Matei meu genro em legítima defesa!



GB: Bom dia, Houssam tudo bem? Você é brasileiro?

Houssam: Tudo bem. Sim, nasci no Brasil e aos 15 anos eu vim morar aqui com minha família.

GB: Há anos você mora aqui?

Houssam: 35 anos.

GB: Nunca mais voltou para o Brasil?

Houssam: Não, na verdade, eu me casei e fiquei por aqui mesmo, mas já fui passear lá umas três vezes.

GB: Você tem filhos?

Houssam: Sim, três meninos e uma menina. Um filho é casado, outro está no Brasil, trabalhando com meu irmão, e o mais novo trabalha aqui. E minha filha é viúva, como você já sabe, e esses são os filhos dela. Agora eles vivem aqui conosco.

GB: Sim, fiquei sabendo sobre sua filha, mas você poderia relatar o que aconteceu? É verdade que você matou seu genro?

Houssam: Infelizmente sim, é verdade, eu o matei.

GB: O que o levou a matar seu próprio genro?

Houssam: Minha filha ficou casada com ele 8 anos, e foram 8 anos de sofrimento e violência doméstica, e ele nunca aceitava se divorciar dela.

GB: Mas porque você não abriu uma ação judicial contra ele?

Houssam: Porque meus netos ficariam com ele, e minha filha dizia que preferia a morte, do que deixar os filhos com ele, e eu falei com ele diversas vezes, ele prometia que iria mudar, e mudava por 1 ou 2 meses, e depois voltava a fazer tudo de novo.

GB: O que ele fazia exatamente?

Houssam: Ele era muito violento, batia muito nela e nas crianças, batia nela com cinto, com galho de árvore, era um horror. Cada vez que minha filha vinha em casa marcada, eu ficava louco, ela é filha única, portanto nunca demos nem sequer um tapa nela, e vinha ele a bater na minha filha? Ah, eu não suportava aquela situação.

GB: E porque o senhor não tentou a convencê-la a uma separação?

Houssam: Eu tentei muito, até que um dia, ele quebrou o braço dela, e eu a trouxe para casa, com os meninos. Depois de alguns dias ele veio para levá-la de volta para casa, mas eu não permiti que ela fosse embora com ele, e disse que ela ficaria em casa, pelo menos até se recuperar. Mas ele levou os meninos com ele, e disse que enquanto ela não voltasse para casa, ela não poderia ver os meninos novamente.

GB: E ela aceitou?

Houssam: Eu a obriguei, ela chorou muito, ficou doente, e falava que se ela fosse separada dos filhos que iria se matar, ela estava sempre com medo dele estar batendo nos meninos.

GB: E o que ficou decidido?

Houssam: Eu a deixei ir para a casa do marido dela, e aconteceu o pior.

GB: Como assim, o pior? O que houve?

Houssam: Depois de três dias que ela tinha voltado, ela nos ligou muito tarde, já era madrugada, ela estava chorando e pedindo ajuda. Do outro lado da linha, podíamos escutá-lo gritando muito, e ela desligou o telefone.

GB: E o que você fez, após o telefonema dela?

Houssam: Eu peguei o carro e fui imediatamente para a casa deles. Ao chegar lá, eu me deparei com os vizinhos batendo na porta, e implorando para ele abrir, eu fiquei aterrorizado, e pedi aos vizinhos para me ajudarem a quebrar a porta.

GB: E ninguém tentou acionar a polícia, antes de quebrarem a porta?

Houssam: Da minha parte eu não tentei, pois já tínhamos dado queixa dele várias vezes, mas nunca nada havia sido feito, eu estava decidido a quebrar a porta junto com os vizinhos. Quebramos a porta, e eu me deparei com aquela cena horrível, que eu jamais apago de minha memória, jamais consegui esquecer.

GB: O que você viu?

Houssam: Minha filha caída no chão, coberta de sangue, e gemendo muito. Parecia que ela estava morrendo, todos que estávamos lá, pensamos que ela não iria sobreviver. E mesmo diante de tudo isso, ele ainda teve a ousadia de tentar me atacar com uma faca, quando eu o chamei de assassino, e dei um soco nele.

