Azia e má digestão


Má digestão, ou dispepsia, é o nome que se dá a diversos distúrbios gástricos, que incluem dor no estômago, azia, flatulência, arrotos, e sensação de inchaço. O desconforto na região abdominal, geralmente, é acompanhado de náusea e mal estar, podendo provocar vômitos.

A indigestão pode ser causada por uma doença no trato digestivo, como úlcera ou refluxo gastroesofágico, mas, em geral, para a maioria das pessoas, é o resultado de comer demais, muito rápido, ingerir alimentos gordurosos, ou alimentar-se durante situações estressantes. Fumar, beber muito álcool, usar medicamentos que irritam o estômago, ou estar muito cansado, podem causar má digestão, ou piorá-la.

Em relação à flatulência, é importante ter em mente que, é normal o organismo produzir gases, no entanto, às vezes pode haver períodos em que sentimos uma maior produção de gases, e isso pode provocar desconforto e situações embaraçosas, podendo afetar a vida social. Em geral, isso pode ocorrer por comer rápido demais, não mastigar direito os alimentos, e/ou comer determinados alimentos, que produzem mais gases. O cheiro ruim, que os gases podem adquirir, se deve a ação de bactérias presentes no cólon. Essas bactérias intestinais produzem gases, a partir de alimentos não digeridos.

Centenas de diferentes bactérias vivem no intestino grosso, a maioria delas, não provoca nenhum mal. De fato, elas até são benéficas para a digestão. No entanto, as bactérias contam com carboidratos e açúcar para se alimentarem. No processo de quebra desses nutrientes, elas geram gases como hidrogênio, dióxido de carbono e metano. Em condições normais, os gases são reabsorvidos, e não causam flatulência, mas determinados alimentos, ou uma maior quantidade de alguns alimentos, pode provocar flatulência excessiva.

O processo digestivo em nossos estômagos é feito com auxílio de um ácido, mais precisamente o ácido clorídrico (HCL), que é um ácido forte. Obviamente, sua concentração no organismo, é mantida em níveis que não acabam nos dissolvendo, mas que apenas auxiliam, no "ataque" aos alimentos. Acontece, vez por outra, de ficarmos com excesso de ácido, e nos sentirmos mal, esta é a conhecida azia.

Normalmente, a má digestão, se manifesta após uma refeição farta. Essa sensação, conhecida como azia, refluxo gastroesofágico, ou refluxo, é um sintoma consequente ao retorno dos ácidos estomacais para o esôfago, tubo que conecta a boca à cavidade abdominal. Para alcançar o estômago, os alimentos seguem por ele em direção a um específico músculo circular: o esfíncter esofágico inferior (EEI), cuja função, é manter a entrada do estômago fechada.

Quando esse músculo perde sua elasticidade, ou permanece aberto, o refluxo acontece; e os resultados são dor e queimação, o que se agrava à noite, principalmente na posição deitada. Às vezes, essa sensação é tão intensa, que pode ser confundida com um ataque cardíaco. Nos casos crônicos, os sintomas podem ser exacerbados, com crise asmática, tosse, rouquidão, e até desgaste do esmalte dentário.

Problemas mecânicos: Esse músculo possui má posição anatômica, que alterada por flacidez ou enfraquecimento, apresenta um defeito mecânico, que possibilita o avanço anormal do estômago, conhecido como hérnia de hiato. Hábitos de vida, como comer depressa, e quantidades exageradas, consumo de bebidas alcoólicas, e refrigerantes, em excesso, bem como frituras, também aumentam a acidez estomacal, e não permitem digestão adequada. Além disso, tudo o que gera pressão abdominal, deve ser considerado causa possível, da má digestão e do mal-estar. Obesidade, gravidez, e até o costume de se deitar após as refeições, podem influenciar.

O ritmo da vida moderna, que impõe a prática de refeições rápidas e irregulares, é uma das causas da ocorrência desse sintoma, de vez em quando. Sentir azia, regurgitar, e ter maior dificuldade de digestão, após um abuso ocasional no comer ou beber, é considerado normal. Mas quando essa sensação é muito frequente, como duas ou três vezes por semana, ou se ela aparece, mesmo sem que tenha havido exageros alimentares, há algum problema que merece investigação. A azia pode ser um estado fisiológico, portanto, natural, se acontece espaçadamente. Se ela persiste, e se repete por longo período de tempo, um gastroenterologista poderá avaliar o caso.

O que esperar da consulta: No consultório, o médico estará atento à história do paciente. De acordo com a intensidade e duração dos sintomas apresentados, exames laboratoriais podem ser requisitados. Quando os sinais são mais graves, solicitamos endoscopia, cintilografia, manometria (teste terapêutico para medida de pressão dos espasmos do esôfago), e o pH de 24 horas (para avaliar a acidez).

