A cultura Libanesa

Foto: limão.com

O Líbano possuiu uma riquíssima cultura herdada desde remotas épocas, de influências que vão desde a Fenícia e o Império Romano, até o mundo árabe. A cultura árabe como um todo - na qual a cultura libanesa está inserida - se destaca das demais, por sua música, religião, danças entre outros aspectos. No Líbano é muito comum a dabke, dança em que várias pessoas dançam ao mesmo tempo de mãos dadas, e andando em círculos, através dos passos que conduz.

O árabe é a língua oficial do país, sendo falada na forma de dialeto libanês; dialeto inteligível para os arabófonos do Médio Oriente, caracterizando-se pela presença de várias palavras estrangeiras, oriundas do francês, inglês, turco e italiano. O francês e o inglês são as segundas línguas do país, sendo entendidas por cerca de 50% da população. A língua armênia é utilizada pela minoria armênia do país.

Grandes navegadores e comerciantes por excelência, os fenícios iniciaram no Líbano (3000 a. C.) a tradição do intercâmbio comercial, dele decorrendo o social, o linguístico, e o cultural, com os demais povos do Mediterrâneo. Seguiram-se a eles, os egípcios, hititas, assírios, babilônios, persas, selêucidas, romanos e bizantinos, predispondo, permanentemente, o país a complexas situações de contato humanístico.

A partir da fixação dos fenícios, até o século VII, a história do Líbano foi a história de seu litoral. Após a desagregação da Fenícia, entretanto, a história passa a girar também, em torno de sua montanha, pois para lá afluíram as minorias dissidentes das regiões próximas, que procuraram a montanha como asilo ou refúgio. Os primeiros a estabelecerem-se nas montanhas foram os maronitas, seguidos pelos muçulmanos e depois, pelos drusos.

Duas histórias, então, passam a existir paralelamente: 

•A dos grandes impérios, que se sucederam na ocupação da costa com o império omíada (660-750); o império abássida (750-1098); o império mameluco (1291-1516) e o império otomano (1516-1914), que dominaram todo o Oriente Próximo;

•A história das minorias que se vão enraizando no Monte Líbano e que, buscando conciliarem-se, agrupam-se ao redor de duas comunidades principais: a drusa e a maronita, representantes das comunidades cristã e islâmica, que acabarão por formar, mais tarde, a sociedade libanesa tal qual existe hoje.

Se, de um lado, a composição social do Líbano sempre estimulou a busca de um equilíbrio, e de uma convivência possível entre suas várias comunidades, houve de outro, a contínua tentativa (nem sempre mal sucedida) de desestabilização do país, por parte de potências, quer do Oriente, quer do Ocidente; interessadas em conquistar poder sobre uma das mais cobiçadas regiões, pela possibilidade que ela oferece, de amplo intercâmbio entre Oriente e Ocidente, no plano econômico, político, social, religioso, e ideológico. 

O historiador Lammens fez a seguinte descrição de Beirute, por volta do século XV, que já era na época, um centro comercial e cultural de grande importância: “Beirute tornou-se o ponto de encontro de todas as populações do Mediterrâneo. Ricos comerciantes, carregadores, senhores e canalhas corretores. A multidão heterogênea de aventureiros, de piratas, mercadores de escravos e mercearias, que intercedeu entre muçulmanos da Ásia e da Europa cristã, também está pronto para mexer com a aprovação de sua discórdia. Todas as línguas do Mediterrâneo, todas as raças.”

Certamente, a caracterização de Lammens poderia abranger os séculos anteriores ou posteriores ao século XV, e teríamos como constante (e guardadas, evidentemente, as devidas proporções históricas e sociais), o pluralismo de valores, a que o país sempre esteve exposto. Da coexistência pacífica, ou do confronto destes povos, e a partir dos valores culturais e civilizacionais, veiculados por eles em território libanês, surgiu necessariamente, uma realidade bastante peculiar, quer seja do ponto de vista étnico ou religioso, quer seja do ponto de vista social e político.

