Senhor Abdul Rahim Mourad


O  Entrevistado dessa semana, é o Senhor Abdul Rahim Mourad, ex-ministro da Educação, e ex-ministro da Defesa do Líbano, atualmente dono de 18 Universidades, nove no Líbano, e as outras nove em diversos países árabes, além disso, Mourad é também brasileiro.

O Senhor Mourad, recebeu o pessoal da Gazeta de Beirute em sua casa que sempre está aberta, para aqueles que querem o encontrar, uma tradição que ele obteve de seu pai, e mantém até hoje.


GB: Boa Tarde senhor Abdul Rahim Mourad.

Abdul R.Mourad: Boa tarde.

GB: Em que lugar do Líbano o senhor nasceu, e quando?

Abdul R.Mourad: Eu nasci em Ghazze, Vale do Bekaa, Líbano. É uma cidade pequena, onde quase 50% dos habitantes estão ou já estiveram no Brasil. Eu nasci, no dia 17 de outubro de 1942, meu pai e minha mãe, eram agricultores, a minha mãe estava grávida de mim, e no dia que eu nasci ela estava no campo. Naquele tempo a família vivia oito meses no campo, e  quatro meses em casa. Nesse dia, quando caiu a primeira chuva, eles voltaram para casa, quando minha mãe chegou na nossa casa, em Ghazze, eu nasci. Meu pai e minha mãe, eram religiosos, vivemos em uma casa com portas sempre abertas, e aprendemos a ser muito hospitaleiros desde cedo.

GB: O Senhor vivia uma vida simples? Sua família tinha boas condições financeiras?

Abdul R.Mourad: Não, eramos muito pobres, e comíamos coisas simples como: pão, coalhada, azeitonas, e grãos.

GB: Quantos irmãos vocês tem?

Abdul R.Mourad: 7 irmãos e 5 irmãs.

GB: Onde você estudou?

Abdul R.Mourad: Estudei em uma escola simples, embaixo de uma árvore, aprendendo as letras, e depois continuei meus estudos em uma escola do governo. Após a terceira série, mudei para Jib Janine, e depois de alguns anos mudei para Sidon, e lá estudei dois anos. Também estudei na cidade de Aley e fora do Líbano, estudei 3 anos na Síria, em Damasco, e terminei o colegial, no Egito, na capital, Cairo.

Quando terminei o colegial, fui para o Brasil em 1961, estudar. Estudei com um professor particular, a língua portuguesa, três ou quatro meses, todos os dias, quatro horas por dia. Quando iria me registrar como aluno na USP, decidi voltar ao Líbano, pois não queria deixar o país por tanto tempo.

GB: Então nessa época, o Senhor voltou para o Líbano?

Abdul R.Mourad: Sim, voltei ao Líbano, depois de um ano, pelo mar.

GB: E como foi essa viagem?

Abdul R.Mourad: Foi uma viagem linda, ficamos 33 dias no mar, mas não só no mar. Saímos de Santos, passamos pelo Rio de Janeiro, Ilhas Canárias, Las Palmas, Lisboa, Espanha, França, Itália, Grécia, Turquia, e finalmente chegamos ao Líbano.

GB: E você continuou seus estudos aqui?

Abdul R.Mourad: Sim, continuei meus estudos no Líbano, me formei em Administração de Empresas e depois em Direito.

GB: E no Brasil, alguém de sua família ficou lá trabalhando?

Abdul R.Mourad: Sim, meu irmão mais velho o primeiro a ir ao Brasil, em 1948, depois de meus tios, que foram para a Argentina em 1885, e para o Brasil após alguns anos. Esse meu irmão, permaneceu no Brasil, e eu trabalhei com ele na época, fabricando cobertores no Brasil, Cobertores Mourad, e com esse trabalho, conseguimos, fazer no Líbano uma fábrica de tapetes, eu fiquei responsável pelos negócios no Líbano e ele no Brasil.

