A Maldição Da Família Dib


Certamente, você já deve ter ouvido falar da família Dib (ou o clã Dib), uma família pobre da favela Mankubeen, nos arredores de Trípoli. Criada em 1955, para acolher as famílias de Trípoli durante uma enchente, a região de Mankubeen acabou se tornando uma favela, e o lar de famílias muito pobres, nos dias de hoje a região é frequentemente arrastada para os confrontos sectários entre os sunitas de Bab El Tebbaneh, e os alawitas de Jabal Mohsen.

A família Dib carrega uma maldição, que se disseminou como um vírus letal sobre sua árvore genealógica, alcançando inclusive, netos e sobrinhos do patriarca. Mohammed Al-Hajj Dib (também conhecido como Abu Abdel-Nasser) e sua esposa tiveram 10 filhos do sexo masculino, e todos eles ficaram mundialmente famosos... No mundo do terrorismo!

A humilde casa de Al-Hajj Dib, o pai infeliz que vive com o que restou de sua condenada família, é cercada de bandeiras pretas, e slogans referentes ao califado islâmico. A tragédia e a desgraça não se satisfizeram com um, ou dois, membros da família, mas arrebatou todos os filhos, dois netos e um sobrinho de Al-Hajj Dib. Todos são célebres mártires, homens-bomba, terroristas, e prisioneiros em cadeias do Líbano e do exterior.

Al-Hajj Dib diz: "Nós nunca fomos contra o Estado, mas contra suas agências, que sempre foram contra nós. O governo nunca se importou com as pessoas daqui, e a mídia plantou esse estigma de terrorista sobre nossa família. O que eles veem como terrorismo, poderia ser chamado de jihad por outros. A maioria de nós, não é de radicais extremistas". 

Sua raiva contra as intermináveis injustiças sofridas por sua família é nítida, e ele nega que seus filhos sejam terroristas, diz ainda que as investigações contra eles foram conduzidas por um canalha, ou foi obra da má sorte mesmo. 

Com a mão sobre o Alcorão, ele afirma: “Eu juro que eu estou dizendo a verdade, e nada mais que a verdade”. A mãe complementa, dizendo que eles foram orientados a procurar empregos comuns, mas sempre foram discriminados e rejeitados em todos, e que isso não era culpa deles.

Al-Hajj Dib disse ainda: 
“Os jovens do Fatah al-Islam, que Saddam reuniu, foram alguns dos mais puros jovens sob os céus do Líbano, que foram abatidos como ovelhas inocentes. Eles nunca fizeram mal a ninguém. As forças de segurança que os puxaram em seu jogo sujo. O Movimento Futuro trouxe o Fatah al-Islam para lutar contra os xiitas, mas eles se recusaram a voltar suas armas contra eles, seus alvos eram os norte-americanos e os israelenses. Então, eles foram liquidados". 

Ele diz que enterrou o filho Saddam com suas próprias mãos. “Seu corpo foi carbonizado depois que ele foi queimado com outros 18 em Meatein Street, e alguns deles não tinham nada a ver com a situação."
 Com uma foto de si mesmo, junto aos 10 filhos, Mohammed al-Hajj Dib conta a história de cada um deles:

1º Filho: Abdel-Nasser Al-Hajj Dib - Era um soldado libanês, até ser morto em 2006, durante a guerra com Israel, que executou um ataque aéreo e explodiu o quartel do exército libanês no acampamento militar de Al-Abdah, em Trípoli.

2º Filho: Ahmad Al-Hajj Dib - Está preso em Roumieh há 6 anos, ele foi condenado à 12 anos por pertencer a uma organização takfiri, e planejar diversos atentados terroristas. Ele planejou o ataque com botijões de gás nas estações de trem na Alemanha, em 2006, e insistiu na participação do irmão Youssef. Ambos foram descobertos pelas câmeras de segurança. Youssef pegou prisão perpétua na Alemanha, e Ahmad foi deportado e preso no Líbano. 

3º Filho: Khaled Al-Hajj Dib - Segundo o patriarca, ele vive numa cadeira de rodas desde 1986, devido a uma lesão sofrida na espinha dorsal, quando ele costumava fazer levantamento de peso. Ele foi levado para a Suécia por uma mulher sueca que se apaixonou por ele. No entanto, ele foi acusado por envolvimento no atentado às estações de trem da Alemanha, e depois absolvido.

4º Filho: Ali Al-Hajj Dib - Foi preso na Meatein Street, em Trípoli, e depois morto com 30 tiros. O pai diz que seu grande crime era ser irmão de Saddam, no entanto, fontes de segurança afirmaram que ele estava lutando com o Fatah Al-Islam.