O pluralismo determinou o que se pode chamar de “particularismo libanês”, e a atenção a estes dois elementos estruturais da existência do país, e de seu povo, sob todos os ângulos que formos analisá-los, é fundamental, para que se recupere a fisionomia real do Líbano. Por circunstâncias bastante significativas, no processo de afirmação do povo libanês, o bilinguismo árabe-francês está presente e bastante vivo, sobretudo, a partir do século XIX.

Embora hoje se possa falar, cada vez mais no trilinguismo árabe-francês-inglês, ou no bilinguismo árabe-inglês, sabe-se que o inglês que penetra progressivamente no país, tem um caráter, de modo geral, mais utilitário, sendo a língua do comércio, dos negócios financeiros, mas principalmente, aquela que veicula o progresso tecnológico. O francês, ao contrário, está ligado culturalmente ao país. Diversamente dos países árabes do Maghreb, o enraizamento do francês no Líbano não resulta tão somente de ocupação colonial. A existência de uma produção literária, que data de fins do século passado, desfaz de imediato, essa ideia. O primeiro contato de libaneses e franceses deu-se durante a ocupação franca (1098-1291), por meio dos cruzados, e dos cristãos maronitas.

Como dissemos anteriormente, o Líbano é uma associação islâmico-cristã, tomando por base as duas grandes religiões representadas pelas quinze comunidades étnico-religiosas que compõem sua população. Destas, três são muçulmanas (sunita, xiita e drusa) e onze são cristãs. O interesse dos cristãos pelo francês sempre foi muito grande, visto que do Ocidente, a França é o país que abrigou da forma mais legítima, o patrimônio cultural greco-romano e mediterrâneo, assim como o assimilou e transformou o pensamento cristão. A influência francesa manteve-se, ao longo do tempo, no Líbano, graças às relações econômicas existentes com o Ocidente, e à atividade de missões religiosas que vinham da Europa, com o objetivo de instruir os cristãos na fé católica, e divulgar as línguas ocidentais.

Atenta, aos estreitos elos estabelecidos com os cristãos, a França nunca lhes faltou com sua proteção, durante os conflitos religiosos. E ao mesmo tempo, procurou corresponder a suas exigências espirituais e culturais, em especial, a partir de meados do século passado. Diríamos que o francês foi se propagando menos por imposição política, e mais por uma legítima identificação cultural. Prova disso, é a independência política do Líbano, em 1943 (após o período do mandato francês iniciado em 1920), que não alterou o relacionamento cultural com a França, e o bilinguismo árabe-francês, passou a ser visto como sinal da vocação bicultural do país.

A dualidade cultural, entretanto, não se resolve numa síntese árabe-ocidental, e tampouco, dá origem a uma cultura autônoma. Como disse o Antropólogo libanês, Jean Salem, “De maneira particular, a dupla ligação mediterrânea (ocidental e árabe) muçulmana, fez do Líbano uma terra de encontro de duas áreas de civilização, mas sem que este contato, deixasse nascer uma entidade cultural nova, e ao mesmo tempo distinta, do arabismo e do Ocidente”.

Tendo acesso a duas interpretações de mundo, a dois universos espirituais, o libanês acredita ser o intermediário natural, onde ele procura estabelecer relações entre as duas culturas. Muitas vezes, os elementos da cultura árabe colocam-se a serviço de uma concepção ocidental de vida; e em outras, ocorre o aproveitamento de elementos da cultura ocidental, para a elaboração “modernizada”, de uma concepção oriental de vida. É, basicamente, no diálogo islâmico-cristão, que reside à originalidade do libanês, do ponto de vista cultural.

A literatura, em sua dupla manifestação, árabe e francesa, é o terreno em que ocorre de modo amplo e profundo, a coexistência de valores orientais e ocidentais, uma condição fundamental para a sobrevivência cultural do povo libanês. Embora exista uma literatura de língua inglesa, esta se revela inexpressiva do ponto de vista cultural, em decorrência do caráter utilitário, que lhe é conferido. Contando cerca de um século de existência - relativamente recente, portanto - esta literatura já conheceu três fases bastante distintas.

