Os Sem Teto de Beirute


A questão dos sem teto até pouco tempo atrás, era um assunto incomum à sociedade libanesa, devido a tantas outras questões sociais enfrentadas pelo país, ninguém ainda havia dado atenção à existência dos moradores de rua, que estão em um número crescente, e preocupante, em Beirute. Depois da morte de Ali Abdullah, o morador de rua ícone da Bliss Street, há cerca de dois meses, em virtude do frio, a sociedade indignada se mobilizou a dar maior atenção à existência dessas pessoas que vivem à margem da sociedade por falta de opção, e surgiram desde então, ONGs e grupos de ajuda que iniciaram vários movimentos e mutirões em prol da caridade coletiva.

Além dos grupos citados em Janeiro, na matéria sobre a morte de Ali Abdullah, recentemente foi lançado um site chamado “Find Ali”, que também possui uma página no Facebook, que permite que os usuários compartilhem a localização e descrição de um sem teto encontrado na rua, para que a ajuda necessária possa ser enviada. Apesar das estimativas contabilizarem um total de 150 moradores de rua em Beirute, Karim Badra o fundador do Find Ali, afirma que este número não é preciso, porque não leva em conta os que vivem em moradias precárias, e que também precisam de ajuda diariamente. "Há muitas pessoas que não são, necessariamente, sem teto, mas estão vasculhando o lixo e pedindo dinheiro".

A questão dos sem teto tornou-se mais crítica depois do enorme afluxo de refugiados sírios no país, muitos dos quais não têm o apoio da família, para voltarem para casa. Muitas dessas famílias perderam tudo na Síria, e estão vivendo em condições sub-humanas no Líbano. A sociedade não deveria conseguir simplesmente dar as costas para isso e manter-se em seus lares confortáveis, porque essas pessoas são seres humanos, há milhares de crianças envolvidas e desamparadas, o governo tem feito o que pode para ajudar, bem como ONGs e órgãos da ONU, UNICEF e outros, mas falta um pouco mais de engajamento social e atenção, por parte da sociedade.

Conforme a noite avança, a classe mais empobrecida do Líbano começa a encher as ruas movimentadas de Beirute, incluindo crianças pedintes, um sinal do crescente problema no Líbano em relação aos sem teto, e das pessoas que vivem em extrema pobreza. Albert Kassis, de 75 anos, vive na Hamra Street, todos os seus pertences, toda a sua vida e o que lhe restou, estão dispostos em sacolas plásticas, que ele não perde de vista, porque disse que já lhe roubaram. Ele carrega as pesadas sacolas durante toda a noite pelas ruas de Beirute, de Mar Mikhael a Hamra. 

Kassir não é pedinte, e nem tampouco incomoda os transeuntes, mas aceita com profunda gratidão, as doações de comida e dinheiro, de quem passa pela Hamra Street e o enxerga vivendo na rua. Organizado, educado e culto, Kassis fala muito bem o francês além do árabe, e não perde a oportunidade de mostrar a quem lhe dedica alguns minutos de atenção, suas habilidades de linguagem, e sua mais rica herança: a educação! 

Indignado com o número crescente de crianças pedintes nas ruas, Kassir afirma que elas são exploradas por adultos, e dependem de caridade e bondade humana para suprir suas necessidades básicas. Kassis passa a maior parte de seu tempo lendo jornais, porque segundo ele, literatura é um luxo à que não tem mais direito. Ele conta que antes de se tornar um sem teto, há 20 anos, ele era dono de uma livraria em Gemmayzeh, mas após a morte de seus pais, e sem ninguém para cuidar dele, ele foi abandonado, embora tenha dito também, possuir um irmão num subúrbio pobre de Paris.

O que lhe restou, e pode ser considerado o mais próximo possível de uma família, são as pessoas que lhe dedicam alguns minutos de conversa, ou generosamente lhe doam algo. Jaques Saade, um fornecedor de mankoushe, lhe deixa receber ligações em sua loja, em manifestação de amizade, mas Kassis ainda procura um lugar seguro para abrigar seus pertences, se instalar e dormir.
  


Visite o Site “Find Ali”, você também pode ajudar: 

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CLAUDINHA RAHME
Gazeta de Beirute




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2 comments:

  1. Uns com tanto e outros sem nada!Mas esse senhor bem que merece atençao...nao é justo ter que viver assim ainda mais um idoso!

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  2. Quando fui ao Líbano em 2000 não vi morador de rua e pedinte,achei estranho.Lamento que hoje tem aumentado o numero de moradores de rua.
    Aqui em Belo Horizonte em MG tem cerca 2.800 moradores de rua um numero muito grande.

    José Muanis Bhering Nasser.

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