Papa no Brasil


A Jornada Mundial da Juventude é um evento da Igreja Católica Apostólica Romana, que transmite valores espirituais, e deixa legados sociais. O evento, realizado a cada dois ou três anos, promove um encontro internacional de jovens católicos com o Papa. A última edição da JMJ ocorreu em 2011, em Madri, na Espanha, e reuniu cerca de 2 milhões de pessoas, de mais de 190 países.

No Rio de Janeiro, a JMJ visa também, o fortalecimento da ação contra a dependência química de jovens.
O Papa Francisco esteve presente nesse evento, que aconteceu de 23 a 28 de Julho, no Rio de Janeiro. Estávamos felizes, porém, muito apreensivos com a segurança, já que o país passa por um momento difícil, com manifestações acontecendo todos os dias, principalmente no Rio de Janeiro, cidade sede da JMJ. O Papa Francisco, por sua vez, não aceita usar o papa móvel blindado, e insiste em ter contato pessoal com os fiéis.

Para que isso pudesse acontecer no Brasil, a polícia e o governo do Rio dispuseram de 14 mil policiais militares, 22 mil policiais federais, e até a Marinha treinou seus militares, para que todos compusessem o sistema de segurança papal, durante o evento. Muitos jovens chegaram ao Brasil, desde a semana passada, vindos de toda parte do mundo. O Papa chegou ao Rio, na última segunda (22), e retornou ao Vaticano no domingo (28). Cerca de 800 mil turistas estiveram no Rio, para este evento, que reuniu um público de 2 milhões de pessoas. 

Peregrinos do mundo inteiro, tomados de muita alegria, fé e esperança, esperam inclusive entrar para o Guines Book, em virtude do maior Flash Mob, já registrado, que foi carinhosamente preparado para o Papa. 

Veja como foi o dia a dia da JMJ no Brasil, durante os 7 dias do evento.

1º dia
Iniciou a primeira viagem internacional do Papa Francisco I, na manhã do dia 22, às 8h27 (horário de Roma) - 3h27 no horário de Brasília. O helicóptero do pontífice pousou no Aeroporto de Fiumicino, em Roma, para conduzir o Santo Padre ao seu voo. Francisco I carregava parte de sua bagagem, numa maleta preta de mão, como ele costumava fazer, quando ainda era Cardeal, em Buenos Aires. No inicio do voo, pela Cia aérea italiana, Alitália, o Papa registrou sua saída postando uma mensagem no Twitter, onde ele disse estar tomado de grande alegria, por estar a caminho do Brasil.

Durante parte do trajeto, ele conversou animadamente com jornalistas, retornando na sequência, para o seu assento. O voo do Papa chegou antecipadamente ao Aeroporto Antônio Carlos Jobim, no Rio, por volta das 15h40min, quando estava prevista a sua chegada, para as 16hs. Ele desceu muito sorridente do avião, e sem aparentar cansaço algum, embora ele houvesse recusado deitar-se numa cama durante o voo, como os demais pontífices costumavam fazer durante os voos.

Francisco I foi recepcionado por um coral de crianças de Paróquias da Periferia, e do aeroporto seguiu para a Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, num Fiat Idea, mantendo a janela aberta durante todo o percurso. A humildade do Papa, em recusar limusine blindada para seguir o trajeto num veículo popular, é a marca registrada de sua singularidade. Nas proximidades da Candelária, ele permitiu que o povo chegasse até ele, e os fiéis se aglomeram à sua volta, embora na sequência, os seguranças tenham afastado os fiéis, e cercando o carro.

Surpreendentemente, como tudo o que acontece no Brasil, o carro do Papa ficou preso num congestionamento numa das avenidas, pois os batedores conseguiram errar o trajeto, programado há meses. A faixa central da avenida, reservada para a comitiva estava totalmente liberada, enquanto o Papa e toda a sua Comitiva, ficaram presos num dos maiores congestionamentos do Rio de Janeiro! O Pontífice acabou trocando de carro, e seguiu no Papa Móvel aberto, chegando à Catedral Metropolitana, onde deu uma volta pela cidade, bem próximo da multidão eufórica, enquanto dirigia-se ao Teatro Municipal. 

Milhares de bandeiras, de todos os países, flamejavam entre jovens, crianças e famílias que corriam acompanhando o Papa móvel. No percurso de 1,5 km de distância, em meio à multidão, ele as abençoava e ao mesmo tempo se emocionava com a enorme energia e manifestações de carinho e fé, onde a multidão cantava, gritavam, e lhe acenava. Neste percurso, havia um cordão de isolamento, formado por voluntários da Arquidiocese, onde todos de mãos dadas, e vestindo camisetas amarelas, contiveram a multidão. 

Mas o Papa parou diversas vezes, para saudar a multidão e beijar as crianças, chamando-as para junto de si, registrando momentos emocionantes e inesquecíveis para a fé católica.  Quando chegou ao Teatro Municipal, ele novamente trocou de carro, voltando para o carro fechado (embora com a janela aberta), e dirigiu-se ao Aeroporto Santos Dumont, aonde um helicóptero da FAB, o conduziu até o Palácio da Guanabara. Seu 1º discurso (em um português perfeito) foi realizado na presença da Presidenta Dilma Rousseff, e outras autoridades, onde ele se apresentou ao país e ao mundo, com uma delicadeza ímpar, e de lá, seguiu para o Centro de Estudos do Sumaré, onde ficou hospedado. Leia na íntegra sua palavras. 

“Permitam-me que nessa hora eu possa bater delicadamente a essa porta [do coração dos brasileiros]. Venho para alimentar a chama de amor fraterno que arde em cada coração. A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo. E por isso nos impõe grandes desafios”. 

Senhora Presidenta, ilustres autoridades, irmãos e amigos,
Quis Deus na sua amorosa providência que a primeira viagem internacional do meu pontificado me consentisse voltar à amada América Latina, precisamente ao Brasil, nação que se gloria de seus sólidos laços com a Sé Apostólica e dos profundos sentimentos de fé e amizade que sempre a uniram de modo singular ao Sucessor de Pedro. Dou graças a Deus pela sua benignidade.

Aprendi que para ter acesso ao povo brasileiro é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração; por isso permitam-me que nesta hora eu possa bater delicadamente a esta porta. Peço licença para entrar e transcorrer esta semana com vocês. Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo! Venho em seu nome, para alimentar a chama de amor fraterno que arde em cada coração; e desejo que chegue a todos e a cada um a minha saudação: A paz de Cristo esteja com vocês!

Saúdo com deferência a senhora presidenta e os ilustres membros do seu governo. Obrigado pelo seu generoso acolhimento e por suas palavras que externaram a alegria dos brasileiros pela minha presença em sua pátria. Cumprimento também o senhor governador deste Estado, que amavelmente nos recebe na sede do governo, e o senhor prefeito do Rio de Janeiro, bem como os membros do corpo diplomático acreditado junto ao governo brasileiro, as demais autoridades presentes e todos quantos se prodigalizaram para tornar realidade esta minha visita.

Quero dirigir uma palavra de afeto aos meus irmãos no Episcopado, sobre quem pousa a tarefa de guiar o rebanho de Deus neste imenso país, e às suas amadas igrejas particulares. Esta minha visita outra coisa não quer senão continuar a missão pastoral própria do Bispo de Roma, de confirmar os seus irmãos na fé em Cristo, de animá-los a testemunhar as razões da esperança que d'Ele vem e de incentivá-los a oferecer a todos as inesgotáveis riquezas do seu amor.

