Os funerais nas três religiões monoteístas


A morte é a consequência óbvia da vida, porém, as três maiores religiões monoteístas: o judaísmo, cristianismo e islamismo, diferem no modo de preparar o morto, e realizar as cerimônias fúnebres. 
Vejamos como as diferentes religiões, se despedem de seus queridos.

Judaísmo 
"Pois do pó vieste, e ao pó retornarás" (Bereshit 3:19)
Baruch atá Adonai Eloheinu melech ha'olam, dayan ha-emet
(Bendito sejas Tu, Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, o Verdadeiro Juiz)



Quando um judeu recebe a notícia do falecimento de uma pessoa que ele conhecia, eles geralmente proferem tais palavras. Mas a expressão judaica mais notável de dor, é quando o enlutado, rasga as próprias roupas, antes do funeral.

Quem deve rasgar as roupas? Sete parentes estão obrigados a desempenhar esta prática: filho, filha, pai, mãe, irmão, irmã e cônjuge. Após essa prática, diversas regras são cumpridas pelos parentes e amigos do morto, realizando assim, um enterro formal, segundo as tradições judaicas. Primeiramente, é extremamente proibida a cremação do corpo. 

O morto também deve ser enterrado, o mais rápido possível. Mas antes disso, o corpo deve ser purificado e limpo, em um processo chamado de “taharat”. Interessante observar, a semelhança com o islamismo, onde também é usada a palavra “tahara”, que se refere à purificação. 
Além da limpeza física, e preparação do corpo para o enterro, também são recitadas preces apropriadas exigidas, pedindo perdão a Deus pelos pecados que o falecido possa ter cometido, e orações pedindo que Deus o guarde e lhe conceda a paz eterna. 

O funeral judaico é realizado de forma simples, onde o morto, após o taharat, é envolvido em uma mortalha branca, igualmente usada para ricos e pobres. Segundo os judeus, ricos e pobres se encontram no céu, mas agora, todos são iguais perante Deus, e o que são é o que realmente importa, e não aquilo que possuíam.

A lei judaica estabelece, de maneira absoluta, que os mortos devam ser enterrados na terra, e por esta razão, o corpo de um judeu após ser lavado, purificado, envolto na mortalha branca, deve ser colocado em um caixão de madeira, mas é preferível minimizar a madeira e mesmo a mortalha, para que o falecido fique o mais próximo possível do solo. 

No sepultamento, todos os presentes, devem formar duas filas; onde no meio, deverá passará os enlutados com o caixão do morto, e os que estiverem nas filas, devem fazer orações, e súplicas específicas. É importante, que durante a cerimônia, mulheres e homens não se misturem. Antes de enterrar o corpo, é recomendável, fazer um discurso ressaltando suas qualidades, e boas ações, honrando assim, o falecido. 

Após o funeral, é costume ao sair do cemitério, arrancar um pouco de grama, para demonstrar que o falecido brotará de novo à vida (no dia da ressurreição dos mortos), e jogá-la por cima do ombro direito para trás, e recitar: "Veyatsisu me'ir keêssev haáretz; zachur ki afar anáchnu"  “Que eles brotem como as plantas da terra”, observando que o verbo “brotar” aqui, significa “ressurreição”.

E não acabou por aí, há diversas outras tradições e costumes religiosos, muito importantes no Judaísmo, antes, durante e depois do funeral.

Cristianismo
E o pó volta a terra, como era, e o espírito volta a Deus, que o deu”. Eclesiastes 12:7
Deus declarou a Adão: “No suor do seu rosto, comeras o teu pão, até que tornes a terra; porque dela foste tomado, porque és pó, e em pó te tornarás” Gênesis 3:19


Ao encomendar as pessoas falecidas à Deus, a comunidade cristã assume a tarefa de amparar e consolar os vivos, mas antes, os cristãos costumam rezar bastante quando alguém da família, ou um conhecido morre; principalmente perto do morto, visto que este geralmente, não é enterrado rapidamente.

As práticas rituais, relacionadas à morte e ao sepultamento, dentro do Novo Testamento não diferem das práticas da Palestina, antes e no tempo, de Jesus. Os relatos confirma que os mortos eram levados em esquifes, em cortejos, (Lc 7.12 e 2Sm 3.31; 2Rs 13.21); e os cortejos eram acompanhados por crianças (Gn 25.9,39), parentes (Jz 16.31), amigos (1Rs 13.29s.) e escravos (2Rs 23.30).  

Os mortos eram envoltos em panos, com um véu no rosto, como Lázaro (Jo 11.14), e os sepultamentos ocorriam no próprio dia do óbito. Pessoas choravam a perda, assim como no falecimento da filha de Jairo (Mc 5.38).  

