Há cinco anos ela tenta ver os filhos


Esta semana, Therese Mourad esteve com uma brasileira, que se separou do marido por não suportar mais a violência doméstica. Há cinco anos ela tenta ver os filhos, autorizada pela justiça libanesa, mas o ex-marido não a deixa ver os próprios filhos... Acompanhe a entrevista.

GB: Boa tarde Samira, eu recebi a informação de que você é brasileira, isso procede?

Samira: Boa tarde. Sim, sou brasileira, mas com descendência libanesa.

GB: E há quanto tempo você mora no Líbano?

Samira: Para falar a verdade, eu estou morando no Brasil, mas morei aqui por oito anos.

GB: Você está no Líbano a passeio?

Samira: Eu vim ver meus filhos, ou melhor, vim tentar vê-los.

GB: Ver seus filhos? Mas eles não vivem com voce?

Samira: Não, eles vivem com o pai, meu ex-marido. Eu me divorciei há 5 anos, e fui embora para o Brasil.

GB: Mas você foi para o Brasil, e deixou seus filhos aqui? Por quê?

Samira: Porque eu não tive outra opção, eu sofri muito com meu ex-marido, foram longos anos de sofrimento, e chegou uma hora, que não aguentei mais e larguei tudo.

GB: Por quantos anos você foi casada?

Samira: Fui casada com ele por 11 anos.

GB: E quantos filhos vocês têm?

Samira: Temos dois meninos, um está com 15 anos, e o outro com 14.

GB: E porque vocês se divorciaram?

Samira: Porque ele era uma pessoa muito violenta, e com o passar dos anos, foi ficando cada vez mais. 

GB: Como assim violento? O que ele fazia?

Samira: Violento sabe, sempre me agredia, quebrava as coisas em casa... E com o tempo ele passou a me agredir de uma maneira muito violenta, uma vez me quebrou dois dentes com um soco, outra quebrou meu braço, em outra vez raspou minha cabeça com a máquina de barbear, etc.

GB: E como você conseguiu aguentar todos esses anos? Você nunca procurou ajuda?

Samira: Olha... Eu aguentei enquanto os meus filhos ainda eram pequenos e dependiam de mim, para tomar um banho, comer, e etc. Quanto a procurar por ajuda, eu nunca procurei. Minha família nunca morou aqui, eu vivia aqui sozinha, pois vim para o Libano depois que me casei.

GB: Mas você nunca procurou a ajuda da polícia, ou de algum parente?

Samira: Até hoje não falo o árabe, como você pode perceber, como procurar a polícia? Eu não tenho parente aqui, meus dois tios paternos moram no Brasil, minha mãe é brasileira, e todos meus relativos maternos vivem no Brasil.

GB: E você amou seu ex-marido?

Samira: No início sim, claro! Eu me casei com ele por amor, mas depois de alguns anos, o amor se transformou em ódio. Eu tinha muito medo dele, ele me batia por nada, sem motivo algum, e era muito ciumento, a ponto de me obrigar a cobrir o cabelo, sendo que eu sou Cristã, e ele se casou comigo mesmo assim, pois ele pertence a uma religião diferente.

GB: E você aceitou usar o lenço na cabeça?

Samira: Que escolha eu tive? Era usar ou viver apanhando, assim sendo, passei a usar, e somente tirei depois que me divorciei.

GB: E ele concordou em se divorciar?

Samira: Claro que não! De jeito nenhum! Foi um ano e meio de surras e sofrimento, desde que falei que queria me divorciar, ele passou a ser mais agressivo ainda.

GB: E o que você fez? Quero dizer, como você conseguiu se divorciar?

Samira: Bom, como te falei, eu não tinha ninguém aqui, somente uma amiga brasileira da cidade dele, que sempre me ajudava, da maneira que podia. Eu fugi da casa dele, fui para a casa dela, telefonei para minha família, e contei tudo para os meus pais, que me pediram para ficar na casa dela ate eles chegarem aqui. E realmente, eu me escondi na casa dela, até a minha família chegar ao Líbano, depois de uma semana.

GB: E ele não te procurou? Afinal você desapareceu por uma semana...

Samira: Sim, ele estava me procurando, até chegou a dar queixa na polícia do meu desaparecimento, mas não me procurou na casa dela, porque ele era amigo do marido dela, e deve ter deduzido que o mesmo não me abrigaria na casa dele.

GB: E quando seus pais chegaram? O que vocês fizeram?

Samira: No primeiro dia nada, somente me ouviram. Meu pai, meu tio e minha mãe, que ficaram horrorizados quando viram minha boca inchada, e dois dentes quebrados, resultado da última surra que eu levei.

GB: Mas foi grave assim?

Samira: Sim, meus pais me levaram para a delegacia, para eu me queixar, e de lá me levaram para um hospital, e depois para um dentista.

GB: Você apresentou queixa na delegacia, ou somente foram esclarecer que voce não estava desaparecida?

Samira: As duas coisas, esclarecemos que eu não estava desaparecida, e também demos queixa contra ele por agressão fisica.

GB: E o que aconteceu depois disso?

Samira: Ele foi preso, mas depois de dois dias na delegacia, foi liberado. E nesse tempo eu já tinha entrado com o pedido de divórcio.

GB: E ele te concedeu o divórcio?

