A Guerra Líbano-Israel

Foto: Harb Lebnan 

O conflito entre Israel e Líbano, começou em 1947, quando o Primeiro-Ministro do Líbano, Riad el-Solh, respondeu hesitante à decisão da Liga Árabe, de entrar na guerra árabe-israelense, de 1948, e enviou seu exército para a Palestina. O exército foi derrotado e retornou ao Líbano. Posteriormente, os países assinaram um armistício, que durou até a guerra de 1967, que foi chamada de a “Guerra dos Seis Dias”. Após a guerra, e do seguido “Setembro Negro” na Jordânia, mais de 110.000 refugiados palestinos migraram para o Líbano, contabilizando mais de 400.000 refugiados até hoje. 

Em 1975, eles eram mais de 300.000, criando um estado informal dentro do país, no sul do Líbano. A Organização para a Libertação da Palestina tornou-se uma poderosa força, e figurou importante na guerra civil libanesa. Em resposta aos numerosos ataques lançados do sul do Líbano, Israel invadiu o país em 1978, com intuito de combater os contra-ataques palestinos. Como resultado, as Nações Unidas passaram as resoluções 425 e 426, que pedia uma retirada imediata das tropas israelenses, e o fim das atividades militares no sul do Líbano. Ao final da operação, as forças israelenses retiraram-se, parcialmente, do Líbano, deixando uma milícia libanesa pró-israelense em seu lugar. 

Quatro anos mais tarde, Israel promoveu uma nova invasão em grande escala no Líbano, em 1982, expulsando as forças da OLP para fora do Líbano (a maioria para a Tunísia), sitiando Beirute e ocupando a porção sul do país. Um tratado de paz, intermediado pelos Estados Unidos, foi firmado pelo Presidente libanês em 1983, mas Amine Gemayel, sobre forte resistência da Síria, e das resistências laica e muçulmana libanesas, opôs-se à sua assinatura, em 1984. Como as forças israelenses estavam se alojando cada vez mais no sul do Líbano, a população daquela área, foi a mais afetada e prejudicada. Os soldados israelenses invadiam casas e escolas, expulsando os moradores, e tomavam posse de suas propriedades, para usá-las como prisões, centros de comando policial, escritórios, e etc. 

Isso foi causando mais fúria da população, que era obrigada a largar suas casas e terras, sem poder fazer nada, pois quem se opusesse, era preso pelas forças israelenses. Essas prisões eram famosas por suas práticas de torturas; a mais famosa era a prisão de Khyam, onde as pessoas eram espancadas e torturadas até concordarem em trabalhar em benefício de Israel, como agentes espiões, ou eram torturados até a morte. Em 1982, a população do sul, começou a se reunir, e estudar um plano para se defender e combater as forças israelenses. Grande parte destas reuniões ocorria em mesquitas de pequenas cidades, sob a direção do Xeique Ragheb Harb, que se tornou um xeique muito famoso no sul, por sua coragem em nunca temer os israelenses, e os enfrentar. 

Após várias reuniões, a comunidade decidiu que iria lutar por suas terras, famílias e vidas. O Xeique Abas El Mossaui, um xeique também muito respeitado e admirado no sul, por lutar pela justiça, ajudar os necessitados, e recusar a presença das forças Israelenses no país, reuniu um grande número de homens e rapazes, para lutar contra Israel. Inicialmente, eles se reuniam em esconderijos e grutas nas matas, para treinarem, e confeccionarem bombas caseiras, pois eles possuíam poucas armas naquela época. 
Os treinamentos eram liderados por Hassan Nassrallah, e além das bombas caseiras, eles também foram treinados a colocarem bombas em carros para ataques suicidas. A população estava cada vez mais indignada com as barbaridades cometidas pelos inimigos israelenses, que além de invadir casas, ainda prendiam idosos, rapazes, crianças e mulheres, sem a menor piedade, e torturavam a todos, sem levar em consideração que mulheres e crianças, não tinham forças para tanta violência. 