A dor se expressava, por gestos, como, pôr as mãos sobre a cabeça (2Sm 13.19; Jr 2.37), rasgar as vestes (Gn 37.34; Jó 1.20), vestir-se de panos de saco (2Rs 6.20), colocar terra sobre a cabeça (Js 7.6; Jó 2.12), rolar a cabeça (ou o corpo) no pó (Jó 16.15; Mq 1.10), deitar e sentar sobre cinzas (Is 58.5; Jr 6.26), e raspar a barba e o cabelo, ou fazer incisões no próprio corpo (Jó 1.20; Is 22.12; Jr 16.6; 41.5). Música fazia parte de alguns sepultamentos, como aparece no caso da filha do centurião (Mt 9.23). 

Os cristãos dos primeiros séculos, entretanto, iniciaram algo inusitado: como indivíduos, e como comunidade, eles assumiram tanto os sepulta¬mentos de pessoas cristãs, quanto os de pessoas não cristãs, e que morriam na pobreza ou no abandono. Os que não tinham um lugar próprio para serem sepultados, se beneficiavam da prática cristã. 

Os funerais cristãos, dos primeiros séculos da Igreja, eram mar¬cados pela alegria, como se a pessoa falecida, estivesse sendo condu¬zida de um local a outro; resultado da profunda convicção de que, assim como Cristo ressuscitou, os cristãos também ressus¬citarão. 

O corpo era previamente lavado, ungido, e envolto em tecido de linho, na própria casa da pessoa falecida, enquanto se proferiam orações.

Já no século V, havia uma estrutura do rito funeral, dividido em três etapas: casa, igreja, cemitério. Já os sepultamentos da idade média, geralmente, eram feitos em cemitérios localizados em torno das igrejas, onde o corpo era recebido e carregado para dentro da igreja com salmos, e então, celebrava-se a eucaristia, onde se concedia a absolvição à pessoa falecida; que ainda recebia incenso e aspersão, como água benta.

Porém, a Bíblia oferece poucos recursos para o ritual fúnebre, e segundo os cristãos, os existentes não visam registrar formas ou regras, de como este deve acontecer. Mas enfatizam que sepultar os mortos, é visto como um dever santo (2Sm 21.12ss.; 1Rs 13.29s). Por esta razão, há variações dentro do cristianismo, e mais liberdade. No entanto, ainda assim, há uma série de etapas comuns nos funerais das comunidades cristãs. 

Após o corpo ter sido limpo e bem vestido, uma leve maquiagem é aplicada, deixando o morto com uma feição melhor, e na sequência, ele é colocado em um caixão aberto, onde ocorre o velório, que pode durar horas, e dependendo do caso, até dias. 

Todos veem se despedir do morto, os amigos, os vizinhos, e a família. Após o velório, o líder religioso, faz orações e súplicas, e fala sobre o morto. Todos o acompanham até o cemitério, geralmente vestindo roupas pretas como sinal de luto, e homenageiam o morto com flores, e coroas de flores.

O clássico ritual fúnebre dos católicos é a missa de sétimo dia, celebrada para iluminar a alma do falecido, já que eles acreditam em ressurreição. Há também uma comemoração em 02/11, no feriado do Dia de Finados, onde os fiéis oram pelos mortos. Há diferentes rituais dentro das seitas cristãs, por exemplo: os evangélicos, geralmente, não usam velas, e sobre seus túmulos não há estátuas de santos, diferente dos católicos. 

Sobre a cremação, há controvérsias, por ela ser considerada uma prática de origem pagã. Muitos padres e bispos são contra essa prática, pois de acordo com estudos bíblicos, o cristão deve ser enterrado, e não cremado. Mas há algumas seitas cristãs que concordam com a cremação.

A cremação era praticada nos tempos bíblicos, mas não era geralmente praticada pelos israelitas, ou pelos crentes no Novo Testamento. Nas culturas nas quais a Bíblia se focaliza, enterro em uma tumba, caverna, ou na terra, era a forma mais comum de se dispor do corpo humano (Gênesis 23:19; 35:4; 2 Crônicas 16:14; Mateus 27:60-66).


Islamismo
Inna Lillahi wa inna ilaihi raji'um
(Somos de Deus e a Ele retornaremos - 2:57)
E nos propõe comparações, e esquece a sua própria criação, dizendo:
Quem poderá reviver os ossos, quando já estiverem decompostos? Dize:
Revivê-los-á quem os criou da primeira vez, porque é conhecedor de todas as criações.
(36:78/79) Alcorão Sagrado



Os ensinamentos do Islã sobre a morte, é a de que ela não é a aniquilação do individuo, que o elimina da existência, e sim uma passagem de uma vida para outra, e por mais que se possa lamentar, nada modificará o decreto de Deus, altíssimo. Aquele que crê deve receber a morte, do mesmo modo como recebe outra calamidade que possa atingi-lo, com paciência e dignidade.

