Rebeldes torturaram, estupraram e esfaquearam minha irmã!

Foto: MDig

Esta semana, nossa correspondente Therese Mourad esteve em contato com uma brasileira, descendente de sírios, e que compartilhou com a Gazeta de Beirute o horror de perder a irmã caçula para a maldade dos rebeldes sírios. O número de vítimas, com casos semelhantes ao dessa brasileira, é uma realidade crescente nesse massacre que há dois anos assola a Síria. 

Acompanhe a entrevista da brasileira que se refugiou no Líbano, após a morte de sua irmã caçula.


GB: Bom dia, Salma. Você é brasileira?

Salma: Bom dia. Sim, eu sou brasileira, descendente e casada com Sírio.

GB: Portanto, seus pais e seu marido, são Sírios?

Salma: Exatamente. Eu morava no Brasil, mas depois que me casei, fomos morar na Síria.

GB: Há quanto tempo você está no Líbano?

Salma: Há mais ou menos um ano, para ser mais exata, 10 meses. Viemos para cá, um bom tempo depois que iniciaram os conflitos. E antes disso, onde morávamos na Capital, não havia nada, ainda estava mais tranquilo.

GB: E com quem você mora no Líbano?

Salma: Moro com meu marido e meus três filhos, nós alugamos uma casa aqui. Só decidimos vir para o Líbano depois da morte de minha irmã.

GB: Sua família também morava na Síria?

Salma: Não, meus pais moram no Brasil, mas minha irmã veio morar comigo, para estudar medicina na Síria, e infelizmente, aconteceu o que aconteceu.

GB: Você me disse no telefone que tem algo muito triste e desumano para me contar, e que gostaria que o mundo inteiro ouvisse o que você tem a falar. Que fato você quer contar, Salma?

Salma: Verdade, eu te falei sim. Mas antes de começar a te relatar os fatos, eu gostaria de fazer uma pergunta, pode ser?

GB: Claro, fique a vontade.

Salma: Como vocês podem defender os rebeldes na Síria, de tal modo, apesar das barbaridades que eles fazem, e que são divulgadas na internet constantemente, permitindo ao mundo inteiro, ver os crimes bárbaros que eles cometem? Como pode? Eu não me conformo com isso!

GB: Um momento minha senhora, vocês quem? A quem a senhora se refere, na sua pergunta?

Salma: A todos vocês, a mídia, o governo libanês, os árabes, a todos vocês em geral. Vocês ganham dinheiro para falar contra o Regime Sírio e defender os rebeldes? Como vocês conseguem colocar a cabeça no travesseiro e dormir?

GB: Bom, dona Salma, em primeiro lugar, nós não defendemos a oposição e falamos mal do Regime, e nem vice-versa, e tão pouco, recebemos dinheiro de partido algum. Cada um é cada um, com certeza eu não posso falar por todos, mas posso falar no que se refere à Gazeta de Beirute. 

Somos um jornal independente, somos neutros, não apoiamos e nem nos opomos a partido algum. Nosso jornal tem uma única missão: levar as notícias à comunidade brasileira no Líbano, porque há muitos brasileiros nesse país, e muitos deles, não sabem o árabe. Esta é nossa causa. 

Nós escutamos a sua história e a passamos aos leitores, e cabe a eles opinarem, e não ao jornal. Respeitamos todos os partidos, todas as crenças, todas as pessoas, todas as opiniões, mas a nossa função é apenas relatar os fatos aos nossos leitores. 

É sempre importante ouvir os dois lados da historia, cada um tem sua opinião, e nós respeitamos isso. Acho que você é uma das leitoras desse jornal, e sabe qual é a nossa posição, então, por favor, eu peço a você que essa entrevista continue.

Salma: Desculpe-me, você tem razão. Eu não tive a intenção de ofender , mas é que não me conformo como a mídia distorce os fatos.

GB: Essa é sua opinião, e eu respeito.

Salma: Bom, de qualquer maneira, eu vou contar agora, como a minha irmã morreu, e vou deixar que os leitores, me deem razão, ou não.

GB: Há quanto tempo sua irmã  morava com você na Síria?

Salma: Eu vim do Brasil em 2006, um pouco antes da guerra do Líbano, e minha irmã veio quando ela terminou o colegial, dois anos depois, em 2008.

GB: Ela deixou seus pais no Brasil, e foi para a Síria para morar com você?

Salma: Meu pai faleceu há anos, ela deixou minha mãe e dois irmãos. Ela foi para a Síria morar comigo, para estudar Medicina, era o sonho dela. E como na Síria, o ensino é bom e gratuito, ela decidiu ir estudar e morar lá.

GB: Quantos anos ela tinha quando morreu?

Salma: 25 anos, ela era a caçula, e chegou a cursar até o terceiro ano de Medicina, mas parou por causa da situação do país. Os rebeldes entraram na capital, Damascus, e sair de casa se tornou algo quase que impossível, o que a obrigou a parar o curso.

GB: Há quanto tempo foi isso?

Salma: Como te falei, há uns 10 meses e meio. Quando a situação ficou muito ruim, e ela teve que parar de ir a faculdade, ela passou a ajudar a cruz vermelha, ela era muito nobre e humana, e adorava ajudar as pessoas, especialmente, as mais pobres...

