Sistema Falho de Saúde Requer Mudanças

Foto: moph.gov.lb

O chocante caso do bebê Moemin al-Mohammad, que morreu na porta de um hospital, após vários hospitais terem se recusado a oferecer-lhe tratamento, por ele não ter convênio médico e seus país não estarem em posse de todo o montante solicitado pelo hospital, não é novidade para os que utilizam o falho sistema de saúde do Líbano, onde metade da população também não tem convênio médico, correndo o risco de se tornar a próxima vítima. 

O número de leitos em hospitais público é de 2.250, porém Sleiman Haroun, Presidente da Associação de Hospitais Privados, diz que o número está mais perto de 1.400. De qualquer forma, a área da saúde é dominada por nove mil leitos privados, e é bem provável que a maioria das áreas de emergência mais próximas, sejam mais privadas, do que públicas.

Cerca de dois milhões de pacientes sem convênio médico são admitidos em hospitais privados diariamente, de acordo com o convenio entre os hospitais e o Ministério da Saúde, porém existe um limite financeiro estipulado pelo Ministério em cada instituição, e quando um dos hospitais da rede ultrapassa esse limite (como o que aconteceu no Hospital Al Chifae de Trípoli, no caso do bebê Mohammad), ele não admite pacientes, à menos que ele apresente necessidade de extrema urgência em receber atendimento médico, e não possa ser transferido para outra instituição. 
  
Quando Khaled, o pai do bebê, levou seu filho para o Al Chifae, ele precisava pagar US$1.000 para que seu filho fosse admitido, e Haroun disse que a criança foi considerada "transferível". Situações semelhantes ocorreram nos demais hospitais em que o pai levou o bebê, e enquanto a família tentava encontrar um leito para a criança e recolher o montante solicitado pelos hospitais, o pequeno Moemin estava morrendo. Haroun diz que o bebê morreu em virtude da estupidez do falho sistema de saúde do país, que levou literalmente ao pé da letra as regras estabelecidas, e que remover o teto financeiro pré estabelecido, é a única maneira de consertar o ineficiente sistema de saúde do país.

Shadi Saleh, Presidente do Departamento de Gestão de Saúde e Política Pública da AUB, diz que não se pode transformar agora o hospital em um bode expiatório, visto que vários outros hospitais também estiveram envolvidos no caso, e que de fato, a culpa é do sistema em geral. "Na maioria dos países do mundo, é uma prática ética de qualquer hospital que tenha uma sala de emergência, o dever de aceitar pacientes em casos de emergência, independentemente dos familiares terem ou não, capacidade de pagar", diz ele. 

Há quase um ano, o Ministro da Saúde, Ali Hasan Khalil, prometeu um plano de cobertura para os libaneses sem convênio médico, porém este plano ainda não foi apresentado na agenda do gabinete do Ministério. O que existe até o momento, é apenas um estudo, realizado por uma Comissão Ministerial, que vem se reunindo frequentemente para discutir de onde o financiamento virá, mas que ainda não encontrou soluções. O objetivo desse novo plano prevê o fornecimento de medicação e hospitalização para doenças crônicas e exames em clinicas do ministério.

 "A única solução real para isso, é a criação de uma cobertura de saúde universal. Tudo o mais que é feito, continua a ser uma solução de curto prazo, que não vai impedir que algo assim, volte a acontecer", disse Saleh, que acredita que, independente dos custos, os cuidados com a saúde universal seja uma questão de grande importância, e de segurança nacional, mais importante do que o que está sendo discutido no momento, pelos políticos, em termos de leis eleitorais parlamentares, e modificações salariais, porque ele supõe que para a maioria dos libaneses, o acesso à saúde seja uma de suas prioridades. E complementa, afirmando, que basta olhar para a situação, por um ângulo socioeconômico, para perceber que as classes menos favorecidas, é que são as mais prejudicadas pelas falhas do sistema. 
Porém, Haroun acredita que um sistema de saúde universal seja uma utopia inacessível, ele diz reconhecer as falhas existentes no sistema, sabe onde elas estão, e que decisões para corrigir isso devem ser tomadas pelo governo.

 O Prefeito de Burj al-Arab, em Akkar, Aref Shukhaydem, diz que a pobreza causou essa fatalidade, e que embora o pai do bebê, que trabalha como policial municipal na aldeia não seja uma pessoa menos desprovida, infelizmente acabou se tornando uma vitima de um sistema inflexível e injusto. Shukhaydem disse ainda, que Khaled al-Mohammad, em nenhum momento demonstrou não poder pagar o que os hospitais estavam solicitando, ele apenas não dispunha daquela quantia em seu bolso, naquele momento. 

Buscar um leito para socorrer seu filho naquele instante era o mais emergente, e assim que ele conseguisse assegurar o atendimento ao seu filho, ele traria o montante solicitado, mas a falta de humanidade e o vicio de prender-se a regras burocráticas destruiu uma família e tirou a vida de uma criança. 

E ele ainda se questiona: “E aqueles que realmente não tem dinheiro? Não tem direito de salvar um ente, um filho?". 

O prefeito disse ainda, que um médico do Hospital Al Chifae, foi ainda mais longe em sua intransigência, questionando a mãe de Moemin sobre o porquê de ela ter tido três filhos, quando ela não podia pagar pelos cuidados de saúde para eles. A família apresentou queixa contra várias pessoas envolvidas no incidente, e o prefeito prometeu que não vai ficar em silêncio, e vai continuará aumentando sua voz, em prol da sociedade, para que isso não aconteça novamente com outra pessoa.  

CLAUDINHA RAHME
Gazeta de Beirute

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