As condolências devem ser dadas aos familiares enlutados, dentro de três dias e três noites, depois do falecimento. Quando falece um muçulmano (a), é uma obrigação coletiva (da comunidade), providenciar um funeral islâmico. A seguir, segue uma série de providências, preceitos e recomendações, a serem observadas:

Logo que a pessoa dê o último suspiro, seus olhos devem ser fechados. As pessoas presentes devem fazer a dua’a (súplica) pelo falecido, pedindo a Deus que Ele tenha misericórdia dele, e dos presentes, e que lhe facilite o que deverá enfrentar. As pessoas que tenham presenciado o momento da morte devem manter absoluto sigilo, sobre qualquer coisa que tenham visto, ou ouvido, e que envolva a privacidade e a dignidade do falecido. Qualquer comentário, ou crítica sobre ele, deve ser evitado. 

Antes de ser enterrado, o morto (Mayyt) deve passar por alguns estágios de limpeza e purificação. Um mayyt masculino deve ser lavado por homens (ou por sua esposa), um mayyt feminino deve ser lavado por mulheres (ou por seu marido). Se o mayyt for uma criança (que não tenha alcançado a puberdade), o ghusl (banho do morto) pode ser realizado, tanto por homens quanto por mulheres. 

No islamismo, até o corpo de um muçulmano, mesmo de um feto abortado de 4 meses, deve ser lavado. O ghusl deve ser feito num recinto fechado, onde não deve entrar ninguém além dos que forem solicitados, e suas partes íntimas, são cobertas, para preservar a privacidade do ser humano. 

O mayyt deve ser colocado sobre uma mesa, sem movimentos bruscos, tudo deve ser feito com cuidado. Não é permitido cortar, raspar pêlos ou cabelos, cortar unhas, ou alterar qualquer coisa na aparência do mayyt, por meio de maquiagem ou coisas do tipo. 

O ghusl do mayyt consiste em lavar o corpo inteiramente, do alto da cabeça até os pés (até três vezes), com água pura, e na temperatura ambiente (ou morna ). Na primeira vez, o corpo é lavado com água misturada com Sidr, depois misturada com cânfora, e por último, apenas com água. Terminado o ghusl (banho), o mayyt deve ser envolvido no cafan (pano branco). 

Assim, como no judaísmo, é recomendável que o morto seja enterrado rapidamente, e por esta razão, após o banho, há a oração para ajudar o morto, e logo após, o muçulmano é enterrado. O líder religioso desce com o corpo do morto, apenas no cafan, sem caixão, e o coloca sobre a terra, colocando a cabeça do mayyt voltada para a direção da Caaba (primeiro templo construído para adoração do Deus Único) em Meca. 

O islã proíbe a cremação, e se a legislação de um determinado país não permitir que o enterro seja feito sem um caixão, deve-se colocar uma quantidade considerável de terra em seu interior, para que o corpo tenha contato com a mesma. Segundo aos ensinamentos do Islã, é pecado edificar o túmulo suntuosamente, ornamentá-lo, ou cobri-lo com qualquer tipo de aparato luxuoso, bem como, colocar fotos do falecido, ou coisas desse tipo, por estes costumes não serem islâmicos. 

Também não se deve discursar junto ao túmulo, após o enterro. É feito um minuto de silêncio, em memória do falecido, alimentos são depositados sobre o túmulo dos entes queridos, ou então, acendem-se velas.  O islã ensina que, o que ajuda o morto, são as orações, as súplicas, pagar suas dívidas materiais, bem como, cumprir as obrigações religiosas que o mayyt não pode mais cumprir, como orações, jejum...

Conclusão: 
Em todas as religiões monoteístas, que pregam a unicidade de Deus, há diversos rituais para a realização de um funeral, cada qual com sua lição especial. O importante, é que todas elas, acreditam que a morte não é o fim, e que junto ao Criador do Universo, existe a eternidade.


Chadia Kobeissi
Gazeta de Beirute

Fontes:
Livro: “Funeral cristão - Fundamentos e Liturgias”. 
www.chabad.org.br/ciclodavida/Falecimento_luto/artigos/maneira.html
www.arresala.org.br/not_vis.php?op=119&data=0&cod=588
hamzaabdullah357.blogspot.com/2012/08/como-preparar-um-morto-muculmano-para-o.html
www.abiblia.org/ver.php?id=3693#.Uea2gI2miAg
www.religiaodedeus.net/a_morte_no_islam.htm
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About beirut lebanon

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1 comments:

  1. Gostei das explicações! Aprendi coisas que não tinha a menor ideia de que existia!

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