Meu marido me abandonou no Líbano

Esta semana, nossa correspondente, Therese Mourad, esteve com Janete, uma brasileira que vive no Vale do Bekaa, há mais de 20 anos, e que é um exemplo de coragem, de garra, de determinação, de vitória, e acima de 
tudo, de empreendedorismo.

Uma mulher singular, que mesmo tendo sida abandonada pelo marido num país estranho, venceu na vida de forma honesta e com muito trabalho!

Esta mulher de fibra, com certeza, merecia ter sua história de vida 
compartilhada na Gazeta de Beirute, para servir de exemplo a tantas outras brasileiras que aqui vivem.  

Therese esteve na pequena fazenda administrada por essa brasileira, e viu que a casa possui um vasto e amplo quintal, com plantações de tudo quanto é tipo de verduras e legumes, uma parreira infinita, por onde ela caminhou por mais de 15 minutos, sem chegar ao fim, há criação de galinhas, ovelhas e muito gado.

De volta à casa central, da pequena fazenda, Therese constatou não apenas ordem e limpeza, mas acima de tudo um calor humano muito forte, emanado de dentro daquele lar, de tão singela simplicidade; onde uma senhora de 86 anos, muito bem cuidada e asseada (sogra da entrevistada), assistia compenetrada sua TV. Janete preparou o café, e sentou-se para compartilhar com nossa correspondente, Therese Mourad, a sua história de vida. Acompanhe!

GB: Obrigada pelo café Janete, podemos começar a entrevista?

Janete: Claro, podemos sim.

GB: Janete, você é brasileira, descendente de Libaneses?

Janete: Não, sou brasileira pura, meu marido é libanês.

GB: Há quanto tempo você mora aqui?

Janete: Já estou aqui há 23 anos.

GB: Por que você veio morar no Líbano?

Janete: Eu conheci meu marido no Brasil, em Salvador, minha cidade natal. Namoramos por 2 anos, e nos casamos, mas trabalhávamos muito, e ainda assim, a situação era difícil. Pagar aluguel, sustentar uma casa, etc. Depois de 1ano e 3 meses de casada, eu tive minha primeira filha, o que aumentou nossas despesas. Meu marido dizia que tinha casa própria no Líbano, e que seria mais fácil viver aqui, e assim nos mudamos para cá.

GB: Quando você se mudou para o Líbano, o que você encontrou ao chegar a seu novo destino?

Janete: Nem sei o que falar, em primeiro lugar, a famosa casa própria, era de fato, a casa da família dele, onde moravam: minha sogra, meu falecido sogro, e minhas 2 cunhadas, que se casaram e se mudaram apenas depois de 6 anos, de quando eu havia me mudado.

GB: Você morou com todos eles na mesma casa? E não falou nada para o seu marido?

Janete: Sim, morei com eles na mesma casa, até hoje, pois eles falam que a casa fica para o filho mais novo, certo? O filho mais novo, no caso, é o meu marido. Claro que eu briguei com ele, pois me senti enganada, mas depois me conformei, pois eu não tinha outra escolha.

GB: Você não pensou em voltar para o Brasil?

Janete: Eu não tinha condições de voltar, pois não tínhamos dinheiro, e minha família é muito pobre, mal conseguem se sustentar, como eles poderiam me ajudar? A única coisa a ser feita, era me conformar. Foi muito difícil, pois eram dois países, duas culturas, e duas linguagens, completamente diferentes. Um verdadeiro choque cultural. E por outro lado, tinha muitas brasileiras aqui na vila, o que me ajudou muito, a superar as diferenças, pois elas me ensinavam a falar o árabe, me ensinavam as tradições, e etc.

GB: Em que seu marido trabalhou aqui?

Janete: Nos primeiros 3 anos, ele trabalhou com as galinhas que os pais criavam, vendendo os ovos, e havia 1 cabeça de gado. Era tudo que os velhos possuíam. O dinheiro mal dava para o sustento da casa, e eu fazia aquelas geleias de pêssego, morango, figo, e as vendia.

GB: E você já sabia fazer essas geleias?

Janete: Eu aprendi aqui, uma tia do meu marido me ensinou, já que tinha árvore dessas frutas no quintal. E também vendíamos uvas, essas plantações de uvas que você viu no quintal, são antigas.

GB: E depois, como vocês continuaram a viver?

Janete: Nesses três primeiros anos, nasceram meus dois meninos, e as coisas foram se tornando cada vez mais difíceis, principalmente no inverno, onde a renda diminui muito. Isso fez meu marido viajar novamente, para trabalhar, e nos mandar dinheiro.

GB: Para onde seu marido viajou?