O motivo principal da minha presença no Brasil, como é sabido, transcende as suas fronteiras. Vim para a Jornada Mundial da Juventude. Vim para encontrar os jovens que vieram de todo o mundo, atraídos pelos braços abertos do Cristo Redentor. Eles querem agasalhar-se no seu abraço para, junto de seu Coração, ouvir de novo o seu potente e claro chamado: "Ide e fazei discípulos entre todas as nações".

Estes jovens provêm dos diversos continentes, falam línguas diferentes, são portadores de variegadas culturas e, todavia, em Cristo encontram as respostas para suas mais altas e comuns aspirações e podem saciar a fome de verdade límpida e de amor autêntico que os irmanem para além de toda diversidade. Cristo abre espaço para eles, pois sabe que energia alguma pode ser mais potente que aquela que se desprende do coração dos jovens quando conquistados pela experiência da sua amizade. Cristo "bota fé" nos jovens e confia-lhes o futuro de sua própria causa: "Ide, fazei discípulos". Ide para além das fronteiras do que é humanamente possível e criem um mundo de irmãos. 

Também os jovens "botam fé" em Cristo. Eles não têm medo de arriscar a única vida que possuem porque sabem que não serão desiludidos. Ao iniciar esta minha visita ao Brasil, eu tenho consciência de que, ao dirigir-me aos jovens, falarei às suas famílias, às suas comunidades eclesiais e nacionais de origem, às sociedades nas quais estão inseridos, aos homens e às mulheres dos quais, em grande medida, depende o futuro destas novas gerações. Os pais usam dizer por aqui: "os filhos são a menina dos nossos olhos". Que bela expressão da sabedoria brasileira que aplica aos jovens a imagem da pupila dos olhos, janela pela qual entra a luz regalando-nos o milagre da visão! 

O que vai ser de nós, se não tomarmos conta dos nossos olhos? Como haveremos de seguir em frente? O meu auspício é que, nesta semana, cada um de nós se deixe interpelar por esta desafiadora pergunta. A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo e, por isso, nos impõe grandes desafios. 

A nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço; tutelar as condições materiais e imateriais para o seu pleno desenvolvimento; oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construírem a vida; garantir-lhe segurança e educação para que se torne aquilo que ele pode ser; transmitir-lhe valores duradouros pelos quais a vida mereça ser vivido, assegurar-lhe um horizonte transcendente que responda à sede de felicidade autêntica, suscitando nele a criatividade do bem; entregar-lhe a herança de um mundo que corresponda à medida da vida humana; despertar nele as melhores potencialidades para que seja sujeito do próprio amanhã e corresponsável do destino de todos.

Concluindo, peço a todos a delicadeza da atenção e, se possível, a necessária empatia para estabelecer um diálogo de amigos. Nesta hora, os braços do Papa se alargam para abraçar a inteira nação brasileira, na sua complexa riqueza humana, cultural e religiosa. Desde a Amazônia até os pampas, dos sertões até o Pantanal, dos vilarejos até as metrópoles, ninguém se sinta excluído do afeto do Papa. Depois de amanhã, se Deus quiser, tenho em mente recordar-lhes todos a Nossa Senhora Aparecida, invocando sua proteção materna sobre seus lares e famílias. Desde já, a todos abençoo e obrigado pelo acolhimento.  



2º dia
Dia de descanso para o Papa na residência papal em Sumaré, onde ele tomou sorvete e comeu 6 pães de queijo de café da manhã, e recebeu cardeais, freiras e outros membros da Igreja. O dia amanheceu nublado e chuvoso no Rio, mas as filas de jovens participantes da JMJ, para visitar o Cristo Redentor, eram imensas. 

O dia de hoje, marcou também, a abertura oficial da JMJ, cujo público estimado foi de aproximadamente 500 mil. Um palco foi montado na praia de Copacabana para a realização do evento, e logo pela manhã, uma missa foi realizada, seguida de entrevistas coletivas sobre a JMJ. 

Na parte da tarde, o Cardeal Dom Odílio Scherer, Arcebispo de São Paulo, concedeu uma entrevista e no início da noite, Dom Orani Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro, celebrou a missa oficial de abertura.

Apesar de ter sido o dia mais frio do ano no Rio, a Avenida Atlântica, ficou tomada de turistas, que molhavam os pés no mar, trocavam souvenires de seus países, fizeram suas confissões, antes da celebração da missa no palco. 

Palco que, a princípio, foi ocupado por um DJ que aquecia a multidão que permanecia concentrada na frente do palco, enquanto uns dançavam na praia, e outros aguardaram sentados sobre cangas esticadas na areia, aguardando o início da programação da abertura oficial da JMJ, acompanhando a programação transmitida nos mais de 30 telões espalhados em toda Copacabana.

Uma falha no sistema de energia do metrô provocou o fechamento de duas estações, que dão acesso às zonas sul, norte e central da cidade. A paralisação gerou um atraso, de duas horas, para os peregrinos que se dirigiam à Copacabana. Houve relatos também, de dificuldade de acesso à internet. As ruas em torno da área de acesso à Copacabana foram bloqueadas, mas não houve manifestações neste dia. 

Porém, uma confusão entre padres estrangeiros e organizadores na área VIP do palco foi o contratempo do dia. Um grupo de religiosos tentou acessar o local, mas foram barrados pela segurança, que em português, tentou explicar aos sacerdotes que a área era só poderia ser acessada pelo bispo. Tentativas, em vão, de comunicação em outros idiomas foram investidas por parte dos religiosos, porém, sem sucesso.

A confraternização da abertura oficial da JMJ aconteceu debaixo de garoa, e de uma série de dificuldades, como a maré que subia e reduzia a faixa de areia na praia, cujos termômetros marcavam 15º C. No entanto, a multidão de fiéis, bispos, arcebispos e cardeais rezaram o terço em conjunto, onde cada mistério do terço, representando um dos 5 continentes, foi rezado por um jovem de cada continente em seu idioma, causando muita emoção. 

Dom Orani deu inicio a eucaristia, na presença de mais de 1/2 milhão de jovens, e pediu à eles que andassem pelo Rio, testemunhando Jesus Cristo, buscando um mundo novo, e o Cardeal Stanislaw Rylko, Presidente do Pontifício Conselho para os Laicos, deu as boas vindas aos jovens. 

Foi uma linda cerimônia, e no término da missa, Dom Orani lembrou os fiéis do início das catequeses no 3º dia do JMJ. Por volta de 20h15, parte do público começou a ir embora. Os pontos de ônibus na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, estiveram lotados. 


3º dia
Após um dia de descanso, o Papa Francisco deixou logo pela manhã a residência do Sumaré, no Rio, e em um carro fechado, foi conduzido até a Base aérea do Galeão, onde o avião da FAB estava à espera para levar o pontífice e sua comitiva, a São José dos Campos/SP. De lá, o Papa embarcou em um helicóptero, também da FAB, até Aparecida/SP. 

Mesmo chovendo e a temperatura marcando 7°C, não impediu que o Papa, dentro do papa-móvel correspondesse às manifestações de carinho dos fieis, com acenos e beijos nas crianças, durante o trajeto até a Basílica de Nossa Senhora Aparecida. 

No templo, 15 mil pessoas, entre 12 mil fiéis e 3 mil autoridades e religiosos, assistiram à primeira missa do pontífice no Brasil. A visita do Papa Francisco mobilizou e comoveu milhares de pessoas. 
Os 12 mil lugares disponíveis dentro da Basílica foram lotados logo cedo. Mesmo com a forte onda de frio que atingiu o país, não impediu que os fiéis dormissem ao relento, para guardar um lugar dentro da basílica, para conseguir ficar perto do Papa, que pediu aos jovens para construir “um país e um mundo mais justo, solidário e fraterno”. 

