Homem mutilado diz se sentir inútil

Foto: Mohammad Azakir

Rabih Ahmad, o homem sunita de Akkar, que teve o pênis decepado durante um ataque brutal cometido pela família drusa de sua esposa, se sente desesperado, e esmagado pela vergonha, de estar com a vida marcada por toda a vida. 

Ahmad diz que sua dor é imensa, e que nada poderá compensar sua perda, porque sua vida foi destruída, ele disse que preferia ter morrido. Ele sente constantemente vontade de se esconder, para não ser visto ou reconhecido, embora ele saiba que ele não tenha feita nada de errado.

 No último mês, Ahmad (39 anos) foi atacado pela família de sua esposa Rudayna Melaab (19 anos), na aldeia de Baysour, no Chouf. Os parentes, liderados pelo cunhado, arrastaram-no até a praça principal da cidade e deceparam-lhe o pênis. 

Ahmad disse se lembrar de como tudo aconteceu, nitidamente, e afirma que o ataque foi planejado pelos membros da família, que o enganaram, convidando-o a visita-los; e que toda a aldeia sabia o que lhe esperava, e que ninguém fez nada para ajuda-lo ou impedir a família Melaab de mutilá-lo. 

Ele disse quase ter desmaiado por duas vezes, tamanha dor e sofrimento, mas que a crueldade da família foi além do normal, porque eles jogavam-lhe água, para mantê-lo acordado, numa espécie de punição sádica intencional, de deixá-lo acordado, para fazê-lo sentir cada fração de segundo de dor, sofrimento, e humilhação.

 Ahmad é garçom em um restaurante em Beirute, e com muito sacrifício contou sua historia, ele sente muita tristeza e amargura, e gostaria de um dia acordar e ver que tudo não passou de um pesadelo. Sobre os eventos que antecederam o ataque, ele diz que uma semana depois de ter fugido com sua esposa, a polícia o procurou para dizer-lhe, que a família Melaab o havia acusado de ter roubado a jovem à força de dentro da casa, e que, portanto, seu contrato de casamento era falso.

Ele mostrou então ao policial, o contrato de casamento, e o policial constatou que o documento era legal e válido, e questionou sua esposa, se ela gostaria de voltar para casa, ou continuar com Ahmad, e Rudayna afirmou ao policial, que queria ficar com o marido. 

No dia seguinte, a família Melaab mudou de atitude, e passaram a se comportar com extraordinária bondade, e convidaram o casal para um banquete em honra de seu casamento. Ao chegarem à residência dos Melaab, a mãe e a irmã de Rudayna, levaram a jovem para outro cômodo da casa, e o pai dela, que estava na varanda da casa, saiu para cumprimentá-lo, pedindo para que ele entrasse para a sala de estar. Quando ele entrou, começou a ser atacado e espancado.

Rudayna e Ahmad conheceram-se, por acaso, seis meses antes do ocorrido, próximo à universidade onde ela estudava, e começaram a conversar pelo Facebook. Ele se apaixonou por ela, afirmando que Rudayna é uma moça muito doce, e que foi isso que realmente o conquistou. Eles se encontraram cinco vezes antes de decidirem fugir juntos para se casar, mas conversavam, diariamente, pelo telefone durante horas. 

Ele afirma que ela sabia, desde o inicio, que ele era sunita, e que a alegação da família de que ele havia mentido para ela, dizendo que ele era druso, da família Abu Diab, de Jahilieh é mentira. Ele nega que tenha inventado isso, e que Rudayna vem sendo pressionada a falar, o que sua família vem lhe obrigando a falar, mas que ela sempre soube a verdade, pois ele nunca mentiu para ela.

Ahmad diz que Rudayna não tem nada a ver com o que os irmãos dela lhe fizeram, e disse ainda, que se ela soubesse que eles eram capazes de tamanha monstruosidade, que ela jamais teria lhe pedido para aceitar o convite de ir visitá-los. Eles foram emboscados, e ele acredita que agora ela vem sendo pressionada, e manipulada pela família, que deve tê-la ameaçado de alguma punição, caso ela não fale exatamente aquilo que eles querem que ela fale. 

Sem ter recebido qualquer ajuda, ou suporte do governo, pelo brutal crime que sofreu, ele agradece a Deus por ter um empregador bom, e generoso, que o apoiou num momento tão difícil, tanto financeiramente, quanto moralmente, e que se não fosse pelo respaldo financeiro, oferecido por seu patrão, ele não teria dinheiro para se tratar. Por incentivo e apoio de seu patrão, Ahmad talvez faça a cirurgia de reconstrução de seu pênis, cujo procedimento consiste na remoção da pele de seu braço, para ser enxertada na reconstrução do novo órgão, onde, porém, o sucesso não é garantido.
  
"Eu me sinto inútil... Talvez a operação possa aliviar um pouco a minha dor, mas se não aliviar, terei que lidar com uma cicatriz adicional sobre o meu corpo... Haverá uma nova lembrança do trágico incidente. Por isso eu não me sinto entusiasmado com a operação", disse Ahmad. 

Para ele, o ataque brutal sofrido, é apenas o inicio da tragédia em sua vida, ele não sabe o que o futuro lhe reserva, e tenta buscar um sentido para os acontecimentos. Ahmad se questiona que crime ele tenha cometido, para merecer tal castigo, e por que “ele” foi escolhido para passar por tudo isso, porque o que lhe aconteceu, não foi como atirar em alguém pra matar, foi pior, porque a desgraça não parece terminar. 

Ahmad tem tido dificuldade para reintegrar-se à sociedade, e não consegue alugar outro imóvel para morar, os proprietários de imóveis recusam suas solicitações de aluguel, quando reconhecem que ele é a vítima do ataque brutal, e se recusam a alugar qualquer imóvel para ele, como se tivessem medo da situação. 

Em relação à Rudayna, ele não tem ressentimentos de suas declarações pós-ataque, ele sabe que ela vem sendo coagida para tal, e diz que se ela quiser voltar pra ele, ele a aceitará de volta, mas ele não irá retirar a ação judicial que moveu contra a sua família, porque ele não se sente intimidado por eles, porque ele diz que o pior já aconteceu, e que não há mais nada a temer...


Claudinha Rahme
Gazeta de Beirute
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1 comments:

  1. Entao vou trocar com ele, porque nada me deixaria mais feliz do que estar livre de que ter que aturar uma "coisa" terrivelmente feia pendurada no meu corpo.

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