Para combater tamanha injustiça, o grupo passou a atacar os soldados israelenses. Eles entravam com os carros-bomba em centros de comandos israelenses, ou armavam ciladas para os soldados, nos trajetos diários em que eles faziam, arremessando as bombas nas tropas israelenses. A cada ataque matavam vários soldados, mesmo com o humilde e primitivo arsenal que possuíam. 

Essa reviravolta irritou as forças israelenses, que intensificaram as torturas e mortes de civis e crianças. Esse grupo, formado pela população do sul, foi batizado de Muqawami (Força de Resistência Islâmica), e estava sob o comando do Xeique Abas El Mossaui, que passou a ter apoio financeiro, e receber armamento do Irã e da Síria, que tinham em comum, o mesmo inimigo: Israel. A maioria dos países árabes repudia Israel, pela guerra contra a Palestina, onde as pessoas foram obrigadas a abandonar seu país e se refugiar em países árabes vizinhos, em virtude da posse covarde e ilegal de suas terras, por parte de Israel. 

O povo palestino perdeu tudo, e as demais nações árabes se comoveram com a causa Palestina, fazendo de Israel o inimigo em comum entre todos os árabes. A resistência Muqawami foi se tornando cada vez mais forte na luta contra Israel, após o apoio do Irã e da Síria, e passou a revidar cada ação de Israel contra os moradores. O xeique Ragheb Harb, a cada discurso das sextas-feiras na mesquita, encorajava o povo a não temer Israel, e lutar por seus direitos, causando a fúria de um Coronel israelense, que acabou prendendo-o. 

Quando o povo soube que o xeique havia sido preso, fizeram uma grande manifestação nas ruas, pedindo por sua liberdade; os israelenses, que visavam conquistar o povo para convencê-los a ceder em seus planos, e temendo sua fúria massiva, decidiram libertar o Xeique Ragheb, porém, passaram a vigiá-lo constantemente, até armarem uma cilada para matá-lo. Após a morte do xeique, a Muqawami, aumentou os ataques contra os israelenses no sul. 

A população ficou triste e revoltada com a morte do xeique, e em virtude disso, outras pessoas aderiram à resistência Muqawami, que foi crescendo e se fortalecendo cada vez mais. Lutavam constantemente, mas não conseguiam expulsar os israelenses do Líbano, que eram apoiados pelos EUA e pela Europa. Alvo de constantes ataques, os israelenses também intensificaram suas ações, e com o auxílio de alguns libaneses, que se corromperam por dinheiro, e ajudaram o exército israelense, os inimigos começaram, a saber, nomes dos membros da Muqawami, e tentavam prendê-los a qualquer custo. 

Alguns chegaram a ser capturados por soldados israelenses, e foram severamente torturados para dar informações da Moqauami, sobre onde se reuniam, onde treinavam, onde iriam atacar. E diante da recusa, eles sofreram os mais desumanos e horríveis tipos de torturas, como ter um filho, ou irmão pequeno, trazido para ser torturado e morto diante dos próprios olhos; ter a mãe, irmã, e esposa, estuprada na frente do preso, que amarrado e rodeado por soldados, nada podia fazer. 

Mas ainda assim, eles não cederam; a maioria já tão adaptada à violência, não se rendia, e continuava combatendo os israelenses cada vez mais motivados pelo ódio que eles despertavam. O segundo grande alvo de Israel, em meio a tudo isso, foi o Xeique Abas El Mossaui, que foi alvejado e morto dentro de seu carro, juntamente com a esposa e filhos. 

Isso foi à gota d’água, para a população do sul. Eles se uniram ainda mais, inclusive com a participação até mesmo de mulheres e crianças, que passaram a se defender, até mesmo com pedras. Após a morte do xeique Abas El Mossaui, o Xeique Hassan Nassrallah foi nomeado o novo Líder da Muqawami. Nassrallah era conhecido por sua inteligência em comandar ataques, como também muito querido pela população do sul. 

