“De empresário bem sucedido às drogas”


Esta semana, nossa correspondente Therese Mourad, esteve conversando com um brasileiro que caiu em desgraça por uma sucessão de acontecimentos ruins que teve em sua vida, e que o levaram ao fundo do poço. Hoje, com a vida resgatada, ele decidiu compartilhar com a Gazeta de Beirute a sua história de vida. Acompanhe.

GB: Boa tarde, seu nome é Mohammed, certo?

Mohammed: Boa tarde. Certo, meu nome é Mohammed, mas prefiro não revelar meu sobrenome, por motivos pessoais.

GB:Tudo bem, nós respeitamos sua privacidade. Você é brasileiro Mohammed?

Mohammed: Sim, sou brasileiro, mas faz 14 anos que moro no Líbano.

GB: Quanto ano voce tem?

Mohammed: Estou com 41 anos.

GB: Porque voce se mudou para o Líbano?

Mohammed: Eu fui obrigado a deixar o Brasil, e acabei vindo para cá, e continuo aqui até hoje.

GB: Porque voce foi obrigado a deixar o Brasil?

Mohammed: Porque fui condenado a 7 anos de prisão na época.

GB: Foi condenado? Mas o que voce fez para ser condenado?

Mohammed: Matei uma pessoa.

GB: Matou uma pessoa? E quem você matou, e por quê?

Mohammed: Matei minha esposa. Naquele dia, maldito dia, cheguei em casa mais cedo, e flagrei minha mulher com um homem na minha cama, perdi totalmente o controle, atirei nela e a acertei na cabeça, ela morreu na hora.

GB: Mas porque você a matou? Você poderia ter simplesmente se divorciado dela, para que matar?

Mohammed: Na hora agi sem noção alguma, perdi a cabeça, e acabei fazendo essa besteira.

GB: E quanto ao homem que estava com ela? Ele não tentou te impedir?

Mohammed: Eu atirei nele primeiro, o que o impediu de se mover, mas ele não morreu, ainda bem.

GB: O que aconteceu depois?

Mohammed: Depois que eu atirei nos dois, eu fugi e meus pais colocaram um advogado para me representar na justiça, enquanto eu continuava foragido. E no fim, o juíz constatou que não foi um crime planejado, e depois com os depoimentos de muitas testemunhas, concluíram que foi um crime passional, e me condenaram a 7 anos de prisão.

GB: E voce nunca se apresentou?

Mohammed: Não, nunca. Meus pais me mandaram imediatamente para o Líbano.

GB: Mas como voce conseguiu sair do Brasil, se havia um mandato de prisão contra voce?

Mohammed: Eu fui para o Paraguai, e de lá para Bolívia, e depois ao Líbano.

GB: E você teve filhos com a falecida?

Mohammed: Filhos? Claro que não! Eu tinha somente 4 meses de casado. Isso que me enfureceu, nos casamos depois de uma longa história de amor que durou 5 anos, enfrentei muitos problemas, pois meus pais não aceitavam meu casamento com uma brasileira. Você sabe como os libaneses pensam, eles queriam que eu me casasse com uma filha de árabes, eu enfrentei tudo e todos por ela, para no fim, ela fazer aquilo comigo? E depois de 4 meses de casamento? Ainda estávamos em lua de mel, eu fiquei totalmente enlouquecido.

GB: E o que você fez no Líbano? Quero dizer, o que você fez ao chegar ao seu novo destino?

Mohammed: Fiquei hospedado na casa dos meus avós paternos, durante 3 meses, foi quando meu pai veio ao Líbano, e comprou uma casa, a mobiliou, e também me deu uma pequena quantia em dinheiro, para eu abrir um negócio pequeno para mim. E depois ele voltou ao Brasil, pois tínhamos muitas lojas lá, e na época, meus 2 irmãos ainda estudavam, e ele tinha que retornar logo, para tomar conta dos negócios.

GB: E voce conseguiu abrir um negócio?

Mohammed: Sim, montei meu próprio negócio, eu abri uma das primeiras lojas de computador no Bekaa, em 2000, o que foi um sucesso. Profissionalmente, minha vida era muito bem sucedida, eu era muito inteligente nos negócios, mas minha vida pessoal, ia de mal a pior.

