A Saga do Clã Jaafar Continua…



O impasse no sequestro de Hussein Kamel Jaafar, membro de um dos clãs xiitas mais proeminentes do Líbano, desestabilizou a tribo do finado Ali Hamad Jaafar, ameaçando a construção de mais de um século, do relacionamento de boa vontade com seus vizinhos sunitas, dentro dos costumes e tradições, que remontam da época da Arábia pré-islâmica.  Jaafar foi sequestrado em Arsal na última semana, e levado para Yabroud, na Síria, os sequestradores pediram resgate de US$ 1milhão. 

Os Jaafars, em retaliação, sequestraram oito membros de célebres famílias de Arsal, liberando quatro deles no dia seguinte, e sequestrando outros dois na segunda-feira, onde um deles também foi libertado, horas depois. O ciclo se repetiu durante toda a semana, levando o clã a realizar uma reunião de emergência, onde os líderes declararam que não iriam mais tolerar sequestros. No entanto, horas mais tarde eles sequestraram Khalid Hujeiri, mas o entregaram às autoridades, pouco tempo depois. 

Aref Jaafar, um dos mais jovens do clã, afirmou que o ciúme de alguns na concorrência pela liderança tradicional, e a incapacidade de estabelecer a paz interna, preservando o relacionamento da família com as autoridades, características únicas do finado Ali Hamad Jaafar, são os responsáveis por esse caos e confusão que ele chama de "crise de za'ama”. Ele afirmou ainda, que os que possuem influência fora da família, são fracos dentro da mesma, e não podem tomar decisões internas. 

Porém os que são fortes dentro da família, não contam com o apoio de ninguém de fora do clã, gerando confusão e nítidas divisões internas. Como ocorreu na última semana, onde Nafez Jaafar reuniu 30 homens do clã em Hermel, respondendo em nome do grupo, deu uma entrevista a um repórter, e Yassin Ali Jaafar, filho do finado Ali Hamad Jaafar, se encontrou com o Secretário Geral do Movimento Futuro, Ahmad Hariri, em Beirute, se apresentando como chefe do clã, para discutir a crise dos reféns.

"Nós queremos lidar com isso como famílias, a fim de preservar os laços fraternos entre nós. Se eu estou em dívida com um funcionário em Beirute, então eu não sou mais atraente com um filho de Arsal, baseado em minha honra, como um filho do clã Jaafar”, disse Nafez Jaafar. 

A base da identidade dos clãs é formada pelos valores estabelecidos nos laços criados pelas gerações passadas, e isso também tem causado impacto com os lideres de Arsal, que negam envolvimento no sequestro. Porém o clã Jaafar afirma que de acordo com o código de conduta regido pelos clãs, Arsal é responsável não apenas pelo sequestro de um de seus membros, mas também pela segurança de cada pessoa que passa por seu território, tradição que protegeu Baalbek-Hermel na luta sectária, durante a guerra civil. “Nós somos vizinhos de Arsal, e sabemos que um sírio não poderia entrar em Arsal, a menos que alguém da cidade o ajudasse.”
O código de conduta entre os clãs tem diversas regras estabelecidas, no estilo “acordo de cavalheiros”, onde nada é escrito, mas as palavras proferidas por seus líderes durante o pacto é considerada lei. O código, que é passado de geração em geração, prega também, que um vizinho do clã, é mais caro que o próprio irmão, portanto, o respeito ao próximo também é muito valorizado e preservado entre eles, que rejeitam qualquer forma de política sectária.

As lutas atuais pelo poder, que podem enfraquecer o clã, não incomodam Aref Jaafar que acredita, que em algum momento, alguém conseguirá resolver isso, embora leve algum tempo. Ele acredita também que é improvável que um estado civil seja estabelecido na estrutura do clã, e ele espera que os aspectos negativos da cultura, como feudos de sangue, sejam eliminados, e que a má fama criada em torno dos clãs, é culpa do Estado libanês e de partidos políticos, que afundaram a situação econômica do Bekaa, e empurra algumas pessoas no envolvimento de atividades criminosas, como tráficos de drogas e roubos de carro, que são frequentemente associados a membros de clãs da região.