Como todos os libaneses, começamos como mascates, em seguida abrimos lojas e posteriormente fábricas. E em seguida, todos meus irmãos e irmãs foram para o Brasil. E eu também, fui e voltei ao Brasil várias vezes.

GB: Então sua vida sempre foi entre esses dois países. Quando você voltou ao Líbano, de onde surgiu a idéia de trabalhar na área da educação?

Abdul R.Mourad: Eu sempre pensei em um trabalho que ajudasse a comunidade, principalmente porque a região do Líbano em que nasci, era uma região muito simples, eu queria ajudar as pessoas, pois a população precisava de escolas, hospitais, etc. Mas o que marcou mesmo minha vida e incentivou minha decisão, foi um incidente em minha infância.

GB: Como foi isso? Conte para nós.

Abdul R.Mourad: Em 1946, eu fui com meus irmãos para outra cidade, e lá tinha um rio, no verão dá para atravessar, porque a água fica mais baixa, mas para um menino de 4 anos, era fundo. Enquanto meus irmãos caçavam passarinhos, eu não estava gostando muito do passeio, e quis voltar sozinho para casa, e resolvi atravessar o rio. Eu estava vestindo galabieh, (uma vestimenta árabe), e eu estava descalço, minha família não tinha dinheiro para comprar sapato. Andei um pouco no rio, e lá tinha uma pedra, fiquei olhando para essa pedra, e quando pisei nela, cai, me afoguei e desmaiei.

GB: E depois o que aconteceu?

Abdul R. Mourad: Então, uma menina, que se chama Jamile, me viu, e começou a gritar: O menino se afogou, o menino se afogou. Um dos agricultores, conseguiu me ver pelo cabelo, e entrou na água, me carregou, e me ajudou, fazendo toda água que tinha entrado no meu corpo, sair para fora. Eu praticamente nasci de novo, acordei ouvindo os gritos desesperados da minha mãe. Meu querido abu Hussein(assim ela me chamava). E todos os anos seguintes, eu nunca esqueci esse episódio que marcou minha vida.

Quando cresci aquele incidente ficou em minha cabeça, eu nasci outra vez. E Deus voltou a me dar a vida. E para que vou viver essa vida? Só viver para comer, dormir, isso é a vida? Não, nós temos que deixar a marca na vida, a impressão digital, nesse caminho que percorremos. E fiquei pensando sobre o que eu poderia fazer para registrar minha passagem neste mundo de uma forma boa, e quando eu pude fazer algo, eu quis fazer algo pela educação.

GB: E o que vocês fizeram inicialmente?

Abdul R.Mourad: Fizemos uma escola em 1978, e começamos pequeno, com um prédio, e depois, outro e outro, e agora eu tenho 78 prédios, em função da comunidade no Líbano e nos países árabes.

GB: Fale um pouco do seu trabalho atualmente.

Abdul R.Mourad: Atualmente, temos escolas desde o primário até o colegial, também escolas técnicas,  universidades, orfanatos, etc. E no Líbano, há nove Universidades(LIU-Lebanese International University). E nove nos países árabes, entre eles: Marrocos, Mauritânia, Sudão, Senegal, Emirados Árabes, Tunísia, e estamos com um projeto para construir uma faculdade na Arábia Saudita e no Brasil, em São Paulo. E estamos em contato com o prefeito, Fernando Haddad, e pedimos seu apoio.

GB: Ele apoiou a ideia?

Abdul R.Mourad: Muito, porque ele conhece nossas universidades aqui.

GB: Quantos alunos há nas suas universidades, e quantos jovens em seu orfanato?

Abdul R.Mourad: Nós temos 1.250 jovens no orfanato, eles permanecem lá desde os 3 anos até terminar a universidade, são alimentados, vestidos e educados, gratuitamente e temos 25 mil alunos nas unversidades, e 12 mil nas diversas escolas.

GB: Juntamente com esse seu trabalho na área da educação, o senhor é um político, conte um pouco sobre sua carreira política.

