A lenda do Saci Pererê

Saci é um personagem brasileiro mitológico, que habita o imaginário popular brasileiro, principalmente no interior do país, onde ainda se mantém o hábito dos mais velhos, de contarem histórias aos mais jovens, nas tranquilas e claras noites de lua. 

Representado pela figura de um menino negro de uma só perna, que possui um gorro vermelho na cabeça, e traz sempre um cachimbo na boca, de Norte a Sul do Brasil, além do nome, são várias também, as definições e representações que se tem dele.

No nordeste, de uma forma geral, ele segue a representação antes descrita, que é a mais conhecida, e a mais popular. Esse mito teria surgido na região Sul do Brasil, durante o período colonial, por vota do final do século XVIII, por ocasião das Missões.

A alcunha, pela qual o Saci é mais popularmente conhecido, é Saci-Pererê, mas seu nome originalmente era Yaci-Yaterê, nome de origem Tupi Guarani. De acordo com a região do Brasil ele pode, porém, ser conhecido por uma variedade de apelidos. Segundo a crença popular, os Sacis vivem setenta e sete anos, e se originam do bambu. 

Após sete anos de “gestação”, dentro do gomo do bambu, ele sai para uma longa vida de travessuras, e quando morre se metamorfoseia em cogumelos venenosos, ou em “orelhas de pau”. Quem é do interior, ou já foi para o campo a passeio, deve ter visto alguma vez, uma espécie de cogumelo, que se forma nos troncos das árvores, e que se parece com uma orelha. É isso que os matutos chamam de “orelha de pau”. Apesar das inúmeras definições dessa famosa entidade folclórica, algumas características são mais presentes e recorrentes nas descrições do Saci. 

As mais conhecidas em geral são:

•Ele é um ser que vive nas matas, extremamente misterioso, é negro, pequeno, e possui apenas uma perna, usa um capuz vermelho, e um cachimbo;

Não possui pêlos no corpo; 

•Não possui órgãos para urinar ou defecar, só tem três dedos em cada mão, possui as mãos perfuradas; Adora assoviar, e ficar invisível, vive com os joelhos machucados, resultado das travessuras;

•Fuma em um pito, e solta fumaça pelos olhos, adora fazer travessuras, e pode, em momentos de bom humor, ajudar a encontrar coisas perdidas; 

•Gira em torno de si, feito um pião, e provoca redemoinhos, pode ser malvado e perigoso, adora encantar as criancinhas fazê-las se perder na mata.

Dentre todas essas características, uma é unânime: sua personalidade travessa. Algumas pessoas acreditam que ele é mau, outros dizem que ele é apenas um garoto traquino, que adora fazer pequenas travessuras, mas sem o intuito de fazer o mal, apenas de se divertir. Seja como, for diz a lenda que ele é muito peralta. Adora assustar os animais, prendê-los, criar situações embaraçosas para as pessoas, esconder objetos, derrubar e quebrar as coisas, entre outras danações.

Diz a lenda, que ele não é apenas um brincalhão, ou um espírito mau. Trata-se também, de um exímio conhecedor das propriedades medicinais das ervas e raízes da floresta. Se alguém precisa entrar na mata e pegar algo, portanto, tem que pedir autorização ao Saci, pois entrando sem permissão, cairá inevitavelmente em suas armadilhas. Algumas pessoas afirmam que o único meio de driblar o negrinho, é espalhando cordas, ou barbantes amarrados, pelo caminho. Assim ele se ocuparia em desatar os nós, dando tempo da pessoa fugir de sua perseguição. 

O Saci também tem medo de córregos e riachos, por isso, atravessar um pode ser uma alternativa, pois o Saci não consegue fazer a travessia. Mas o único meio de controlar um Saci, segundo o mito, é tirando-lhe o gorro e prendendo-o em uma garrafa. 

Para isso é necessário jogar uma peneira, ou um rosário bento, em um redemoinho. Somente assim se pega um Saci. Uma vez preso, e sem o gorro que lhe dá poderes, ele fará tudo que for mandado. Quando surgiu, o saci foi representado por um curumim endiabrado, de uma perna só, e com um rabo. Suas traquinagens tinham como objetivo, atrapalhar a entrada dos intrusos na mata, ou seja, no território indígena. 

Era provavelmente uma forma encontrada pelos nativos, de resguardar seu território da invasão dos indesejados homens brancos. A figura original do Saci – garoto índio – sofreu alterações por ocasião da inserção, na cultura brasileira, de elementos africanos e europeus, trazidos para o Brasil  pelos escravos negros importados da África, e pelos colonizadores. 

Ao chegarem a terras brasileiras trazendo seus próprios mitos, e difundindo-os entre os que aqui habitavam, africanos e europeus provocaram uma mescla de características das três culturas, assim, a lenda do saci ganhou elementos novos. O Saci se transformou em um garoto negro, de características físicas africanas. Alguns acreditam que a ausência da perna, se deveu a uma perda sofrida em uma disputa de capoeira, luta praticada pelos negros africanos. Também ganhou um cachimbo, típico dos costumes africanos. Da cultura europeia, ganhou um elegante barrete vermelho que reza a lenda, é a fonte de seus poderes mágicos. 

Monteiro Lobato, escritor conhecido do público infantil, foi o primeiro a lembrar do Saci. Nas décadas de 1970 e 1980, o personagem apareceu nas histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, e o personagem ficou conhecido em todo o país. Este é, talvez, o escritor que mais difundiu esse personagem, primeiro através da obra escrita, e depois através da obra televisionada, que hoje tem alcance internacional, levando nosso personagem ao conhecimento do mundo. 

Além do impulso dado pela literatura, outro fato importante foi a criação, em 2005, pelo governo brasileiro, do Dia Nacional do Saci, que deve é comemorado anualmente em 31 de Outubro. Essa ideia surgiu com o intuito de minimizar a importância que se dá à comemoração do Dia das Bruxas, reduzindo assim, a influência de culturas importadas, e favorecendo a valorização da cultura e do folclore brasileiro.


Therese Mourad
Gazeta de Beirute
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