Ele afirma também, que a nova geração nos clãs, é mais educada  e participativa na vida cívica, e estão derrubando os estereótipos negativos em torno dos clãs, e que embora eles sejam famosos por atos de vingança, muitas da praticas do passado não são mais exercidas, e que as retaliações contra os moradores de Arsal, em virtude do sequestro de um dos seus no território deles, não é classificada como vingança, mas uma forma de pressão.

ENTENDENDO AS TRIBOS DO BEKKA

Originários das tribos árabes da região, os clãs do Líbano, são conhecidos por sua rica história e títulos inquebráveis, e fazem parte dessas famílias as que são consideradas como famílias fora da lei. O clã Jaafar é uma das maiores dessas famílias, localizadas em Hay Al-Sharawneh, no norte do Vale do Bekaa, famoso reduto da família que conta com mais de 200 mil membros. Desde o século V, os clãs se basearam em Trípoli e Beirute, e posteriormente deslocaram-se para a região do Bekaa, onde permanecem até hoje. 

Os clãs atuais compartilham um mesmo clã ancestral: o clã Hamadiyeh. Na geração dos Hamadiyeh, houve duas ramificações principais: O clã dos Chamas, e o clã dos Zaaiter. 
Dentro do clã Zaaiter, existem os Meqdads, Haj Hassan, Noon, Shreif e os Jaafars. 
Dentro do clã Chamas existem os Allaw, Nassereddine e os Dandash. 
Segundo Saadoun Hamadeh, autor do livro “A História dos xiitas no Líbano”, os clãs do Líbano iniciaram-se com 80 ou mais tribos, e hoje se resumem, em aproximadamente 35 tribos, que podem ser tribos muito grandes e outras bem pequenas, e estão situados no Bekaa, no Monte Líbano e em Baalbek-Hermel.

No tempo otomano, quando os comboios de prisioneiros passavam pelas terras da aldeia de Taraya, os cativos eram desacorrentados antes de se aproximarem da aldeia, e amarrados novamente depois de terem passado por ela. Segundo o folclore local, essa prática teria durado 200 anos sob o domínio otomano, em acordo com um decreto emitido pelo próprio Porte Alto, porque se os moradores do clã de Hamiyeh vissem estranhos algemados em seu território, eles se sentiam na obrigação de ajudá-los e liberta-los. 

"Ajudar os desafortunados e oprimidos, protegê-los e honrá-los, é uma das tradições herdadas dos clãs da região de Baalbeck-Hermel, entre outros costumes e valores, como a generosidade, a hospitalidade, coragem, cavalheirismo e a reconciliação", diz Abu Ali, o mais velho (80 anos), do clã Sabah Hamiyeh. Mas ele diz que a má fama atribuída aos clãs, nos dias atuais, o entristece, porque é dito que os membros dos clãs são bandidos e monstros assustadores, que estão sempre armados e atirando contra qualquer um que cruza suas terras e aldeias, e que isso não é verdade. 

Abu Ali explicou que um clã é a união de uma família formada por descendentes de um único ancestral. Eles casam-se entre si, se mantêm unidos, apoiando-se mutuamente em seus assuntos e interesses, e lutam contra a injustiça cometida contra os seus membros, no estilo “um por todos e todos por um”, e que essa prática existe em qualquer família dos clãs, mesmo nas famílias pequenas. Kamel Zaaiter, o ancião de 90 anos do clã Zaaiter, concorda com Abu Ali, e afirma que um clã se baseia em valores e tradições, e é equivalente a um “mini governo”, com presidente e ministros que se reúnem para tomar decisões, que protejam os interesses dos membros, bem como resoluções de disputas e problemas, que surgem dentro e fora do clã. 
Zaaiter disse também, que ele mesmo, é ainda reconhecido como um mediador e conciliador, na resolução de conflitos, tanto entre os Zaaiters como com membros de outras famílias. Zaaiter tem para contar, muitas histórias sobre vinganças e reconciliações, entre os clãs, no passado, e também sobre suas alegrias e tristezas. E relembra o papel desempenhado pelas tribos do Bekaa durante a resistência à ocupação otomana e francesa. Entretanto, os anciãos dos clãs remanescentes, afirmam que os clãs não são o que costumavam ser, que o que foi um dia conhecido como a única autoridade desapareceu, e já não existe mais. 