Janete: Primeiramente, ele foi ao Brasil, ficou por lá oito meses, e depois ele foi para a Venezuela para trabalhar, pois ele já tinha um tio lá. Ele ficou um ano lá, e veio nos ver.

GB: E o trabalho dele, na Venezuela, estava indo bem?

Janete: Mais ou menos, ele veio, ficou um mês, me deu um pouco de dinheiro, e voltou para a Venezuela, me deixando grávida novamente. Com 3 filhos pequenos, e grávida novamente, as coisas iam se agravando pro meu lado. E eu sempre ficava muito nervosa, tensa, um casal de idosos para cuidar, e 3 crianças pequenas, e sempre sozinha.

GB: Ele se comunicava sempre com você?

Janete: Eu não tinha telefone em casa, nos comunicávamos através de cartas, e fitas gravadas, naquela época, todos se comunicavam dessa maneira.

GB: E depois, o que aconteceu?

Janete: Ele me mandava muito pouco dinheiro, o que me obrigava a trabalhar cada vez mais no verão, para poder me virar no inverno, pois ele sempre reclamava que o trabalho estava muito ruim.

GB: E quando ele voltou? No nascimento do seu filho?

Janete: Ele retornou, quando meu filho caçula estava com 1 ano e meio. Ele ainda nem conhecia o menino, somente por fotos, mas meu sogro faleceu, e ele veio assistir o funeral, e acabou conhecendo o menino.

GB: E ele ficou com vocês, ou voltou pra Venezuela?

Janete: Ele ficou 15 dias e tornou a viajar, alegando que não podia largar o trabalho por muito mais tempo. E como sempre, me deu uma pequena quantia de dinheiro, que mal pagava escola, que era do governo; a taxa é baixa, mas mesmo assim, a quantia era insuficiente para pagar.

GB: E o que você fez?

Janete: Eu fiquei nesse dilema por cinco anos, ele mal vinha nos ver, e nos mandava uma miséria, que mal sustentava a casa. Eu comecei a plantar legumes e verduras no quintal, para diminuir nossos gastos do dia a dia, e uma tia do meu marido, me ensinou a adubar a terra, e a plantar, cuidar da plantação, etc.

GB: E deu certo? Rendeu?

Janete: E como deu, graças a Deus! Eu comecei a plantar de tudo, e sempre rendia, tanto que a salsinha, hortelã e alface, meus vizinhos compravam de mim, durante todo o verão. Eu juntava o quanto eu podia, e comprava mais galinhas, para aumentar a renda. Depois que as minhas cunhadas se casaram, os gastos diminuíram um pouco.

GB: E a renda com as galinhas eram suficientes?

Janete: Suficientes não, mas melhoraram um pouco a renda da casa. Eu comecei a fazer coxinhas, e vender para as brasileiras da vila, elas encomendavam, e eu as fazia, e assim, eu passei a ganhar um bom dinheirinho.

GB: E seu marido?

Janete: Passou a vir ao Líbano cada vez menos, a cada dois ou três anos. Ele vinha apenas uma vez, que era sempre uma ou duas vezes por ano. E mandava dinheiro, com qualquer pessoa que vinha da Venezuela para cá. Mas como sempre, uma quantia muito pequena, apesar das pessoas que vinham de lá, sempre comentarem que ele estava trabalhando muito bem.

GB: E quando você escrevia para ele, você não perguntava pra ele, o porquê de tanta ausência, e o porquê de mandar tão pouco dinheiro?

Janete: Sim, eu estranhava muito, e sempre perguntava pra ele o porquê, mas eu ouvia sempre as mesmas respostas: Muito trabalho, pouca renda, e etc. E minha prioridade eram os meus filhos. Eu passei dois anos e meio nessa correria: casa, horta, galinhas, coxinhas, e meus filhos.

GB: E após os dois anos e meio, você parou com essa rotina, algo mudou?

Janete: Sim, eu juntei um dinheirinho e comprei mais gado. Os dois antigos que eu já tinha, deram cria, e eu já tinha cinco cabeças de gado, além das três que haviam morrido. Eu comprei mais seis cabeças de gado e três ovelhas.

GB: E quem cuidava de tudo isso?

Janete: Eu mesma! Eu tirava leite das vacas, pegava os ovos das galinhas, cuidava da horta, fazia tudo sozinha, mas parei de fazer coxinhas, pois não dava mais conta. Trabalhei muito, mas rendeu, e nossa vida foi melhorando aos poucos.

GB: E o seu marido, não voltou?

Janete: Não! Na época, ele ficou três anos e meio sem vir aqui, e sem mandar um tostão, absolutamente nada.