5º Filho: Omar Al-Hajj Dib - Se formou em Direito, mas não se tornou advogado, porque "isso se baseia em mentira e injustiça. O dinheiro que ele fosse conseguir através disso é pecado” disse o patriarca.  Omar tentou ser voluntário na Segurança Geral, e também nas Forças de Segurança Interna, mas foi rejeitado. Então ele foi para a Suécia.

6º Filho: Othman Al-Hajj Dib - Foi preso recentemente no aeroporto de Beirute, vindo da Suécia, tentando contrabandear óculos militares de visão noturna para o país. Ele também tentou, três vezes, ser voluntário nas forças de segurança, e recebeu inclusive apoio do General Ashraf Rifi, mas não o aceitaram.

7º Filho: Ibrahim Al-Hajj Dib - Também estudou Direito e emigrou para a Suécia. 

8º Filho: Saddam Al-Hajj Dib - Completou seu mestrado em literatura árabe e Sharia islâmica, e também tentou ingressar na Escola Superior de Guerra, mas foi rejeitado por razões desconhecidas. Ele se tornou um notório militante da Fatah Al-Islam, e tinha laços estreitos de amizade com Ayman al-Zawahri, o atual líder da Al-Qaeda, e segundo Ex-Comandante de Osama Bin Laden. Ele esteve na Mujahideen do Iraque, e quando tentou se deslocar da Mujahideen na Tunísia para o Líbano, foi preso na Síria; onde passou por várias prisões sírias, sendo transferido de um prédio de segurança para outro durante investigações. Porém, ele foi morto em Trípoli, em 2007, quando ele, supostamente se explodiu, perto das forças de segurança, durante os combates da Meatein Street, o que provocou a guerra no campo de refugiados palestinos de Nahr Al-Bared. Ele também foi suspeito de envolvimento no atentado da Alemanha.

9º Filho: Youssef Al-Hajj Dib - Foi acusado de terrorismo por tentar explodir as estações de trem de Dortmund e Koblenz na Alemanha em 2006, foi condenado à prisão perpétua, em 2008. Enquanto ainda vivia no Líbano, ele tentou ser voluntário da Escola Superior de Guerra, mas foi rejeitado, só porque ele era da cidade de Fnideq, porque segundo lhe disseram lá, ele era fanático pelo islã e por religião, explicou o pai. Ele decidiu então ir para a Alemanha, para estudar Engenharia, e o pai relembra que teve que pedir dinheiro emprestado para enviar o filho ao exterior. Porém, ele foi conduzido ao mal caminho por um parente chamado Khair Al-Din al-Hajj Dib. Ahmad foi para lá procurá-lo, e acabou convencendo Youssef a dar um susto nos alemães, com o atentado, por eles apoiarem Israel e ofenderem o Profeta Mohammad.

10º Filho: Hamza Al-Hajj Dib - Estudou História e Geografia, mas não consegue encontrar emprego. 

A nova geração no legado da maldição


O estigma do clã Dib continua, na guerra da Síria:
Motasem e Hassan (ou “Abu Moaz” e “Abu Othman” – seus nomes de guerra), os irmãos que morreram semana passada na Síria, eram membros do grupo filiado ao Al-Qaeda, “Jund Al-Sham” (não é o mesmo grupo nascido no campo de refugiados palestinos de Trípoli).  

Motasem, 18 anos, se explodiu no ataque contra o posto de controle do exército, perto de Qalaat Al-Hosn, em Homs.  Hassan, 20 anos, foi morto em outro ataque, horas depois, pelos rebeldes. Ambos, eram netos de Mohammed Al-Hajj Dib.


Abdel Hakim Ibrahim, outro neto de Al-Hajj Dib, também morreu no conflito sírio, junto Malek Ziad Al-Hajj Dib, um sobrinho de Al-Hajj Dib, em novembro do ano passado. Ambos foram mortos quando caíram na emboscada do exército em Tal Kalakh, quando tentavam entrar no país, para lutar ao lado da oposição.

Al-Hajj Dib disse que eles eram enfermeiros, e estavam chateados com o que estava acontecendo na Síria, e decidiram se juntar a jihad lá, mas um colaborador do regime sírio foi informado sobre a passagem do grupo, armaram a emboscada, e eles foram chacinados.

E antes disso, outro sobrinho de Al-Hajj Dib, um estudante da Escola Superior de Guerra do Líbano, foi preso por se comunicar com uma rede jihadista, e por suspeita de envolvimento e planejamento em explodir vários quartéis do exército. O patriarca do clã Dib, no entanto, diz que o rapaz está memorizando o Alcorão e que nunca faria mal a ninguém.


Claudinha Rahme
Gazeta de Beirute

Texto traduzido e editado a partir do original no Al Akhbar.
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