Hassan Nassrallah passou realizar ataques mais audaciosos, e também sequestrou vários soldados israelenses, mortos ou vivos, pois Israel não deixa seus soldados, mesmo mortos, eles exigem os cadáveres. E dessa maneira a Muqawami passou a fazer trocas com Israel, libertava um soldado, ou o cadáver dele, em troca de 20, 30 prisioneiros Libaneses. 
E dessa maneira, eles foram conseguindo a liberdade de vários membros do grupo de resistência, e de vários civis. Quando a Muqawami percebeu o resultado disso, passou a sequestrar até mesmo coronéis, fazendo com que aumentasse o número de pessoas libertadas. Os únicos que lutavam pela liberdade do Líbano era a resistência Moqauami. Em 1985, Israel retirou seu exército de parte do Líbano, mas permaneceu em uma área de 4 a 6 km no sul, chamada por Israel de Zona de Segurança, como medida de proteção aos foguetes Katyusha lançados às suas cidades. 

Em 24 de Maio de 2000, o exército israelense desocupou a porção sul do Líbano, finalmente respeitando as resoluções 425 e 426 das Nações Unidas, de 1978, que estabelecia a retirada imediata das forças estrangeiras, e o fim das ações militares na região. Entretanto, os libaneses ainda reclamam da ocupação israelense nas terras de Shebaa. Antes da desocupação israelense, entretanto, houve o “Massacre de Qana”, também no sul, e onde a UNIFIL se localizava, por ser o centro de um grande número de refugiados que fugiram de outras partes do sul, para se protegerem da guerra. 

Esse massacre ocorreu em 18 de Abril de 1996, quando as forças Israelenses bombardearam Qana, deixando mais de 106 mortos (a grande maioria, civis e crianças), e centenas de feridos. No local do massacre, ainda se encontram todos os vestígios desse ataque, onde foram construídos grandes túmulos, aonde as vítimas foram enterradas. Ainda se encontram as ruínas, sapatos, brinquedos de crianças espalhados por toda parte. Mesmo diante de tanta violência, o Hezbollah nunca deixou de lutar contra as forças israelenses.

Às vezes lançando foguetes dentro de Israel, outras sequestrando soldados que ficavam na fronteira entre os dois países. Essas ações foram o estopim para a “Operação Justa Recompensa”, que causou o mais intenso e devastador confronto com Israel. E por fim, a guerra de 2006, iniciada em 12 de julho, pelas disputas de fronteira entre o exército de Israel e o Hezbollah.  Naquele dia, foguetes Katyusha disparados pelo Hezbollah acertaram as cidades de Shlomi e entrepostos na região das fazendas de Sheeba, nas Colinas de Golan. 

O Hezbollah também atacou dois HMMWV (jipes militares blindados) israelenses. Três soldados israelenses foram mortos, e dois sequestrados, com diversos civis feridos. Quatro soldados israelenses, que tentaram recuperar os dois soldados sequestrados, foram mortos dentro de um tanque, e outro soldado foi assassinado, ao se aproximar do tanque para retirar os corpos.

A resposta defensiva israelense veio no dia seguinte, visando desabastecer o grupo, onde o principal aeroporto, uma base aérea, um pequeno aeroporto militar, e uma base militar do exército do Líbano foram bombardeados. A razão dos bombardeios, segundo Israel, foi impedir a chegada de arsenal bélico da Síria e do Irã, para o Hezbollah. Em resposta, a milícia islâmica lançou mísseis contra Nahariya e Safed, causando a morte de três civis. 