GB: E você?

Janete: Eu fiquei louca! Que pelo menos ele perguntasse pelos filhos dele, mas nada! Nisso, eu fui numa central telefônica, liguei para ele, e brigamos por telefone, pois eu não acreditava mais nele, e desliguei o telefone. Mas a vida continuava, e eu tinha meus filhos para criar. E foi o que fiz: coloquei meu foco nos meus filhos, e no meu trabalho.

GB: Você não sabia nada sobre o seu marido na Venezuela?

Janete: As pessoas falavam na vila, que ele tinha uma mulher lá, e tinha outra família, mas eu não tinha certeza, era tudo falatório das pessoas.

GB: O que aconteceu depois disso?

Janete: Trabalhei muito, aumentei o gado, comprei uma caminhonete, e passei a distribuir leite e coalhada na vila inteira. E as coisas foram melhorando, cada vez mais. E meu marido na mesma, sem mandar nada. Depois de 2 anos, ele veio pra cá.

GB: E você falou com ele?

Janete: Claro! Falei tudo, sobre a ausência dele, do meu exaustivo trabalho para sustentar a casa, e sobre os boatos que corriam na vila.

GB: E o que ele falou?

Janete: Ele acabou confessando, que morava com outra mulher, e que tinha um filho com ela.

GB: E você aceitou?

Janete: Aceitei? Claro que não! De maneira alguma! Ele me deixou aqui nesse país, sozinha, tomando conta dos pais dele, dos nossos filhos, trabalhando feito uma condenada, para ele ir embora, e ainda por cima, para morar com outra?

GB: Você se divorciou?

Janete: Não. Nós nos separamos, mas continuamos juntos perante as pessoas, quando ele está no Líbano, ele fica aqui em casa, mas dormimos em quartos separados, já faz cinco anos.

GB: E porque você não volta ao Brasil?

Janete: Minha filha se casou aqui, tenho dois filhos ainda na faculdade, e o outro, que já está formado, trabalha em Beirute, tem um bom emprego. Eu me desgastei muito para construir esse patrimônio, hoje distribuo leite e seus derivados, em muitas partes de Bekaa, não vou abandonar tudo isso, por causa dele, uma pessoa que não me valorizou. De maneira alguma, eu me cansei para garantir o futuro dos meus filhos, e são eles quem tem o direito de herdar tudo isso, ninguém mais.

GB: E você é feliz hoje, Janete?

Janete: Claro, sou muito feliz, tenho dois netos maravilhosos, meus filhos, um já está formado, e os outros dois irão se formar em breve, se Deus quiser. Tenho muito orgulho dos homens que eu criei, tenho uma renda muito boa. Hoje tenho pessoas trabalhando comigo, me ajudando, eu somente distribuo a mercadoria, mais para me manter ocupada mesmo. Quer dizer, não tenho do que reclamar, graças a Deus. Meu marido, hoje, não significa nada para mim, nada além de ser o pai dos meus filhos.

GB: Você é um grande exemplo de mulher, uma grande guerreira, e com certeza nós brasileiros, nos orgulhamos muito de você. Pode ter certeza Janete, que ao publicarmos essa entrevista, todas as mulheres se sentirão orgulhosas de você. Um exemplo de mulher, de mãe, de uma pessoa batalhadora, parabéns! Quero agradecer pela entrevista maravilhosa, muito obrigada.

Janete: Eu que agradeço por você me entrevistar, como também quero parabenizá-los pelo jornal, entrei no site que você me deu, e dei uma olhada. Eu adorei, nossa! É a primeira vez que posso ler um jornal aqui. Eu falo o árabe, mas infelizmente, não leio e nem escrevo. Acho que esse jornal alegrou e ajudou muitos brasileiros aqui, parabéns e muito obrigada.

Therese Mourad
Gazeta de Beirute
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About beirut lebanon

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3 comments:

  1. Oi Janete, tudo bem? Não esquece da próxima vez que você vê-lo pedir para ele assinar um documento de que ele não tem direito a nada que você construiu, e se fosse eu colocaria a casa tb, porque quem cuida dos pais deles é você. Nada mais justo. Não custa nada ele simplesmente virar e querer tirar tudo de você ou pelo menos a metade.

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  2. Parabéns Janete, pela sua coragem, perseverança e vitoria, você é uma vencedora, continue assim que você esta no caminho certo, mas cuidado com as leis do Líbano que protege os homens, sou descendente de libanês, casado com uma baiana, moro em Salvador, me coloco a disposição em alguma coisa que precise aqui na Bahia.

    Persio

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  3. Las brasileñas son víctimas de los libaneses. Pobres mujeres!Nissan

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