Ela cai em prantos, chora muito, e nós então pedimos mais água, e um café para acalmá-la (essa entrevista foi realizada em uma cafeteria).

GB: Se acalmou um pouco?

Salma: Sim, me desculpe, mas é muito doloroso, muito mesmo, eu não 
consigo me controlar. 

GB: Sinto muito por ela, eu entendo, é doloroso perdermos uma pessoa querida, e por quanto tempo ela ajudou a cruz vermelha?

Salma: Coitada, por pouco tempo, acho que aproximadamente uns cinco meses. Até ela ser sequestrada pelos radicais islâmicos.

GB: Como ela foi sequestrada?

Salma: Ela foi sequestrada quando voltava para casa, depois de 3 dias de longo trabalho na cruz vermelha, socorrendo pessoas feridas. Ela me ligou pelo celular, por volta de 19h00min, dizendo que estava a caminho de casa com três colegas, no carro da cruz vermelha, mas ela nunca chegou...

Ela cai em prantos novamente, chora demais, e depois se acalma.

GB: E como você soube que ela havia sido sequestrada?

Salma: Quando ela demorou muito, para chegar em casa, eu me preocupei. Eu ligava para ela no celular, mas sem respostas, ela nunca respondia, fiquei ligando das 20h00min até 22h30min, e ficando cada vez mais desesperada, pois não era costume dela se atrasar sem avisar, ou não responder o celular, pois ela sabia que eu ficava muito preocupada.

GB: E o que você fez?

Salma: Eu liguei para o centro da cruz vermelha onde ela atuava, e perguntei dela e dos colegas, quando eles me falaram que perderam o contato com a ambulância, na qual ela estava, há mais de 2 horas, nossa, eu fiquei apavorada. Eu me desesperei, e na hora liguei para o número de denúncias do exército Sírio.

GB: E o que aconteceu?

Salma: Eu denunciei, e fui informada pelos mesmos, que a ambulância da cruz vermelha havia sido raptada, com seus ocupantes, por rebeldes armados. Foi muito desespero, eu liguei para um deputado amigo nosso, pedindo ajuda, eu estava  fora de controle, e ele prometeu ajudar.

GB: E ele conseguiu ajudar?

Salma: Bom, depois de quatro dias, fomos informados que o exército Sírio os havia localizado, e que estavam a caminho do resgate, o que na hora, me fez vibrar de alegria. Eu estava muito feliz e ansiosa para revê-la. Mas jamais imaginei que iria encontrá-la no hospital naquele estado lamentável. Foi muito triste e doloroso, ver minha irmãzinha daquele jeito.

GB: Como ela estava? O que aconteceu com ela?

Salma: Ela foi torturada, espancada, e estuprada por seis homens do Jihad. O colega dela foi morto na frente dela e da outra voluntária, e as duas foram torturadas e violentadas pelos seis homens, varias vezes. Minha irmã estava com um corte de faca, bem profundo, na barriga. Ela falava com os investigadores no hospital, mas estava chocada e muito amedrontada.

GB: E por quanto tempo ela ficou no hospital?

Salma: Ela ficou internada durante 16 dias, mas não resistiu aos ferimentos e morreu, infelizmente.

GB: Eu sinto muito Salma, que Deus a tenha em bom lugar. E os homens que a sequestraram? Eles foram capturados?

Salma: Dois morreram no confronto, três foram pegos e um conseguiu fugir. Aliás, eu quero mencionar aqui, que segundo os relatos da minha irmã para a polícia, um deles era alemão, um era saudita, dois eram da Tunísia, e o outro, era um ex-soldado sírio, todos confirmados pela policia, na época. Eu gostaria de falar uma coisa, se possível.

GB: Claro, fique a vontade.

Salma: Esses rebeldes estão cometendo essas barbaridades, em nome do Jihad, usam palavras de Deus, mas eles não têm nada a ver com o Islã. 
Eu sou muçulmana, e conheço o Islamismo. O Islã clama paz, amor e o perdão, é uma religião muito bonita e limpa, jamais um muçulmano de verdade, faria essas barbaridades em nome do Islamismo. 

Esses rebeldes são apenas monstros, enviados por outros países, para brigar na Síria e morrer, assim livrando o país de origem, desses terroristas. E antes desses terroristas entrarem em nosso país, todos viviam em harmonia, cristãos, muçulmanos, drusos, nós vivíamos unidos, jamais houve esse tipo de conflito entre nós. 

E nós, os árabes, temos um único inimigo: Israel! Portanto, como esses países árabes, podem apoiar esses rebeldes, que estão beneficiando somente a Israel? Mas Deus é grande, nosso presidente vencerá essa guerra, e a Síria voltará mais forte ainda, mais do que antes.

GB: Obrigada Salma, por essa entrevista, e sentimos muito pela sua irmã. Desejamos a paz para o mundo inteiro, na esperança de um mundo melhor.

Salma: Obrigada vocês por me escutarem, e não me pressionarem, boa sorte!


Therese Mourad
Gazeta de Beirute
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