Skatista brasileiro no Líbano

Fotos: Adel Hamra

Anualmente, em 21 de Junho, é celebrado em todo o mundo, com emoção e espírito de aventura, uma das mais famosas atividades esportivas: O Skate. 

Originalmente, o “Go skateboarding Day“  (Dia do Skate em português) foi criado em 2004, pela IASC - International Association of Skatebording Companies, que foi fundada nos Estados Unidos em 1994, e que tem como objetivo a prática, o incentivo, e difusão informativa deste “esporte radical”. 

De acordo com Josh Friedberg, Diretor Executivo da IASC, o dia 21 de Junho, foi a data escolhida porque é o primeiro dia do verão no hemisfério norte, e também, o dia mais longo do ano. 

Dessa forma, a  IASC pode garantir que os skatistas tenham o máximo tempo possível, para aproveitar o primeiro dia de suas férias. 

Mais de 10 países já aderiram às comemorações do Dia do Skate, porém, o Brasil  tem  o seu próprio Dia do Skate, que é comemorado, todo dia 03  de Agosto. 

O skate surgiu na Califórnia, na década de 60, e foi criado pelos surfistas, que queriam se divertir também nas ruas, durante os períodos de baixa maré. Note que o formato do skate é semelhante com o formato da prancha de surf.

Com o passar dos anos, a habilidade e a prática foi se tornando crescente e cada vez mais popular, e os skatistas criaram  modalidades, que podem ser identificadas em suas manobras, estilos, e em diferentes lugares. 

As principais modalidades de skate são: “Freestyle”, “Street”, “Vertical Half Pipe”, “Vertical Pool Riding”, “Vertical Big air”, “Downhill Stand up”, “Downhill Slide” e “Mini Rampas”. O skate é constituído, basicamente, por oito partes: shape (deck, ou tábua), mesa, trucks, amortecedores, rodas, rolamentos, parafusos, e lixa; além das partes opcionais: Elevador  e slip tape.

No Líbano, o brasileiro Adel Hamra, nascido em São Paulo em 1987, é um dos pioneiros do skate no país, ele é estudante de Relações Internacionais na AUST- American University of Science and Technology de Beirute, desde 2008. O que prova que o Skate não é para adolescentes; os skatistas crescem, mas não abandonam o esporte. 

Em 1996, a família de Adel mudou-se para o Líbano, porém, em 1998, o seu pai foi transferido para trabalhar na Romênia, onde Adel viveu com sua família durante quatro anos. De volta ao Líbano, em 2002, Adel e sua irmã deram continuidade aos estudos na GBES – Greater Beirut Evangelical School. Em junho de 2006, Adel concluiu o High School, porém em virtude da guerra que eclodiu com Israel no mês seguinte, ele e sua família tiveram que sair de Beirute e retornaram ao Brasil. 

Quando a guerra terminou, Adel e sua família retornaram ao Líbano, mas não tiveram como se registrar no semestre corrente, e aguardaram até Fevereiro de 2007, para retomarem os estudos; foi quando Adel entrou para a Faculdade, para cursar Business e Administração de Empresas, embora ainda não tivesse certeza de que era aquilo que queria. Em 2008, com a implantação do curso de Relações Internacionais, na grade curricular da faculdade, Adel decidiu trocar de curso, e tem planos de retornar ao Brasil, quando se formar. 

Nossa correspondente, Carla Mussallam Al Masri, esteve conversando com Adel,  que gentilmente nos falou um pouco da sua vida, e também sobre o Skate no Líbano.

GB:  Adel há quanto tempo você pratica skate?

Adel: Eu comecei  na Romênia, em Julho de 2001, e nunca mais parei. No Líbano, eu sou um dos pioneiros, pratico desde 2002, quando retornei ao país.

GB:  Qual a modalidade, e estilo que você pratica?

Adel:  Eu pratico street e pista, que significa praticar com vários tipos de obstáculos, e também na rua.

GB: Você já participou de competições  no Brasil ou no Líbano?

Adel: Sim, no Líbano. Já competi  em todas as 7 competições que houveram aqui, mas nunca ganhei.

GB: Existem muitos skatistas no Líbano?

Adel: Existe entre 100 a 150 skatistas, a maioria está em Beirute, e também em Trípoli. 

GB: Quais são as modalidades e estilos preferidos dos skatistas daqui?

