Contra-Almirante Leandro - Fragata Constituição


Na última semana, a Gazeta de Beirute esteve visitando o navio da Marinha do Brasil, a Fragata Constituição, ancorada no Porto de Beirute, onde tivemos o prazer de poder almoçar junto com o Contra-Almirante, Joése de Andrade Bandeira Leandro.

A visão da Fragata atracada no porto impressiona pelo seu porte e 
imponência, e a receptividade de nossos militares nos fez realmente sentir que estávamos em território brasileiro, dentro do Líbano. A simpatia do nosso Contra-Almirante é contagiante, e o encontro realmente foi muito bom e agradável. Estiveram presentes comigo Kátia Aawar e Carine Haddad da Revista Snob, e três militares da Marinha.  

Infelizmente o tempo não foi o suficiente, e não deu tempo para fazer um tour pela fragata e registrar a sua beleza e imponência, mas pretendemos retornar, até porque o Contra-Almirante Leandro tem muito mais a nos contar, sobre suas experiências no mar.

Até que consigamos retornar, foi realizada com ele uma pequena entrevista, que pode ser conferida abaixo.

GB: Almirante Leandro, como a Marinha do Brasil acabou integrando a força naval de paz da UNIFIL?

Almirante Leandro: Em 2010, a Marinha foi convidada pelas Nações Unidas para assumir o Comando da Força-Tarefa Marítima no Líbano. 

O primeiro Almirante brasileiro a comandar a Força-Tarefa Marítima (FTM) foi o Vice-Almirante Luiz Henrique Caroli, de Fevereiro de 2011 a Fevereiro de 2012. De Fevereiro de 2012 a fevereiro de 2013 o Comandante da FTM foi o Vice-Almirante Wagner Lopes de Moraes Zamith. E desde 19 de fevereiro de 2013, tenho o imenso orgulho em ser o terceiro Almirante brasileiro a comandar a FTM. 

Além do Comandante da Força-Tarefa Marítima e seu Estado-Maior, a Marinha do Brasil participa, também, com os navios e suas tripulações no componente naval do contingente de manutenção de paz da UNIFIL. A Fragata “Constituição” é o terceiro navio brasileiro a participar da missão. Em julho próximo, ela retornará ao Brasil, sendo substituída pela Fragata “União”, que deverá permanecer até janeiro de 2014.

GB: Mas como surgiu essa integração do governo brasileiro nessa missão de paz aqui no Líbano? Em quantas missões de paz o Brasil já esteve presente?

Almirante Leandro: O Brasil já tem mais de 60 anos participando de missões de paz da ONU. Atualmente, existem brasileiros “peacekeepers” em diversos lugares do mundo, em vários continentes. 
As duas maiores participações do Brasil ocorrem no Haiti, e no Líbano. No Haiti, um General do Exercito Brasileiro (EB) é o Comandante da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) e, no Líbano, um Almirante é o Comandante da Força-Tarefa Marítima.
Recentemente, um General do EB foi convidado para comandar a missão de paz no Congo.

GB: Então, atualmente, existem duas missões de paz em curso? A do Haiti e a do Líbano, e em breve a do Congo? 

Almirante Leandro: Na verdade, são várias missões de paz que o Brasil participa. As duas maiores como contingente, como tropa, são Líbano e Haiti. Mas o Brasil participa em diversas outras missões da ONU, em diversos países. 

GB: Assim como outros contingentes, de outros países, integram a UNIFIL aqui em terra, onde há, por exemplo, 37 países envolvidos; em outras missões, em outros lugares, o Brasil representa uma das diversas nações que integram os diversos contingentes da UNIFIL, em outros países. Correto?

Almirante Leandro: Exatamente! E a Força-Tarefa Marítima é a única força tarefa no mar sob a égide da ONU. 

GB: Qual a função do Brasil nessa missão de paz no Líbano, além de patrulhar a costa do Líbano, e evitar a entrada de armamento ilegal de armas no país?

Almirante Leandro: Essa missão é da Força-Tarefa Marítima, e não do Brasil. Depois do bloqueio naval de 2006, realizado por Israel, o Primeiro Ministro do Líbano enviou uma carta a ONU, solicitando uma intervenção nesse bloqueio. Por quê? Porque o bloqueio naval impacta diretamente na economia do país. Em todos os países do mundo, mais de 90% do comércio exterior circula pelo mar. Então a balança comercial de qualquer país é afetada diretamente pelo funcionamento dos portos. Toda a riqueza do país passa pelos portos, ela entra e sai pelos portos, por meio das importações e exportações. Então, em 2006, o Conselho de Segurança da ONU emitiu uma Resolução criando a Força-Tarefa Marítima da UNIFIL com duas principais tarefas:

1) Impedir a entrada de armas ilegais no Líbano.

