O grande poeta Árabe

Nizar Qabbani
“(...) Mataste mil mulheres dentro de mim, e tornaste-te tu rainha”.

Conhecer a cultura árabe, e suas 
riquezas, é lembrar-se de um raro 
tesouro, que marcou sua presença 
através dos mais belos poemas, na 
literatura árabe, no qual todas suas 
palavras carregam causas patriotas e 
revolucionárias, e também em 
contraste, o erotismo e o amor. 

Nizar Qabbani, nascido em Damasco, Síria, em 1923, veio de uma família de comerciantes, de origem turca, e tinha duas irmãs, Wisal e Haifa, e três irmãos Mutaz, Rashid, e Sabah. Sabah Qabbani foi o mais famoso depois de Nizar, tornando-se Diretor de Rádio e TV da Síria, em 1960. Seu pai, Tawfiq Qabbani, tinha uma fábrica de chocolate, e paralelo ao seu trabalho, participava da resistência, apoiando a todos os combatentes contra o mandato francês, que dominava a Síria, e por isso, ele foi preso várias vezes. 

Apesar de todo o contexto político, Qabbani, tentava viver sua vida normalmente, ele estudou na Escola Nacional de Damasco, entre 1930 e 1941, e depois, estudou Direito, na Universidade de Damasco, formando-se em 1945. Quando ainda era um estudante na faculdade, ele escreveu sua primeira coleção de poemas, chamado “A morena me disse”, com diversos versos românticos e eróticos, descrevendo detalhadamente o corpo de uma mulher, o que chocou algumas famílias conservadoras. Mas com o apoio do Ministro da Educação, que também era amigo de seu pai, e um líder nacionalista na Síria, tudo ficou mais fácil.

Após se formar em Direito, Qabbani trabalhou para o Ministério das Relações Exteriores, viajando e exercendo cargos diplomáticos, em várias capitais árabes, na Europa, e até na China, onde ele escreveu alguns de seus melhores poemas. Em 1966, Qabbani pediu demissão, e resolveu dedicar toda sua vida, aos livros, estabelecendo sua própria editora em Beirute. Seu estilo poético mesclava simplicidade e elegância, explorando temas de amor, erotismo, feminismo, religião, e nacionalismo árabe. 

Qabbani é um dos poetas contemporâneos mais respeitados no mundo árabe, suas obras foram inspiradas em várias tragédias ocorridas em sua vida; como por exemplo, o suicídio de sua irmã (na época com 25 anos), quando ele ainda tinha 15 anos, por ela se recusar a casar com um homem que ela não amava. Ele passou então, a lutar contra as condições sociais, e a luta pelos direitos das mulheres, algo que ele destacou em seus poemas, na qualidade de escritor, e de um dos intelectuais mais feministas e progressistas de seu tempo. 

O poeta descreve a mulher, não em seu estereotipo de fragilidade, e adotou uma postura contra a servitude feminina. No lado político, ele criticou a vida política, a vida social, e o poder, principalmente, após a ocupação de Israel na faixa de Gaza, e a península do Sinai (Egito). Qabbani não criticou apenas os políticos de outros países, mas também, e principalmente, os políticos árabes, onde se mostrou um grande guerreiro, através de suas palavras. Apesar de sua batalha contra a política, e a favor do direito das mulheres, ele também encontrou muito tempo para falar de amor. 

Nizar Qabbani foi casado duas vezes, sua primeira esposa era sua prima, Zahra Aqbiq, e com ela teve uma filha, Hadba, e um filho, Tawfiq. Tawfiq morreu de ataque cardíaco aos 22 anos, quando estava em Londres, e Qabbani homenageou seu filho em vários poemas, como “O príncipe Tawfiq Qabbani”. Seu segundo casamento, foi com Balqis al-Rawi, uma professora iraquiana, que ele conheceu em um recital de poesia, em Bagdá. Balqis foi morta num ataque bomba na embaixada iraquiana de Beirute. Após essa grande tristeza, Qabbani ficou ainda mais abalado e revoltado, e culpou em seus poemas, todo o mundo árabe. Após a morte de Balqis, Qabbani deixou Beirute e foi viver em Londres, onde viveu seus últimos 15 anos de vida, escrevendo mais poemas. Em 1998, em Londres, após sofrer um ataque cardíaco, Nizar Qabbani morreu aos 75 anos. 

