Al-Ghazali - Em busca do conhecimento


Ghazali nasceu em 1058, em Tus, uma cidade na província de Coração (Khorasan em persa), na Pérsia. O pai de Al-Ghazali, era um sufi, e fez questão que ele tivesse uma boa educação e estudasse, além disso, o grande sábio já possuía uma vontade de aprender, desde cedo. “A sede por conhecimento era inata em mim, desde a mais tenra idade, era como uma segunda natureza implantada por Deus, sem qualquer vontade de minha parte.”  Al-Ghazali.

O teólogo islâmico (sunita), jurista, filósofo, cosmólogo, psicólogo e místico, de origem persa, iniciou seus estudos, primeiramente, através da jurisprudência islâmica, mas também se dedicava à teologia dialética, ciência, filosofia, e lógica, tendo o cuidado de submeter suas lições à memória.  Após permanecer anos no islamismo ortodoxo, o sábio se dirigiu em outra busca, não apenas em regras e leis, mas a alma, o coração, chegando ao sufismo, e trazendo as novas lições, dessa vez não as decoradas, mas as sentidas, influenciando o islamismo ortodoxo, com o sufismo.

Ele chegou a viver praticamente isolado, 12 anos de sua vida, na época em que buscou o sufismo, e se separou um pouco das leis que deveria seguir, como um muçulmano ortodoxo, após todo esse tempo, ele percebeu que as leis são importantes, mas o coração e o espírito também, fazendo com que o islã ortodoxo e o sufismo, caminhem juntos. Al-Ghazali contribuiu, significativamente, para o desenvolvimento de uma visão sistemática do sufismo, sua integração, e aceitação no Islã tradicional. 

Ele também escreveu mais de 70 livros, um dos mais marcantes, foi o Livro 
A Incoerência dos Filósofos”, que marca uma virada importante na epistemologia islâmica, quando Al-Ghazali descobre o ceticismo filosófico, que não seria comumente visto no Ocidente, até René Descartes, George Berkeley, entre outros. Em 1091 DC, aos 33 anos, Al-Ghazali foi nomeado para ensinar na Madrassa (Escola de ensino islâmico) de Bagdá, após ter conhecido homens de autoridade, e cargos importantes, que admiraram imediatamente sua sabedoria.

E Al-Ghazali, apesar de relativamente jovem, rapidamente adquiriu uma reputação como estudioso e professor. Nesse momento, ele intensificou seus estudos, e escreveu mais tarde:
 “Eu tenho interrogado as crenças de cada seita, e examinado os mistérios de cada doutrina, a fim de distinguir a verdade do erro, e a ortodoxia da heresia. Não há filósofo, cujo sistema eu não tenha sondado, nem teólogo, cuja doutrina, eu não tenha estudado”.

Al-Ghazali desejava a verdade certa, não a provável. “Certeza é o conhecimento claro e completo das coisas, tal conhecimento, como não deixa margem para dúvidas, nem possibilidade de erro e conjecturas, não permite que reste espaço na mente para o erro. Formas de conhecimento (que não são impermeáveis) à dúvida, não merecem qualquer confiança”.

Por esta razão, ele dividiu a busca pela verdade, e a forma de adquirir conhecimento, em três categorias: Percepção dos sentidos, razão, e revelação. Inicialmente, a percepção sensorial parecia para Al-Ghazali ser o caminho mais certo para obter a verdade. Mas um pouco de reflexão intelectual, o convenceu de que os sentidos não eram confiáveis.

Percepção dos sentidos:
Exemplo: O olho vê uma estrela, e acredita ser grande como uma peça de ouro, mas cálculos matemáticos provam, pelo contrário, que são maiores do que a terra. Tais noções, e todas as outras que os sentidos declaram ser verdade, são posteriormente desmentidas, e condenadas por falsidade, de forma irrefutável com o veredito da razão. 

Após isso, o sábio refletiu:
 “Já que não posso confiar na evidência de meus sentidos, eu devo confiar apenas em noções intelectuais, baseadas em princípios fundamentais, como os axiomas seguintes: Dez é mais do que três. Afirmação e negação não podem coexistir. Uma coisa não pode, ao mesmo tempo, ser criada e eterna, viva e morta simultaneamente, e ao mesmo tempo, necessária e impossível”. 