GB: Sua filha morrendo, e vocês estavam brigando?

Houssam: Um dos vizinhos já havia acionado uma ambulância. Mas poxa vida, ela é minha filha! Eu a carreguei, e queria colocá-la no carro para levá-la ao hospital, e ele tentou me impedir. Ele me empurrou e eu derrubei minha filha no chão, e então batemos boca.

GB: Os vizinhos não te ajudaram, não tentaram impedi-lo?

Houssam: Eles eram somente em quatro pessoas, sendo três mulheres e apenas um homem. Eles estavam ao lado de minha filha, e o homem tentou segurá-lo, e foi violentamente agredido na boca.

GB: E o que aconteceu? Como vocês se livraram dele, e levaram ao hospital?

Houssam: Quando ele tentou me agredir com a faca, eu consegui tomar a faca da mão dele, e claro que no meio de tudo aquilo, muitas coisas absurdas foram ditas por ele, coisa que aqui ninguém aguenta ouvir. Então eu dei a primeira facada nele. Quando ele caiu, eu joguei a faca no chão, e corri para ver minha filha. Foi quando uma das mulheres gritou para eu ter cuidado. Eu me virei, e vi que ele estava vindo em minha direção, sangrando, e com a faca na mão. Eu segurei a mão dele, bati nela para a faca cair, quando ela caiu, eu a peguei e dei com tudo no peito dele.

GB: Você o esfaqueou pela segunda vez, o segundo golpe no peito, mas onde foi o primeiro?

Houssam: No ombro direito.

GB: E depois do segundo golpe, ele desmaiou?

Houssam: Sim. Foi quando chegaram, a ambulância e também a policia, como sempre muito atrasados. Minha filha foi levada ao hospital, e eu para delegacia.

GB: E o que fizeram com você na delegacia?

Houssam: Eles me interrogaram durante dois dias. Nesse intervalo, eu pelos próprios policiais, ainda na delegacia, que meu genro havia morrido. Então me transferiram para o presídio masculino de Trípoli.

GB: E o que aconteceu com sua filha?

Houssam: Ela foi submetida a três cirurgias, pois tinha sido esfaqueada quatro vezes, ela sobreviveu por milagre de Deus.

GB: E o que houve com você? Você foi levado a julgamento?

Houssam: Sim, depois de cinco meses na prisão, eu fui a julgamento, e depois de ouvidas todas as testemunhas, o juiz considerou legitima defesa e eu fui liberado, graças a Deus.

GB: E como foi a volta para casa? Você enfrentou problemas com a sociedade?

Houssam: Não, pois todos sabiam do sofrimento de minha filha, você sabe como é aqui no Líbano, nas cidades pequenas todos sabem o que acontece com todos. Somente enfrentei grandes problemas com a família do falecido, que vivia ameaçando a mim, e a minha família, de morte.

GB: E o que você fez diante das ameaças?

Houssam: Peguei minha família e me mudei para cá, depois de vender todos os meus bens na minha cidade.

GB: E hoje, você se arrepende?

Houssam: Claro, não sou assassino, e matar uma pessoa, é muito ruim, muito mais que você possa imaginar. Eu nunca matei nem mesmo um animal, mas eu não tive saída, era matá-lo ou morrer. Eu queria que a minha filha se divorciasse dele, mas nunca desejei a morte, ou o mal, para ninguém.

GB: E hoje sua filha e netos, vivem aqui com você e sua esposa. Você que arca com todos os gastos deles?

Houssam: Sim, claro! Meus filhos são minha vida, e não quero nada de ninguém, crio meus netos como meus olhos.

GB: Obrigado pela entrevista Houssam.

Houssam: Obrigado a vocês, e parabéns pela iniciativa. Eu adorei saber que tem um jornal brasileiro no Líbano.

GB: Muito obrigada, a Gazeta de Beirute agradece o voto de confiança, e o apoio.

Houssam: Passarei a ser um leitor. Boa sorte!

GB: Que bom! Obrigada.

Therese Mourad
GazetadeBeirute
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