viu dois deles violentando a minha filha mais nova, ele avançou para cima deles, e foi morto, com um tiro no peito e outro na cabeça. Ele morreu na hora.
GB: Nossa... Isso é muito triste, muito doloroso para uma mãe, ver o filho morrer diante dos próprios olhos, numa situação horrível como aquela, e sem poder fazer nada. Que Deus lhe dê forças para superar isso. O que aconteceu depois que eles mataram seu filho?
Nadia: Naquele momento, a Mariam, minha filha, ficou apavorada. Ela pegou o bule de café, e bateu na cabeça de um deles, o outro pegou o cigarro e passou a queimar o rosto dela. Como você viu o rosto dela está muito danificado. Ele ligou uma boca do fogão, e colocou o rosto dela no fogo, e ela perdeu o cabelo acima da orelha, como você também percebeu.
GB: E o que aconteceu com o braço dela?
Nadia: Um deles pegou uma faca de cozinha muito grande, que estava com eles, e...
Ela cai em prantos, e não consegue falar, porque é tomada pelo horror das lembranças. Quando ela se acalmou, ela continuou a falar...  
Nadia: Eles cortaram o braço da menina, sem um pingo de piedade, ela gritava, chorava, era sangue por todo lado, e eles continuavam, sem se importar.
GB: Vocês não tinham vizinhos? Ninguém escutou os gritos, ou veio ajudar?
Nadia: Claro que tínhamos vizinhos, mas o bairro inteiro estava dominado por eles, e a maioria das casas estava invadida por esses criminosos. Quem iria vir nos ajudar?
GB: E o que você fez quando cortaram o braço da Mariam?
Nadia: Eu queria leva-la ao hospital, mas claro que eles me impediram, e disseram que iriam nos matar, caso tentássemos algo. Eu limpei o corte, amarrei com uma camiseta, pois minha casa estava vazia, eu não tinha nada apropriado para primeiros socorros, em casa.
GB: E o que houve depois? Eles foram embora?
Nadia: Não...  Eles estavam já há 12 dias na nossa casa, jogaram o corpo do meu filho na porta da casa, para todos verem. E continuaram com as torturas e as maldades por mais 6 dias, até o exército invadir a área.
GB: O exército do Regime?
Nadia: Sim, que Deus os proteja, e os conduza à vitória! Eles invadiram as casas, e capturaram a maioria dos chamados “opositores”, mas alguns conseguiram fugir, e creio que se eles não invadissem nosso bairro, eu e o que restou de minha família, estaríamos todos mortos agora.
GB: O que aconteceu depois que vocês foram resgatados?
Nadia: Fomos levados para o hospital. A Mariam ficou internada por quatro dias, passou por uma cirurgia, e todos nós fomos avaliados e cuidados pelos médicos. Quando saímos do hospital, eu peguei meus filhos e vim para o Líbano, para a casa dos nossos parentes.
GB: Você pensa em voltar para o seu país?
Nadia: Claro que penso! Eu espero que essa guerra acabe em breve, e que nós possamos voltar para nossas casas. Eu tenho uma casa grande lá, eu não vivia assim. Mas agora eu tenho que me virar de qualquer maneira. Mas eu rezo para Deus, para essa guerra acabar em breve.
GB: Você não recebe nenhuma ajuda. Como vocês estão vivendo agora?
Nadia: Meus parentes nos ajudam, e tem algumas pessoas boas ao nosso redor, que sempre nos mandam ajuda, como roupas, alimentos, um dinheirinho. Meu filho está trabalhando aqui perto, em um mercadinho, e está recebendo 400.000 liras por mês. E assim estamos indo...
GB: Seus filhos não estão indo para a escola?
Nadia: Não! Como te disse, eu não me registrei como refugiada, e no momento, prefiro que eles fiquem em casa.
GB: Por quê?
Nadia: Porque sofremos discriminação aqui, eu me sinto mais segura com eles em casa, perto de mim.
GB: Que tipo de discriminação?
Nadia: Por apoiarmos o Regime do Dr. Bashar El Assad.
GB: E porque você o apoia? Ele também é acusado de cometer crimes contra os civis.
Nadia: Na verdade, o nosso regime precisa de alguns melhoramentos, e de renovar algumas leis, mas isso não significa que necessitava de guerra. Antes dessa guerra civil, tínhamos tudo em nosso país, hospitais públicos decentes, ensino público decente, as famílias carentes recebiam ajuda do governo com alimentos e abastecimento para o inverno. E outra coisa, o nosso povo sempre viveu junto, em paz e harmonia, cristãos e muçulmanos. Nunca houve esse tipo de guerra lá, nem mesmo atritos.
GB: Mas isso é por causa das regras da ditadura, que proibia o povo de falar sobre política e religião, certo?
Nadia: E não é melhor proibir? Isso é liberdade? O que eles estão fazendo, pode ser definido como liberdade? Olha o que aconteceu quando ganharam a liberdade para falar sobre religião! Agora, mais do que nunca, eu dou toda a razão para o Dr. Bashar proibir tais assuntos. Primavera Árabe? Olhe ao nosso redor... Iraque, Líbia, Iêmen, Egito... Isso não é Primavera Árabe! Isso é fanatismo! E eu posso falar mais uma coisa?
GB: Claro, fique a vontade.
Nadia: Quem fez essa guerra contra o nosso país foram os EUA, Israel e seus aliados. Porque nosso país sempre apoiou a causa Palestina, mas estou enforcada, e quero muito falar...
Ela chora novamente...
GB: O que você queria falar?
Nadia: Eu quero falar para ao Presidente Obama, e a todos os aliados dele, que eu desejo do fundo do meu coração, que aconteça para as filhas deles, e as filhas de todos os que ajudam esses terroristas animais a entrarem em outros países, o mesmo que aconteceu conosco. E eu quero ver, ele cruzar os braços, e não fazer nada, como ele acha que o nosso presidente deve fazer.
GB: Nadia, muito obrigada pela entrevista. Mesmo passando por um momento tão delicado, sensível, e doloroso, eu agradeço pelo voto de confiança.   
Nadia: Obrigada você por me ouvir, e me aguentar. Eu sei que essa entrevista levou muito tempo, você ficou aqui conosco por 4hs, e eu sou grata por isso.
GB: Você gostaria de dizer mais alguma coisa, antes de encerrar?
Nadia: Somente pedir a Deus, que a paz volte a reinar em nosso país, e em todo o mundo.

THERESE MOURAD
Gazeta de Beirute
Share on Google Plus

About beirut lebanon

This is a short description in the author block about the author. You edit it by entering text in the "Biographical Info" field in the user admin panel.

3 comments:

  1. Perdi o folego

    Carla

    ResponderExcluir
  2. Primeiramente, parabens pela entrevista, forte, e muito delicada ao mesmo tempo. Sinceramente muito real, tomara que os muculmanos fiquem contra essa gente que atrapalha toda comunidade islamica

    ResponderExcluir
  3. Poxa que situacao terrivel, e ainda tem gente que defende esses rebeldes, eles so estao vendo um lado da moeda, mas nao estao vendo as consequencias se esses radicais alcancarem o poder.

    ResponderExcluir