Em seu testamento, ele escreveu que ele desejava ser enterrado em
Damasco, lugar que ele descreveu como: "o ventre que me ensinou a poesia, me ensinou a criatividade e concedeu-me o alfabeto". Seu pedido foi atendido, e Nizar Qabbani foi enterrado em Damasco. Sua morte foi lamentada por árabes e poetas em todo o mundo.

Nizar Qabbani compôs diversas letras das músicas, interpretadas pelos mais famosos cantores do mundo árabe, como:  Abdel Halim Hafez,  Fairuz, Kathem Al Saher, Khalid Al Shy'kh, Umm Kulthum, Latifa, Majida El Roumi e Asalah.

Veja alguns versos de Nizar Qabbani:

“Quando encontrares um homem
Que transforme cada partícula tua em poesia,Que faça de cada um dos teus cabelos, um poema,
Quando encontrares um homem
Capaz, como eu, de te lavar e adornar, com poesia,
Hei de implorar-te, que o sigas sem hesitação.
Pois o que importa, não é que sejas minha ou dele, mas sim da poesia...”.

Mais de Nizar:

Meu filho coloca à minha frente sua caixa de tintas, e pede que eu lhe desenhe um pássaro...
Embebo o pincel na cor cinza, e desenho-lhe um quadrado com um cadeado... E barras.
Meu filho me diz, e o espanto preenche seus olhos: 
“Mas isso é uma prisão... Meu pai, tu não sabes desenhar um pássaro?”
Digo-lhe: “Meu filho, não me leves a mal, de fato esqueci a forma dos pássaros”. 

Meu filho coloca à minha frente, sua caixa de lápis, e pede que eu lhe desenhe um mar...
Apanho um lápis e lhe desenho um círculo negro...
Meu filho me diz: 
“Mas isso é um círculo negro, meu pai... Não sabes desenhar um mar? Não sabes que o mar é azul?”
Digo-lhe: “Meu filho, em meu tempo era perito em desenhar mares, quanto à hoje, levaram meu anzol, e o barco pesqueiro, proibiram-me o diálogo com a cor azul, e de fisgar o peixe da liberdade”.

Meu filho coloca à minha frente um caderno, e pede que eu lhe desenhe uma plantação de trigo... 
Apanho a caneta e desenho-lhe um revólver...
Meu filho debocha de minha ignorância nas artes plásticas, e diz surpreso:
“Não conheces a diferença entre o trigo e o revólver?”
Digo-lhe: Meu filho, no passado, eu conhecia a forma do trigo, do pão e da rosa... 
Mas neste tempo metálico, em que as árvores da floresta se uniram aos homens das milícias, e em que a rosa passou a vestir roupas camufladas, no tempo das espigas armadas, dos pássaros armados, da cultura armada, e da religião armada... Não há pão que eu compre que não contenha um revólver. 
Não há flor que eu colha no campo, que não aponte um revólver para minha face. 
Não há livro que eu compre que não venha a explodir entre meus dedos...

Meu filho senta-se na borda da cama, e pede que eu lhe recite um poema... 
Uma lágrima minha cai no travesseiro... 
Ele a apanha perplexo, e diz: “Mas isso é uma lágrima meu pai, e não um poema”.
Digo-lhe: “Quando cresceres, meu filho, e leres uma antologia de poesia árabe, saberás que a palavra e a lágrima são irmãs, e que a poesia árabe, nada mais é, do que uma lágrima que emerge dentre os dedos”

Meu filho coloca à minha frente suas canetas e sua caixa de tintas, e pede que eu lhe desenhe uma pátria... O pincel estremece em minha mão... E caio chorando...

Veja também:


Chadia Kobeissi
Gazeta de Beirute
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