Abdul R.Mourad: Bom, desde 1991 até 2005, eu fui um Membro do Parlamento, ou seja durante 14 anos, e em 1994, eu fui Ministro da Eduação Técninca, no ano de 2000, Ministro da Educação, posteriormente Ministro do Estado, e Ministro da Defesa.

GB: Qual foi o mais difícil para você?

Abdul R.Mourad: O mais difícil, foi meu trabalho como Ministro da Defesa, eu não sei a diferença entre metralhadora e revólver (risos). Não tenho experiência nessa área. Eu sou especialista em educação.

GB: Quais são seus futuros planos?

Abdul R.Mourad: Estamos com planos de construir um hospital, e uma universidade especialmente para área da medicina. E como te falei antes, também queremos construir uma universidade na Arábia Saudita e outra no Brasil.

GB: Você se sente grato ao Brasil?

Abdul R.Mourad: Muito, devemos muito ao Brasil, todos os libaneses devem muito ao Brasil, um país que abraçou os libaneses, e que os ajuda. Os libaneses que residem no Brasil, até hoje mandam dinheiro do trabalho realizado lá, para ajudar a manter suas famílias no Líbano. O Brasil e o Líbano são exatamente como nossos pais. Mas infelizmente eu sinto que os políticos libaneses não estão retribuindo à altura.

GB: Porque? Explique melhor.

Abdul R.Mourad: Há um tempo atrás, os políticos estavam querendo trazer ônibus de companhias do exterior, para circular como meio de transporte público, no país. Então fomos ao Brasil estudar essa hipótese, e nos ofereceram preços excelentes, e ótima qualidade, quando voltamos ao Líbano, ao invés de fecharem imediatamente negócio com o Brasil, mudaram de idéia e assinaram o contrato com a França.

Outro exemplo que me envergonha, é quando eu participo de comemorações da Embaixada do Brasil, e vejo que não há a presença de muitos políticos libaneses, comparando com a presença deles nas comemorações realizadas por Embaixadas da Europa, por exemplo. Isso é um grande erro, o Brasil é um grande país.

GB: Realmente, principalmente agora que o Brasil está em constante desenvolvimento, não é mesmo?

Abdul R. Mourad: Não porque agora está melhor, mas por todo passado, história e ligação entre esses dois países. Eu gosto muito do Brasil, e nós devemos ao Brasil.

GB: Voltando um pouco para a situação na região. Qual sua opinião sobre a resistência, em relação à Israel? O senhor é a favor?

Abdul R. Mourad: Eu sou nacionalista, e claro que sou a favor, quando eu era ainda criança, muitas pessoas vieram do Sul para nossa aldeia, pareciam ciganos, eu com 6 anos de idade, perguntei para minha mãe: Quem são eles? Ciganos? E ela respondeu: Não, são palestinos, estão fugindo dos “judeus”, para viverem com nós. E a partir daí eu fiquei contra Israel, porque eu vi o que Israel fez com esse povo, desde o início. Sou a favor da resistência, 100%. É a nossa terra, e os palestinos são nossos irmãos.

GB: E me diz uma coisa, o senhor é muçulmano, sunita ou xiita?

Abdul Rahim Mourad: Sou muçulmano sunita e xiita, não tem diferença entre eles, e nem diferença entre cristãos e muçulmanos, todos adoram Deus, mas cada um de sua maneira. E aquele que teme a Deus, não precisamos temê-lo(dito popular árabe).

GB: Mas por você ser de uma família sunita, tem muitos sunitas que não apoiam essa sua maneira de ver as coisas, e a sua boa relação com os xiitas?

Abdul Rahim Mourad: Sabe, tem muitos que não gostam de mim, e não é porque eu não trabalho bem, alguns não gostam de mim, realmente porque eu tenho uma boa relação com os xiitas. E principalmente por eu não ser favorável à politica da família Hariri.

GB: O senhor era candidato ao cargo de primeiro-ministro, isso te atrapalhou nas eleições?