2) Contribuir para o aprimoramento da Marinha Libanesa, de forma que daqui a alguns anos, ela possa sozinha, tomar conta de seu mar territorial, e de sua segurança marítima.

GB: O que constitui de fato, o mar territorial de um país?

Almirante Leandro: O mar territorial é uma extensão, um prolongamento do território terrestre de um país em mais 12 milhas náuticas (24 km) a partir do litoral em direção ao alto mar, onde o país tem plena soberania de todas as suas leis, não apenas no mar, mas no espaço aéreo, e sob a superfície do mar. Tudo o que está sob o mar, na superfície do mar e sobre o espaço aéreo do mar, até as 12 milhas (24km), faz parte do território de um país. 

GB: E após a área territorial do país, o que acontece?

Almirante Leandro: Até 24 km, é a área territorial de um país, depois disso, até 400 km, é uma zona econômica exclusiva, onde o país tem o direito de explorar os recursos vivos e não vivos sob o leito do mar, entre o subsolo e a superfície, e no subsolo. Quando a Convenção da Jamaica sobre o Direito do Mar foi assinada em 1982, não se sabia, ainda, quanta riqueza havia no subsolo do mar. Hoje, no Brasil, a zona econômica exclusiva, e a plataforma continental, são chamadas de Amazônia Azul. Esta denominação faz uma analogia ao tamanho e a quantidade de riquezas existentes na Amazônia “verde”, e ao imenso patrimônio brasileiro existente em nosso mar. 

GB: Quantos homens compõem a tripulação da Fragata Constituição?

Almirante Leandro: Entre tripulação e o Estado-Maior da Força Tarefa Marítima, temos 260 homens. E, a partir do ano que vem, haverá uma militar feminina fazendo parte do Estado-Maior: uma advogada.

GB: Como é o dia a dia dos militares? 

Almirante Leandro: O navio realiza patrulhas na área marítima, que é uma área costeira ao território do Líbano, com 220 km de comprimento por quase 100 km de largura. O navio intercala períodos no mar, patrulhando essa área e, no porto, para reabastecimento de combustível e de gêneros, geralmente em Beirute, em Mersin, na Turquia, ou em Limassol, no Chipre.

GB: O Estado israelense, frequentemente, invade o espaço aéreo do Líbano, violando a resolução da ONU. O que pode ser feito, pela fragata brasileira, nessas situações? 

Almirante Leandro: A missão do navio brasileiro é impedir a entrada de armamento ilegal no Líbano, e contribuir para a formação da Marinha libanesa, de acordo com a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. 

GB: Mas vocês podem executar a força para defender o Líbano e os militares da UNIFIL, se for preciso?

Almirante Leandro: Nós somos defensores da paz, nossa missão é manter a paz, ainda que o navio seja um navio militar, nós defendemos a paz. Uma coisa que me interessa muito é contribuir com qualquer atividade em termos de ação social, ou outra, que promova a paz. Nós estaremos sempre contribuindo para isso: a paz. Como “peacakeepers”, seguimos as orientações da ONU e realizamos nossas tarefas no cumprimento do Mandato da ONU.

GB: Vocês já sofreram algum tipo de atividade ou comportamento hostil por parte de algum país, seja no Líbano ou em outro país?

Almirante Leandro: Não. Nós fomos excelentemente bem recebidos no Líbano, pela comunidade e pela sociedade libanesa, e fomos também muito bem recebidos na Turquia, e em Limassol. Mas a nossa casa agora é no Líbano. (risos).

GB: O que é considerado para a força naval, em mar, uma atividade hostil? 

Almirante Leandro: São muitas situações que são consideradas de hostilidade, depende muito. Mas aqui, realmente não tem, e não tivemos nenhuma atividade hostil. Aqui nós controlamos o tráfego marítimo de todos os navios que passam nessa área marítima, todos eles são acompanhados por nós. 

GB: O Brasil é um país pacífico, que tem boas relações com todos os demais países. Como fica essa relação com os países inimigos do país onde o Brasil está atuando em missão de paz? Por exemplo, a situação do Brasil com Israel, sabendo-se que Israel e Líbano são países inimigos.

Almirante Leandro: O cumprimento do mandato da ONU é reconhecido internacionalmente. O Brasil é um País que está contribuindo com as Nações Unidas para a manutenção da paz na região. Por isso todos nós usamos as boinas azuis. 