A primeira (que vai do fim do século XIX, até 1920), refere-se a uma literatura de combate, pois prega a resistência contra a dominação otomana em curso.
A segunda ( que vai de 1920 a 1945), é marcada por um enorme entusiasmo em relação ao Líbano, finalmente livre do jugo turco.
A terceira (a partir de 1945 até os dias atuais), caracteriza-se pela variedade de temas e gêneros, e é despojada de todo, e qualquer, compromisso com ideias revolucionárias e nacionalistas, e o posicionamento dos autores tende à universalidade.

A primeira etapa desta literatura foi precedida pelo movimento em prol do Renascimento da Cultura Árabe, que teve como precursores, os cristãos libaneses. Na realidade, sendo o Líbano um país islâmico-cristão, compreende-se que a penetração ocidental tivesse sido feita, justamente, através do elemento cristão. 
Foi, primeiramente, por meio das instituições educacionais francesas (que atendiam as populações cristãs) que se divulgaram no Oriente Próximo, os ideais de liberdade e democracia, em plena vigência do Império Turco. Esta situação aumentou o sentimento nacionalista, que teve como metas prioritárias, a recuperação e a exaltação, de uma tradição cultural sufocada; e o reconhecimento e a afirmação, de uma identidade política que fora, até então, violentamente agredida.

Movidos pelo ideal de ampla restauração nacional, um grupo importante de libaneses cristãos, em sua maioria poetas e historiadores, busca defender em Paris, a causa árabe e libanesa, utilizando para tanto, a língua francesa, dando origem a uma literatura revolucionária. Os nomes mais expressivos desta fase, onde predominou o ensaio histórico, político, drama e poesia, são: 
Boulos Noujaim, que sob o pseudônimo de M. Jouplain, publicou em 1908, “La Question du Liban”;

•Chucri Ghanem, que em 1910, publicou “Antar”, um drama versificado em cinco atos (um marco importante), em que se analisa a situação do libanês pelos otomanos.

•Négib Azouri, que em 1915, publicou “Le Réveil de La Nation Árabe dans l’Asie Turque”.

•Khairala T. Khairala, que em 1919, publicou “Le Problème Du Levant”.

A segunda etapa, cujas publicações principais surgiram a partir de 1920, coincide com o período do mandato francês. Seus representantes (em sua maioria, poetas) assumiram a tarefa essencial, no momento em que a pátria se viu livre da opressão otomana, de destacar, afirmar, e ilustrar, os traços culturais da personalidade libanesa, que havia começado a ser contestada pelos adeptos da nação árabe. 

Do confronto existente entre os defensores do “pan-arabismo”, e aqueles da independência política e da especificidade cultural do Líbano, surgiu uma literatura nacional, liderada por Charles Corm (La Montagne Inspirée - 1934); Hector Klat (Du Cidre au Lyz - 1935); Elye Tyane (Le Château Merveilleux - 1934) e Michel Chiha (La Maison des Champs - 1934). Estes escritores buscaram seus temas, num “Líbano fenício”. Michel Chiha afirmou que voltar às origens fenícias, era exaltar um passado tão longínquo, e tão grandioso, para que todos os libaneses pudessem nele reconhecer-se, acima de suas diferenças de língua, de costume, de religião e de raça.

A terceira etapa, não registra mais uma literatura de compromisso, seja no plano ideológico, ou no plano formal. Os autores são, a exemplo da fase anterior, na maioria, poetas. Os temas desenvolvidos, quase sempre atinentes ao homem, afirmavam a tendência universalista do libanês, e não escondiam a maneira oriental de enfocá-los. Os nomes dessa época são: 

•Georges Schehadé, poeta e dramaturgo, publicou “Les Poésies”, “M.Bob’le”, “La Soirée des Proverbes”;

•Andrée Chedid, poeta, dramaturgo, e romancista, que publicou “Double Pays”, “Textes pour da Terre Aimée”, “Les Nombres”, “Le Montreur”, e “Le Sixième jour”;

•Farjallah Haik, romancista, publicou “La Crique”, “Les Meilleures Intentions”;

•Fouad Gabriel Naffah, poeta, que publicou “La description de l’homme Du cadre et de la lyre”, dentre outros.

