Egito: Opressão de autoridades e igrejas queimadas

Foto: Globo

Os cristãos do Egito têm vivido momentos de terror, com os ataques que vêm sofrendo, desde a destituição do Presidente islamita, Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana. Depois que o líder islamita foi deposto, as manifestações em todo o país se tornaram batalhas campais, que tem como principal vítima, a comunidade cristã do país. 

De acordo com a AFP, seguidores de Mursi se voltaram contra os coptas, principal grupo cristão do país, pois o líder espiritual dos 8 milhões de cristãos coptas do Egito, Tawadros II, apoiou a retirada dos militares que apoiavam Mursi, e a suspensão da Constituição do Egito. Já foram registrados episódios de violência contra 52 igrejas, que foram queimadas em várias cidades do país, além de ataques às escolas cristãs, mosteiros e instituições, como a Sociedade Bíblica. Os atacantes começaram a queimar igrejas no país, pouco depois da sangrenta expulsão, no último dia 14, dos seguidores de Mursi (que acampavam em duas praças do Cairo), em represália. 

Depois de várias igrejas terem sido queimadas, foram registrados também ataques contra residências e lojas pertencentes a cristãos. Os muçulmanos têm pintado um ‘X’ preto nas lojas cristãs, para marcar quais seriam queimadas. Multidões atacaram igrejas e os cristãos egípcios estão sitiados em suas casas, e outros foram mortos a golpes de facas e facões em suas casas, segundo relatou o jornalista do The New York Times.

Um movimento da juventude copta, intitulado união Juvenil Maspero, afirmou que os ataques são uma “guerra de represálias” contra a minoria religiosa cristã, que representa 10% da população egípcia, composta por 85 milhões de pessoas. “É um autêntico desastre”, afirmou o Arcebispo Caldeu, Louis Sako, que teve uma das igrejas de sua comunidade, queimada na última semana. Os números oficiais falam de 525 mortos, incluindo 43 policiais, e 3 mil feridos em todo o país, porém, a Irmandade Muçulmana aumentou o número de mortos para 4.500.

No início do mês, as organizações humanitárias afirmaram que a situação das minorias religiosas egípcias (como os cristãos), vem se deteriorando ao longo dos levantes da “primavera árabe” no país, desde 2011. Em seu relatório anual, sobre a violência contra os seguidores da fé, o Ministério Portas Abertas, classificou o Egito, como um dos locais em que os cristãos mais estão expostos a riscos sérios de ataques. Na última semana o governo interino, instalado pelo exército depois do golpe que tirou Mursi do poder, classificou os ataques como uma “linha vermelha”, e afirmou que as autoridades “responderão energicamente”, a qualquer provocação. 
O General Abdel Fatah Al-Sissi, Ministro da Defesa e Chefe das Forças Armadas que liderou o golpe, afirmou também, que o exército pagará a reconstrução das igrejas destruídas.O Primeiro-Ministro Interino, Hazem Beblawi, também se manifestou sobre a onda de violência contra os cristãos, e anunciou se reunirá com o líder copta, para manifestar sua solidariedade. 

No último domingo (18), o Chefe das Forças Armadas, General Abdul Fattah Al-Sisi, fez seu primeiro pronunciamento público, desde a morte de centenas de pessoas, após as forças de segurança terem desmontado, os dois acampamentos de simpatizantes de Morsi, e da Irmandade Muçulmana. Em seu longo discurso, ele declarou que há no Egito "espaço para todos", e que vai "reconstruir o caminho da democracia", mas que a violência não será tolerada. Al-Sisi se dirigiu também aos jornalistas estrangeiros, e disse: "Não assistiremos ao país ser destruído e incendiado, as pessoas sendo aterrorizadas, e o envio de mensagens equivocada à mídia ocidental, de que há confrontos nas ruas".

O país vive uma espiral de violência desde a deposição (após amplos protestos populares) do Presidente Mohammed Morsi, por um golpe militar, em julho. Enfrentamentos nas ruas deixaram 830 mortos (70 deles policiais ou soldados), na última semana, quando começou a repressão aos acampamentos de manifestantes. No último domingo, acredita-se que 36 simpatizantes da Irmandade Muçulmana, que estavam detidos, tenham sido mortos após uma tentativa de fuga.

Duas brasileiras falaram sobre o medo da violência, durante os confrontos no país, a carioca Mônica Fonseca, que mora no Egito desde 2009, contou que os vizinhos comentam a diferença entre os recentes protestos, e os anteriores, com maiores distúrbios da vida civil, e maior incidência de violência, entre manifestantes e a polícia. "Tenho amigos que moram em bairros onde havia os acampamentos antigoverno, e contaram sobre o pavor que sentiram, com os manifestantes invadindo seus prédios, pois eles queriam usar os chuveiros para tomarem banho, e ameaçaram alguns moradores", disse ela.

Segundo Mônica, seus amigos e conhecidos egípcios, que aplaudem as medidas das Forças Armadas e do governo interino, disseram-lhe que a indignação que eles têm com os protestos dos apoiadores de Morsi, se deve aos distúrbios que eles causam no cotidiano das pessoas, invadindo residências vazias para uso indevido, prejudicando o comércio local, e ameaçando moradores. "Tenho amigos a favor de Morsi também, e a maioria deles também era contra os acampamentos, e se mostrou aliviada pela polícia os ter desmontado".

Morando no país desde 2012, a gaúcha Helena Souza Martini, de Caxias do Sul, disse que presenciou da janela de sua casa, uma blitz da polícia em seu bairro, na última semana, quando 50 manifestantes estavam nas ruas, após o toque de recolher imposto pelo governo. "Alguns estavam munidos de facas e espadas, outros apenas estavam na rua por desobediência civil mesmo. Um deles reagiu ao ser abordado, para evitar ser preso, e deu um soco em um policial".

Segundo a brasileira, as pessoas receberam mensagens em seus celulares no dia seguinte, onde o governo alterava o horário do toque de recolher, das 19hs para as 21hs, na tentativa de impor a medida.
"O exército pedia para que o povo obedecesse e respeitasse o toque de recolher. Mas na minha rua, até as crianças estavam brincando após o horário estabelecido, poucos levaram a medida a sério", contou Helena. 

As duas brasileiras disseram, que por conta da violência e dos protestos no país, foram orientadas a alterar seus hábitos, para evitarem tumultos, especialmente pelo fato de serem estrangeiras. "Vizinhos aconselharam a evitar certos lugares, mas continuo indo ao clube para nadar, e saio na rua para correr e me exercitar. Sou gerente em uma empresa multinacional, e posso trabalhar em casa mesmo", salientou Mônica. Já Helena disse que procura ficar em casa, mas quando precisa fazer compras de supermercado, por exemplo, ela pede que seja entregue pelos estabelecimentos em seu endereço. 

"Até já comprei vinagre, caso ocorra algum confronto em frente de casa, e tenha gás (lacrimogêneo) no meio, minhas janelas e sacada estão fechadas, e a porta de entrada, sempre está trancada e chaveada", explicou Helena que enfatizou ainda que sua família sente medo, por não saber o que ainda pode acontecer se a violência aumentar. "Algumas pessoas nos dizem que eles podem invadir as residências, atear fogo contra as casas, eu até agora não sei o que vai levar tudo isso, mas rezo pelo Egito e pelas pessoas aqui”.

Therese Mourad
Gazeta de Beirute

Fonte: BBC News e Voz da Rússia
Share on Google Plus

About beirut lebanon

This is a short description in the author block about the author. You edit it by entering text in the "Biographical Info" field in the user admin panel.

0 comments:

Postar um comentário