Abdul Rahim Mourad: Sim, e por essa razão, mesmo que eu tenha feito tantos projetos, e trabalhos que ninguém ainda realizou no Líbano, muitos não votaram em mim.

GB: Abdul Rahim Mourad, voltando a sua vida pessoal, me fale um pouco da sua juventude.

Abdul Rahim Mourad: Eu vivi uma vida muito bonita, e eu sempre fui uma pessoa com limites, não fumo, nem cigarro e nem narguile. Nunca bebi bebidas alcoólicas, e nunca entrei em uma boate. O que eu gosto mesmo é da natureza, do cheiro da natureza após a chuva.

GB: O senhor é casado, quantos filhos você tem?

Abdul Rahim Mourad: Sou casado, tive 4 filhos e uma filha. Um dos meus filhos morreu na Colômbia, ele foi assassinado. Agora são 3 filhos, Hussein, Hassan, Omar e minha filha Zainab

GB: Antes de terminar, gostaria de saber, se teve algum projeto muito especial em sua vida.

Abdul Rahim Mourad: Todos, mas há um muito especial. Há uns anos atrás eu fiz uma operação muito delicada, estava com câncer no rim, o médico falou que se o câncer não estivesse espalhado pelo corpo, ele faria uma cirurgia, removendo um rim. Mas graças a Deus, estava apenas no rim, e no dia da operação, me deram uma anestesia, e antes de eu ficar inconsciente, eu tive um último pensamento, no último segundo:

Meu Deus, se eu morrer, faça com que alguém continue tomando conta do orfanato. E se eu sobreviver, eu vou fazer um outro orfanato.

Me recuperei, e após algum tempo, um homem muito necessitado veio conversar comigo, lá em nossa aldeia. Ele me disse que queria registrar seus três filhos no orfanato, mas eles não eram órfãos. Mas o pai, disse que ele não tinha condição para dar de comer e beber a suas crianças, e então para que eu os aceitasse no orfanato, ele iria se matar, ou matar a própria mulher, assim seus filhos poderiam viver como órfãos no Orfanato.

Neste momento eu lembrei que prometi a Deus, que iria fazer mais um orfanato, e fiz o outro, que não é exatamente um orfanato, e sim um abrigo para os pobres, realmente necessitados, e lá pude ajudar famílias como a deste homem. E esse e o orfanato, são trabalhos muito importantes para mim.

GB: Gostaria de agradecer muito, principalmente porque eu fui uma das estudantes na sua Universidade, onde pude realizar meu sonho de me tornar uma jornalista, brasileira no Líbano.

Abdul Rahim Mourad: Obrigada a vocês, sejam sempre bem vindos.

A Universidade Libanesa Internacional, é atualmente a Universidade que mais possui alunos no Líbano, há torno de 25 mil alunos. Nos exames públicos e governamentais, os alunos da LIU, na área de farmácia, gráfico design, e em outras áreas, possuem as notas mais altas do país, até mesmo, em relação aos alunos da famosa Universidade Americana de Beirute, fundada há 160 anos atrás e que atualmente possui aproximadamente 10 mil alunos.

Abdul Rahim Mourad, é um homem, inteligente, simpático, e acima de tudo humilde. Ele é um homem que ajudou o Líbano, e seu povo. Ele abriu as portas do conhecimento a todas as classes da sociedade, suas obras ficarão para sempre, iluminando as gerações, pois o conhecimento é a chave de todas as boas realizações.

“Procure o conhecimento, do berço até o túmulo”. Profeta Muhammad(s).

Shadi Kobeissi & Abdul Rahim Mourad

Chadia Kobeissi
Gazeta de Beirute
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1 comments:

  1. Fantástica entrevista!!
    A integridade e singularidade do Sr Abdul Rahim Mourad,bem como sua história e trajetória me emocionaram!!
    Como seria maravilhoso se tivéssemos mais figuras públicas e representantes políticos como ele!!
    Parabéns Chadia pela entrevista!
    Parabéns Sr Abdul Rahim Mourad pelo seu exímio caráter!

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