Samira: Claro que não! Ficamos no processo por quatro meses, pois ele falou para meu pai, que somente me concederia o divórcio, se eu abrisse mão do meu direito por dinheiro (uma quantia combinada entre o casal no contrato de casamento islâmico, em caso de divórcio), e também que ele não me deixaria ver meus filhos.

GB: E seu pai concordou? O que ele falou para o seu marido?

Samira: Meu pai disse para ele que não queríamos nada dele, mas quanto aos meninos, isso seria um direito meu, e o juiz resolveria se eu poderia, ou não, ver meus filhos .

GB: E o juiz te concedeu o direito?

Samira: Sim, claro! Ele concedeu a custódia de meus filhos para ele, pois pelas leis islâmicas, depois dos 9 anos o direito da custódia cabe ao pai, mas me deu direito de visitas uma vez por semana.

GB: Sendo assim, porque você voltou para o Brasil?

Samira: Como eu te falei toda a minha família mora lá, eu achei inseguro demais morar aqui sozinha, eu realmente o temia demais, e meus pais não aceitaram me deixar aqui sozinha de maneira alguma, e me prometeram que todos os anos me mandariam para cá para passear e ver meus filhos.

GB: Faz cinco anos que você voltou para o Brasil, porque até hoje não conseguiu ver seus filhos?

Samira: Essa é a sétima vez que venho para cá, nos últimos cinco anos, para ver meus filhos, e ele some com os meninos, para não me deixar vê-los.

GB: Como assim, some com eles?

Samira: Ele pega os meninos e desaparece, some do mapa. Estou morrendo de saudades dos meus filhos, a vida não é fácil sem eles... É muito triste... Eu quero os meus filhos...

Nesse momento, ela cai em prantos e chora desesperadamente.

GB: Você não tem contato algum com seus filhos?

Samira: Sim, claro que temos contato. Nós nos falamos sempre pela internet, mas sem o conhecimento do pai deles.

GB: E os meninos? O que eles acham de tudo isso?

Samira: Coitados, eles sempre falam que não aguentam mais, e que se continuam tolerando e suportando ele é somente até completarem 18 anos, para poderem ir para o Brasil para viverem comigo.

GB: Eles pensam em ir viver lá com você?

Samira: Com certeza! Assim como eles também têm passaportes brasileiros, eu registrei os dois, mas o problema é que eles são menores de idade, e sempre me falam para eu ter paciencia que no fim estaremos juntos.

GB: Eles vivem sozinhos com o pai?

Samira: Com o pai e a madrasta, ele se casou novamente.

GB: E a madrasta deles os trata bem?

Samira: Ela não pode fazer nada para eles, pois eles não são pequenos, mas eles não se dão muito bem.

GB: E quando você deve voltar ao Brasil?

Samira: Dia 08...

GB: E o que você pretende fazer agora? Vai voltar mais uma vez sem vê-los?

Samira: A tia dos meninos, minha ex-cunhada, me prometeu que dará um jeito para me deixar ver os meninos, ela está tentando me ajudar, pela primeira vez.

GB: E porque somente agora ela resolveu te ajudar?

Samira: Somente agora, depois que ela viu que a outra esposa dele, não é aquela pessoa boa como eles esperavam que ela fosse, e ela então resolveu me ajudar, e também, por causa do sofrimento dos meninos.

GB: E você acha que ela vai conseguir?

Samira: Acho e espero que sim, pois não aguento mais tanta saudade. Tomara que Deus interfira, e ela consiga. Isso que me dá forças para aguentar tanto sofrimento.

GB: Onde você fica quando vem para o Líbano?

Samira: Em um hotel, lá na cidade dele. Minha família está tendo altas despesas com minhas viagens, pois eles que financiam tudo, passagem, estadia, meus gastos, tudo. Eu sou muito grata a Deus e a minha família, pois tenho uma familia maravilhosa, nem sei o que seria de mim sem eles. Amo muito minha família, que me deu um grande apoio, e continua dando.

GB: Você pensa em se casar novamente?

Samira: No momento, penso somente em meus filhos, eles são toda a minha vida, e tudo o que eu quero nessa vida.

GB: Você nunca tentou uma ação judicial novamente para ver seus filhos?

Samira: Sim, tentei na primeira vez que viajei para cá para vê-los.

GB: E mesmo assim, não resolveu nada?

Samira: Nada. Na época, procuraram por ele, pois ele estava sumido, e quando ele apareceu (somente depois que viajei), alegou que havia levado os meninos para umas ferias, e nada aconteceu. Mas meus filhos na epoca me falarm para eu não fazer mais isso, pois ele despachava a raiva neles, quando eles não aparecem na internet para falarem comigo, ja sei que devem ter apanhado, e não aparecem para não me deixar ver marcas de surra.

GB: Deus te ajude, e os ajude. Eu espero que vocês se reúnam em breve, e tomara que sua cunhada consiga programar um encontro entre vocês. Mais alguns anos, e eles estarão com você, porque aos 18 anos o pai não poderá mais proibi-los.

Samira: Obrigada por ter vindo, e muito obrigada pela entrevista, eu quis dar essa entrevista para que sirva de exemplo, e não haja mais vitimas de violência e injustiça. E parabéns pelo jornal, eu adorei saber que há um jornal no Libano em Portugues.

GB: Nós que agradecemos seu voto de confiança, e também a entrevista, assim como te desejamos muita boa sorte Samira.

Therese Mourad
Gazeta de Beirute
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