O balanço da Arquidiocese de Aparecida apontou que 300 mil pessoas estiveram presentes em Aparecida. 
Antes do início da celebração, Francisco I entrou na Capela dos 12 Apóstolos, e venerou a imagem de Nossa Senhora Aparecida, recebendo aplausos após fazer uma oração, e tocar a imagem da santa. A missa começou com 30 minutos de atraso, e ao todo, 1000 sacerdotes concelebraram a missa de Aparecida, junto com o Papa Francisco I. 

HOMILIA DO PAPA EM APARECIDA

Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio, queridos irmãos e irmãs!
Quanta alegria me dá vir à casa da Mãe de cada brasileiro, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte à minha eleição como Bispo de Roma fui visitar a Basílica de Santa Maria Maior, para confiar a Nossa Senhora o meu ministério de Sucessor de Pedro. Hoje, eu quis vir aqui para suplicar à Maria, nossa Mãe, o bom êxito da Jornada Mundial da Juventude e colocar aos seus pés a vida do povo latino-americano.

Queria dizer-lhes, primeiramente, uma coisa. Neste Santuário, seis anos atrás, quando aqui se realizou a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, pude dar-me conta pessoalmente de um fato belíssimo: ver como os Bispos – que trabalharam sobre o tema do encontro com Cristo, discipulado e missão – eram animados, acompanhados e, em certo sentido, inspirados pelos milhares de peregrinos que vinham diariamente confiar a sua vida a Nossa Senhora: aquela Conferência foi um grande momento de vida de Igreja. E, de fato, pode-se dizer que o Documento de Aparecida nasceu justamente deste encontro entre os trabalhos dos Pastores e a fé simples dos romeiros, sob a proteção maternal de Maria. A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: “Mostrai-nos Jesus”. 

É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado. E, por isso, a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria. Assim, de cara à Jornada Mundial da Juventude que me trouxe até o Brasil, também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria, que amou e educou Jesus, para que ajude a todos nós, os Pastores do Povo de Deus, aos pais e aos educadores, a transmitir aos nossos jovens os valores que farão deles construtores de um País e de um mundo mais justo, solidário e fraterno. Para tal, gostaria de chamar à atenção para três simples posturas: Conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria.

1. A primeira postura: Conservar a esperança. A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher – figura de Maria e da Igreja –, sendo perseguida por um Dragão, – o diabo -, que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13a.15-16a). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos.

Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização, ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, eu quero dizer com força: Tenha sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer.

Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros. Queridos irmãos e irmãs, sejamos luzeiros de esperança! Tenhamos uma visão positiva sobre a realidade. 
Encorajemos a generosidade que caracteriza os jovens, acompanhando-lhes no processo de se tornarem protagonistas da construção de um mundo melhor: eles são um motor potente para a Igreja e para a sociedade. 
Eles não precisam somente de coisas, precisa, sobretudo, que lhes sejam propostos àqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo. Neste Santuário, que faz parte da memória do Brasil, podemos quase que apalpá-los: espiritualidade, generosidade, solidariedade, perseverança, fraternidade, alegria; trata-se de valores que encontram a sua raiz mais profunda na fé cristã.

2. A segunda postura: Deixar-se surpreender por Deus. Quem é homem (e mulher) de esperança, a grande esperança que a fé nos dá, sabe que mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Parnaíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. 
Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Deus sempre nos reserva o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos em Deus! Longe d’Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se nos aproximamos d’Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com Ele.

3. A terceira postura: Viver na alegria. Queridos amigos, se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração, e não podemos deixar de sermos testemunhas, dessa alegria. O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha. Temos uma Mãe que sempre intercede pela vida dos seus filhos, por nós, como a rainha Ester na primeira leitura (cf. Est 5, 3). Jesus nos mostrou que a face de Deus é a de um Pai que nos ama. O pecado e a morte foram derrotados. O cristão não pode ser pessimista! 

Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se “incendiará” de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado. Como dizia Bento XVI: «O discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro” (Discurso inaugural da Conferência de Aparecida [13 de maio de 2007]: Insegnamenti III/1 [2007], 861).

Queridos amigos, viemos bater à porta da casa de Maria. Ela abriu-nos, fez-nos entrar e nos aponta o seu Filho. Agora Ela nos pede: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2,5). Sim, Mãe nossa, nos comprometemos a fazer o que Jesus nos disser! E o faremos com esperança, confiantes nas surpresas de Deus e cheios de alegria. Assim seja.

A roupa usada pelo Papa, confeccionada em Colatina/ES, e estimada em R$ 1.000,00, continha um peixe (criado por um artista plástico) estampado em prata, para combinar com a cruz; e emocionou as costureiras que participaram de sua confecção.

Cerca de 60 pessoas, entre seminaristas e membros da comitiva do Vaticano, almoçaram com o pontífice, e a cozinheira responsável, Vanessa Galvão, optou por um cardápio simples e regional, que consistia em salada de tomate, alface, rúcula, peixe grelhado, carne de panela, purê de batata, feijão carioca, e doce de leite e frutas como sobremesa. De acordo com a cozinheira responsável pelo cardápio, Vanessa Galvão, o Pontífice escolheu comer frango grelhado, arroz e purê de banana da terra. Após a refeição, pediu que todos os garçons e cozinheiras fossem ao refeitório, e agradeceu a todos pela refeição, e ainda pediu que rezassem por ele; depois, tomou um chá, e deixou o Seminário.

Cerca de 5 mil homens do Exército, Marinha, Aeronáutica, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, participaram do esquema de segurança do Papa em Aparecida. O plano foi desenvolvido em conjunto com a Guarda Suíça do Vaticano, que acompanhou os deslocamentos do pontífice, e todos os fiéis passaram por detectores de metal e tiveram suas bolsas e mochilas revistadas, para entrarem na área interna da basílica. Dentro de um dos mirantes do templo, a 16 andares de altura, equipes monitoraram a região, com a ajuda de mais de cem câmeras.

O Arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis, disse que a acolhida ao Papa, superou as expectativas de público, estimada por ele, entre 200 e 300 mil fiéis; e confirmou o seu convite feito a Francisco I, de retornar a Aparecida em 2017, para a comemoração dos 300 anos da descoberta da imagem de Nossa Senhora de Aparecida. 

Após a missa, num discurso na tribuna do templo, o Papa afirmou que voltará ao Brasil em 2017, o que deixou o Arcebispo surpreso, e feliz. O pontífice também pediu que os fiéis rezassem por ele: "Quero pedir um favor, com jeitinho: rezem por mim". Antes do retorno do Papa ao Rio, o Arcebispo pediu desculpas ao Papa pelo sacrifício de enfrentar o mau tempo para visitar Aparecida, e segundo o Cardeal, o Papa disse que não havia sido sacrifício algum, foi um prazer.

De volta ao Rio, o Papa visitou dependentes químicos no Hospital São Francisco de Assis, na Tijuca, onde conversou com jovens que se submetem a tratamento contra a dependência química, e inaugurou o Polo de Atenção Integral à Saúde Mental (PAI), além de ouvir testemunhos de ex-usuários de drogas, receber presentes, e realizar um discurso, onde ele criticou as políticas de liberalização das drogas na América Latina. 

“Não é deixando livre, o uso das drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se irá conseguir, reduzir a difusão e a influência da dependência química", disse o Papa.

Cerca de 1.500 pessoas foram convidadas para assistir a visita do Papa ao Hospital São Francisco, elas enfrentaram longas filas para passarem pelos pórticos instalados pela Polícia Federal, antes do acesso ao pátio central e ver o pontífice a uma distância de menos de 100 metros. Ao deixar o hospital, ele seguiu para a Residência Assunção, no Centro de Estudos do Sumaré, onde está hospedado.