Não existe mais o líder de um clã, ou o mais velho, que tem o poder de tomar decisões e a palavra final, devido à dispersão dos clãs, e do rompimento de pequenos grupos familiares de diversos tamanhos, minando a gestão coletiva dos assuntos do clã. A filiação de membros do clã em partidos políticos também enfraqueceu os clãs, criando lealdades divididas, e comprometendo a independência do clã, perturbando seus saldos, criando divisões, especialmente quando outros membros permanecem fora desses partidos e não têm a quem recorrer, porque o Estado não oferece qualquer suporte ou prestação de serviços aos clãs.  

A dissipação da autoridade, na ausência de um líder, resultou na criação de vários centros de decisão dentro do clã, e as decisões tomadas em reuniões já não são mais vinculativas como no passado, porque dependem da quantidade de respeito, ou capacidade de respostas que podem ser comandadas, diz Mufleh Allaw.  Jaafar disse que seu pai, o ex-deputado Hamad Jaafar, concluiu um "pacto" com os clãs e famílias de aldeias locais, que proibiam vinganças. Isso deu início à era de respeito pela lei, onde apenas os criminosos eram punidos, e não suas famílias, ou membros dos clãs acusados de assassinato, para as autoridades de segurança. Os clãs trabalhavam dentro das instituições do Estado de direito, preservando suas tradições e valores, e abandonando práticas que denegririam sua reputação.

As mortes por vingança são práticas erradas que prejudicam os clãs, e os anciãos preferem apagar as imagens negativas de que os clãs são reforçados pelos incidentes de violência, e tentam salientar os aspectos positivos que eles encarnam. E reafirmam que a lealdade do clã, com base em laços de sangue, é menos prejudicial que o confessionalismo sectário existente nos partidos políticos do Líbano, onde a comunidade apoia suas seitas, elas estando certas, ou erradas, e os partidos políticos, visam apenas interesses próprios, de seus partidários e simpatizantes, que tentam através de uma quota de poder e influência, distribuir clientelismo, à custa de cidadãos, não partidários. Abu Ali vai além, e diz que o problema está no fanatismo libanês que visa interesses pessoais, ou individuais, sobre o bem comum ou nacional e causa a desintegração de tudo.

Os clãs não costumam contar seus membros de forma convencional, mas pela quantidade de fuzis que eles possuem, indicando assim, quantas pessoas possam estar dispostas e capazes de porta-las. Os Meqdads afirmam ter cerca de 10 mil homens, mas o braço armado do clã consiste em 1.500 corpos e outros 1.000 em espera. Embora eles sejam originalmente do Bekaa, sua presença é muito mais perceptível no Dahiye, subúrbio sul de Beirute. O representante dos Allaw, no entanto, afirma que cada clã possui membros treinados, e dispostos a portar armas, se for necessário, porém não significa que isso seja uma estrutura militar dos clãs, que a mídia fantasia muito sobre isso.

Allaw diz que eles são treinados, em virtude de alguns serem filiados a grupos e facções armadas, e por possuírem um treinamento mais profissional, obviamente se tornam instrutores de parentes no clã, para que eles saibam manejar o armamento pesado, mas que não passa disso. Ele afirma ainda, que o vínculo entre membros do clã, é diferente do vínculo sectário dentro de certos partidos políticos, e por isso, existem seitas distintas dentro dos clãs, que possuem e respeitam suas próprias leis, e possuem um juiz próprio também, que toma conta dos feudos, sem interferências do Estado. 

Quando o Hezbollah e o Amal tentaram entrar nessas regiões, na década de 80, com ideais sectários e tentando controlar os clãs, eles foram rejeitados, o que desencadeou diversos confrontos, e combates pesados entre os clãs do Bekaa, e os dois grupos. Entretanto, a partir de 2005, quando libaneses xiitas começaram a se tornar alvo de tensões sectárias, eles passaram a ter um pouco mais de compaixão pelo Amal e pelo Hezbollah.

CLAUDINHA RAHME
Gazeta de Beirute
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