O último oleiro de Beit Shabab

Foto: Mohammad Azakir

Fawzi Fakhoury é o último oleiro de Beit Shabab, uma pitoresca aldeia nas montanhas do Líbano, e que há 60 anos, tinha dezenas de famílias trabalhando na antiga arte de produzir cerâmica artesanal. 

Beit Shabab já foi símbolo da cerâmica no Líbano, onde pessoas de todo país se deslocavam para a pequena aldeia para comprar as panelas de barro artesanais usadas para armazenar desde grãos de arak, até vinho e azeite, todavia, Fawzi é o único oleiro ativo que restou na aldeia.

A antiga e empoeirada oficina, que mais parece a caverna de um ermitão, continua sendo a paixão do artesão, que não sabe datar quando ela foi inaugurada, mas explica que no folclores familiar, segue a lenda de que o ceramistas romanos treinaram seus antepassados, quando eles estavam construindo a antiga cidadela de Baalbek, em meados de 300 A.C., e que quando eles partiram, seus antepassados em busca do barro puro no país, acabaram se estabelecendo em Beit Shebab, por ela situar-se próxima da fonte natural, um pequeno e lamacento lago na floresta, logo abaixo da aldeia.

Oleiro há 60 anos, Fawzi cresceu entre as peças de cerâmica da oficina onde seu pai, seu avô e seu bisavô trabalharam antes dele, ele nunca pensou em fazer nenhuma outra atividade alem do oficio de oleiro, porque ele ama o trabalho que faz; mesmo que sua aparência demonstre desgaste e cansaço, ele ainda se mantém forte e resistente, trabalhando na oficina onde foi criado. 

Durante a guerra civil, ele abandou a aldeia e foi trabalhar com comércio na África Ocidental, e conta que sonhava todos os dias em voltar para a sua oficina no Líbano para continuar o legado de sua família. Quando ele enfim retornou, encontrou apenas uma parede danificada por uma bomba, mas suas ferramentas ainda estavam intactas, o que o animou a consertar a parede e reiniciar suas atividades.

Fawzi teve 3 filhas com sua esposa, todas já estão casadas, e segundo o oleiro, esse oficio não é feito pelas mulheres, pelo menos não em Beit Shebab; e ele carrega a tristeza, de não possuir um herdeiro para continuar a tradição familiar, que vem sendo feito por centenas, talvez milhares de anos, e que simplesmente irá se perder, quando ele se aposentar. 

Ele conta que no passado, seus clientes encomendavam vasos para tudo em todo o país, mas com o surgimento das embalagens plásticas, eles foram sendo gradativamente substituídos, e que atualmente sua clientela consiste em decoradores que buscam peças rústicas, ou turistas, em busca de um autêntico artesanato libanês, além de um cliente jordaniano, produtor de arak, que utiliza as cerâmicas para armazenar a bebida com sabor de anis.

Segundo explica Fawzi, a argila é coletada na primavera, quando ela se encontra em sua melhor consistência, então ela é moldada numa roda de olaria, e levada ao forno especial para cerâmica no mês de Agosto, o mês mais quente do ano, para acelerar seu cozimento, onde durante semanas escaldantes o oleiro monitora o forno, e girando as peças, para garantir que os meses de trabalho não sejam perdidos não fique em chamas e destruído. 

Não é um trabalho fácil, e nos dias atuais, parece não ser muito rentável também, onde ele produz apenas um lote de peças por ano, em vista, que na sua infância ele se recordava de ver o pai acendendo o forno sete ou oito vezes durante o verão. Fawzi foi convidado para um Festival de cerâmica na Normandia e na França, para aprender diferentes técnicas de produção, ele se diz honrado pelo convite e pelo reconhecimento de seu trabalho, porém disse ter se desapontado com as técnicas industriais desenvolvidas pelos ceramistas franceses, e que ainda prefere a técnica ensinada por seu pai e avô quando ele ainda era um menino. 

Os moradores da cidade dizem que o oleiro é parte da aldeia, e que ele é conhecido como “o homem da cerâmica” pelas crianças, porque ele esta sempre em sua oficina, assim como seu pai, seu avô e se bisavô também costumava ficar. O apaixonado Fawzi conta que continua fazendo negócios da mesma forma como seu pai e seus antepassados faziam há mais de meio século atrás. Ele diz que isso é o patrimônio inestimável de sua família, e que infelizmente irá se acabar, pela falta de um aprendiz, ou um herdeiro, dedicado em seguir os passos dos homens de sua família.

Ele não consegue imaginar como será a aldeia, sem a sua principal atração: A oficina de olaria, mas que enquanto ele estiver vivo e com saúde, ele irá cumprir esse papel com todo seu amor, porque ele não se imagina em outro lugar, fazendo outra coisa.


"Meu avô e meu pai morreram aqui, e um dia, eu vou juntar a eles. O que eu quero é morrer aqui"




Claudinha Rahme
Gazeta de Beirute
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