   
4º dia
Logo após ter recebido a chave da Cidade, ao seu estilo (fizeram em prata), em visita ao Palácio da Cidade (sede da Prefeitura da Cidade), o Papa abençoou as bandeiras das olimpíadas e das paraolimpíadas dos jogos de 2016, a cruz olímpica e o ícone da paz. Depois disso, ele fez a bênção dos atletas, e ex-atletas, entre eles Oscar Schmidt, que foi campeão de basquete por muitos anos, e tenta se recuperar de um câncer no cérebro. De lá, no papa-móvel, ele se dirigiu ao complexo de favelas em Manguinhos, e durante o trajeto, debaixo de chuva e muito frio, ele abençoava os fiéis, e beijava as crianças; pois como dizia Cristo: “Porque deles é o Reino dos céus”

Ele visitou uma casa escolhida sem sorteio, entrou e conversou com a família muito simples que ali residia, e deu-lhes uma benção especial. O Papa recebeu de uma freira, da mesma ordem de Madre Teresa de Calcutá, um colar com as cores da bandeira do Brasil, e ele a colocou por cima de suas vestes. 
Durante o encontro, o pontífice disse que “Nenhum esforço de pacificação será duradouro sem justiça social”

Nem a chuva, impediu a multidão de acompanhar o Papa durante a visita à comunidade de favelas. Em discurso na favela da Varginha, o Papa apelou para que as pessoas se esforcem para que o mundo seja mais justo e solidário.  "Sei bem, que quando alguém precisa comer e bate em suas portas, vocês sempre dão um jeito de compartilhar comida. Como diz o ditado: Sempre se pode colocar mais água no feijão", afirmou.

O Papa seguiu então à Catedral Metropolitana, onde pediu para ter um encontro com os jovens argentinos (5000 que couberam dentro da Catedral), mas acredita-se que 20 mil argentinos vieram para a JMJ. No caminho, os argentinos o aguardavam com muita festa, e a Catedral ficou lotada. Eles invadiram as ruas do Rio, e fizeram uma música especial para o conterrâneo. Em discurso, o Papa afirmou que a Igreja Católica precisa sair às ruas, para que ela não se torne uma ONG (Organização Não Governamental).
O Papa voltou ao Sumaré para almoçar e descansar, saindo mais tarde para Copacabana, onde foi recebido por milhares de jovens da JMJ, que o esperavam há muito tempo, debaixo de chuva, alguns desde o dia anterior! Ele acenou de dentro do papa-móvel em sua chegada ao encontro, para uma liturgia da palavra, num altar montado no palco de Copacabana.

Depois de passar por toda a orla de Copacabana no papa-móvel, e causando grande comoção mais uma vez, o Papa Francisco participou de sua primeira agenda oficial, dentro da Jornada Mundial da Juventude. Durante a festa de acolhida dos jovens, no palco montado na areia da praia, o pontífice afirmou aos peregrinos: “Nesta semana, o Rio de Janeiro se torna o centro da Igreja, o seu coração vivo e jovem”. O primeiro Papa latino-americano, lembrou que o continente, normalmente, está distante não apenas do centro geográfico do mundo, “mas também do ponto de vista existencial, cultural, social, humano”. Porém, o pontífice comemorou o fato, de na noite desta quinta-feira (25), a praia de Copacabana estar cheia, e ser o foco dos católicos.  “Hoje vocês estão aqui, ou melhor, hoje estamos aqui, juntos, unidos para partilhar a fé e a alegria do encontro com Cristo, de ser seus discípulos. Vocês responderam com generosidade e coragem, ao convite que Jesus lhes fez, de permanecerem com Ele, de serem seus amigos”, afirmou o Papa Francisco, sob muitos aplausos.

O pontífice leu o primeiro parágrafo de seu discurso em português, depois seguiu o resto da leitura em castelhano. No texto distribuído, um trecho falava em “trem da Jornada Mundial da Juventude”, que foi suprimido da leitura final, depois do acidente em Santiago de Compostela ontem, que matou 80 pessoas. 
Antes de começar a sua homilia, o Papa pediu um minuto de silêncio em homenagem à jovem Sophie Morinière, que perdeu a vida em um acidente de ônibus na Guiana Francesa, quando estava a caminho do Rio de Janeiro, para a JMJ. O Papa também lamentou que nem todos possam estar fisicamente presentes ao evento. “Saúdo a todos, com muito carinho. A vocês, aqui congregados dos cinco continentes, e por meio de vocês, a todos os jovens do mundo, particularmente, aqueles que não puderam vir ao Rio de Janeiro, mas estão em ligação conosco, através do rádio, televisão e internet, digo: Bem-vindos a esta grande festa da fé. O Cristo Redentor, do alto da montanha do Corcovado, lhes acolhe na Cidade Maravilhosa”

Durante a saudação aos jovens, o Papa elogiou o comportamento dos fiéis, que mesmo com chuva e frio, compareceram em grande número à Jornada Mundial da Juventude. "Sempre ouvi dizer que os cariocas não gostam do frio e da chuva. Vocês estão mostrando que a fé de vocês, é mais forte que o frio, e que a chuva. Parabéns, vocês são verdadeiros guerreiros."  O papa Francisco também lembrou, da primeira Jornada Mundial da Juventude, em nível internacional, ocorrida na Argentina, em 1987. “Guardo vivas na memória, as palavras do bem-aventurado João Paulo II aos jovens: ‘Tenho muita esperança em vocês. Espero, sobretudo, que renovem a fidelidade de vocês a Jesus Cristo, e à sua cruz redentora’”, disse o Pontífice. 
Antes do discurso do Papa, na presença de 1,5 milhões de pessoas, o arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta, fez uma abertura da festa de acolhida. Na sequência, houve uma apresentação artística com algumas das músicas mais conhecidas, sobre a cidade como "Aquele abraço", de Gilberto Gil, e "Samba do Avião", de Tom Jobim, e também Fafá de Belém cantou. O líder máximo da Igreja encerrou o discurso, com novos elogios aos moradores do Rio: "Quero dizer aqui, que os cariocas sabem receber bem, sabem dar uma grande acolhida"

No percurso pela Avenida Atlântica, o Papa bebeu um gole de chimarrão, oferecido por um peregrino. No trajeto, ele acenou para os fiéis, que reagiram com histeria diante do pontífice. O papa-móvel parou diversas vezes durante o percurso, para que o Papa beijasse as crianças. Em um determinado momento, ele substituiu o solidéu (uma espécie de chapéu) que estava usando, por outro que ganhou de um fiel anônimo, entregando o seu ao segurança, para que entregasse ao fiel em retribuição ao presente.

O Papa está fazendo aqui no Brasil, exatamente o que ele gostaria de fazer: Ter contato muito próximo com os fiéis. Nota-se uma imensa alegria e descontração em sua fisionomia, apesar do cansaço que deve estar sentindo, porque é uma verdadeira maratona cumprir toda a agenda da semana. Ele disse que gostaria de bater na porta da casa dos brasileiros, pedir um copo de água, um cafezinho, “mas cachaça não!” (risos). Ele saiu de Copacabana pouco antes das 20hs, para se recolher no Sumaré, para seu merecido descanso.


5º dia
O papa Francisco afirmou nesta sexta-feira, em seu Twitter, que foi "inesquecível" a festa de acolhida da JMJ, realizada na noite anterior em Copacabana. Em seu discurso na noite anterior, o pontífice disse: "Nesta semana, o Rio de Janeiro se torna o centro da Igreja, o seu coração vivo e jovem"

Na sexta-feira (26), o Papa caminhou na Quinta da Boa Vista, em meio ao povo, e sempre acompanhado de centenas de fiéis; e dirigiu-se para onde estão dispostos os confessionários para os participantes da JMJ, e recebeu 5 jovens em confissão (3 brasileiros, 1 italiana, e  1 venezuelano). De lá, ele se dirigiu para o Palácio São Joaquim, no bairro da Glória, onde mora o Arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta. 

