RADUAN NASSAR


Raduan Nassar nasceu em Pindorama, SP, em 1935. Romancista e contista, Raduan é o sétimo filho do casal de libaneses, João Nassar e Chafika Cassis. Iniciou os estudos na cidade natal, em 1943, e no ano seguinte, passou a frequentar, assiduamente, a Igreja, tornando-se coroinha, em 1946. 

Cursou o ginásio no Colégio Estadual de Catanduva, a partir de 1947, o que levou a família a mudar-se para essa cidade, após dois anos. Embora tenha iniciado o Curso Científico, optou por formar-se no Clássico, o que ocorreu em 1953, no Instituto de Educação Fernão Dias Pais, já na capital paulista, onde os Nassar’s passaram então, a morar. 

Ingressou, em 1955, na Faculdade de Direito, do Largo São Francisco, e no Curso de Letras, ambos na Universidade de São Paulo (USP). Sua formação, entretanto, é em Filosofia, curso iniciado em 1957, na mesma universidade. Em 1961, viajou para o Canadá e Estados Unidos, afastando-se temporariamente dos estudos e dos negócios da família - o Bazar 13, um armarinho tradicional na zona oeste da capital paulista. Data dessa época, o conto “Menina a Caminho”. 

De volta ao Brasil, retomou o curso de Filosofia e o concluiu em 1963. Viajou para a Alemanha Ocidental, com o objetivo de aprender o idioma local, mas retornou ao Brasil, após tomar conhecimento do golpe militar. Antes, porém, visitou no Líbano, a aldeia onde viveram seus pais. 

Em 1967, fundou com os irmãos, o “Jornal do Bairro”. No ano seguinte, iniciou a leitura do Alcorão e esboçou um romance, finalizado após seis anos e publicado em 1975, com o título “Lavoura Arcaica”, seu primeiro livro. 

Em 1970, ele escreveu a primeira versão de “Um Copo de Cólera”, e os contos: “O Ventre Seco” e “Hoje de Madrugada”; publicados pela primeira vez, em 1997. Lançou a novela “Um Copo de Cólera”, em 1978, e comprou uma fazenda em Buri, São Paulo, dedicando-se à produção rural. Nos anos seguintes, lançou apenas um texto inédito, o conto “Mãozinhas de Seda”, escrito em 1996, e editado na coletânea “Menina a Caminho”, de 1997.

Criador de um universo literário que retrata o peso da tradição cristã, do patriarcado, do trabalho e das interdições sobre o indivíduo, Raduan Nassar é autor de uma obra engajada, em sentido amplo. Interessa a essa produção, não apenas retratar as circunstâncias imediatas do contexto histórico - desejo recorrente na literatura do período, com o objetivo de promover a consciência política contra o autoritarismo -, mas investigar como aspectos sociais, determinam a constituição das relações afetivas. 

As estruturas circulares são frequentes na obra de Raduan Nassar, estando presentes também em seus contos. Em todos os casos, as relações pessoais reproduzem as imposições inexoráveis da sociedade. 
O protagonista do conto “Mãozinhas de Seda” segue o caminho indicado pelo avô - "às favas o que a gente pensa" - e sente falta de si mesmo. 

A intensidade dos conflitos na obra de Nassar é tal, que até mesmo a palavra, na qual o indivíduo investe sua força, não passa de escape. Nem André, que julga o silêncio "escandaloso", e defende que "a vida se organiza desmentindo", rompe com o discurso do pai: “Lavoura Arcaica”, após todo o percurso do filho em busca da libertação familiar, encerra-se com a transcrição de um relato ancestral.



Raduan surpreendeu seus leitores numa entrevista, em 1984, à Folha de São Paulo. Sem dar muita explicação, disse que pouco tinha “a ver ainda com a literatura”. “Estou dando agora uma virada radical na minha vida”, resumiu. 

A obra completa de Raduan Nassar até aquele momento, os romances “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera”, publicados em 1975 e 1978, ocupava pouco mais de 280 páginas impressas – suficientes, contudo, para lançar seu autor a um patamar, que muito poucos alcançaram na literatura brasileira da segunda metade do século XX.