No dia 14, foram anunciados indícios da participação passiva do Irã no conflito: Dois mísseis C-802 iranianos foram atirados pelo Hezbollah, atingindo uma embarcação israelense, matando quatro oficiais. O Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ameaçou Israel, caso este atacasse a Síria. A operação israelense foi nomeada Operação Recompensa Justa, e depois, Operação Mudança de Direção. Até o final de julho, mais de 600 libaneses haviam sido mortos, a maioria eram civis, mulheres e crianças. Os mísseis do Hezbollah mataram 41 civis e 84 soldados israelenses.

Os ataques foram perpetrados contra os redutos das forças resistentes islâmica do Hezbollah, instaladas em zonas predominantemente povoadas por civis (maioria xiita), no sul do Líbano. Israel comunicava por meio de panfletos, os locais e a hora dos ataques. Os panfletos lançados sobre o Líbano, em 25 de julho, dizia: 

"A todos os cidadãos ao sul do Rio Litani: Devido às atividades executadas contra o Estado de Israel de dentro das suas vilas e casas, as Forças de Defesa de Israel são forçadas a responder imediatamente contra tais atividades, mesmo que dentro das suas vilas. Para a sua segurança, solicitamos que vocês evacuem suas vilas, e rumem ao norte do Rio Litani"

No dia 11 de Agosto, após 30 dias de conflitos entre as partes, o Conselho de Segurança da ONU oficializou, após alguns dias de discussão, a resolução visando o fim do conflito. Os 15 membros do CS aprovaram por unanimidade, o projeto de resolução apresentado. 

E assim veio a resolução 1701, elaborada pelos EUA e pela França, recomendando o fim das hostilidades entre o Hezbollah e o exército de Israel, bem como a retirada dos 10 mil soldados israelenses do território libanês. A resolução previa igualmente, o envio de 15.000 capacetes azuis como reforço da missão da ONU, a UNIFIL, para manter a segurança ao longo da fronteira do Sul do Líbano, com o auxilio de tropas do exército libanês. 

Além disso, pediu a libertação incondicional, dos dois soldados de Israel sequestrados pelo Hezbollah, durante o incidente apontado como “Casus belli” do conflito. O Líbano ainda sofre ameaças constantes de Israel, que por outro lado, teme um ataque do Hezbollah. Ficou claro na última guerra, em 2006, e tambem e pelos discursos de Hassan Nassrallah, que hoje o grupo está muito mais forte, e armado com tecnologia bem avançada, inclusive com foguetes com poder de atingir Tel-aviv. 

Essa guerra custou muitas vidas, de civis e crianças, um preço muito alto, e ela nunca teve realmente um fim; eventualmente Israel ataca o Líbano, como o Massacre de Qana, em 1996, outro ataque no sul, em 2000, e por fim, ataques no sul, e subúrbios de Beirute (Dahiyeh) em 2006. Todas as principais pontes do país foram destruídas, para cercar o Líbano, e não permitir a saída de ninguém do país, qualquer caminhão que passasse nas estradas, avistados pelos radares de Israel, eram bombardeado por aviões de guerra, sem piedade, com a desculpa de que poderia ser um transporte de armas para o Hezbollah. 

Desde 2006, quando Israel saiu do Líbano derrotado pelo Hezbollah, o Líbano não sofreu outro ataque de Israel. Mas com certeza, não podemos falar que essa guerra terminou. Oficialmente, os dois países continuam em guerra, porém sem ataques e violações da Resolução 1701, embora constantemente o Estado israelense continue abusadamente, a invadir o espaço aéreo do Líbano. 

Mas jamais houve um acordo de paz assinado entre os dois países, por questões de princípios morais e civis. Israel, já habituado a se apossar de terras alheias, também quer tomar posse das terras de Shebaa, que pertence aos libaneses, que em contrapartida, não irão abrir mão dessas terras nunca, principalmente porque não concordam em alterar o mapa geográfico, se desfazer de seus bens, para ceder a Israel.


Therese Mourad
Gazeta de Beirute

Fonte: Wikipédia e Harb Lebnan (CDs)
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