No Palácio São Joaquim, o pontífice falou da importância dos avós no aprendizado dos jovens, e lembrou-se dos pais da Virgem Maria neste dia, onde se comemora o Dia dos Avós, bem como o Dia de Santa Ana e São Joaquim. 

Na sacada da imponente residência, o pontífice rezou o Ângelus, a oração do meio dia dos católicos, diante de uma multidão emocionada em vê-lo mais uma vez. O Papa Francisco fez da rua em frente ao Palácio, uma réplica da Praça de São Pedro, no Vaticano. O Papa ainda fez questão de se encontrar com um grupo de detentos brasileiros no Palácio Arquiepiscopal São Joaquim, por considerar que voltar a atenção aos pobres e aos que estão sofrendo, um complemento de sua missão no Brasil, este tem sido um tema muito frequente, em sua evangelização no país. 

Após dias de chuva, o sol voltou a aparecer no Rio na sexta-feira (26). No Twitter, internautas lembraram que, no dia anterior, o Papa deu um conselho ao Prefeito, Eduardo Paes, para parar de chover: "Devemos oferecer uma dúzia de ovos a Santa Clara", disse o pontífice durante evento do Palácio da Cidade. Paes confirmou nesta sexta, ter enviado a cesta de ovos para o Convento das Clarissas. 

Às 18hs o Papa chegou a Copacabana, onde presidiu a Via Sacra, e deu início a encenação da Via Crucis. Houve participação de alguns artistas da Rede Globo, a grande maioria, jovens leigos e atores voluntários, e algumas personalidades católicas, que percorreram as 14 estações, e foram em direção ao palco principal, onde jovens de todos os continentes fizeram orações em seus idiomas.

O Papa iniciou sua participação discursando: "Queridos jovens, vimos hoje acompanhar Jesus no seu caminho de dor e de amor. O caminho da cruz, em um dos momentos fortes da JMJ. No final do ano santo da redenção, o bem aventurado João Paulo II quis confiar a cruz a vocês, jovens. A partir de então, a cruz percorreu todos os continentes. Ninguém pode tocar a cruz de Jesus sem deixar algo de si mesmo nela, e sem trazer algo da cruz, de Jesus, para sua própria vida".

O Pontífice citou os jovens que perderam a vida no incêndio na Boate Kiss, em Janeiro, e pediu que os fiéis rezassem por eles: "Com a Cruz, Jesus se une ao silêncio das vítimas da violência, que já não podem clamar, sobretudo os inocentes e indefesos; nela Jesus se une às famílias que passam por dificuldades, que choram a perda de seus filhos. Não há cruz pequena ou grande, da nossa vida, que o Senhor não venha compartilhar conosco. A cruz de Cristo, ensina-nos pois, a olhar sempre para o outro com misericórdia e amor, sobretudo à quem sofre, quem tem necessidade de ajuda, quem espera uma palavra, um gesto"

Em virtude da melhora do tempo, e uma temperatura agradável, com momentos de sol, atraiu um público maior à praia de Copacabana para assistir a representação. Estima-se um número superior a 1,5 milhão de pessoas. Mantendo a tradição de fazer pronunciamentos com apelo sociopolítico, o Papa aproveitou sua fala, após a apresentação da Via Crucis, para comparar problemas sociais, ao sacrifício de Jesus Cristo. No mesmo paralelo, o pontífice apresentou uma mensagem de consolo, e um apelo por misericórdia, e retirou-se em direção à sua residência por volta de 19h45min.

O ritual da peregrinação da JMJ, que seria feito no campus Fidei, em Guaratiba, foi cancelado devido às chuvas, que deixaram o terreno encharcado, mas a tradição foi feita da Central do Brasil, no centro, até Copacabana, na zona sul, pela Avenida Presidente Vargas e pelo aterro do Flamengo num percurso de 12 km.  A mesma infraestrutura que haveria em Guaratiba, com postos de atendimento médico e hidratação foi disponibilizada em um corredor da avenida. 

A transferência dos equipamentos do Campus Fidei e dos banheiros químicos começou a ser feita ainda na quinta-feira. Um dos organizadores do trabalho de remoção, disse que seria praticamente impossível carregar tudo para Copacabana. “São 15 postos médicos, 4,4 mil banheiros e 52 torres de som, faremos o que dá para fazer, é muito complicado”, disse ele. 


6º Dia
O público não era muito expressivo pouco antes das 7h, horário oficial do início da caminhada. Mas o ponto de largada, em frente à Central do Brasil, logo deu lugar a avenidas lotadas de levas de cristãos que, mesmo debaixo de chuva forte e invernal com temperaturas marcando 15ºC, levavam em suas costas mochilas e colchonetes para a vigília. A caminhada serena sob o céu cinza ofereceu à peregrinação o grande percalço do sacrifício. 

No Aterro do Flamengo, os fiéis formaram filas a perder de vista, para a retirada do kit vigília - uma caixa de papelão de 4 kg, com lanches para o pernoite na praia. A grande quantidade de peregrinos mostrou-se superior à velocidade com que o posto de entrega da comida conseguia funcionar. Muitos ficaram 2 horas na fila, e outros desistiram. Os cânticos e orações cresceram em voz, criando uma atmosfera crescentemente alegre e descontraída à medida que o tempo mudava e a chuva dava lugar ao sol, e o frio deu lugar ao calor.

Às 9hs o Papa celebrou uma missa na Catedral Metropolitana de São Sebastião, para os religiosos, e disse que os religiosos devem escutar os jovens, e que o lugar deles é nas ruas, levando as palavras do Evangelho, e que eles devem ser mais humildes e simples. Segundo o Papa Francisco, é preciso "ajudar os jovens a redescobrir o valor e a alegria da fé". Após a Missa, o pontífice seguiu para o Teatro Municipal, onde se encontrou com membros da sociedade civil, onde mais de 2.200 pessoas o aguardavam. 

O jovem Valmir Júnior, de 28 anos, fez um discurso emocionante, relembrando que foi usuário de drogas e que a igreja o ajudou a se recuperar, e disse que esperava que a JMJ deixasse um legado social para a cidade do Rio. Ele terminou o discurso extremamente comovido, e o Papa se levantou e foi ao seu encontro para abraça-lo, como se fossem dois amigos.

Durante seu discurso, Papa Francisco destacou a responsabilidade social, que requer uma política que se preocupe com a formação das novas gerações, e disse que também considera fundamental, o diálogo construtivo entre as gerações. Segundo ele, um país só cresce quando suas diversas riquezas culturais, populares, econômicas, tecnológicas, e familiar, dialogam. Para ele, é preciso respeitar os direitos de cada um, e que uma sociedade mais justa deve vir do esforço de todos. Acompanhe o discurso na íntegra:

Discurso do Papa no Teatro Municipal

Excelências, senhoras e senhores!
Agradeço a Deus pela possibilidade, de me encontrar com tão respeitável representação dos responsáveis políticos e diplomáticos, culturais e religiosos, acadêmicos e empresariais, deste Brasil imenso. Saúdo cordialmente a todos, e lhes expresso o meu reconhecimento. Queria lhes falar usando a bela língua portuguesa de vocês, mas para poder me expressar melhor, manifestando o que trago no coração, eu prefiro falar em castelhano. Peço-vos a cortesia de me perdoar!