Adel: A única modalidade que tem aqui é o street, porque nunca teve uma pista de skate. Apenas no  ano passado foi aberto em Dbayeh, o 360 Skate park, que é a única pista de skate que dá para andar sem problemas, paga-se 10.000 LL, e pode-se ficar o dia inteiro praticando. Tem outra pista, no Fórum de Beirute, mas ela não é muito boa, porque a pista não é feita para Skate. Quando praticamos street, vamos para o Bairro Hamra,  ou para o Downtown,  perto da Virgin  Mega Store.

GB: Existe no Líbano alguma associação  ou  comunidade de skate?

Adel: Sim. Existe a LSA, Lebanese Skateboarding Association. A prática do skate no Líbano ainda está crescendo, pouco a pouco.

GB: Quem são os famosos skatistas aqui no Líbano?

Adel: Eu, Bilal El Hirsh e Ghassan Al Salman. Somos os únicos que começaram em 2002, e que praticam ate hoje.

GB: E existem meninas skatistas no Líbano?

Adel: Quase nada de meninas skatistas.

GB: Qual é a sensação de andar de skate?

Adel: É uma sensação de liberdade, de prazer e de controle. Toda vez que se faz uma manobra, o skatista se concentra muito para fazer tal movimento, e não é qualquer um que consegue se concentrar dessa maneira. Tem também uma sincronização entre o que se quer fazer e o corpo. Skate não é um esporte, é uma arte, porque todos os skatistas têm seu próprio estilo.

GB: Qual a mensagem ou conselho, que você pode dar para quem pratica, ou quer praticar, skate?

Adel: Se você quer andar de skate porque é algo legal, e está na moda, não ande de skate. Se você quer andar de skate, para alguns meses depois você parar para jogar futebol, ou fazer outras coisas, porque você  acha que "cresceu” para andar de skate, então, não ande de skate. Agora, se você consegue se imaginar daqui a cinco anos como um profissional, ou com um patrocínio, aí sim eu te incentivo a andar de skate, porque isso significa que você realmente ama o skate. Se o skate não mudou nada na sua vida, o jeito que você vê a arquitetura da cidade, os seus padrões, sua mentalidade, e organização diária, então você não vai durar em cima do skate, e depois de algum tempo, você vai enjoar e começar  a fazer outras atividades não muito  produtivas. 

O skate mudou minha vida, tudo o que eu faço  no meu dia a dia, é baseado no skate, isto me faz enxergar a arquitetura da cidade, de um modo diferente. Por exemplo, uma praça  é só uma praça, mas para quem anda de skate, é um lugar onde enxergamos várias  possibilidades para manobras, e também de criar novos estilos. No skate não temos diferença de música, política, religião e raça. Todos aceitam todos, do jeito que eles são. Muitas pessoas acham que o skate é um esporte, mas não é, e nunca será. Skate é uma cultura, um estilo de vida. 

GB: Vocês comemoram o “Dia Internacional do Skate“ aqui no Líbano? 

Adel: Sim, comemoramos entre nós. Saímos em um grupo grande, e andamos de Skate em vários lugares.

GB: Adel, você disse que depois de se formar, você quer voltar pro Brasil. Por quê?

Adel: O Brasil não é o melhor lugar para se viver, mas eu quero voltar pra lá, porque é a única opção que tenho. Estou morando fora do Brasil desde 1996, eu saí de lá quando eu tinha nove anos. Eu visitei o Brasil, várias vezes, estive lá em 1999, 2002, 2006, 2009, e 2011. Muitas pessoas me perguntam, por que eu quero sair do Líbano e ir pro Brasil, sabendo que lá não e um paraíso, porque lá tem crime e corrupção também. Com certeza, isso é um fato, mas tem coisas pequenas em uma sociedade, que as pessoas não sabem. Conhece aquela expressão “Você não sabe o que algo significa pra você, até que ela é tirada de você”? 

GB: Mas o que te motiva, de fato, a querer sair do Líbano pra viver no Brasil? 

