Doença pulmonar obstrutiva crônica


Foto: vidanovasemdrogas.com.br

A doença pulmonar obstrutiva crônica, ou simplesmente DPOC, é o termo usado para um grupo de doenças pulmonares, caracterizado por obstrução crônica das vias aéreas dentro dos pulmões. Dentro deste grupo, duas doenças se destacam: Bronquite crônica e Enfisema pulmonar
Os brônquios e os alvéolos são submetidos a substâncias agressivas, e passam por um processo de inflamação crônica no decorrer dos anos. Quando os brônquios ficam mais estreitos, e produzem muito catarro, está caracterizada a bronquite crônica. Se os alvéolos começam a se romper e formar bolhas, trata-se do enfisema. 

Para se entender o que é a doença pulmonar obstrutiva crônica, é preciso primeiro, ter noções básicas da anatomia e do funcionamento dos pulmões. Quando inspiramos, o ar entra pelas vias aéreas superiores e chega à traqueia, esta se bifurca, formando os brônquios principais, cada um indo em direção a um pulmão, conforme avançam para o interior dos pulmões, os brônquios se ramificam em segmentos menores, chamado de bronquíolos, que por sua vez, terminam nos alvéolos.

Os alvéolos são microestruturas em forma de sacos, altamente 
vascularizadas, responsáveis pelas trocas gasosas. O sangue que chega aos alvéolos recebe o oxigênio inspirado, e entrega de volta o gás carbônico para ser exalado na expiração. É comum o paciente ter as duas doenças ao mesmo tempo. Ambas apresentam sintomas como falta de ar, secreção, deficiência respiratória mediante esforços. A bronquite provoca ainda tosse e expectoração.

Definição de DPOC: 
A doença pulmonar obstrutiva crônica caracteriza-se por uma limitação da passagem de ar pelas vias respiratórias, dentro dos pulmões, principalmente durante a expiração. O ar consegue entrar, mas apresenta dificuldade para sair, ficando preso dentro dos pulmões. Este aprisionamento do ar ocorre pela destruição do tecido pulmonar, e perda da elasticidade dos bronquíolos e alvéolos, que acabam por colapsar durante a fase expiratória do ciclo respiratório. 

A destruição dos bronquíolos e alvéolos, também é responsável pela perda de capacidade do pulmão em realizar as trocas gasosas, fazendo com que o paciente não consiga aproveitar o oxigênio respirado, nem expelir adequadamente o gás carbônico (CO2) produzido. A DPOC costuma ser uma doença progressiva, causada por uma resposta inflamatória anormal dos tecidos pulmonares, após exposição crônica a partículas ou gases nocivos, como o fumo, por exemplo. Cerca de 20% dos fumantes desenvolvem DPOC.  Outras causas mais raras de DPOC incluem doenças genéticas, como deficiência de alfa-1-antitripsina, exposição crônica a poeira tóxica, como nos casos de mineração de carvão, fumaça de soldagem.  

A queima de biomassa, é que libera substâncias tóxicas (lenha, queimadas, queima da cana-de-açúcar, por exemplo), e fatores ocupacionais (exposição a substâncias nocivas). Ao contrário dos quadros de asma comum, cuja obstrução só existe durante os períodos de crise, a obstrução do DPOC é constante e irreversível. Bronquite é um termo que significa inflamação dos brônquios. Na asma, a bronquite é aguda e reversível. No DPOC ela é crônica e permanente. Porém, é muito comum esses doentes apresentarem episódios de asma sobrepostos a sua doença, ou seja, uma bronquite aguda em cima de um quadro de bronquite crônica.  

Muitas vezes os sintomas são negligenciados pelo próprio paciente, que considera a tosse apenas um pigarro, e a falta de ar apenas uma indisposição, para realizar atividades habituais. Só em fases mais avançadas, ele vai sentir-se doente, apesar de já estar doente há algum tempo. As consequências dessas doenças podem ser altamente impactantes. Muitas pessoas se tornam incapazes de fazer algum esforço físico, e podem ter uma perda respiratória que provoque a morte. À medida que, a doença progride, atividades banais como vestir-se, caminhar, ou comer, causam extrema falta de ar.