Agradeço as amáveis palavras de boas vindas, e de apresentação de Dom Orani, e do jovem Walmir Júnior. Nas senhoras e nos senhores, vejo a memória e a esperança: a memória do caminho e da consciência da sua pátria, e a esperança que esta, sempre aberta à luz que irradia do Evangelho de Jesus Cristo, possa continuar a desenvolver-se no pleno respeito dos princípios éticos fundados na dignidade transcendente da pessoa.

Todos aqueles que possuem um papel de responsabilidade, em uma nação, são chamados a enfrentar o futuro "com os olhos calmos de quem sabe ver a verdade", como dizia o pensador brasileiro, Alceu Amoroso Lima ["Nosso tempo": A vida sobrenatural e o mundo moderno (Rio de Janeiro 1956), 106]. Queria considerar três aspectos de esse olhar, calmo, sereno e sábio: primeiro, a originalidade de uma tradição cultural; segundo, a responsabilidade solidária para construir o futuro; e terceiro, o diálogo construtivo para encarar o presente.

É importante, antes de tudo, valorizar a originalidade dinâmica que caracteriza a cultura brasileira, com a sua extraordinária capacidade para integrar elementos diversos. O sentir comum de um povo, as bases do seu pensamento e da sua criatividade, os princípios fundamentais da sua vida, os critérios de juízo sobre as prioridades, e sobre as normas de ação, assentam numa visão integral da pessoa humana. Esta visão do homem e da vida, tal como a fez própria o povo brasileiro, muito recebeu da seiva do Evangelho, através da Igreja Católica: primeiramente a fé em Jesus Cristo, no amor de Deus, e a fraternidade com o próximo. Mas a riqueza desta seiva deve ser plenamente valorizada! Ela pode fecundar um processo cultural fiel à identidade brasileira, e ser o construtor de um futuro melhor para todos. Assim se expressou o amado Papa Bento XVI, no discurso de abertura da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Aparecida.

Fazer que a humanização integral, e a cultura do encontro, e do relacionamento cresçam, é o modo cristão de promover o bem comum, a felicidade de viver. E aqui convergem à fé e a razão, a dimensão religiosa com os diversos aspectos da cultura humana: arte, ciência, trabalho, literatura... O cristianismo une transcendência e encarnação; sempre revitaliza o pensamento e a vida, frente à desilusão, e o encanto que invadem os corações e saltam para a rua.

O segundo elemento que queria tocar é a responsabilidade  social. Esta exige certo tipo de paradigma cultural, e consequentemente, de política. Somos responsáveis pela formação de novas gerações, capacitadas na economia, e na política, e firme nos valores éticos. O futuro exige de nós, a tarefa de reabilitar a política, que é uma das formas mais altas da caridade. O futuro nos exige também, uma visão humanista da economia, e uma política que realize cada vez mais, e melhor, a participação das pessoas, evitando elitismos, e erradicando a pobreza. Que ninguém fique privado do necessário, e que a todos sejam assegurados de dignidade, fraternidade e solidariedade: esta é a via a seguir. 

Já no tempo do profeta Amós, era muito forte a advertência de Deus: "Eles vendem o justo por dinheiro, o indigente, por um par de sandálias; esmagam a cabeça dos fracos no pó da terra, e tornam a vida dos oprimidos impossível". Os gritos por justiça continuam ainda hoje. Quem detém uma função de guia, permita-me que o diga, a quem a vida ungiu como guia, deve ter objetivos muito concretos, e buscar os meios específicos para consegui-los. Pode haver, porém, o perigo da desilusão, da amargura, da indiferença, quando as aspirações não se cumprem. 

Apelo à dinâmica da esperança incentiva a ir sempre mais longe, a empregar todas as energias e capacidades a favor das pessoas, para quem se trabalha, aceitando os resultados, e criando condições para descobrir novos caminhos, dando-se, mesmo sem ver resultados, mas mantendo viva a esperança. A liderança sabe escolher a mais justa entre as opções, após tê-las considerado, partindo da própria responsabilidade, e do interesse pelo bem comum; esta é a forma para chegar ao centro dos males de uma sociedade, e vencê-los, com a ousadia de ações corajosas e livres. 
No exercício da nossa responsabilidade, sempre limitada, é importante abarcar o todo da realidade, observando, medindo, avaliando, para tomar decisões na hora presente, mas estendendo o olhar para o futuro, refletindo sobre as consequências de tais decisões. Quem atua responsavelmente, submete a própria ação aos direitos dos outros, e ao juízo de Deus. Este sentido ético aparece, nos nossos dias, como um desafio histórico sem precedentes. 
Temos que provocá-lo, temos que inseri-lo na sociedade. 

Além da racionalidade científica e técnica, na atual situação, impõe-se o vínculo moral, com uma responsabilidade social, e profundamente solidária.Para completar o "olhar" que me propus, além do humanismo integral, que respeite a cultura original, e da responsabilidade solidária, termino indicando o que tenho como fundamental, para enfrentar o presente: o diálogo construtivo. 

Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo. O diálogo entre as gerações, o diálogo com o povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade. Um país cresce, quando dialogam de modo construtivo as suas diversas riquezas culturais: cultura popular, cultura universitária, cultura juvenil, cultura artística e tecnológica, cultura econômica e cultura familiar e cultura da mídia. É impossível imaginar um futuro para a sociedade, sem uma vigorosa contribuição das energias morais, numa democracia que evita o risco de ficar fechada na pura lógica da representação dos interesses constituídos.

Considero também fundamental neste diálogo, a contribuição das grandes tradições religiosas, que desempenham um papel fecundo de fermento da vida social, e de animação da democracia. Favorável à pacífica convivência entre religiões diversas, é a laicidade do Estado que, sem assumir como própria, qualquer posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade, favorecendo as suas expressões concretas.

Quando os líderes dos diferentes setores me pedem um conselho, a minha resposta é sempre a mesma: diálogo, diálogo, diálogo. A única maneira para uma pessoa, uma família, uma sociedade crescer, a única maneira para fazer avançar a vida dos povos, é a cultura do encontro; uma cultura segundo a qual todos têm algo de bom para dar, e todos possam receber em troca, algo de bom. O outro tem sempre algo para nos dar, desde que saibamos nos aproximar dele, com uma atitude aberta e disponível, sem preconceitos. Essa atitude aberta e disponível, sem preconceitos, eu definiria como humildade social, que é o que favorece o diálogo. Só assim pode crescer o bom entendimento entre as culturas e as religiões, a estima de umas pelas outras,  livre de suposições gratuitas, e no respeito pelos direitos de cada uma. Hoje, ou se aposta na cultura do encontro, ou todos perdem, todos perdem. Por aqui, o caminho é fecundo.

Excelências, senhoras e senhores, eu agradeço-lhes pela atenção. Acolham estas palavras como expressão da minha solicitude de pastor da igreja, e do amor que nutro pelo povo brasileiro. A fraternidade entre os homens, e a colaboração para construir uma sociedade mais justa, não constituem uma utopia, mas são o resultado de um  esforço harmônico de todos, em favor do bem comum. Encorajo os senhores no seu compromisso pelo bem comum, que exijam da parte de todos, sabedoria, prudência e generosidade. Confio-lhes ao Pai do céu, pedindo-lhe, por intercessão de Nossa Senhora Aparecida, que cumule de seus dons, a cada um dos presentes, suas respectivas famílias, e comunidades humanas de trabalho. E de coração, a todos, eu concedo a minha bênção.

O Papa recebeu ainda, os representantes de comunidade indígena de Coroa Vermelha, onde foi celebrada, a 1ª missa no Brasil, em 1500, os índios oferecem um cocar ao Santo Padre, que o colocou em cima do solidéu. Esta é a 1ª vez que um papa, recebe uma tribo indígena, o primeiro foi João Paulo II. O Papa terminou a cerimônia e voltou ao Palácio do Sumaré, onde almoçou com representantes da CNBB e cardeais.

