MOBILIDADE SUSTENTÁVEL


Conceito:
O conceito é muito amplo, e pode abranger mobilidade de ideias, imagens, objetos. Mas focando em infraestrutura urbana, entende-se por mobilidade, o trânsito de pessoas, e por sustentável, a busca de equilíbrio entre desenvolvimento econômico, proteção ambiental e justiça social (CMMAD, 1991). Econômico, porque se dá através do incentivo a novos paradigmas, como redes de transporte comunitário, e núcleos urbanos projetados para pedestres. Ambiental, porque trata da redução de impactos advindos do setor de transporte. Social, pela disseminação de conceitos como cidadania e equidade.

Mobilidade para todos, é possível?
O sonho de uma era pós-automóvel é perfeitamente viável, técnica e tecnologicamente, e sendo necessário fazer com que a indústria automobilística, voluntariamente, ou não, viabilize o desenvolvimento tecnológico para energia limpa, para os transportes públicos. 

E também é viável, sob o ponto de vista econômico, constituindo um fundo para investimento em transporte público, calçadas e ciclovias, como define a Lei da Mobilidade Urbana, em vigor desde abril de 2012. O artigo é de Nazareno Stanislau Affonso.

Nazareno Stanislau Affonso (*)
Se há um tema mais popular que o futebol no Brasil, é o da mobilidade urbana. A maioria das pessoas nas conversas de bar, nos escritórios, em casa, tem uma opinião a respeito de como melhorar o trânsito, os transportes coletivos, as calçadas, as bicicletas etc. Hoje, cidades médias, e mesmo as pequenas, já conhecem engarrafamentos diários. E nos grandes centros os automóveis são responsáveis diretos pela baixa velocidade, e aumentos dos custos das passagens dos ônibus. Os congestionamentos constituem um fenômeno, que vem se acumulando desde que a indústria automobilística se instalou no país, nos final dos anos 50, sempre beneficiada pelo poder público. 

Recentemente, as benesses do poder público vêm crescendo. Desde o início da crise internacional, em 2008, o governo federal, principalmente, mas
também os governos, paulista e mineiro, injetaram recursos da ordem de R$ 14 bilhões para ajudar os bancos da indústria automobilística. Em maio de 2012, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou nova renúncia fiscal em favor do setor, zerando o imposto sobre produtos industrializados (IPI); desta vez, os cofres federais deixarão de arrecadar R$ 900 milhões, nos três meses que durará a medida.

E, pior, o setor continua pressionando os governos – como se vê, com sucesso – para efetivar uma política de proteção do seu mercado, com subsídio ao preço da gasolina, diretamente ou via renuncia fiscal da contribuição de intervenção no domínio econômico (CIDE/Combustíveis), em mais de R$ 3 bilhões anuais. 

Além disso, nos últimos anos, o governo federal elevou o preço do diesel, a um índice mais de cinco vezes superior, ao índice utilizado para a majoração do preço da gasolina, resultando disso, um sobrelucro de cerca de R$ 2 bilhões anuais para a Petrobrás, pago, via tarifas dos ônibus, pelos usuários que dependem do transporte público.

O mais interessante é observar que a maior beneficiária dessa política, a indústria automobilística, age como se não tivesse nada a ver com a crise de mobilidade, marcada por um espaço viário urbano abarrotado, e pela demora nos deslocamentos nas cidades, que alcança hoje todas as classes sociais, e começa a deixar a mesa dos técnicos, para ir aos gabinetes de prefeitos e governadores, e mesmo para a presidência da república.

O governo federal, e vários governos estaduais, estão dando os primeiros sinais de reação a esse quadro, respondendo primeiro à pressão social dos movimentos populares. Em segundo lugar, à crise de mobilidade, filha do modelo que universaliza a propriedade e o uso do automóvel, e que gerou um enorme crescimento da frota, em plena crise mundial da indústria automobilística internacional. 

Também contribuíram as exigências da FIFA, de que os investimentos em mobilidade da Copa 2014, devessem esquecer obras viárias para automóveis, concentrando-se exclusivamente em transportes públicos, calçadas acessíveis, e sistemas para circulação das bicicletas.

Essa reação levou o poder público, a destinar recursos para sistemas estruturais de transportes públicos sobre trilhos, e corredores exclusivos de ônibus, dotados de sistemas inteligentes de controle da frota, monitoramento da circulação, e informação aos usuários (conhecidos internacionalmente como Bus Rapid 
Transit ((ou BRTs)).

Do governo federal, estão previstos no PAC da Copa (R$11,8 bilhões), e do PAC da Mobilidade – Grandes Cidades (R$32,7 bilhões), com recursos do orçamento geral da união (OGU), para empréstimos a estados, municípios e setor privado, e contrapartidas estaduais e municipais. 

No mesmo sentido, estão previstos investimentos dos governos de Estado de São Paulo (R$45 bilhões) e do Rio de Janeiro (R$ 10 bilhões). Espera-se que num período de três a seis anos, esses sistemas estejam em operação, consumindo da ordem de 100 bilhões de recursos públicos, atendendo direta e indiretamente, mais de 50 grandes cidades.

A sociedade precisa estar atenta e mobilizada, pois recursos alocados não significam sistemas de transportes operando, temos visto na história, obras inacabadas como o metrô de Salvador há 12 anos, construindo 6 km. Deve-se também perguntar ao governo federal, se sua política industrial de enfrentamento da crise, continuará a ser a de promover novos incentivos à indústria automobilística, sem exigir dela nenhuma contrapartida, a não ser garantir empregos de metalúrgicos, e incentivar o consumo de automóveis que traz poluição, efeito estufa, e aumento dos custos urbanos.

Os instrumentos estão dados, mas será preciso pressão social, e a coragem política dos governos para que se efetivem as promessas de investimentos em sistemas estruturais, e também para reduzir o custo social, ambiental e econômico da presença tão massacrante, nos automóveis em nossas cidades.

1] Lei 12.587 que Institui as diretrizes da política nacional da mobilidade urbana de 3/01/2012
(*) Nazareno Stanislau Affonso é Coordenador Nacional do MDT – Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade 



Jeane Satie Abou Nimry
Gazeta de Beirute

Fonte:cartamaior.com.br
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