Sobre a literatura libanesa de expressão árabe, deve-se dizer que, embora tenha precedido cronologicamente à francesa, durante muito tempo, voltou-se à retórica, havendo a preocupação quase que exclusiva, com a língua e com o estilo. O conhecimento das línguas ocidentais, em particular do francês, permitiu aos libaneses, acesso às obras ocidentais, e assim a sua tradução, no fim do século passado, para o árabe. 

Fato que deu início à Nahda (termo em árabe, que significa renascimento da língua e da cultura árabe). A literatura de expressão francesa deu novo impulso à literatura de expressão árabe, no Líbano e fora dele. Ao primeiro contato importante com a cultura francesa, plena de ideais libertários, surgiu a tendência entusiasta, à imitação, à tradução, à implantação da cultura francesa como norma intelectual, correspondente à tendência, à crítica linguística e lexicográfica, visando avaliar a influência ocidental, sobre a língua, e a cultura árabe.

 E ainda, à apropriação da cultura francesa, sob a forma de um humanismo libanês, correspondente a uma criação literária original, que veio se afirmando ao longo do tempo. A necessidade de imitação, de autocrítica, e de criação, foram os pilares fundamentais do processo de Renascimento das Letras Árabes.

A predominância da poesia é notada em toda a literatura libanesa, bem como na literatura árabe em geral. O romance, embora tenha estado presente, tem menos adeptos; e em contrapartida, o conto sentenciado, tipicamente oriental, é extremamente cultivado.

Com relação à literatura de língua árabe, é necessário lembrar que existe um árabe literário escrito, dito clássico, e um árabe popular coloquial, que correspondem as duas expressões pertinentes. Há muita polêmica, entretanto, em relação a esta dupla manifestação da literatura de língua árabe no Líbano: 

De um lado, estão os puristas, defensores do árabe clássico, da língua sagrada do Alcorão; 

De outro, os defensores da expressão mais solta, mais livre, como a de Said Akl, o conhecido escritor bilíngue, que se permitiu compor em árabe popular, entendendo que a poesia dialetal, é em tese, o veículo que mais pode transmitir, por sua natureza, vestígios de uma cultura própria do libanês, já que é comum a todo o povo, e que capta com mais fidelidade, as formas variadas da vida cotidiana, bem como a manifestação “sui generis”, da alma do aldeão, do Monte Líbano.

A privilegiadíssima natureza do Líbano, marcada pelo encontro do mar e da montanha, é a matéria simbólica pertencente às literaturas de expressão árabe e francesa, na qual se exprimem os temas libaneses, dentre os quais, os mais constantes são:

O tema fenício, a oposição “mar e montanha” (e a realidade que esta oposição implica do lado étnico, religioso e social), o mar e a visão de “ir e vir” (do Ocidente para o Oriente e vice versa - trânsito obrigatório do libanês que busca sua identidade cultural em seu sentido mais amplo), o país traço de união entre dois mundos, o diálogo entre islamismo e cristianismo, e o encontro do Oriente do coração do Ocidente da razão.

Assumindo frequentemente a posição de crítico e de conciliador, o libanês jamais abandona seu posto de observação, o que vale dizer, integrar sem perder sua individualidade. Ele aprendeu em seu país, a tirar partido da complexidade de seu meio (e mantêm esta atitude no Brasil), e a somar ao conjunto de realidades que presidiram a sua formação, a terra brasileira, como a “pátria da acolhida”, a “terra da promissão”, a “terra dadivosa”, e a “terra da salvação”.


Therese Mourad
Gazeta de Beirute

Fonte: The Lebanese Culture.
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