Sustentabilidade no Líbano

Fico me perguntando como o Líbano, com serviços tão limitados de infraestruturas básicas (água – fornecimento e tratamento, energia elétrica, transporte público, coleta e tratamento de lixo), pode-se imaginar sem uma conscientização da população, para uma atitude mais sustentável? A começar por um consumo mais consciente.

Há um grande desperdício de água potável, um recurso tão escasso em todo o mundo. Vejo donas de casa e/ou suas empregadas, lavando suas casas, quintais, escadas, e esguichando com mangueiras a gosto, e depois enlouquecidas, “perguntando” às caixas d’água vazias, por que faltou água para o banho (que muitas vezes é demorado), para lavar a louça, a roupa, a descarga...

Os sistemas de irrigação são ultrapassados, há ausência ou falha, no controle do tratamento de esgotos industriais e domésticos, e perfuração de poços sem o devido acompanhamento técnico e profissional, o que também só aumenta o problema.

Energia elétrica (no caso aqui se inclui o diesel): Dependência total. A/C e ventiladores no verão, aquecedores de água e ambientes no inverno, e em alguns casos, bombas d’água, somos grandes emissores de CO², e apesar do país ser pouco populoso, o ar e a água são poluídos em muitas regiões. Os investimentos em produção de energia, com o uso de fontes renováveis (vento, sol, mecânico das águas), é extremamente tímido.

Faltam áreas verdes, praças e parques, que são ambientes sociais e cívicos, onde podemos praticar e exercer cidadania. Faltam espaços para a prática de esportes e atividades físicas, sociais e culturais. Isso se reflete na qualidade de vida, e na nossa saúde! Árvores ajudam a amenizar efeitos de micro climas, absorvendo parte da radiação solar, sombreando edifícios e calçadas (caso houver as últimas).

É fácil observar quando nos deparamos com esses “oásis”, há poucas cidades (ou bairros, no caso da capital) arborizadas, com equipamentos urbanos voltados ao esporte ou lazer, não sendo a toa que são os lugares mais visitados, e também não por coincidência, os mais prósperos e valorizados.

As construções, e os modos construtivos, são extremamente agressivos ao meio ambiente, por não serem devidamente planejados e executados. Na maioria dessas construções, não se consideram a posição do sol, ventilação e iluminação naturais, que em si já ajudariam na economia de energia, sem falar nos materiais empregados e seu desperdício, e o avanço em vias públicas, e ocupação indevida das margens dos rios.

Na maioria das regiões, não há coleta seletiva do lixo, há catadores que retiram das caçambas o material reciclável... A população mistura o lixo orgânico e o seco (já facilitaria o trabalho caso fossem separados), quando o ideal seria por categorias: plásticos, papéis, metais, vidros e orgânicos.

No Bekaa, o vale de principais produtores rurais do país, há lixões a céu aberto, e rios poluídos, fora o uso indiscriminado de agrotóxicos e hormônios de todos os tipos, em produtos de origem animal e vegetal, contaminando os rios, o solo, e afetando nossa saúde.

Os transportes públicos são um capítulo à parte...
Imagino que a maior causa de mortes até hoje neste país, sejam os acidentes automobilísticos, mais do que os conflitos sectários, inclusive. Condutores extremamente mal educados, que ultrapassam os limites da razão, corrupção no sistema de fiscalização veicular, o que acarreta muitas vezes na circulação de veículos impróprios, ou com falhas de manutenções. Somam-se ainda, as vias mal sinalizadas, e mal fiscalizadas, e a escassez de oferta e profissionalismo nos serviços, bem como, investimentos em alternativas para o transporte.

 Esse é o fruto que se colhe em uma sociedade individualista, onde o bem estar coletivo parece inexistir. A sustentabilidade vai muito além de usar, com sabedoria, as fontes esgotáveis de recursos naturais, o simples ato de se fechar a torneira, enquanto escovam-se os dentes, é reflexo de um pensamento inserido no conceito de solidariedade, respeito, consciência e humildade... 

Somos parte de um sistema, cuja lei de ação e reação é um fato, deixemos de gerar apenas problemas e passemos a propagar soluções. Ao se abrir uma torneira aciona-se um sistema: “De onde a água vem? Como é feito o seu tratamento e distribuição? E depois, para onde ela vai?”.

O mesmo acontece com o lixo. Será que precisamos mesmo CONSUMIR tanto, e indiscriminadamente?
E o desperdício de alimentos? Há muito a se discutir.

Com o intuito de despertar o interesse no tema, essa coluna se compromete a partir desta edição, a propor ideias, dar dicas, e provocar discussões, para tentarmos uma prática mais sustentável e saudável.
Que tal colaborarmos para um mundo melhor?





Jeane Satie Abou Nimry
Gazeta de Beirute
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About beirut lebanon

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1 comments:

  1. Adorei seu artigo! Sempre me preocupei com este fato no Líbano! É um problema extremamente sério e não só o governo mas a própria população não se preocupa com o dia de amanhã! Já permitiram que o país chegasse onde chegou!

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