Bronquite Crônica X Enfisema Pulmonar

Na bronquite crônica a lesão pulmonar se localiza nos brônquios e bronquíolos, tornando-os cronicamente inflamados, espessos e com constante produção de muco (catarro). O paciente com bronquite crônica apresenta além dos sintomas de falta de ar e cansaço, um quadro de tosse crônica com expectoração. O enfisema se caracteriza pela destruição e alargamento dos bronquíolos terminais e alvéolos, que perdem sua elasticidade, e favorecem o aprisionamento do ar dentro dos pulmões. 

No enfisema notamos uma hiperinsuflação, mantida dos pulmões, devido ao ar que nunca sai por completo.Na prática clínica o que encontramos, na verdade, é uma sobreposição entre as duas doenças. O doente com DPOC pode ter um quadro com mais características de bronquite crônica, mas apresenta sempre algum grau de destruição dos alvéolos e hiperinsuflação. O mesmo ocorre no enfisema, que costuma ter também, algum grau de produção de muco e tosse crônica. Por isso, o termo DPOC é mais adequado para definir a doença destes pacientes.

Sintomas da DPOC: 
A maioria dos pacientes que desenvolvem DPOC, apresentam um histórico de fumo prolongado, de pelo menos 1 maço de cigarros por dia, durante 20 anos. A doença começa normalmente a se manifestar após os 40 anos de idade. O primeiro sintoma perceptível costuma ser tosse matinal com expectoração. Porém, um sinal que costuma passar despercebido pelo paciente e seus familiares, é o sedentarismo progressivo. Devido ao cansaço e a falta de ar, que os esforços começam a produzir, o paciente vai, progressivamente, limitando suas atividades diárias, até o ponto em que, depois de alguns anos, a doença está tão avançada, que mesmo em repouso, sente-se cansado e com falta de ar. 

Como a DPOC acomete pessoas mais velhas, o cansaço e a falta de ar aos esforços são normalmente atribuídos ao envelhecimento e ao cigarro, não despertando muita atenção inicialmente. Conforme a doença progride, a tosse e a expectoração começam a ficar cada vez mais freqüentes, a falta de ar tornar-se limitante, e a produção de muco e a destruição dos tecidos pulmonares, favorece o aparecimento de infecções, como a pneumonia e o broncoespasmo (chiado no peito), que começam a ocorrer com frequência.

Dependendo do tipo de DPOC predominante (bronquite crônica ou enfisema), o paciente costuma apresentar duas aparências distintas:

•O enfisematoso é muito magro, desnutrido, com a caixa torácica aumentada, chamada de tórax em barril. É um doente com importante hiperinsuflação do pulmão, e dificuldade para por o ar para fora, respirando como se estivesse sempre assoprando. 

O bronquítico crônico costuma ser mais para o obeso, cianótico (tom arroxeado da pele por falta de oxigenação adequada), com tosse frequente, e grande produção de catarro.

Mas, é bom lembrar que estamos falando em extremos de um espectro de manifestações clínicas, que podem ocorrer na DPOC. A maioria dos doentes apresenta um pouco de cada uma das características acima.


Conforme a DPOC progride, outras doenças podem surgir como complicações, sendo as mais comuns: 
Depressão, Insuficiência cardíaca, Osteoporose, Hipertensão pulmonar, Pneumotórax, Câncer de pulmão, Anemia.

Diagnóstico da DPOC: 
Conforme a DPOC destrói o tecido pulmonar, e dificulta a eliminação do ar respirado, além da hiperinsuflação, bolhas de ar começam a se formar dentro dos pulmões, podendo ser facilmente identificadas na radiografia de tórax, ou tomografia computadorizada (TC) do pulmão.

Outro exame útil na avaliação da DPOC é a gasometria arterial, uma simples análise do sangue arterial que fornece os valores de oxigênio e gás carbônicos (CO2) circulantes. Como já referido, pacientes com DPOC, apresentam oxigenação baixa e elevada retenção de CO2.

Porém, o melhor exame para o diagnóstico da DPOC é a espirometria, também chamada de prova de função pulmonar. Neste exame o paciente respira através de um pequeno tubo enquanto um computador registra vários parâmetros respiratórios que servem para o diagnóstico das doenças pulmonares. A espirometria consegue detectar a DPOC em estágios iniciais mesmo antes de o paciente perceber os sintomas.