GB: Como é viver, tantos meses em alto mar, e fora da terra natal, passando por países distantes e tão diferentes do Brasil? Há momentos de muita saudade ou de tristeza?

Almirante Leandro: É a vida de marinheiro... (risos). Tristeza não dá, mas saudades da família, dos filhos sim, mas já estamos acostumados a trabalhar assim. A vida é um equilíbrio. Nós temos a oportunidade de vivenciar outras culturas, situações novas, adquirimos experiência cultural, profissional, experiência de vida. Em contrapartida, sentimos saudades. Isso é que dá um equilíbrio. Isso faz parte. Mas eu sou suspeito pra falar, porque eu gosto muito do que eu faço, e eu gosto muito do mar. Quando eu não estou no navio, eu tenho um barquinho a vela, e eu saio de novo para o mar. (risos) Eu gosto muito, então eu pego a família, e volto pro mar. 

GB: Quando você ingressou na Marinha? 

Almirante Leandro: Em 1976, aos 14 anos. Entrei no Colégio Naval. Fiz três anos do ensino médio, depois a Escola Naval. Anos depois, eu tive a oportunidade de comandar o Colégio Naval onde iniciei na Marinha. Foi uma emoção muito grande. 

GB: Você vem de uma família de militares?

Almirante Leandro: Meu pai é militar também, do exército. Em toda a família, somos os dois únicos militares. Eu quis entrar na Marinha, porque eu sempre gostei muito do mar. 

GB: Que lugar você esteve e que merece destaque, pela experiência que você teve?

Almirante Leandro: Eu já tive oportunidade de vivenciar várias experiências fora do Brasil. Eu recebi nos EUA, um navio que estava sendo comissionado pela Marinha do Brasil. Fiz um curso em Roma, durante um ano, de Política Estratégica no Instituto de Defesa da Itália. Conheci a Antártica, quando comandei o Navio de apoio Oceanográfico Ary Rongel, durante dois anos. 

GB: Como foi passar tanto tempo num lugar tão frio e tão diferente do Brasil?

Almirante Leandro: A Antártica é um lugar muito especial, um cenário completamente diferente. Lá, o Brasil desenvolve diversos projetos coordenados pela Secretaria Especial para os Recursos do Mar (SECIRM). Estes projetos são aprovados pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), com a participação por diversos ministérios: Ciência e Tecnologia, Transportes, Defesa, entre outros. Os navios da Marinha, “Ary Rongel” e “Almirante Maximiano” prestam todo o apoio logístico e suporte para estes projetos. 

GB: E como você aguentou o frio lá?   

Almirante Leandro: O navio tem aquecimento. Mas se você sair, realmente a temperatura é bem baixa. O mar por vezes é bem difícil. É uma navegação bem diferente, bastante interessante.

GB: Assim que nós chegamos, você disse estar gostando muito do Líbano, que está tendo uma experiência de cultura e aprendizado de várias coisas novas e diferentes. O que você está notando no Líbano, de similar com o Brasil?

Almirante Leandro: Tudo. No Brasil, temos uma quantidade de descendentes de famílias libanesas, muito grande. Então para nós, especialmente 
brasileiros, está sendo realmente muito bom estarmos trabalhando aqui, sob a égide da ONU, contribuindo para a manutenção da paz no Líbano, e assim, estarmos também contribuindo para a alegria do povo libanês. Por diversas vezes, eu tive oportunidade de conversar com pessoas da sociedade libanesa, que veem a importância desse trabalho da UNIFIL para a manutenção da paz e da estabilidade na região; Então, para nós brasileiros, é muito significativa essa contribuição, e nos dá um orgulho muito grande, em estarmos aqui, nessa missão. 

GB: Você, então, está bem no espírito libanês... (risos)

Almirante Leandro: Com certeza! (risos)

GB: Os membros da comunidade brasileira no Líbano podem vir visitar a fragata?

Almirante Leandro: Sim, com certeza, nós só precisamos agendar isso com antecedência, devido aos períodos no mar. Além de seguir o controle de entrada, por questões de segurança, como ocorre em qualquer porto do mundo. 

GB: Tem limite de convidados?

Almirante Leandro: Não, não, só é preciso mesmo agendar com antecedência, para podermos organizar as questões administrativas e podermos bem receber. 

GB: Almirante, muito obrigada pelo almoço, pela companhia, pelo convite e pela entrevista. Foi um prazer, e eu vou voltar, para falarmos com detalhes, sobre a sua experiência na Antártica. 

Almirante Leandro: O prazer foi meu. Sim, tá bom, com certeza. Vamos marcar sim.


Claudinha Rahme
Gazeta de Beirute
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