Classificados repugnantes


A escravatura, abolida em 1888, é uma das maiores vergonhas da História do Brasil e da humanidade, porque não apenas no Brasil houve escravos negros, mas em diversos países do mundo. No caso do Brasil, é um passado de total repugnância, que contribuiu para a queda do império do Brasil no ano seguinte a sua abolição. É vergonhoso e revoltante, imaginar como os índios, e principalmente os negros, eram tratados naquela época, como animais, sem qualquer respeito, humanidade ou direito civil. 

A sociedade brasileira negociava-os como meras mercadorias, fossem eles para compra, para venda, aluguel, ou empréstimo... E o que é pior, por pessoas, que eram consideradas parte da então “sociedade civilizada”! A prática era uma atividade de intensa, que movimentava a economia brasileira do século XIX.Para saber quem estava vendendo, alugando, emprestando, comprando escravos, ou quem reportava suas fugas, por não aguentarem tanto sofrimentos e maus tratos, bastava fazer anúncios de jornal! Muitos proprietários, cujo número de escravos era excessivo, costumavam publicar anúncios de aluguel de seus escravos nos jornais, para que pessoas interessadas pudessem aluga-los por um determinado período de tempo, como se fossem objetos, um imóvel, um burro de carroça!

Outros anunciavam pedindo por escravos, fosse para compra, aluguel, todos usavam dos serviços de classificados dos jornais para negociar seres humanos escravizados. Que absurdo! Mas, os anúncios mais comuns, eram certamente, os que reportavam as fugas dos escravos. Na segunda metade do século XIX, as fugas de escravos eram mais frequentes, e os anúncios eram a forma mais eficaz de tentar recupera-los, pois nos anúncios era dada a descrição das características dos escravos, para facilitar a identificação, como é feita a descrição atual, de bandidos numa delegacia.

Porém, vez ou outra, aparecia um anuncio sensato, com relatos de abuso de violência e maus tratos contra escravos, como é o caso de um anúncio publicado no Correio Paulistano, em 16 de Setembro de 1857, onde um viajante anônimo relatou o absurdo caso de violência contra uma escrava e, Bragança Paulista. O anunciante descreveu o ultrajante caso de agressão contra uma pessoa, que na condição de escravo, não podia fazer nada para se defender, porque se fizesse, poderia morrer.

Esses anúncios, vistos hoje, em pleno século XXI, há apenas 125 anos depois da abolição da escravatura, causam uma repugnância sem palavras, principalmente por saber que na época em que foram veiculados, de 1857 a 1879, no Jornal Correio Paulistano, eles eram considerados anúncios comuns, normais, corriqueiros, tal quais os anúncios atuais, onde se negociam objetos, carros, bicicletas, animais, serviços...Estes anúncios não podem ser esquecidos, eles são provas documentais irrefutáveis, do nosso passado vergonhoso e triste. Esses anúncios, representam a trajetória, e o sofrimento de pessoas que existiram, que viveram e sofreram, numa época em que humilhar, maltratar, e escravizar um ser humano, fazia parte da cultura da sociedade civilizada, e que os que não praticavam, esse repugnante comportamento, eram considerados os anormais... 

Essas pessoas que tanto sofreram durante a escravatura e que eram negociadas como animais e mercadorias em anúncios sórdidos de jornais, não merecem ser esquecidas. São as cicatrizes do Brasil, que ainda irão demorar muitos anos para serem curadas. 

Veja abaixo, uma compilação de alguns desses anúncios repugnantes.




Fonte: saopauloantiga


Claudinha Rahme
Gazeta de Beirute

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