Tratamento: 
A DPOC não tem cura, costuma ser uma doença progressiva, e é fatal em casos avançados. Portanto, ainda que haja tratamento visando retardar sua progressão, a única atitude realmente eficaz é a prevenção, ou seja, NÃO FUMAR. Uma vez que o paciente já tenha DPOC, o fator individual que mais ajuda a desacelerar a doença, é parar de fumar imediatamente. A terapia medicamentosa visa principalmente aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. 

Broncodilatadores inalatórios, ajudam a diminuir a obstrução dos brônquios temporariamente, facilitando o fluxo de ar dentro das vias respiratórias. Durante períodos de exacerbação da doença, como há grande inflamação das vias aéreas, o uso de corticóides por via oral ou venosa durante alguns dias, é importante para ajudar na reversão da crise. Fora das crises os corticóides só estão indicados naqueles casos com pouca resposta aos broncodilatadores, e mesmo assim, são administrados apenas por via inalatória.

Quando as exacerbações são causadas por infecções, o uso de antibióticos é imprescindível. A vacinação contra gripe, e contra o pneumococo (bactéria que mais causa pneumonia), é importante, para diminuir a incidência de complicações respiratórias. Exercícios de reabilitação pulmonar são importantes, por melhorarem a qualidade de vida, e reduzirem o número de internações hospitalares.

Nos casos mais avançados, quando o paciente já apresenta hipoxemia (baixa de oxigênio no sangue) persistente, o uso de oxigênio suplementar está indicado. A quantidade e o período em que o paciente deve ficar com oxigênio suplementar, é decisão médica, podendo ser indicado apenas ao dormir, durante esforços, ou ininterruptamente, nos casos mais graves. 

Pacientes com DPOC devem evitar viagens de avião sem consentimento médico, devido a baixa concentração de oxigênio dentro das cabines. Nestes casos o uso de oxigênio pode ser necessário, mesmo para aqueles que não apresentam hipoxemia relevante ao nível do mar.
Quando as bolhas de ar tornam-se muito grande, e passam a comprimir os pulmões, pode-se indicar cirurgia para removê-las.

Recomendações:
Se você fuma, abandone o cigarro. A suspensão do fumo impede a progressão da doença, porém não reverte o processo. Os danos aos alvéolos são permanentes e os sintomas do enfisema permanecem. Novos tratamentos que buscam minimizar seus efeitos vêm sendo testados com sucesso.

•Execute as tarefas enquanto estiver expirando.

•Adote o critério de respirar com os lábios contraídos (posição de assobio), deixando, apenas uma passagem pequena para o ar, e inale pelo nariz.

•Expire vagarosamente e com firmeza.

•Pare e descanse, assim que sentir a falta de ar.

•Inale oxigênio suplementar, sempre que necessário.

•Planeje seus afazeres. Defina o meio mais eficiente, e menos cansativo, para executar suas tarefas.

•Estabeleça prioridades. Você não pode executar tudo da forma que estava acostumado. Escolha o que é prioritário.

•Controle-se. Mantenha um ritmo lento e contínuo para executar suas tarefas. Evite concentrá-las em determinados momentos.

•Estabeleça períodos de descanso ao longo do dia.

•Para vestir-se, barbear-se ou aplicar maquiagem, sente-se.

•Sempre que possível, use roupas folgadas e fáceis, de vestir e de despir.

•Se você estiver acima de seu peso, emagreça. O esforço para suportar o peso excedente é grande e desnecessário.

•Coma alimentos com pouca gordura e muita fibra.

•Nas relações sexuais, aprenda a valorizar as atitudes preliminares: conversar, tocar, beijar e afagar. Planeje sua atividade sexual para os dias que estiver com mais energia, não tente fazer sexo quando estiver cansado (a), ou após uma refeição substancial. Peça ao parceiro (a), para ser mais ativo (a).

•Por essa razão, o tratamento deve ser seguido durante toda a vida. 

•A base da medicação é por via inalada.

•Exercícios também são recomendados para reabilitar o pulmão.

A lesão pulmonar causada pela DPOC é parcialmente irreversível, mas os sintomas podem ser tratados.
Quanto mais precoce o diagnóstico, mais eficaz é o tratamento. É melhor prevenir a doença e, se isso já não for possível, ficar atento aos sintomas, e procurar auxílio médico para diagnosticar precocemente a doença.

Lea Mansur
Gazeta de Beirute
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