O tratamento dependerá da perfeita identificação da causa, e prevê sempre a orientação sobre medidas comportamentais, e alimentares, capazes de diminuir o refluxo. Os medicamentos mais utilizados são os que agem na produção de ácido clorídrico, como os inibidores da bomba de prótons (IBP), e os antagonistas de receptores de histamina. Utilizam-se também os procinéticos, que aumentam a capacidade de esvaziamento do estômago, tornando a digestão mais acelerada.

Algumas pessoas acreditam que tomar água gelada, ou leite, alivia a azia. Os médicos discordam: se a azia é crônica, o líquido não altera o problema mecânico.

Conheçam alguns alimentos que mais causam indigestão:
Não existem alimentos, exclusivamente, indigestos para todas as pessoas. Cada indivíduo é mais sensível a esse ou aquele ingrediente. Mas a culpa não é só da comida. Os hábitos alimentares também influenciam. 

Na verdade, há quatro razões para a má digestão: 

Alimentos que você come; 
A maneira como você os consome; 
A quantidade de líquidos ingerida durante as garfadas; 
E doenças associadas ao aparelho digestivo. 

Conheça os alimentos que sofrem o maior número de queixas, em relação à digestão.

• Alimentos gordurosos: Ovos, carnes vermelhas, derivados de leite, e frituras, são famosos por dar azia. As gorduras presentes nesse tipo de comida, podem mesmo comprometer o processo digestivo, já que retardam o esvaziamento do estômago.

• Frutas cítricas: São vistas como grandes causadores de dores de estômago. Manga, laranja, abacaxi, tangerina e morango, realmente aumentam a dor de quem tem gastrite ou úlcera. Essas pessoas devem dar preferência às frutas alcalinas, como banana, uva-passa, mamão e melão. Porém, para quem não enfrenta esse tipo de problema, o limão, por exemplo, ajuda na digestão de alimentos pesados, principalmente as carnes.

• Cafeína: Presente no café, na maioria dos chás, e nos refrigerantes de cola, é outro item a ser evitado, por quem apresenta gastrite ou úlcera, já que estimula acidez no estômago. Mesmo pessoas saudáveis, apresentam sintomas de azia com o uso exagerado da substância. Além disso, o café faz com que os músculos se relaxem, impedindo a passagem dos alimentos, do estômago para o esôfago. Por isso, o consumo excessivo de cafeína, pode facilitar a volta da comida para a garganta, causando vômitos e sensação de queimação.

• Tomates: Apesar de serem antioxidantes, e ajudarem a diminuir o risco de alguns tipos de câncer, os tomates podem causar azia e má digestão. O ideal é consumi-los três vezes por semana. Os benefícios do tomate para a saúde são potencializados com o cozimento, portanto, fazer um molho, de preferência usando azeite extravirgem, e outros ingredientes saudáveis, é a melhor pedida.

• Refrigerantes: Quando ingeridos com as refeições, diluem o suco gástrico, modificando o PH local, e fazendo com que a atividade enzimática fique comprometida. Isso piora a eficiência na absorção de vitaminas e minerais, e contribui com a má digestão das proteínas. Assim, podem surgir, dependendo da pessoa, diarreia ou constipação.

• Melancia: Tem fama injusta de indigesta. A impressão de que a fruta causa má digestão vem dos movimentos intestinais que ela causa, em função de suas fibras insolúveis. Na verdade, a digestão da melancia é fácil, já que ela é composta basicamente por água.

• Pepino: Um legume da mesma família da abóbora, e da abobrinha, e indigesto para muitas pessoas. Para evitar o problema, não descasque o pepino, assim, além de não dar má digestão, ainda neutraliza a acidez estomacal.

• Pimentão: Rico em cálcio, fósforo, ferro e sódio, é outro vegetal com fama de causador de má digestão. Para que ele não fique indigesto, existe um truque: esquente-o no fogo por alguns instantes, e remova a pele, antes de acrescentá-lo em um prato.

• Leite e seus derivados: São alguns dos alimentos que mais causam reclamações, com relação à dificuldade de serem digeridos. Isso acontece porque, atualmente, muitas pessoas têm intolerância à lactose (dificuldade para digerir a substância, seguida de náusea, vômito ou diarreia), ou má digestão da lactose (problema em processar esse carboidrato, mas sem incômodos subsequentes). 

Estima-se que 50% dos adultos tenham intolerância, e para essas pessoas, é aconselhável substituir o leite por bebidas vegetais de digestão mais fácil, como os leites de arroz, quinoa, aveia, amêndoas e soja. Além disso, hoje já existem cápsulas de lactase, suplemento alimentar, que auxilia na digestão da lactose.

Conheçam alguns alimentos que podem ajudar:

Arroz integral: é rico em fibras insolúveis, sendo uma boa alternativa durante as refeições, pois atuam como laxante natural, auxiliando no funcionamento do intestino. A quantidade recomendada desse tipo de fibra é entre 20 e 35 gramas por dia.