Enquanto isso, desde o término da caminhada, os peregrinos aguardavam nas areias de Copacabana, descansando, e participando de shows. Bispos participaram de um flash mob na praia, enquanto o Papa era aguardado para a abertura da vigília, onde é esperado, até o encerramento de do evento, um público entre 2,5 mil a 3 mil pessoas. 

Praticamente o triplo de pessoas que participam do Réveillon no mesmo local, marcando assim, um recorde de pessoas em eventos em Copacabana, e no Rio de Janeiro. A vigília foi aberta pelo Papa, e após a adoração, os shows começaram e seguiram até a meia-noite, mas muitos jovens já dormiam nas calçadas de Copacabana.

É tudo muito grandioso, muito lindo, e emocionante, mas é também, uma vergonha perante o mundo as diversas falhas e distúrbios, comprovam que o país não está preparado para grandes eventos. 


7º Dia
Chegou ao fim a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 2013, que foi realizada de 23 a 28 de Julho, no Rio de Janeiro. O evento, organizado a cada dois ou três anos, e que promove um encontro internacional de jovens católicos com o Papa, reuniu nesta edição no Brasil, mais de 3 milhões de pessoas. A JMJ 2013 marcou também, a primeira visita internacional do Papa Francisco I, desde a sua nomeação como líder máximo da Igreja Católica, em 13 de Março deste ano. A próxima edição do evento será realizada em 2016, na Cracóvia, Polônia.

A avaliação final, concluiu que o evento foi muito além do esperado. Houve problemas de infraestrutura, de logística, a cidade passando por um estresse, por conta das manifestações, mas foi o maior evento sediado no Rio, e a cidade passou no teste de sede para eventos desse porte, obviamente, todas as falhas, servirão como aprendizado para que a hospitalidade seja aprimorada. A orla de Copacabana, na tarde deste último domingo (28), estava linda!

O Papa deu uma "injeção de alto astral", e mostrou à juventude que é possível mudar. O carioca estava num clima de baixo astral com os protestos, mas a jornada levantou os ânimos, no sentido do valor de fraternidade e da solidariedade. A vigília dos jovens da JMJ foi realizada na praia de Copacabana, zona sul do Rio, e para acompanhar a vigília, e também não perder a missa na manhã de domingo na areia da praia, levou os peregrinos a montarem acampamentos nos calçadões da Avenida Atlântica, e nas ruas adjacentes. 

Por volta das 10h, o Papa celebrou a Missa de Envio (que é a última missa por ele celebrada antes de partir), para um público que certamente chegou, segundo as estimativas da prefeitura, a mais de 3 milhões de pessoas. 

Ao meio-dia, o Sumo Pontífice celebrou a oração do Ângelus, e no começo da tarde, o Papa voltou de helicóptero para almoçar na Residência Assunção, no Sumaré, onde esteve hospedado durante todos esses dias.  A homilia final do Papa Francisco, na missa de envio da JMJ, deixou um pouco de lado o cunho social, e se voltou ao aspecto religioso do lema do evento: "Ide e fazei discípulos entre todas as nações".

O Pontífice pediu aos jovens, que não tenham medo da missão que Jesus ordena a cada um deles. "É uma ordem, sim, mas que não nasce da vontade de domínio, ou de poder, mas nasce da força do amor", afirmou Francisco I, pedindo atenção especial para os jovens do Brasil, e da América Latina.

Mesmo com foco na religião, o Papa Francisco não deixou de inserir o contexto social em suas palavras, pedindo aos jovens que levem Cristo a todos os ambientes. "Até as periferias existenciais, incluindo a quem parece mais distante, mais indiferente", disse, pedindo que a união demonstrada por eles durante a JMJ, não se perca a partir de amanhã. "Jesus não chamou os Apóstolos para viverem isolados, chamou-lhes, para que eles formassem um grupo, uma comunidade", afirmou o Papa, advertindo os sacerdotes que não deixem de estar lado a lado, com a juventude.

Ele desafiou os jovens a partilhar a experiência vivida no Rio durante esses dias da JMJ na volta para casa, dizendo que a missão não tem fronteiras e nem limites. "A experiência desse encontro não pode ficar trancafiada na vida de vocês, ou no pequeno grupo da paróquia, do movimento e da comunidade de vocês. Seria como cortar o oxigênio, a uma chama que arde", afirmou ele, lembrando como exemplo de missão, o Beato José de Anchieta, e citando o profeta Jeremias, que disse que não é preciso temer o desafio. "Alguém poderia pensar que não está preparado. Mas Deus responde: ‘não tenham medo, pois estou contigo para te defender’."

No fim, o Papa abriu as portas da Igreja para o serviço ao próximo, para uma nova Igreja. "Evangelizar significa testemunhar pessoalmente o amor de Deus, significa superar os nossos egoísmos, significa servir, inclinando-se para lavar os pés dos nossos irmãos, tal como fez Jesus", disse o Papa, deixando claro, o novo estilo que ele quer da Igreja Católica. "Para construir um mundo novo, é preciso levar a força de Deus para devastar e derrubar as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio; e também, para extirpar e destruir o ódio e a violência", afirmou. 

Na sequencia, o pontífice anunciou a escolha da sede da próxima JMJ: "Queridos jovens, temos um encontro marcado na próxima Jornada Mundial da Juventude, em 2016, em Cracóvia, na Polônia. Pela intercessão materna de Maria, peçamos a luz do Espírito Santo sobre o caminho que nos levará a essa nova etapa, da jubilosa celebração da fé e do amor de Cristo”, disse o Papa. 

A escolha do município polonês tem uma influência direta, no processo da iminente canonização do finado Ex Papa João Paulo II, que foi durante anos Arcebispo, antes de se tornar um dos líderes mais carismáticos da história da Igreja Católica. “Polônia, Polônia”, gritaram os peregrinos, que se espremeram na areia da praia mais famosa do Brasil. 

Cracóvia é uma cidade próxima à Wadowice, cidade natal do Ex Papa João Paulo II, e a JMJ de 2016, será a segunda edição do evento, a ser realizada na Polônia. A primeira foi em 1991, em Czestochowa. O Ex Papa polonês, João Paulo II, que deve ser canonizado, foi o criador da Jornada Mundial da Juventude, cuja primeira edição foi realizada em Roma, em 1986. 

A Presidente do Brasil, Dilma Russef, convidou os presidentes dos países da América Latina, para a missa de hoje, e estavam presentes: A Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, e o Presidente da Bolívia, Evo Morales. Após a Missa do Envio, o Papa se dirigiu à Residência Assunção, no Sumaré, onde almoçou com as autoridades da Igreja.

O pontífice fez um discurso dirigido ao Comitê de Coordenação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), formado por 45 bispos da América Latina, realizado logo após o encerramento da 28ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ). 

O Papa se referiu à Missão Continental, o documento surgido da 5ª Reunião do CELAM, em Aparecida, em 2007, onde foram traçadas as linhas a serem seguidas pela Igreja Latino-Americana, no século 21. Referindo-se aos bispos, o Papa declarou que, são eles que devem conduzir a pastoral; homens que, segundo o líder religioso, devem ser pastores próximos das pessoas. 

"Homens que devem amar a pobreza, seja a pobreza interior, como liberdade perante o Senhor, seja a pobreza exterior, como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham 'psicologia de príncipes'. Homens que não sejam ambiciosos, homens capazes de velar sobre o rebanho confiado, e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido, vigiar seu povo com atenção, para os eventuais perigos que o ameacem, sobretudo para garantir a esperança, que haja sol e luz nos corações", conclamou. 

