Cultura da violência

Foto: YouTube

O interminável confronto em Trípoli, entre os bairros sunitas de Bab al-Tabbaneh, e o Alawita de Jabal, são reflexos do conflito sírio. As duas comunidades, desde a década de 80, foram divididas em virtude ao apoio ao regime sírio, onde os sunitas, apoiavam a Organização de Libertação da Palestina (OLP), bem como seu Presidente Yasser Arafat, e os alawitas apoiaram Hafez al-Assad. A OLP e suas facções islâmicas locais, que dominavam a cidade na época, foram derrotadas pelo exército sírio e seus aliados; transformando Trípoli em um monte de ruínas ocupadas pelos sírios, até sua expulsão em 2005. A animosidade entre os dois grupos, limitou-se a diplomacia política, porém a retórica pública e as mídias rotularam que ambos eram grupos primordiais.

Até então, qualquer desafeto, desacordo, ou ódio poderia ser suportado, se não fosse o fato desses grupos usarem suas crianças e adolescentes na guerrilha, permitindo orgulhosamente que eles desfilem com armas pesadas nas mãos em meios aos confrontos, como se eles estivessem carregando seus brinquedos favoritos, numa sórdida manobra política de solidificar suas identidades coletivas, levando a confrontos sectários. 

Não é novidade que vídeos dessas crianças e adolescentes estejam circulando no YouTube, no intuito de forjar tal identidade coletiva, sem perceber o quanto isso vem causando outros conflitos, como conflitos étnicos, religiosos em outras comunidades, que indignadas e incrédulas com essa cultura da violência, acabam que hostilizando toda uma nação, e sua cultura, por conta de uma minoria irresponsável que deveria proteger e defender suas crianças, e não inseri-las no contexto sangrento, incentivando-as à pratica da violência, como algo normal e saudável.

Em dois dos vídeos, um sunita barbudo aparece ao lado de uma menina de 5 anos (vide foto do artigo), dando em sua mão um rifle, instruindo-a como manejar a arma, e ao mesmo tempo falar para a câmera em quem ela vai atirar. A garotinha, em seu triste aprendizado da cultura da violência, afirma feliz, embora sem compreender que isso NÃO é o certo, que ela vai atirar contra Jabal Mohsen. A mensagem subliminar dos sunitas aos alawitas fica muito bem explícita nesse vídeo. 

Qualquer pessoa, por menor cultura que tenha, compreende nitidamente, que este sunita quis avisar os alawitas, que até o futuro de suas gerações ainda estarão odiando-os, e pegando em armas para alveja-los; e que sendo assim, esse infeliz conflito sectário, jamais chegará ao fim, porque a cultura da violência vem sendo amplamente imposta às inocentes crianças da comunidade. Mas os alawitas, também não ficam atrás em sua metodologia eficiente da cultura de violência, eles também gravaram um vídeo, onde um pai (Abu Jaffar), sentado com seu filho ao lado, entrega-lhe rifles em ambas as mãos. 

E o inocente garoto, assim como a garotinha, também demonstra orgulho e alegria no que está fazendo, certamente também não entendendo o quanto isso é errado e inaceitável. Neste vídeo, Abu Jaffar diz ao telespectador, como ele e seus três filhos, estão dispostos a morrer defendendo sua comunidade, contra os ataques dos "suínos salafistas".

E complementa o discurso falando que suas avós e seus antepassados, lutaram contra os sunitas, e que ele e sua prole darão segmento a esse exemplar legado de violência sectária. Mas como Abu Jaffar afirmou que isso é um legado de família, subentende-se, que um dia ele também foi um garotinho inocente, como seu filho o é nos dias atuais, e que ele também passou por lavagem cerebral, de adultos ignorantes e irresponsáveis. 

Com base em feudos imaginários de clãs do passado, essa geração cega de hoje, equivocadamente vem arrancando a visão e o cérebro de suas crianças, doutrinando-as a perpetuar o ódio, a vingança, e a violência. 

Uma região pobre e subdesenvolvida, que deveria almejar um futuro melhor para seus filhos e netos, continua pregando o mesmo discurso secular falido, que não alterou de forma positiva a historia das gerações passadas, não está alterando a dessa geração, e certamente, não irá alterar as das gerações futuras. 

Mas não apenas sunitas e alawitas sustentam-se em lendas e contos de clãs passados sobre a prática desse sectarismo e violência, isso se estende a toda a sociedade libanesa.

Uma sociedade com diversas outras seitas, e clãs, que também instiga em suas próprias narrativas, a ideia de “quem serve e quem não serve”, ou a de quem é “inimigo, e quem não é”, dissociando totalmente a possibilidade de unificar a nação, como uma nação fraterna e pacífica.

Buscam-se muitos culpados, para se justificar seus maus atos, mas de fato, falta-lhes senso para reciclar suas estagnadas e alienadas mentalidades de retrocesso e segregação, onde as rivalidades imperam com soberania dentro de um país tão pequeno.


Claudinha Rahme
Gazeta de Beirute
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