Mas o reconhecimento de que a razão era um método de obter conhecimento superior, ou mais confiável do que a percepção, sugeriu a possibilidade de algo acima da razão humana. Se a razão era superior à percepção, talvez existisse outra epistemologia (a revelação), que fosse superior à razão. “Talvez exista acima da razão, outro juiz, que se aparecesse, condenaria a razão por falsidade, assim como a razão tem refutado (a percepção)”. 

Al-Ghazali considerou a possibilidade, da terceira forma de saber, a que pode ser superior ao raciocínio, pudesse ser a comunhão mística, ou o êxtase, vivido pelos sufistas. “Era um estado, em que absorvidos em si mesmos, e na suspensão de percepções sensoriais, eles têm visões além do alcance do intelecto”. Conhecida também, como iluminação, comunhão de êxtase, ou conhecimento intuitivo, a comunhão mística é uma experiência de um poder supremo, pleno, e interior, no qual todas as coisas são uma só.  A comunhão mística é a base da revelação, da profecia, e da religião. É uma das forças mais poderosas da história da humanidade, e também uma das menos compreendidas.

Al-Ghazali foi assolado por uma crise existencial que afetou sua saúde física. Ele perdeu o apetite, a energia, e a vontade de viver, pois havia perdido a fé nos ensinamentos ortodoxos do Islã, e ele disse finalmente: “Deixei Bagdá, desistindo de toda minha profissão e fortuna, para viver com os sufis”. 
Entre os sufistas místicos, Al-Ghazali descobriu a verdade certa, que ele estava procurando na forma de revelação divina. “Deus me disse em sonho: ‘Abandone tuas regras formais, eu derramarei sobre ti luzes de proteção da minha santidade, para aproveitá-las e aplicá-las a ti mesmo‘. Então eu acordei com grande alegria”. 

Segundo ele, a inspiração divina estava acima da razão humana. Não poderia ser descrita ou explicada, apenas vivenciada. No entanto, ele percebeu que todas as formas de aprender, e adquirir conhecimento, se completam e são necessárias. A autoridade das escrituras do alcorão foi aceita por ele. “Acreditar nos profetas é admitir, que há acima da inteligência uma esfera, na qual são reveladas à visão interior, verdades para além do alcance da inteligência, assim como coisas vistas, não são apreendidas pelo sentido da audição, nem as coisas são entendidas, pelo sentido do toque”. 

Ele percebeu que a fonte de toda a realidade, é a mística da experiência direta de uma realidade superior espiritual, e que moralidade, por sua vez, é a base subjacente de toda a civilização humana. No raciocínio de Al-Ghazali a filosofia e a ciência, tem seu lado negativo, podendo levar à imoralidade, e ao colapso final da civilização humana. Al-Ghazali particionou as ciências filosóficas, em seis divisões: Matemática, Lógica, Física, Metafísica, Política e Filosofia Moral; sendo a Matemática, a mais neutra, e mais exata. No entanto, ele também criticou os filósofos que estudam a Matemática, e ao mesmo tempo, acreditam que os outros tipos de filosofias, tenham a mesma exatidão, passando então, a confiar na Filosofia cegamente.

Al-Ghazali reservou sua mais forte condenação para a Metafísica. “Este é o fecundo terreno fértil dos erros dos filósofos”, onde especulam, sobre probabilidades incertas e incompletas. Em todas as épocas, os filósofos debatiam, competiam, e comparavam suas ideias, um grande sábio, que também respondeu às afirmações de Al-Ghazali, foi Averroes, que escreveu posteriormente, o livro: “A Incoerência da Incoerência”.

Houve muitos sábios e filósofos, que influenciaram, e até hoje, são luzes para a humanidade. Certamente, todos esses filósofos questionavam, para chegar ao verdadeiro conhecimento, e nos passaram muito entendimento, mas sem dúvida, a maior lição que eles nos deixaram, foi a de questionar. 

Saiba irmão, que toda vez que você buscar conhecer a verdade através das pessoas, sem se apoiar na sua própria percepção, o seu esforço, será em vão. Pois os sábios, dentre os homens, são como o sol que fornece luz. Então, faça uso do seu bom senso, pois se fordes cegos, de nada lhe servirá o sol. Aquele que se sustenta na imitação cega, está arruinado” (Al-Ghazali).


Fontes:

Chadia Kobeissi
Gazeta de Beirute

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