"O lugar do bispo, para estar com seu povo, é triplo: à frente, para indicar o caminho; no meio, para mantê-lo unido, e neutralizar os debandes; e atrás, para evitar que algum fique atrasado, mas também, e fundamentalmente, porque o rebanho também tem olfato próprio, para encontrar novos caminhos", completou.

O Papa disse ainda, que o pastor tem que estar com cheiro de ovelha, que é importante descer do pedestal, e estar próximo do povo. Francisco I explicou que não queria exagerar em detalhes, sobre a pessoa do bispo, mas acrescentar, incluindo-se na afirmação, que a Igreja e a sociedade como um todo, estão atrasadas, no que a Conversão Pastoral se refere. 

Em um longo discurso, o Papa analisou o documento de Aparecida, e assinalou que a Igreja é instituição, mas quando se posiciona como centro, acaba se transformando em uma ONG, sendo autorreferencial, e se fragilizando na necessidade de ser missionária. O bispo de Roma se referiu também à intervenção do clero, nos negócios públicos e privados, chamada de clericalismo, o que de acordo com ele, é também uma tentação muito atual na América Latina. 

"Curiosamente, na maioria dos casos, trata-se de uma cumplicidade pecadora: O padre clericaliza e o laico lhe pedem, por favor, que se clericalize; porque no fundo, é mais cômodo. O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade e de liberdade cristã, em boa parte do continente laico latino- americano", denunciou.

O pontífice afirmou também, que existe na América Latina, uma forma de liberdade laica que se expressa fundamentalmente na piedade popular, e acrescentou que a proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de base, e dos conselhos pastorais, segue a linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laica. 

Francisco destacou que Aparecida propôs a renovação interna da Igreja, e disse que é necessário, com frequência, que os bispos reflitam se o trabalho que fazem é mais pastoral que administrativo, se promovem espaços e ocasiões para manifestar a misericórdia de Deus, se participam da missão aos fiéis laicos, e se são apoiados, "superando qualquer tentação de manipulação, ou submissão indevida".

Francisco também citou algumas tentações contra a missão, entre elas o "reducionismo sociabilizante, que abrange os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado, até o marxismo; a ideologização psicológica, que reduz o encontro com Jesus Cristo a um conhecimento, ignorando a transcendência da missão, e a proposta agnóstica que se dá em grupos de elitistas; e os denominados católicos ilustrados, por serem herdeiros do Iluminismo". Após a reunião, o Papa dirigiu-se ao Riocentro, para agradecer aos voluntários da JMJ. 

No início da tarde, uma fila enorme de voluntários dava a volta no Riocentro, mas a demora na inspeção com detector de metais, deixou vários voluntários de fora no momento da chegada do Papa. Para que eles não ficassem ausentes na cerimônia, liberaram os portões de uma vez só, e muitos chegaram ao mesmo tempo, de forma desordenada e sem passar pela segurança. 

No seu discurso de agradecimento aos voluntários da JMJ, o Papa criticou a "cultura do provisório", e incentivou os jovens a seguirem "contra a corrente", em favor de escolhas definitivas. O Pontífice deu como exemplo o matrimônio, e foi amplamente aplaudido.

"Peço que vocês sejam revolucionários, que vão contra a corrente. Sim, nisto peço que se rebelem, se rebelem contra esta cultura do provisório, que no fundo, crê que vocês não sejam capazes de assumir responsabilidades, que não sejam capazes de amar de verdade. Tenho confiança em vocês jovens, e rezo por vocês. Tenham a coragem de ir contra a corrente", acrescentou o pontífice.

O Papa criticou ainda o que chamou de "curtir o momento", e defendeu a preservação do matrimônio, rito fundamental na religião católica. "Há quem diga que hoje o casamento está fora de moda. Na cultura do provisório, do relativo, muitos pregam que o importante é curtir o momento, que não vale a pena comprometer-se por toda a vida, fazer escolhas definitivas, para sempre; uma vez que não se sabe o que reserva o amanhã", concluiu o Papa. 

A mensagem foi realizada após o pontífice fazer um agradecimento específico, aos quase 60 voluntários que trabalharam na JMJ, numa das suas últimas atividades no país. "Com os sorrisos de cada um de vocês, com a gentileza, com a disponibilidade ao serviço, vocês provaram que há maior alegria em dar do que em receber", afirmou o Papa.

Depois de uma semana intensa de atividades na Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco I deixou o Brasil na noite deste domingo. O avião que levou o pontífice de volta a Roma, decolou às 19h35 da Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. 

O tempo estimado de viagem é de dez horas. Antes de deixar o país, o Santo Padre participou de cerimônia de despedida no Galeão, e disse que partiria com a "alma cheia de recordações", e que já estava sentindo saudades do Brasil.

"Parto com a alma cheia de recordações. Neste momento, já começo a sentir saudades. Saudades do Brasil, desse povo tão grande, e de grande coração. Do sorriso aberto e sincero, que vi em cada pessoa. Do entusiasmo dos voluntários, da fé, da alegria e simplicidade dos moradores da favela da Varginha. Cristo vive e está presente, em tantas e tantas pessoas, que encontrei essa semana", afirmou o Papa, demonstrando desejo de voltar logo ao Brasil. "Ao deixar o Brasil, esse Papa diz até breve, com saudades. Por favor, não se esqueçam de rezar por ele, este Papa, precisa das orações, de todos vocês", emendou.

O Papa avaliou que a Jornada Mundial da Juventude foi uma experiência muito bem sucedida da fé, na qual jovens de todo o mundo, buscaram Jesus Cristo, ao longo dos últimos dias. Ele fez menção especial à visita à Basílica de Aparecida, no interior de São Paulo. 

Segundo Francisco I, ele, em prece a Nossa Senhora da Aparecida, pediu pela humanidade, em especial pelos brasileiros. "Continuarei a nutrir grande esperança nos jovens do Brasil e do mundo. Através deles, Cristo prepara uma nova primavera no mundo", pontuou o Papa.

A cerimônia teve a presença de autoridades, como o Governador do Rio, Sérgio Cabral, o Prefeito  Eduardo Paes, e ministros de estado. O Vice-Presidente, Michel Temer, representou a Presidente, Dilma Rousseff. Em discurso rápido, Temer exaltou o carisma e a simplicidade do Chefe da Igreja Católica, avaliando que Francisco I encantou a todos, voltando a despertar a fé, em muitos brasileiros.

“Sua Santidade é um verdadeiro evangelizador. Assim como Jesus Cristo, divulgou a religião, refez a ligação de nosso povo com a fé, a espiritualidade, e Deus. É um exemplo de moderação, equilíbrio e tolerância, que nos revela que a paz entre todos, é que pode evidenciar a presença de Deus”, declarou Temer. 

O Vice-Presidente ressaltou também, que o Papa não precisará bater nas portas e pedir licença para entrar, quando voltar ao Brasil. Segundo ele, todas foram permanentemente abertas pela presença da força do pontífice. "Na próxima vez que vier ao Brasil, simplesmente entre sem pedir licença, porque Sua Santidade está no coração de todos os brasileiros. Em nome dos brasileiros, quero cantar louvores a Sua Santidade, que trouxe santificada e esperançosa alegria a todos os brasileiros. Termino dizendo boa viagem, e volte logo", acrescentou Temer.

Até breve Papa Francisco!! Sua Santidade entrou em nossos corações, e acredito que seu exemplo tenha repercutido não só no Brasil, mas no mundo todo. Vá com Deus, estaremos rezando por você!!




Silvia Tohmé
Gazeta de Beirute
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