GB: Porque sua vida pessoal não estava boa?

Mohammed: Eu não conseguia tirar aquela mulher da minha cabeça. Não esquecia aquela cena horrorosa da traição, a cena dela caída na cama, coberta de sangue. Todas aquelas imagens me perseguiam constantemente.

GB: Voce não procurou ajuda de um psicólogo, uma orientação médica, ou algo assim?

Mohammed: Infelizmente não, optei por um caminho horrível, e sem saída.

GB: Por qual caminho você optou?

Mohammed: Fiz más amizades, escolhi pessoas erradas, e comecei a andar com uns rapazes. Como eu morava sozinho, todas as noites nós nos reuníamos na minha casa, pois eu me sentia muito sozinho, toda a minha família e amigos estavam no Brasil. Minha vida havia mudado completamente, e era difícil me adaptar a minha nova vida. O que me fez, cada vez mais, me apegar a esses novos amigos. Eu comecei a beber, todas as noites eu bebia.

GB: E o seu trabalho?

Mohammed: Passei a relaxar, indo ao trabalho, meio-dia, ou 1 hora da tarde, sendo que antes, os balconistas abriam as 08h00 da manhã, e eu chegava logo em seguida, após uns 15 minutos. Depois que comecei a me atrasar muito para ir ao trabalho, claro que o meu negócio começou a decair.

GB: E voce não percebeu essa decaída?

Mohammed: Sim, mas eu já estava viciado na bebida, sempre dizia que iria parar, mas nunca parava. Eu só queria aquele sentimento de esquecimento, de quando eu bebia. Aquele falso prazer, que me fazia esquecer tudo.

GB: Mas ninguém te aconselhou, ou te ajudou?

Mohammed: Sim, meus avós, alguns parentes... Mas eu não ligava para ninguém, queria somente a bebida e os meus amigos. E depois dessas crises com os parentes, e do meu pai ligando do Brasil quase todos os dias, eu fui piorando, passei a fumar maconha, e depois passei a cheirar cocaina.

GB:E você, viciado em bebida e 
drogas, como ia trabalhar?

Mohammed: Fui relaxando cada vez 
mais, mal ia ao trabalho, somente 
passava alguns minutos para abrir a 
gaveta e levar o dinheiro do caixa, 
para comprar mais drogas, pois 
consumir drogas custa caro. Eu 
cheguei a um nível, que já não 
conseguia mais ficar sem drogas de 
maneira alguma.

GB: E o que aconteceu com o seu trabalho, com você sempre ausente?

Mohammed: Minha loja faliu, eu fiquei devendo para funcionários, fornecedores, para o proprietário do imóvel... Eu já não pagava o aluguei do imóvel há 6 meses, enfim, eu estava devendo muito dinheiro para todo mundo, e muitas pessoas abriram processo contra mim.

GB: E o que voce fez com tantas dívidas, sem trabalho, e ainda viciado em drogas?

Mohammed: Então, eu penhorei minha casa, e fiz um empréstimo. Paguei todas as minhas dívidas, e continuei viciado nas drogas, cada vez mais viciado. Meu pai veio ao Líbano, e brigou feio comigo, me internou em um centro especializado para dependentes químicos, pagou todo o tratamento e voltou ao Brasil.

GB: E ele tirou sua casa do penhor?

Mohammed: Sim, pagou todas as minhas dívidas, tirou minha casa do penhor, pagou os 6 meses do meu tratamento (o tratamento iria durar 6 meses), e pagou antecipado, porque precisava retornar ao Brasil.

GB: E voce terminou o tratamento?

Mohammed: Infelizmente não, eu fugi do centro 3 dias depois que meu pai viajou.

GB: E o que você fez? Para onde você fugiu?

Mohammed: Voltei para minha casa, e como não tinha mais renda alguma, cada vez que eu queria drogas, eu vendia algum móvel da casa, fiz isso até a minha casa ficar completamente vazia. Depois vendi a casa, aluguei uma casinha bem pequena, e gastei todo o dinheiro com bebidas e drogas. Fiquei sem nada, absolutamente nada, perdi tudo que eu tinha.

GB: E depois de perder tudo, o que você fez?

