Os Zimbros do Líbano precisam de proteção!

Do porto de Trípoli, até Tartous, na Síria, o caminho localizado no alto dos penhascos de Dinnieh, na região do norte do Líbano possui uma vista magnífica sobre toda a costa do Mediterrâneo. Os penhascos cravejados em pedra calcária detêm os icônicos cedros do Líbano, e centenas de árvores mais resistentes: Os majestosos zimbros, cujas folhas em tom verde escuro, se destacam de seus grossos e poderosos troncos, cuja algumas dessas árvores têm séculos de idade.

Mas os zimbros estão em perigo, em virtude da invasão da atividade agrícola, e das pastagens caprinas. Mohammad Taleb, um advogado crescido na região, que vem trabalhando numa reserva que possui os maiores campos de zimbros do Líbano, disse que os campos de zimbros deverão se transformar em uma reserva protegida, por iniciativa das autoridades municipais, mas a iniciativa ainda aguarda aprovação do Conselho de Ministros, que se encontra em estado disfuncional. 

A entrada para a reserva de Dinnieh é um marco da história do Líbano, cuja estrada é conhecida como “o caminho inglês”, em homenagem aos cedros e zimbros que se alinhavam na região, e que na década de 40 foram cortados para que suas madeiras fossem usadas na construção da ferrovia que ligava o Líbano à Síria, além de casas, lenha, ou simplesmente, para dar lugar a árvores frutíferas e mais funcionais. Os pastores de caprinos utilizam a área para a pastagem de seus animais, e essa atividade, vem contribuindo para a redução de sobrevivência de suas mudas.

Bouchra Douaihy, Professor da Universidade Saint Joseph, e nascido em Ehden, onde existe outra reserva natural protegida, analisou a situação da população de zimbro da região, sua diversidade genética, suas características e sua ecologia, em virtude de sua admiração particular pela árvore, por ela possuir capacidades singulares de sobreviver em altitudes elevadas e em condições difíceis. 

Segundo Douaihy, a rusticidade da Juniperus excelsa (uma das espécies) que são conhecidas na região como “Lezzeb”, pode crescer há mais de 2 km, acima do nível do mar (embora seja mais comum entre 1400 e 1800m), e são encontradas em torno de todo o mediterrâneo oriental, como Grécia, Turquia, Síria e Chipre, tornando-a evidente em sua história. 

O pesquisador explica que durante o final dos períodos terciário e inicio do quaternário, os lençóis de gelo sufocaram o norte da Europa, e um antepassado dos zimbros iniciou sua migração para climas mais quentes. Assim a Juniperus excelsa instalou-se no mediterrâneo oriental, enquanto suas “parentas” acabaram se instalando em áreas diversas, como Marrocos, Espanha, Sul da França, Península Arábica e África Oriental.


No Líbano a população de zimbros se encontra em todo o norte do país, como Hermel, Akkar, Dinnieh, Barqa, Arsal e Afqa; onde Douaihy demarcou seus lotes de terra, e estudou sua forma de crescimento, reprodução, diversidade, genética, taxas de regeneração, e a influencia da perturbação humana (através de cortes, ou do uso de sua área para agricultura e pastagens), na reprodução de suas sementes. 

De acordo com o pesquisador, tanto os cedros quanto os zimbros, são do grupo das coníferas, que possuem cones masculinos e femininos, e contém espermatozoides e óvulos em quantidades equivalentes de reprodução; o vento leva o pólen de um cone macho e de uma fêmea, muitas vezes para a mesma árvore, fazendo-a crescer e produzir uma semente no fundo do cone.

Esta facilidade vem sendo reduzida em função das atividades humanas em torno dos zimbros, alterando sua diversidade genética, e tornando as arvores mais vulneráveis às ameaças, aumentando assim, o número de sementes vazias, que não podem crescer. Em curtas palavras: Os zimbros libaneses não estão produzindo bebês o suficiente. Cerca de 40% das arvores do Líbano, possuem sementes cheias, que podem se tornar adultas, e em altitudes mais elevadas, esse número chega a 4%, com uma mísera taxa de regeneração de 1% ao ano, sendo insuficientes para substituir as árvores que morrem.

De acordo com Douaihy, no alto dos penhascos, as arvores são muito antigas e grandes, e vêm tentando sobreviver em condições ambientais muito duras, por estarem muito dispersas umas das outras, o que vem dificultado a sua reprodução (devido a influencia humana). 

Embora a maioria delas vivam centenas de anos, e produzam sementes até morrer, indicando que ainda possuam tempo para se reproduzirem, Douaihy afirma que se elas forem preservadas, sua sobrevivência será definitivamente garantida. Ainda que sua taxa de regeneração seja muito baixa, porque os zimbros estão acostumados a sobreviver em condições ambientais difíceis, e podem ser encontrados nas regiões mais altas do país, onde nenhuma outra arvore consegue sobreviver.

Porém, o pesquisador alerta, que se a tendência atual de práticas agrícolas e de pastagens continuarem descontroladas ao seu redor, os zimbros poderão entrar em extinção. Ele apresenta inúmeros argumentos sobre a importância da criação de uma reserva de proteção para os zimbros, e afirma que elas preservam a erosão do solo, enriquecendo-o, para que outras plantas, animais e pássaros também possam sobreviver no deserto implacável, e diz que a sua morte, tornaria os picos dos penhascos totalmente áridos e inóspitos, onde nenhuma árvore será capaz de sobreviver ali, e consequentemente, nenhum animal, ou ser vivo.

Douaihy explica também, que sua excepcional capacidade de sobrevivência e
saúde, para gerar novas arvores, é um fenômeno coreografado pela natureza, onde o cone fecundado e pronto para germinar, cai da arvores e pode crescer perto da árvore-mãe.

Os Tordos (uma espécie de pássaros) comem seus cones carnudos, cujas sementes passam intactas pelo seu sistema digestivo, e são beneficiadas pelos ácidos em seu estomago. Eles então, excretam as sementes em outros lugares, onde na sequencia, nascem novas árvores, cheias e frondosas. 

Entretanto, o pesquisador afirmou ainda, que inclusive as aves no Líbano estão ameaçadas de extinção, em virtude da redução de seus padrões de migração, frequentemente perturbados pelas mudanças climáticas, e também pela elevada perseguição que essas aves sofrem, por parte de implacáveis caçadores nas regiões montanhosas.

"Eles estão todos relacionados num ecossistema, onde qualquer ameaça a um, afeta os outros"


Claudinha Rahme 
Gazeta de Beirute
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