Quando anunciou o fim de sua carreira literária, Raduan já possuía um pequeno sítio no sul do estado de São Paulo. No ano seguinte, compraria a Fazenda Lagoa do Sino, localizada no município de Buri, a cerca de 250 quilômetros da capital paulista. Foi nessa região, relativamente pobre do estado, que Raduan se enfurnou e se dedicou com afinco a uma atividade de fins comerciais, a partir de 1985. Criou gado e plantou arroz. Investiu em maquinário e na irrigação do solo. 

Nos primeiros anos, a propriedade lhe rendeu frequentes prejuízos. O cultivo da soja e do milho fez a fazenda, finalmente, deslanchar na década passada, quando passou a dar bons lucros. Foi só então, que o escritor tomou nova decisão, em tudo semelhante à que provocara perplexidade décadas antes: estava na hora de parar. 

Poderia ter arrendado, ou vendido suas terras, o que lhe garantiria uma renda mensal mais do que confortável. Não tem filhos, mas nada o impedia de deixá-la para os irmãos, e seus respectivos herdeiros. 
Raduan, no entanto, deu outro destino a seus quase trinta anos de trabalho. 

Numa tarde azul e fria, em agosto de 2011, o escritor recebeu na casa térrea que serve de sede para a propriedade, uma comitiva da Universidade Federal de São Carlos. Concluiu, numa breve reunião, a última etapa do processo de doação do imóvel, das benfeitorias ali realizadas, e de quase todo o seu maquinário. A instituição de ensino superior se comprometia, segundo os termos do documento assinado pelo doador, e pelo reitor, Targino de Araújo Filho, a instalar na fazenda um campus universitário.

A UFSCar já começou a reformar a Lagoa do Sino. Pretende iniciar as atividades pedagógicas do novo campus ainda em 2013 – a princípio, com um curso de agronomia. Mas estuda-se a abertura de outras áreas de graduação, como engenharia florestal, economia, ciências sociais e pedagogia. Como parte do acordo, a fazenda continuará a produzir. 

Na escritura de doação, a Lagoa do Sino tem seu valor estimado em 11 milhões de reais. Alguns anos antes da transferência, um fazendeiro chegou a oferecer 18 milhões pela propriedade. Se somarmos o maquinário também transferido ao Governo Federal, a oferta de “porteira fechada” de Raduan, vale um montante superior a 20 milhões de reais.

Mas a doação da fazenda à universidade é apenas uma parte – a etapa final – da nova “virada radical” do escritor. A primeira providência foi tomada ainda em 2004, quando Raduan loteou um vasto terreno que possuía, em Campina do Monte Alegre. A área de propriedade do escritor foi repartida em 321 lotes de 300 metros quadrados cada. 

Quase metade dos terrenos foi doada, em 2007, a uma associação particular, encarregada de vendê-los, a preços subsidiados, aos trabalhadores da região. Outra parte dos lotes originais, dezenas deles, foi oferecida gratuitamente por Raduan, a funcionários e ex-funcionários da Lagoa do Sino.

Numa entrevista para a Revista Veja, no final dos anos 90, Raduan aludiu à trajetória incomum que o transformava em objeto de permanente curiosidade. 

Abandonei o Curso Científico e pulei para o Clássico, abandonei o Curso de Letras na universidade, o Curso de Direito, no último ano, e a empresa familiar, assim que meu pai faleceu. Abandonei ainda, uma criação de coelhos, o Jornalismo e outras coisas mais. Tudo somado, eu só levei a pecha de inconstante. Por que só quando abandonei a Literatura, eu me transformei em um personagem fascinante?



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O Livro Lavoura Arcaica, inspirou o filme com o mesmo título, que você pode assistir aqui:




Jeane Satie Abou Nimry
Gazeta de Beirute

Fontes: Enciclopédia Cultural Itaú
  PIAUÍ jul_70
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