Adel: Religião é a primeira razão porque eu não quero mais viver aqui. Eu sou ateu, porque eu não vi o sentido em religião, e aqui no Líbano, religião tem muita influência, na política, educação, em tudo. Como um ateu, e sem conexões políticas, é muito difícil para eu sobreviver aqui. As pessoas me chamam de imoral, e dizem que sou uma má influência. Eu também ouço heavy metal, que aqui é considerado música "satânica". Desde 2002, já teve várias "cruzadas" da polícia para “caçar metaleiros”, pessoas que tem cabelo comprido, porque elas são "satanistas". Se você for preso, eles te ficham na polícia, e quando você quiser trabalhar, e precisar de um registro civil da polícia, vai ter lá um ponto preto, significando que você teve passagem pela polícia. E isso pode te custar dois anos sem poder trabalhar, simplesmente por causa da música que você escuta. Muitas pessoas acham isso ridículo, e outras, não entendem como é difícil viver com isso. 

GB: No Brasil você terá mais liberdade para se expressar, porque lá a mentalidade é mais aberta?

Adel: Sim. Aqui, como tem essa mentalidade "copy + paste", todo mundo faz as mesmas coisas, escutam as mesmas musicas, se vestem do mesmo jeito. Basicamente, é uma sociedade de carneiros, onde se segue um padrão, e se alguém não segue esse padrão, é delinquente, satanista, criminoso, e etc. Isso no Brasil, não existe. Bom, entre os religiosos, pode existir, mas os religiosos lá não são a sociedade brasileira. O povo no Brasil tem a mente mais aberta, você pode ter cabelo comprido, ouvir a música que você quiser, pode ter barba, tatuagem, piercing, e a sociedade, não vai te isolar, como um delinquente, por isso. A sua aparência é uma escolha sua, e o povo no Brasil aceita a individualidade pessoal de cada indivíduo. 

GB: O que causa essa mentalidade fechada?

Adel: Vamos falar mais sobre a mentalidade. Todo mundo acha que educação é ter notas boas na escola e na faculdade. Isso não significa nada, apenas que você é bom de memorizar. Educação é algo que você usa em todas as situações, e que vai te ajudar a entender e viver a vida de um modo honesto, digno e correto. Essa educação não vem da escola ou faculdade, essa educação vem da sua casa. Se você não teve essa educação, que te ensina a respeitar as pessoas ao seu redor, os animais, as leis, o meio ambiente e a si mesmo, você não passa de uma pessoa ignorante... Aqui no Líbano, educação significa boas notas na escola e na faculdade, ter dinheiro e conexões. Se você prestar atenção no comportamento do povo libanês, você vai ver que não existe nenhum respeito a nada e nem a ninguém. As pessoas desrespeitam as leis de transito, jogam lixo na rua, xinga todo mundo, e acham que eles são melhores que todo mundo. Aqui, como ninguém respeita nada e nem ninguém, é considerado uma "terra de ninguém", aonde você faz o que quiser. A princípio, eu admito, parece ser legal, passar farol vermelho e não levar multa, beber álcool em público, furar fila... Isso tudo é bem legal de fazer, porque você ganha tempo, e não está sendo limitado. Mas, como eu me considero uma pessoa teve educação em casa, eu tenho os meus limites. Agora, 11 anos depois de vir pra cá, onde cresci sendo uma pessoa, eu estou de saco cheio de viver em um pais, onde para sobreviver, eu preciso contradizer meus próprios conceitos morais, eu já não aguento mais. Toda vez que desrespeito uma lei, eu penso "Isso não me faz melhor do que ninguém. Em que tipo de pessoa eu estou me transformando?". Isso para mim, não é boa condição para viver.

GB: Por todas essas coisas, você então quer voltar para o Brasil?

Adel: Sim. Esquece a política corrupta e o crime. E pense nas coisas pequenas que estão ao seu redor o tempo inteiro, coisas que você não presta atenção no dia a dia, porque são coisas que são consideradas minúsculas, porque você já aprendeu a respeitá-las desde o início. Como eu sempre digo: "O povo libanês não tem cultura, e nunca ira para frente, e ser um povo moderno. Não em coisas materiais, mas nunca será um povo moderno na mentalidade, moral e ética".

GB: Adel muito obrigada pelo seu depoimento, e tenha um feliz Dia Internacional do Skate no próximo dia 21 de junho.

Adel: Por nada. Obrigado por me ouvir.



Agradecimentos: 

Josh Friedberg - Executive Director IASC (International Association of Skateboard Companies) 
Email:  josh@skateboardiasc.org 
Office: (949) 455-1112

Adel Hamra
Email: adelhamra@hotmail.com
  

Carla Mussallam Al Masri
Gazeta de Beirute

Fontes: Wikipédia; Go skateboarding Day; Skate – Curiosidade.
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