Couve-flor/couve manteiga: rica em fibras, tanto as solúveis quanto as insolúveis, é um potente aliado no processo digestivo e nas funções gastrointestinais. Contém flavonoides e carotenoides, importantes antioxidantes, que auxiliam nas funções normais das células do corpo. Além disso, possui sulforafano, isotiocianato e indóis, que são substâncias anticancerígenas, e que atuam no fígado.  Em cada 100 gramas de couve-flor há 2,4 gramas de fibras, e a cada 100 gramas de couve manteiga há 3,1 gramas de fibras.

Gengibre: pode ser muito utilizado em problemas que afetam o trato digestório, como náuseas e dores abdominais, além de melhorar o funcionamento do intestino, e acelerar o esvaziamento gástrico. A recomendação varia de 2 a 4 gramas ao dia.

Brócolis: é outra excelente opção de vegetal, fonte de fibras, que pode ser preparado junto com o arroz, nas saladas, ou carnes. Para cada 100 gramas são 2,9 gramas de fibras. Apresenta substâncias, como isotiocianatos, flavonoides, carotenoides, e sulforafano, que atuam no organismo como antioxidante, e na eliminação de substâncias tóxicas.

Cenoura: ela é bastante utilizada na preparação de carnes, risotos, saladas e sucos. Uma ótima fonte de fibra, que auxilia nas funções gastrointestinais, e no sistema imunológico, por meio da vitamina C.
Ameixa: ela é ideal para incluir em sobremesas, pois possui uma grande quantidade de fibras. É muito utilizada como laxante natural. As ameixas possuem, dentre outras substâncias, os fenóis (ácido neoclorogênico e ácido clorogênico), que são importantes antioxidantes, auxiliando no funcionamento normal das células do corpo.

Abacaxi e mamão: são duas frutas conhecidas por suas propriedades digestivas, além de possuírem grandes quantidades de fibras solúveis. Contêm promelina e papaína, respectivamente, potentes enzimas digestivas, que auxiliam na digestão de alimentos com alto teor de proteínas, como as carnes. Consumir uma fatia de abacaxi, ou um quarto, do mamão papaia já é o suficiente, para auxiliar na digestão dos alimentos ricos em proteínas.

Chá verde: ele tem efeito antioxidante e capacidade antimutagênica, que garante proteção ao fígado. A recomendação é de até 500 ml por dia (4-5 xícaras). É contraindicado para gestantes e lactantes, pessoas com gastrite, úlceras gastrointestinais, com doenças cardiovasculares, doenças renais, hipertireoidismo, ansiedade, insônia e taquicardia.

Chá vermelho: acelera o metabolismo hepático (fígado), favorecendo a redução do colesterol, e facilitador da digestão. A recomendação de ingestão é de até 500 ml por dia (4-5 xícaras). É contraindicado durante a gestação e lactação, para pacientes hipertensos, com úlcera gástrica e diabetes.

Alcachofra: As folhas de alcachofra contêm vários princípios ativos. A ação colerética (estimulação da bile), já foi bastante estudada e documentada. O extrato de alcachofra é muito usado na Europa, para casos de indigestão, particularmente, logo após uma refeição rica em gordura.

Carqueja: é uma erva original da floresta amazônica, que vem sendo usada há décadas, contra a má digestão. Profissionais da medicina alternativa estudam cada vez mais, os poderes desta erva.

Boldo: Boldo é uma planta original do Chile, e muito cultivada na região mediterrânea da Europa. Já é usada há décadas contra a má digestão. O boldo contém diversos tipos de constituintes primários, incluindo óleos voláteis, flavonoides e alcaloides. O alcaloide Boldine é o principal responsável pelas ações coleréticas (estimulação da bile), e diuréticas da planta.

Lactobacilos: Probióticos (bactérias amigas) como os lactobacilos, restabelecem o equilíbrio da flora intestinal, inibem o crescimento de bactérias prejudiciais, e ajudam a promover uma boa digestão. Pessoas com uma flora intestinal, rica em bactérias benéficas, estão mais preparadas para lutar contra o crescimento de bactérias prejudiciais. Lactobacilos são muito usados para ajudar a reduzir a flatulência (gases). Além de restaurar o equilíbrio das bactérias no trato digestivo, eles impedem a multiplicação de bactérias produtoras de gases.

Segundo a ANVISA:
“Os lactobacilos (probióticos) contribuem para o equilíbrio da flora intestinal. Seu consumo deve estar associado a uma alimentação equilibrada, e hábitos de vida saudáveis”. 

Os seguintes lactobacilos tem essa propriedade comprovada:

Lactobacillus acidophilus; 
Lactobacillus casei shirota; 
Lactobacillus casei variedade rhamnosus; 
Lactobacillus casei variedade defensis, 
Lactobacillus paracasei; 
Lactococcus lactis;
Bifidobacterium bifidum;
Bifidobacterium animallis (incluindo a subespécie B. lactis); 
Bifidobacterium longum;
Enterococcus faecium. 



Dra. Léa Mansur
Gazeta de Beirute
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