Mohammed: Eu dormia na casa de amigos, às vezes dormia na rua, às vezes implorava para meus avós me deixarem dormir na casa deles, pois eles não queriam me ver, somente depois que eu largasse o vicio, segundo eles me falavam.

GB: Como voce fazia para comprar drogas, se nem lugar para dormir voce tinha mais?

Mohammed: Comecei a roubar. Eu odeio lembrar essas coisas, mas são fatos reais, e porque eu passei a roubar, meus avós não me deixavam mais ficar na casa deles. Eu  os roubei muitas vezes, infelizmente.

GB: E como voce tinha coragem de roubar seus próprios avós?

Mohammed: Nem me pergunte como, esse vício é horrível, você se torna um escravo da droga, faz coisas que jamais imaginou que poderia fazer. Meus pais são ricos, eu terminei minha faculdade, eu era um empresário muito bem sucedido no Brasil, e depois aqui também. E veja o que eu fiz, por causa das drogas... Isso é um mal que transforma os dependentes em verdadeiros diabos.

GB: E depois? O que aconteceu? Como você se virou sem casa, sem dinheiro, roubando?

Mohammed: Depois desses episódios, sempre roubando, eu fui pego pela 
policia e fui preso. E na cadeia aqui, não ha reabilitação, você se torna pior, pois um dependente quimico, é uma pessoa doente, que necessita de tratamento e não de cadeia.

GB: E quanto tempo voce ficou preso?

Mohammed: Fiquei 5 meses. Depois minha mãe veio ao Líbano, minha mãe é uma santa, contratou um bom advogado, e conseguiu minha transferência para uma clinica, onde eu fiquei internado durante 1 ano e 3 meses, onde depois, fui liberado completamente limpo, graças a Deus.

GB: Voce se curou completamente?

Mohammed: Graças a Deus, e à ajuda da minha mãe, que largou todos lá no Brasil, e ficou aqui comigo durante 2 anos.

GB: O que voce fez depois que saiu da clínica?

Mohammed: Minha mãe havia comprado outra casa, mas colocou no nome dela, claro! Eu fui para casa com ela, que contratou um profissional para vir em casa me ensinar a trabalhar com a internet, todos os dias, durante 4 meses. Depois, ela abriu uma cafeteria com internet, mas tudo no nome dela, onde eu tomo conta de tudo. Eu trabalho com ela, e tenho um salário, como qualquer funcionario.

GB: Quanto tempo faz que voce largou as drogas?

Mohammed: Faz 3 anos, e espero nunca mais voltar, pois hoje tenho novamente uma vida saudável, tenho saúde, como também tenho bons amigos, graças a Deus. Estou noivo, e pretendo me casar no final desse ano, se Deus quiser.

GB: Como voce se sente hoje?

Mohammed: Olha... Hoje eu me arrependo muito, de muitas coisas erradas que fiz na vida, e por outro lado, me sinto em paz novamente, pois aprendi a conviver e a aceitar o meu passado.

GB: Voce não pensa em voltar ao Brasil?

Mohammed: De maneira alguma! Não estou preparado para isso, quem sabe um dia. Mas no momento, eu estou muito bem aqui, assim como já tenho uma vida aqui.

GB: O que voce diria aos nossos leitores, que irão ler essa entrevista?

Mohammed: Eu gostaria dizer a todos, especialmente aos jovens, que jamais se deixem levar pelas drogas, pois esse vício nos leva a fazer coisas absurdas, como também, na maioria das vezes, é uma escolha fatal. Eu me curei, mas vocês sabem o que passei por causa do maldito vicio. Mas muitas pessoas não se curam, e muitas outras, acabam morrendo. Se você é usuário de drogas, fale com seus pais, procure orientação médica, tentem se livrar antes que seja tarde demais. Se alguém te oferecer qualquer tipo de droga, recuse, e denuncie essa pessoa, se afaste dela.

GB: Bom, quero te agradecer pela entrevista, pelo voto de confiança, como também quero te parabenizar, pela coragem de falar sobre a sua história. Obrigada por dividir com nós sua experiencia.

Mohammed: Eu que agradeço, e parabéns pelo jornal, eu adorei.


Therese Mourad
Gazeta de Beirute
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